O absurdo
por Larissa Prado
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Estive doente, ainda estou. Posso sentir minha pele rígida e trincada como se fosse feita de cacos de vidro. As moscas sobrevoam a minha cabeça porque o cérebro apodreceu há dias. Não durmo. O relógio marca 3 horas da madrugada e as garras explodem o assoalho embaixo da cama e me agarram. Estou doente e perdendo aos poucos os pedaços da alma, se é que existirá almas nesse mundo morto.
 
Fico inerte, entregue ao poder das garras que ao contrário do que podem pensar não pertencem aos demônios, não pertencem aos monstros dos sonhos. As garras saem dos nós das minhas costas. São minhas assim como esse quarto e essa insônia. A dor que sinto e a enfermidade são minhas assim como o sangue que espalhei pela casa. Estive doente e estou perdendo aos poucos a minha suave textura. A existência que deixa um rastro de zumbidos de moscas porque está se decompondo.

Não choro mais e não quero saber do inferno no qual todos estão queimando. Se eu estou sorrindo é por desespero, mas ele é cômico. E meus risos têm o som das gargalhadas dos insetos sobrevoando meu corpo. Porque estou doente. A toxidade do ar é inebriante e a loucura se espalhou por toda humanidade. Sacos de ossos revestidos de peles pustulentas. Cadáveres ambulantes. Ritos de passagens. Destruição dos ecossistemas por radiotividade. A fome e a fúria. A miséria. O pior dia da vida de alguém que não dorme porque já não tem olhos para fechar. O pior dia da vida de um ser humano é quando as garras estouram o chão.

É quando vem a doença. Não vou te agradecer por estar lendo minhas últimas palavras porque eu agradecia a Deus e ele era uma miragem, um oásis no deserto. A única verdade é toda essa areia em volta. Não há mal nem bem para nos disputar. Há apenas o vazio e o silêncio da doença de se saber humano. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 18/07/2019
Alterado em 19/07/2019
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