O absurdo
por Larissa Prado
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Antes tarde do que nunca

 
Antes tarde do que nunca. Essa foi a frase que ela disse antes de morrer. Por vários dias permaneceu prostada de olhos fechados feito uma múmia.

A prostração nos fez acostumar com seu estado morto. A falta de cor no rosto, os cabelos desgrenhados moldando o rosto murcho. O único sinal de vida era seu diafragma que se movia em lentidão. Cansada. Inerte. Toda manhã nos parecia que tinha mesmo morrido, então soltava um suspiro e tentava abrir os olhos. Quando eu estava no quarto me assombrava.

Parecia cada vez mais uma múmia encarquilhada. E eu comecei a temer a chegada da noite que esbarraria com ela perambulando pela casa em trajes de dormir translúcidos, morta.

Imensa culpa, remorso. A dor de sentir-me enojado diante aquela figura tão amada em outros tempos. Nos tempos de saúde o sol era mais forte. Depois que ela caiu de cama não parou de chover.

A morte é tão cruel quanto a vida. Mas ela é fria enquanto a vida queima. De toda forma há Dor. Aquela não era mais minha mãe. Era mesmo um daqueles cadáveres aprisionados em catacumbas antigas.

Eu tinha medo e por isso me mantinha afastado enquanto meus irmãos cercavam a cama e o pai segurava a mão da doente. Eles me disseram para dar um beijo de despedida em seu rosto sem carne. Neguei. Neguei com força. Todos ficaram calados e com lágrimas escorrendo. Ela me chamou. A mão estendida e tremendo.

Eu fui porque senti pena. Sabia que ela não queria morrer. E quem quer? De verdade? Eu acabei dando o beijo no rosto, mas a sensação estranha permaneceu pelo resto da vida. E ela soprou a frase: antes tarde do que nunca. E eu não entendi direito naquele momento.

Não me recuperei daquela despedida. Passados 20 anos ainda me lembro daquela cena no quarto dos meus pais e da textura mórbida do rosto dela. Em outros tempos, seu colo era um refúgio e beija-la era quente. Fiquei imaginando-a feito múmia pelo resto da vida e a imagem nunca me deixou.

Hoje, parado em frente à sua lápide, é a primeira vez que lhe trago flores. É minha primeira visita pós-morte. Fico encarando o epitáfio, morto de tristeza porque a única lembrança que guardo dela é seu estado cadavérico sobre a cama.

E para onde foram todas boas lembranças? O cheiro do seu café? O gosto do seu pão? Seu perfume quando me fazia dormir? Para onde vão as pessoas depois que morrem?

Do outro lado do cemitério, encostada numa escultura de santos, ela está me observando em seus trajes fúnebres translúcidos e vejo seus lábios se movendo em silêncio formando as palavras da frase: antes tarde do que nunca.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 04/07/2019
Alterado em 19/07/2019
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