O absurdo
por Larissa Prado
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
ContatoContato
LinksLinks
Textos


 
Anjo da morte

 
Nunca fui uma pessoa bonita. Na escola, me chamavam de queijo suíço por causa do grave problema de acne. O meu rosto vivia salpicado por grotescas camadas de espinhas e cravos. Com dedos nervosos de unhas roídas, cutucava até sangrar. Na infância, diziam que era hiperativa. Quando me tornei adolescente, diziam que era sociopata, tinha um comportamento antissocial e representava um perigo para mim mesma. Eu gostava de afrontar os professores e mostrar o quanto eram otários. Eles não sabiam o que fazer comigo, muito menos meus pais.

Diferente do que possam imaginar, não sofri grandes traumas durante a infância. Meus pais eram amorosos e cheios de cuidados. Talvez a superproteção também deixe suas marcas. Eles me mantinham asfixiada com tanto zelo e expectativas. Era filha única. A joia da casa, como meu pai costumava dizer. Eles esperavam muito de mim e fechavam os olhos para as anomalias do meu comportamento.

Acredito que exista um gene da perversidade em alguns seres humanos excepcionais. Não é necessariamente a criação que nos molda como pessoas boas ou más. Existe uma predisposição para a crueldade.

Completei 44 anos e passei boa parte da vida matando pessoas. Quando falei para a polícia, não acreditaram. Quando relato para minha analista todos os crimes dos quais sou culpada, ela também não acredita e fala com sua linguagem de médica para não me preocupar, pois só estou ficando louca.

As pessoas só acreditam no que querem. Às vezes, a verdade pode estar ali, bem na frente do nariz, que elas continuarão fingindo que não enxergam. Tentei falar que era uma assassina, que há mais de duas décadas as autoridades condenaram a pessoa errada pela morte daqueles idosos.

Eu me lembrava de cada uma das pessoas que matei, mas de uns tempos para cá, as lembranças se tornaram apenas fumaça.

Três anos atrás, estava voltando para casa depois de um jantar beneficente da paróquia e me esqueci o caminho de casa. As ruas se sobrepunham sem que me levassem a nenhum lugar conhecido. Fiquei rodando feito barata tonta pelas esquinas, perguntando aos transeuntes onde eu morava sem saber dizer o endereço. Foi difícil fazer a cabeça se lembrar, mas consegui e quando cheguei em casa não parecia mais o meu lugar.

Depois, vivi uma das piores experiências. Certa manhã, após despertar, olhei para o meu reflexo no espelho e não me reconheci. Aquele rosto era o de uma intrusa. Fiquei desesperada como poucas vezes na vida e liguei para minha analista. Marcamos uma consulta. Depois de uma bateria de exames e de passar por alguns médicos, finalmente, um deles me disse: suspeita de Alzheimer.

Quando as suspeitas se tornam fatos, é uma droga. Era uma das maiores ironias do destino. Eu era cuidadora de idosos. Acompanhei uma quantidade de gente esclerosada, demente e com Alzheimer. Minhas duas últimas sofriam desse mal e achei por certo matá-las. Poupá-las de uma vida sem qualquer dignidade, cagando e mijando nas calças sem conseguir fazer a comida sem sal ficar dentro das bocas.

Não me pergunte o porquê, mas criei uma verdadeira repulsa por pessoas velhas. E agora, padecia do mesmo mal que elas. Como se fosse um vírus. O vírus da decadência.  Ou uma punição pelos meus crimes.

Diante da minha analista, eu tento repassar todas as mortes, uma a uma. Mas as lembranças começaram a se tornar fumaça. Não tenho certeza se pertencem a mim mesma ou à intrusa que vejo todos os dias no espelho. A minha casa não tem mais nenhuma superfície que reflita a minha imagem, temo pela pessoa que está vivendo em meu corpo.

Em todas as consultas, minha analista me fez contar as histórias sobre os assassinatos. Ela anotava no seu bloco e não parecia se alarmar com os detalhes que relatava. Ela acha que estou louca, coisa da doença que deteriora o cérebro.

O meu primeiro assassinato foi aos 23 anos. Eu tinha acabado de me formar como enfermeira. A paciente estava em estado de coma, ela tinha 89 anos e estava desenganada pelos médicos. A família parou de visitá-la, diminuíram a frequência do início da internação. Poucos apareciam, apenas a filha e o neto. Quando precisava trocar sua fralda e passar a sonda ficava pensando sobre a decrepitude na qual ela vivia. Eu a odiava por aquilo, por ser um vegetal sobre a cama, os sons dos aparelhos fazendo-a respirar de maneira artificial. Quem poderia me culpar por querer livrar aquela mulher daquela vida que era pior que a morte?

Desligar os aparelhos não foi a parte mais difícil. Difícil foi me dar conta, após alguns dias, que precisava fazer aquilo de novo e de novo. Justificava para mim mesma que fazia aquilo por compaixão. Mas no decorrer da minha vida como ceifadora de vidas, me convenci que fazia aquilo por prazer. Eu gosto de matar, mas apenas aqueles que já estão perto da morte. Há uma beleza poética nisso. Eu não tiro a vida de jovens, pessoas no auge da vida e da saúde. Não persigo, não as torturo. Eu não sou um monstro como Dahmer, Bundy ou Wuornos. O que faço é trazer alívio para cadáveres ambulantes. Eu sou o Anjo da Morte.

Por todos os hospitais que passei trouxe alívio para pacientes terminais, todos tinham entre 70 e 90 anos. Eu estava fazendo algo nobre e preenchendo o vazio que carreguei durante toda a vida desde que não passava de um queijo suíço. Isso é o que dizem sobre unir o útil ao agradável.

As coisas intensificaram quando passei a cuidar de idosos em suas casas. Eu tinha 35 quando fiz a minha primeira vítima sadia. Ali, notei que fazia o que fazia por prazer. Pois, a maioria estava lúcida o suficiente para arregalar os olhos em desespero quando injetava uma alta dose de morfina em suas veias.

No silêncio da madrugada, entrava pelo quarto, ajeitava os travesseiros enquanto elas ressonavam em sonos tranquilos dos soníferos. Eu preparava a seringa, passava o álcool sobre a pele. Muitas acordavam nesse momento, os olhares estúpidos e inconformados. A vida esvaía enquanto suas pupilas dilatavam. Eu ficava um tempo observando o rigor mortis. O prazer não residia tanto no fato de matá-las, mas de observá-las se tornando azuladas de pele rígida.

Em alguns casos, os familiares me chamavam para o enterro, como se eu fizesse parte da família. Algo compreensível, pois me pagavam para cuidar daquilo que eles queriam esquecer. O fardo era transferido para mim por boas quantias. Eles ficavam chorando sobre o caixão, inconsolados, e essa era a parte que também me preenchia. Ver o sofrimento daqueles hipócritas. Quem é o monstro, na verdade?

Depois que me casei com Luigi, as coisas pioraram. Ele era um mau caráter, um trambiqueiro e agiota. E somado ao meu hábito de matar pessoas indefesas estava sua ganância por dinheiro. Ele passou a roubar a casa das minhas vítimas assim que eu dava a dose mortal. Foi Luigi quem levou os créditos pelas mortes por causa do seu desleixo, a sua afobação em levar tudo de valor que aqueles velhos e velhas ricaços guardavam em casa.

A polícia o perseguiu, eu não passava de uma vítima de um marido abusador e imoral. Veja bem, ninguém acreditou em mim no momento que me interrogaram e passaram a não acreditar nos próximos anos, mesmo com todas as mortes de idosos que vieram depois da sua prisão. É tão difícil assim acreditar que eu era a responsável por aquilo? As aparências enganam, posso não ter um jeito ameaçador, posso manter um jeito amoroso e protetor, mas no fim das contas, isso é tudo camuflagem.

Minha analista, diz que criei um mundo à parte, eu criei esse alter ego assassino porque fui abusada por Luigi, porque ele me fez matar aquelas pessoas para roubar. Não sou culpada, sou mais uma vítima. Ela não consegue acreditar e eu começo a duvidar de mim mesma porque a intrusa nos espelhos fica me olhando com um jeito inocente de partir o coração.

É difícil me lembrar tudo o que relato para ela durante nossas sessões. A minha memória se tornou um imenso vácuo onde lembranças vêm e vão sem que eu tenha certeza se elas são minhas. Às vezes, parece que todas as lembranças de todas pessoas que matei ficaram presas dentro de mim e misturo tudo. A minha analista diz que eu não sou assim, não tenho culpa de tais atrocidades. Ela é boa na arte da persuasão e quase começo a me sentir inocente, eu quase consigo me sentir uma vítima.

O meu último paciente foi um senhor de 93 anos que vivia sozinho e com a cabeça toda atribulada. Ele sofria mania de perseguição e todo santo dia me fazia abrir o cofre e contar quantos dólares guardava ali. Não demorou para que começasse a desconfiar de mim, eu estava dando os primeiros sinais da doença e não conseguia contar direito. Ele me chamou de mentirosa e ladra, dizia que de dólar em dólar eu estava o roubando. Não me abalei, mas adiantei sua morte e o matei no quinto dia de trabalho. Geralmente, eu respeitava dois meses trabalhando na casa dos pacientes para que pudesse ganhar confiança. Mas aquele inútil me fez mudar os planos. Ele morreu dormindo, não abriu os olhos quando passei o algodão com álcool. Fiquei frustrada e parei. Simplesmente, parei com as mortes por dois anos.

Sentada com a seringa na mão, eu leio as páginas do meu diário relatando tudo o que fiz de importante durante a vida. Anotar no diário foi a maneira que encontrei de não me esquecer sobre mim mesma. Aquelas mortes foram os únicos feitos de toda minha vida, e agora que não consigo mais me lembrar o porquê fazia o que fiz, qual sentido continuar? Passo o algodão sobre minha veia, depois de tanto tempo, farei a minha última vítima. Adiei isso por mais de vinte anos.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 26/07/2019
Alterado em 26/07/2019
Copyright © 2019. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.