O absurdo
por Larissa Prado
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Irremediável
 

Nada disso vai retroceder. Os anos em cada uma dessas rugas, os danos do seu coração. A energia dissipada em cada gozo e choro. Nada disso vai retroceder. A lava não corre de volta para o vulcão assim como os beijos na chuva não retornarão para os lábios dos amantes na estação.

Nada disso retrocede. Não estamos presos em frames do último filme almodovariano. Nossa história não é enredo balzaquiano. Os capítulos não retrocedem. Não há dicionários para nos explicar as palavras mais difíceis de entendermos: morte, solidão, dor, perdas, ego, amor, ódio e existência... Não há como voltar atrás depois que o trem corre nos trilhos e esmaga nosso corpo e o ar que estava nos pulmões sobe aos céus dos mortos.

Eu penso na goiabeira do lado de fora, no quintal, onde os passarinhos cantarolam e se alimentam. Penso na vida imóvel de parasitas, plantas e vermes. No movimento silencioso do tempo que não retrocede. O meu coração pulsa devagarinho, pouco, fraco como a última nota no piano de Beethoven. A sinfonia que não se escuta porque os ouvidos estão surdos.

A tevê mostra imagens do fogo que queima as veias da Amazônia e meus olhos ardem pelo excesso de telas, luz... o mundo deteriorando sob a ação do Homem. O coração que não pulsa sangue, mas ácido sulfúrico. Estou inerte entre a vida e a morte. Presa no pêndulo do tempo que não retrocede e nem passa. Inerte. Imóvel. As chamas lambem as pernas do último ser vivo. É o sol que se choca contra a Terra. É minha cabeça que se enche de ideias, em todas elas estou só, inerte, impassível e sombria.
Há quanto tempo estamos mortos? 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 21/08/2019
Alterado em 09/09/2019
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