O absurdo
por Larissa Prado
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Segredo Sombrio
 
 
Um sussurro vinha do porão. Parecia um gemido, como alguém murmurando chiados de algum universo onírico. Toda noite eu me via de pé no meio do quarto, os ouvidos atentos, os olhos arregalados, tentando captar ou definir o que era aquilo que vinha do porão. Sem coragem necessária para atravessar minha porta e encarar o sussurro.
Essa situação perdurava há dois meses, desde que vim morar com meus tios após a morte dos meus pais. O que me fazia guardar tal fato comigo era que ninguém mais ouvia os sussurros, nem meus tios, nem meu primo. Se fosse criança, talvez se justificasse o delírio por causa do trauma, mas eu tinha meus vinte anos completos. A verdade é que me sentia constrangido em falar sobre o assunto, me fazia parecer infantil e estúpido.
- O que houve, querido? Não conseguiu dormir de novo? – tia Lina me servia o café sem açúcar como era meu gosto.
- Sim, ando meio inquieto.
- Você está abatido, Tomás, percebo isso há uns dias. O que te preocupa?
Nesse momento, tio Ulisses entrou e se juntou a nós na mesa. Por um momento, quase me abri com tia Lina, mas a coragem passou, a presença do meu tio ceifou qualquer iniciativa. Ele me cumprimentou e me senti envergonhada como se ele pudesse ler meus pensamentos. Pior do que isso, como se ele me julgasse por causa deles, me olhando como se fosse um lunático.
- O que foi, Tomás? Está meio abatido. – Ulisses me olhava do outro lado da mesa. Seus olhos pálidos e frios por trás dos óculos redondos de grau pareciam me condenar.
- Não é nada, tio, nada além da insônia.
- Tomás, deixe seu tio te examinar, você mal anda comendo.
Abaixei o rosto, de tudo que tia Lina podia fazer de constrangedor aquilo foi a pior das atitudes. Ulisses era médico, um psiquiatra, não ousaria falar sobre o que acontecia justo com ele, me tomaria por louco.
- O que anda acontecendo, Tomás? – Ulisses deixou sua xícara de café, entrelaçou os dedos e apoiou o queixo nas mãos. Ele me fitava no fundo dos olhos como se estivesse lendo atrás da minha mente.
- O problema do Tomás tem nome, endereço e belo par de pernas: é a Serena – meu primo me salvou ao chegar na cozinha. Bernardo e sua mania de se intrometer em tudo.
Ele jogou a mochila numa cadeira e sentou ao lado do pai. Bernardo era dois anos mais novo do que eu, porém mais expansivo e cheio de energia. Na infância, falávamos que éramos irmãos para os outros e mesmo que confiasse muito nele não tive coragem de contar o que ouvia todas as noites.
- Você e Serena estão juntos? – Lina me olhou, surpresa.
- Não! Ela é só uma amiga da faculdade. – olhei para Bernardo, reprovando-o.
A manhã passou e cada um foi cuidar da própria rotina. O meu terror chegava com a noite. Durante todo dia mal me lembrava dos sons que vinham do porão, a companhia de Serena na universidade me ajudava a distrair. Naquela noite, porém, as coisas pioraram.
Acordei às 2:40, atordoado, banhado em suor frio e sentindo uma agonia injustificada. Minha respiração estava difícil, o peito não expandia, prendendo todo ar dentro de mim. Nunca me senti tão angustiado!
Os ruídos começavam baixos e subiam como se estivessem dentro do meu quarto. Não podia me mexer na cama, amarras invisíveis prendiam-me com força. A razão foi me abandonando à medida que os gemidos aumentavam.
“O que anda acontecendo, Tomás?” a pergunta circulava entre os sussurros transfigurados nas vozes dos meus tios. Depois de mito esforço, consegui me mexer e saltei da cama, sufocado em tosses secas. Resolvi que aquilo iria acabar, eu atravessaria minha porta e iria até o porão.
Foi preciso extrema força de vontade para abrir a porta e quando girei a maçaneta, os ruídos pararam, as batidas cessaram e vi uma réstia de luz por baixo da minha porta. Sai e notei que a luz vinha da cozinha. Alguém estava lá. Nesse momento, senti as pernas vacilarem e constrangido me xinguei baixinho, era um medo infantil e tolo.
Ao chegar na cozinha me deparei com tio Ulisses de costas na pia, ele terminava de lavar as mãos e se virou segurando o pano de prato.
- Perdeu o sono de novo, Tomás?
Ele estava com a lente dos óculos rachada do lado direito e parecia estranho, não sabia dizer o que nele destoava do ambiente. Tio Ulisses parecia nervoso.
- Eu acordei por causa de uns barulhos que vinham daqui.
- Ah sim, acabei de quebrar o copo de leite. Estava limpando. Você está bem, Tomás? Parece perturbado.
O barulho não foi vidro quebrando e não havia nenhum sinal de que meu tio tivesse quebrado algo ali. Fiquei calado e voltei para meu quarto. A porta do porão ficava ali logo depois da cozinha, me perguntava como Ulisses não ouviu nada?
Resolvi tomar um comprimido para dormir e apaguei. No dia seguinte, tudo parecia apenas parte de um sonho. Tomamos café juntos e senti o olhar do meu tio sobre mim.
- Talvez devesse voltar para terapia, Tomás. Você foi apenas duas vezes. – Ulisses disse.
- Aconteceu algo? – minha tia olhou para mim e depois para meu tio.
- Não, tio – disse – Estou bem, apenas meio cansado.
Ninguém falou mais nada sobre isso, e os dias seguiram normais a não ser quando a noite aproximava. Antes de me deitar, ingeria o comprimido para dormir, assim, não escutava mais os ruídos do porão. Eles não passavam de delírios.
Serena e eu iniciamos um relacionamento mais profundo, o tempo com ela passava rápido e era agradável. Levou alguns meses para leva-la em casa. Nós estudávamos para os exames finais da faculdade quando tio Ulisses entrou na sala, vindo mais cedo do trabalho. Ele ficou parado nos observando.
- Essa é a Serena, tio.
- Olá! Tomás fala muito bem do senhor.
Meu tio não disse nada, o que era estranho, pois ele sempre foi gentil e amigável. Mas parecia chateado, saiu da sala em silêncio. Pedi desculpas para Serena e continuamos nossos estudos.
À noite, me distrai com alguns vídeos e não ingeri o comprimido para dormir, meu sono estava leve. Eles começaram baixos e esparsos, os ruídos de repente estouraram em batidas violentas vindas do porão. O meu relógio de pulso marcava 3 horas da manhã.
Sai pela porta, aquilo era intolerável. Quando cheguei na cozinha, os ruídos pararam. A porta do porão estava entreaberta, aproximei com a sensação de que algo estava muito errado. A face de tio Ulisses surgiu da escuridão da escada que me levaria para baixo. Depois, um impacto inexplicável estourou meu rosto em dor, desmaiei.
Quando voltei à consciência, me vi preso numa cadeira no meio do porão. A lâmpada balançava pendurada pelo fio jogando reflexos de luz no ambiente penumbroso. Coisas inutilizadas estavam amontoadas por todo lugar e entre elas, jogada e sem as pernas, vi o corpo de Serena. Ela tinha os olhos vidrados e opacos.
Gritei, a boca latejou e explodiu em dores multicoloridas onde fui atingido. Enquanto a lâmpada sacudia, percebi um freezer comercial com a tampa aberta. Parte de um pé despontava de lá, calçando tênis roxos de corrida. Eram os pés de Serena.
Tentei me soltar, queria desaparecer, acordar na minha cama. Gritei por socorro. Nada daquilo fazia qualquer sentido. Ouvi, então, o clique da porta abrindo, apenas meu tio tinha aquela chave.
- Eu precisei amarrá-lo, estava muito violento e perturbado. Nunca imaginei algo assim!
Vi a silhueta de Ulisses surgir depois que seus pés fizeram a madeira da escada ranger. Outros passos somavam-se aos dele, dois policiais lançaram os fachos das suas lanternas em meu rosto. Ao longe, minha tia Lina gritava e chorava feito desvairada.
- É mentira! – gritei para os policiais – Ele me prendeu aqui! Ele fez isso! Oh meu Deus! SERENA!
Ulisses me encarava por trás deles, quando a lâmpada piscou e iluminou seu rosto eu vi o sorriso psicótico nos seus lábios.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 10/08/2019
Alterado em 10/08/2019
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