O absurdo
por Larissa Prado
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Olhos de fogo
 

Há fatos que nos marcam para sempre. Essa história é sobre fatos desse tipo. É sobre o dia em que eu e meu amigo Júlio realizamos nosso tão sonhado plano de fazer trilhas desbravando as planícies do cerrado. Júlio não voltou dessa viagem e eu, apesar de presente em corpo, retornei desprovido de boa parte da minha sanidade. Naquele dia, algo a levou embora.

Muito do que contarei pode até ser interpretado como delírio ou conversa fiada, eu também não me convenceria disso se não tivesse vivido na pele. Há muitas histórias fantasiosas que povoam o imaginário coletivo, lendas dos tempos da carochinha, papo furado que raramente levamos a sério, a não ser quando queremos assustar os outros.

Relembrando o acontecido, não sei quando foi que a realidade se tornou fantasia e quando fantasia se tornou realidade. O fato é que o que vivi foi real e de tão escabroso talvez me faltem as palavras adequadas para relatar. Não consigo mais lidar com essa existência povoada por pesadelos onde os olhos de fogo espreitam, levando embora cada vez mais meus resquícios de lucidez. O fogo fátuo que explode em meus olhos assim que os abro na escuridão me leva à beira do precipício onde lá embaixo só existe o vórtice de fogo da coisa como uma bocarra do inferno me hipnotizando.

Tudo começou há quatro anos, Júlio cancelou nossa aventura depois que uma série de incêndios tomaram conta de boa parte da região na qual iríamos acampar. Fiquei frustrado, tinha planejado tudo, mas era inviável partir para lá. A situação era trágica, o pouco que vimos na tevê conseguia transmitir o estrago que o fogo causou em boa parte da mata. Algumas matérias estampavam animais mortos e carbonizados, outros sendo resgatados quase sem vida além de estatísticas comparando o quanto aquele desastre foi o pior nos últimos anos e como custaria caro para nós, seres humanos.

Porém, eu e Júlio estávamos preocupados com a nossa viagem, torcendo para que liberassem os serviços de turismo ecológico. Afinal de contas, queimadas são recorrentes na região, o cerrado é um lugar seco e sempre se recupera.

Passados dois anos, conseguimos enfim fazer a tão planejada viagem. Júlio estava tão empolgado que passou o dia anterior à nossa partida no telefone me dizendo tudo o que iríamos fazer. Para quem desbravou regiões da mata atlântica em terras uruguaias e esteve na Amazônia, aquele passeio me soava apenas como um fim de semana divertido. Não estava tão preocupado com incidentes mais certos de acontecerem nos outros locais perigosos.

Partimos numa manhã ensolarada do mês de outubro. Fazia muito calor e o dia prometia ser claro e intenso. O jipe de Júlio deu alguns problemas quando já nos aproximávamos da região, nada que uma parada no posto mais próximo não resolvesse. Era algo no radiador, mesmo com todo cuidado de revisão, aquela lata-velha sempre nos surpreendia de alguma forma. Finalmente, chegamos ao nosso destino na hora do almoço e aproveitamos para comer num restaurante de fogão a lenha, tudo estava saindo melhor do que imaginávamos.

Embrenhamos na mata por volta do meio da tarde, me foge à memória a hora exata. O sol estava alto, passava do meio-dia. Júlio ia à frente, registrando tudo em sua câmera de mão. Eu prestava atenção no canto dos pássaros como o bom observador de aves que sempre fui, sabia dar nome a cada tipo de gorjeio. Há mais de oito anos conhecia Júlio e durante nossas viagens de turismo ecológico sabia que fazia de tudo por uma boa fotografia ou vídeo, diferente de mim. Não éramos especialistas ou nada do tipo, Júlio era fotografo da vida selvagem, eu, apenas um artista visual apaixonado pela natureza. Fazíamos o que fazíamos por paixão e em certa medida como parte do nosso trabalho. A diferença era que Júlio não respeitava os limites da natureza e eu a temia.

Depois de algumas horas caminhando pelas trilhas indicadas no mapa, nós perdemos a noção espacial como nunca tinha acontecido. Júlio era bom nisso, trazia consigo um GPS que àquela altura deixara de funcionar, eu levava uma bússola que estava simplesmente com os ponteiros estáticos não importa para onde me movesse.

Algo estava errado naquele ponto da mata onde nenhum bicho emitia som e o tempo tinha parado assim como os ponteiros da bússola. O sol, estático no meio do céu azul de doer os olhos onde nenhuma nuvem se movia. Estávamos presos numa espécie de congelamento de frame, alguém tinha paralisado a cena. Não tinha como falar sobre minha inquietação com Júlio, ele perambulava em círculos olhando a estrada pela tela da câmera, não tinha se dado conta que estávamos passando pelo mesmo ponto há algum tempo.

- Tem alguma coisa errada, cara – àquela altura, com o suor escorrendo em cascatas pelas costas e rosto, eu estanquei os passos. Não conseguia mais andar.

- Como assim? Quer voltar? – Júlio me perguntou, ignorando seu GPS defeituoso e minha bússola quebrada. Ele era bom em ignorar absurdos.

- Quero, Júlio, o problema é que não sabemos como voltar, não percebeu que estamos em círculo há horas?

Ele deu de ombros e olhei em volta como se desperto de um transe. Seu rosto afogueado ganhou traços de desespero num arregalar de olhos. Júlio começou a mexer na câmera na tentativa de rever o trajeto que tínhamos feito desde o início. Eu estava muito incomodado com o silêncio, olhava em volta na tentativa de captar algum pio, qualquer sinal da presença de bichos.

Foi então que primeiro senti uma movimentação atrás das costas e quando virei notei uma silhueta esgueirar entre as árvores secas. A mata não era densa, estávamos dentro de um lugar de galhos retorcidos e muito seco. Não era para ser assustador como estava se tornando. A sombra parecia saltar por trás dos troncos, se esconder. Era delírio do calor extremo? O suor pingava das sobrancelhas para os cílios, e meus olhos ardiam com o sal do líquido. Apesar do coração retumbando forte no peito, me convenci que era apenas ilusão de ótica. Não havia sombra nenhuma ali nos espreitando, mas por Deus, como a sensação crescia, crescia e tomava conta dos meus nervos.

- Júlio, Júlio – ele estava distraído rebobinando o vídeo – Tem alguma coisa nos olhando.

- O quê?

- Atrás de mim.

Não sei se foi a minha palidez mortífera que o fez soltar a câmera, seu rosto adquiriu um semblante de assombro que me fez fechar os olhos por um momento para tentar reequilibrar a respiração.

- O que diabos é aquilo? – ele murmurou sem força. – Olhe!

Não queria, olhar. Abri os olhos, mas não pude virar o corpo, Júlio tinha passado por mim e caminhou em direção de onde eu indicara que havia algo.

- Vem ver! – Sua voz ecoou por trás das minhas costas e saindo da paralisia segui seus passos.

Quando me aproximei, notei que havia dois corpos carbonizados aos pés dos troncos retorcidos. As mãos sobre os rostos mostravam o desespero no qual mergulharam enquanto queimavam. O que restou daquelas pessoas não passava de lascas de carne tostada se agarrando a ossos enegrecidos.

- Que diabos ... – me abaixei para observar a cena de horror enquanto Júlio afastou alguns passos. Acho que ele sentiu a mesma sensação que me fazia arrepiar. Não estávamos sozinhos, algo nos espreitava entre as árvores.

- O que é mais curioso é que não tem nada queimado em volta deles, só os corpos.

- Cara, isso deve ser coisa ruim, alguém os trouxe para cá e os queimou. Vamos embora. – Júlio apressou os passos afastando-se dos corpos e eu o segui.

Nós caminhamos por um bom tempo e nos deparamos com os corpos carbonizados por duas vezes. Girando, nossos passos nos levavam para o mesmo ponto em que pouco a pouco aqueles cadáveres se tornavam mais antigos. Como se o tempo estivesse passando e nós não saíssemos do lugar. O sol se pôs e a noite veio, entregues à exaustão e desidratados, talvez fosse sete da noite quando Júlio se rendeu e caiu num choro copioso.

E seu desespero trouxe a presença de novo, nós paramos perto dos corpos. Esperava que ele voltasse a si para tentar pensar numa forma de sairmos da mata, quando percebi algo se mover de novo, mas a escuridão não me deixava ver nada, apenas sentir aquela sensação desesperadora de espreita. Um chiado ou respiração, não sei o que era, se aproximou de nós, mas não podíamos ver até que Júlio gritou: - Meu Deus do céu! – com o olhar fixo e arregalado em algum ponto atrás de mim. Por instinto, fechei os olhos, estava em pânico e era assim que reagia, sem querer ver, apenas tentando reequilibrar meus pensamentos e sentidos.

Escutei Júlio correr aos berros enquanto uma lufada de ar quente passou por mim, lambendo meus pés num calor insuportável. O que era aquilo? Não sei por que não conseguia abrir os olhos para ajudar meu amigo, não podia me mexer. Escutei Júlio arfando ao longe, seus gritos se tornaram insuportáveis, a dor que sentia era tanta que me atingiu no bombear do peito que acelerou. E não conseguia sair da inércia. O odor de carne queimada invadiu meus sentidos, por trás das pálpebras fechadas vislumbrei duas bolas de fogo próximas ao meu rosto e aquele chiado pesado, respiração pegajosa de bichos rastejantes.

De forma desconexa, tentei resgatar na memória o gorjeio das aves que mais gosto e o que retumbou foi o bater de asas de abutres, tirando lascas e se banqueteando em corpos carbonizados. Estava preso por trás dos meus próprios olhos, o corpo trêmulo e a urina escorrendo pelas pernas me fizeram cair de joelhos diante de algo que não tive coragem de encarar de frente. Quando senti aquela presença quente se afastar, abri um pouco os olhos. Na escuridão da noite, as duas bolas incandescentes se mesclavam aos troncos das árvores, me observando, enquanto as chamas do fogo terminavam de tostar o que restou do corpo de Júlio. Corri na direção dele, mas não tinha mais nada a ser feito.

Os olhos pairaram no ar por um tempo, a forma reptiliana enroscada no tronco me fazia lembrar de monstros vindos de histórias fantásticas, pois que seu corpo se estendia por toda dimensão da mata em volta, como se aquele ser fosse o próprio cerrado personificado pegando fogo e nos prendendo nas limitações do corpo em um aperto constritor da falta de dimensões espaciais. Hipnotizado, encarei a coisa daquela distância que parecia segura visto que aos poucos foi sumindo, como se fechasse os olhos e apagasse as retinas incandescentes.

Quando voltei para nosso jipe e peguei as coisas que deixamos na pousada, ninguém perguntou por Júlio, as pessoas da região não apareceram. Nem o guia, nem a senhora do restaurante, não havia os turistas que nos cumprimentaram assim que chegamos. O local parecia abandonado, deserto. Eu estive sonhando?

Voltei para casa e chorei por Júlio, ainda tentei falar em seu celular, mas não atendia. Relatei o acontecido às autoridades, escondendo os fatos insólitos, apenas disse que meu amigo havia desaparecido. Demoraram a realizar as buscas, as equipes que foram atrás de Júlio, nunca regressaram da mata. Ninguém regressava ao entrar ali.

E vieram os sonhos nos quais estou preso de novo e os olhos de fogo me espreitam. Eles aparecem quando abro os olhos pelas manhãs e ao fechá-los, ao anoitecer. Eles me seguem por onde vou, pairando no ar de fogo. E vieram as queimaduras de primeiro grau pelo corpo, ao abrir olhos certa manhã a pele ardia na região da nunca, meus olhos avermelhados pegavam fogo, e meu corpo pouco a pouco se deteriorava como se por combustão espontânea. E eis que me banho em álcool agora, e veja a beleza do fogo que atearei à pele que se decompõe. É lindo os gorjeios das aves do cerrado, elas estão me chamando ...
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 19/09/2019
Alterado em 19/09/2019
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