O absurdo
por Larissa Prado
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O clube dos seis
 
À primeira vista Beatriz não parecia mais tão assustada, sua mochila repousava no canto da sala. Fabricio não falava nada o que era algo inédito, ele não conseguia manter a boca fechada. Norma estava olhando para Regis com uma expressão pasmada. Samir não estava respirando, sua cor adquiriu um tom arroxeado. Eu permaneci afastado, a lanterna tinha caído das minhas mãos. Naquele momento, eu soube que era o fim do clube dos seis.

A história do clube começou quando Samir chegou na escola. Todos estávamos empolgados com o fato de continuarmos na mesma turma. Eram os velhos amigos de sempre com a novidade que Norma e Regis andavam de mãos dadas e trocavam bilhetes durante as aulas. Eles tinham se tornado namorados. Beatriz bem que desconfiava que isso aconteceria. Eu e Fabricio nunca percebemos nada.

Aos 12 anos, você acaba não reparando nessas coisas. Acho que as meninas são mais espertas em relação a esses assuntos. Essa novidade afetou nosso grupo. Passava as tardes com Fabricio jogando videogame ao invés de estudar matemática. De vez em quando, Beatriz ia também para tentar nos ensinar e tudo acabava em jogos. Samir foi o que nos uniu de novo.

Ele era filho único e bem tímido. Fabricio puxou conversa com ele porque sentavam lado a lado na sala. Durante o recreio, Samir foi trazido por Fabricio para perto de nós e começou a perguntar sobre a escola e a cidade. Não sei como essas coisas acontecem, mas dali em diante nos tornamos inseparáveis. E foi no dia que Samir nos convidou para seu aniversário de 12 anos que tivemos a ideia do clube.

Quase ninguém tinha ido, os pais eram separados, e quando o pai dele chegou com a madrasta todo mundo ficou calado e meio sem jeito. A festa mesmo foi depois que os adultos foram embora e pudemos ir para o quarto ver os presentes que Samir ganhou. Eu lembro que nós cinco olhávamos para ele com devoção, ele deixou de ser um menino tímido para se tornar uma espécie de líder.

- Vocês são meus primeiros amigos de verdade – ele disse de pé enquanto segurava um capacete para bicicleta – proponho que façamos um pacto. Nós seis nunca vamos nos separar, sempre vamos ajudar uns aos outros e tudo o que acontecer no clube vai ficar no clube.

- Como vai chamar o clube? – Fabricio perguntou, ele estava perambulando pelo quarto.

- Acho que pode ser o clube dos invencíveis. – Sugeriu Beatriz com sua mania de usar palavras difícil. Ela ficava deslizando os óculos de grau pelo nariz o tempo inteiro.

- Muito bobo – disse Samir e ficou pensativo.

- Acho que a gente poderia usar as iniciais dos nossos nomes – Norma quebrou o silêncio, sentada ao lado de Regis que concordou.

- Eu acho idiota – daquela vez, eu tinha dito. – Podia ser uma coisa mais simples, tipo clube dos seis.

E ninguém falou nada contra a minha ideia.

- Você é criativo! – Beatriz me olhou de um jeito bem bobo que deixava seus olhos brilhantes. Fabricio ficou falando que nós éramos um casal também assim como Regis e Norma e eu odiava isso.

Samir evitou que discutíssemos, algo constante entre Fabricio e eu. Acho que amigos de verdade brigam muito mesmo, mas isso nunca faz diferença no fim das contas. Aquela foi a melhor noite das nossas vidas porque ficamos até de madrugada olhando os adesivos fosforescentes no teto do quarto de Samir que parecia uma galáxia particular, esparramados pelos colchões no chão. Samir contou muitas histórias da cidade na qual tinha nascido e em como era cercada por florestas.

Depois que os outros dormiram, nós dois ficamos um tempo acordados até ver os primeiros raios de sol pela janela. Ele me perguntou:

- Você tem medo de gente morta?

Na penumbra do quarto, eu vi o rosto dele me encarando e naquele instante me pareceu que Samir não era o mesmo garoto da escola e, sim, um homem mais velho feito carvalho. Ficamos nos encarando por um tempo até que tomei coragem para responder:

- Não, eu não tenho medo de quase nada. Por quê?

- Eu queria levar o clube para nossa primeira aventura.

- Primeira aventura? – Samir tinha levado a história do clube bem a sério.

- Isso, nós vamos visitar o antigo orfanato que pegou fogo na rua 9. Sabe do que estou falando?

Eu me surpreendi que Samir soubesse daquela lenda local, afinal, ele tinha chegado há pouco tempo na cidade. Mas logo percebemos que era viciado em histórias macabras, creepy pastas e toda coisa macabra que houvesse para ver na internet que a mãe o deixava usar livremente.

- É apenas uma lenda boba, Samir – tentei mostrar que era indiferente a essas coisas – Não sei se é boa ideia, lá se tornou ponto de encontro de drogados e tudo mais.

- Nós vamos na próxima semana! Vai ser dia das crianças, vocês devem pedir para seus pais virem dormir aqui porque minha mãe vai fazer pizza e assistiremos filmes.

- Que bacana. Vamos mesmo assistir filmes?

- Claro que não, nós vamos para o orfanato da rua 9!

Eu estava com tanto sono que concordei para que Samir me deixasse dormir. A semana passou, ele comentou sobre o assunto nos encontros na casa de Fabricio enquanto jogávamos e nos mostrava fotos antigas do lugar.

- Mais de 15 crianças morreram queimadas no incêndio. Na época, disseram que foi acidente, mas depois descobriram que foi proposital. A freira Lourdes enlouqueceu e botou fogo em tudo a mando de vozes que saíam das paredes. É muito louco!

Samir ficou tão empolgado e aquilo nos contagiou. Quando percebi, nós 6 estávamos reunidos no dia das crianças no quarto dele para ouvir como seria essa visita ao antigo orfanato. Não me lembro de mentir para meus pais daquela forma, tinha sido a primeira vez, mas não me incomodava.

Ao contrário de Beatriz que foi a última a chegar na casa de Samir, pálida e com olhos marejados. Eu senti pena dela, pequena e amedrontada abraçada à sua mochila com seus livros e materiais de desenho, mas não disse nada para que Fabricio não começasse a falar que éramos um casal.

- Assim que a televisão da minha mãe desligar e ela ir para o quarto nós vamos sair pela porta dos fundos. Ela deixa a chave na cozinha. Nós vamos pegar o metrô e vamos parar na estação em frente à rua 9. Não tem erro. Eu tenho dinheiro para irmos e voltarmos.

- Não entendi ainda o que vamos fazer lá. – Regis disse. Ele estava segurando a mão de Norma, eles até começavam a se parecer porque não se largavam.

- Como assim? – Samir pareceu contrariado, a expressão de velho voltando ao seu rosto – Nós vamos filmar uma noite inteira lá, talvez a gente consiga flagrar algo! Alguma das crianças queimadas no século passado!

- Não sei, eu morro de medo dessas coisas – confessou Beatriz, ela estava empolgada durante toda a semana, mas quando tudo começou a se tornar real ela ficou morrendo de medo.

- É a primeira aventura do nosso clube, pessoal! Qual é! Vamos. Vocês juraram que nunca nos separaríamos. – Samir olhou para todos e deu um sorriso enorme e muito convincente.

Dei de ombros porque até aquele momento nada parecia tão amedrontador assim a não ser a possibilidade dos meus pais descobrirem minha mentira. Eu tinha medo disso porque estava indo mal na escola e tinha sido ameaçado pela minha mãe que iria mudar de colégio caso não melhorasse.

- Vamos logo – eu disse, apertando as alças da mochila nas costas – A câmera está com você, Fabricio?

- Claro – ele mostrou a câmera digital que pegou do pai.

Comecei a me sentir apreensivo, nós estaríamos em maus lençóis se algum dos pais descobrisse aquilo. Seguimos o plano assim que escutamos a televisão da mãe de Samir desligar. Ele aguardou alguns minutos até que todas as luzes da casa se apagassem. Nós saímos pela porta da cozinha, Fabricio esbarrou na mesa causando um ruído extremo pela casa. Samir não se importou e nos disse que a mãe tomava remédio para dormir e apagava.

O trajeto até a rua 9 foi longo porque era tarde da noite e as ruas estavam tão vazias e cheias de perigos que a nossa apreensão tornou o caminho maior. No vagão do metrô, um casal nos olhou desconfiado e um velho segurando uma lata de cerveja ficou passando a língua nos lábios e olhando para as meninas. Regis logo abraçou Norma, e Beatriz, não sei o porquê, se aninhou do meu lado no banco. Ficamos juntos com Samir em pé na nossa frente, seu rosto estava afogueado e atento.

Regis estava sentado do meu outro lado, Norma com a cabeça no seu ombro de olhos fechados. Ele me cutucou e cochichou.

- Não tenho bom pressentimento sobre isso.

E foi então que percebi que eu também não me sentia nada bem. Meu estômago tinha começado a doer e a cabeça zunia. Estava tão nervoso que as mãos suavam. Eu nem respondi Regis, apenas concordei e olhei para Beatriz que apertava a mochila no colo.

- Vai dar tudo certo, Beatriz. – falei para ela e senti de imediato o olhar zombeteiro do Fabricio em cima de mim.

- Antes da minha vó morrer disse que sempre estaria comigo – Beatriz me olhou e arrumou os óculos no nariz – Eu morro de medo de vê-la por perto, às vezes escuto ela me chamando durante o sono.

- Ei, mortos não voltam, eles vão embora para sempre – foi tudo o que consegui dizer para ela.

Quando saltamos na estação e subimos pela rua 9, eu notei que vultos se espalhavam pelas vielas. Não sabia se eram pessoas normais ou os drogados daquela região. Nunca pensei que poderiam ser almas penadas ou coisas do tipo, mas toda hora Beatriz falava da avó morta. Foi por culpa dela que o meu medo veio à tona.

Samir não tinha medo, ele seguia em frente todo empolgado, os passos apressados nos obrigavam a caminhar mais rápido. Nós chegamos na entrada da antiga construção e demos de cara com o portão trancado com correntes e uma enorme placa escrita “não ultrapasse”. O lugar estava abandonado e quase todo coberto por mato.

Ele arrodeou o local até encontrarmos uma parte deteriorada do muro ao fundo que nos permitia pular. A última foi Beatriz, ela estava chorando àquela altura quando pulei de volta para buscá-la. Foi aí que aconteceu algo chato em relação a Samir. Ele notou que Beatriz estava chorando assim que eu desci o muro com ela, então veio gritando para cima dela.

- Para de ser uma covarde chorona, menina! Ou vamos te deixar pra trás, entendeu?

Aí que Beatriz desatou a chorar, ela estava segurando a mochila por uma das alças e tentava colocá-la nas costas. Eu senti muita pena dela, mas não enfrentei Samir, não podia tomar partido ou Fabricio ia começar a falar de novo que estávamos juntos feito Norma e Regis. Eu jamais teria algo com Beatriz, ela era muito nova e sonsa sempre carregando seus livros de fantasia para cima e para baixo e me olhando com olhos molhados.

Nós prosseguimos, eu fiquei atrás com ela para ajudá-la com a mochila. Fabricio logo estava do nosso lado, mas não começou a nos importunar. Ele comentou aos sussurros que aquele lugar lhe dava arrepios. Apenas naquele momento levantamos os olhos para a construção enorme à nossa frente, a escuridão a deixava parecida com uma mansão assombrada de um filme de horror. Pássaros faziam ruídos e bichos passavam rastejando sem que pudéssemos vê-los.

Samir conseguiu abrir uma porta emperrada e entramos um a um. Lá dentro não dava para enxergar nada, eu acendi a lanterna porque fiquei encarregado de levá-la. Era do meu pai, e comecei a suar frio imaginando se ele notasse a falta dela. Eu iria para um internato ou coisa pior.

Caminhamos juntos, a todo momento Samir dizia para não separarmos e Fabricio estava filmando onde eu lançava a luz. A princípio, nada acontecia. Os ruídos de pombos enfiados nas frestas do telhado nos assustavam, além dos barulhos de ratos e baratas. Tudo era motivo para gritos histéricos de Beatriz que estava agarrada à Norma.

Encontramos uma antiga sala de jantar, ainda tinha a mesa de 8 lugares. Quadros de santos decoravam as paredes, todos destruídos pelo fogo restando apenas partes da imagem. Foi ali que Samir falou que iria tentar contato, nós observamos quando ele tirou da mochila uma bíblia de capa grossa, uma tigela e uma faca.

- Que merda é essa? – eu perguntei.

- Vou tentar contato, eu vi na internet como podemos evocar os espíritos de um lugar onde aconteceu grande tragédia.

- Não seja otário – Regis estava nervoso como nunca, logo ele que sempre era calmo e paspalhão.

- Calma, pessoal – Fabricio tentou apaziguar – Deixa o Samir fazer, não vai acontecer nada.

- Preciso do sangue de uma virgem. Qual das duas se candidatam? – Beatriz abriu o berreiro de novo nos braços de Norma que olhava para Samir com uma raiva mortal.

- Isso não tem graça, Samir – eu estava começando a sentir muito medo dele porque lembrava do seu rosto de velho impiedoso. – Para com isso, vamos embora!

- Estou brincando, gente! – ele riu um tempo, mas ninguém estava rindo com ele.

- Para gente, que isso, vocês estão tensos! Eu vou oferecer meu próprio sangue.

- Para! – Beatriz gritou e todos ficaram perplexos. – Para com isso, por favor. Vou para casa.

Ela correu, mas a porta da sala fechou de repente como se uma rajada de vento tivesse passado. Samir começou a falar.

- Está acontecendo! Está acontecendo!

E daí em diante tudo aconteceu muito rápido, de forma vertiginosa!

Primeiro, a música de piano começou a ressoar alto e retumbar pela sala, as janelas estavam quebradas e o vento entrou levantando a poeira e cinzas. Depois, o Samir foi jogado contra a parede com força, os seus materiais de evocação caíram por todos os lados. O lugar parecia nos expulsar dali, tentamos abrir a porta, mas estava trancada por fora. E como disse no início, Beatriz não parecia mais tão assustada. Ela estava observando o corpo de Samir ser jogado para todos os lados, pálida e amolecida. Acho que estava em choque.

Tudo acabou de repente, a música parou, a porta abriu com um rangido alto. E nós ficamos parados observando o corpo de Samir ficar roxo e inchado. Ninguém se mexeu, todos nós estávamos chocados demais. O primeiro a sair do estado de paralisia foi Fabricio, ele correu e ajoelhou ao lado do Samir e ficou chamando por ele. Nenhum de nós tinha visto um cadáver antes, demoramos a entender que aquilo era um garoto morto. Beatriz voltou a cair no choro desconsolado, mas daquela vez eu a abracei porque estava tão apavorado quanto ela. Nós demoramos a achar a saída, silenciosos. A lanterna tinha ficado para trás assim como a câmera, queríamos apenas sair dali.

Do lado de fora, pulamos o muro no local por onde entramos, Beatriz foi a primeira daquela vez e eu e Fabricio ficamos por último. Ele estava olhando para trás quando cutuquei para pularmos de volta.

- Você não tá vendo aquilo? – ele tinha os olhos arregalados e mortificados.
Eu olhei na direção da construção onde diversas silhuetas de crianças se espalhavam pelas janelas.

- Elas estão vivas? – ele me perguntou à beira das lágrimas.

- Não, não Fabricio, vamos embora! – saltei o muro tropeçando de qualquer jeito na calçada.

No caminho de volta, nos sentamos exaustos nos bancos do metrô. Beatriz se isolou abraçada à sua mochila. Enquanto eu, Fabricio, Regis e Norma permanecemos juntos.

-  Meu Deus... estamos perdidos. Temos que chamar a polícia – Norma comentou.

- O que foi que aconteceu ali? – Regis olhava de um para o outro procurando respostas.

- Vocês sabiam que Samir tinha asma? – Fabricio cochichou como se fosse pecado dizer aquilo – Acho que ele teve um surto, não sei.

Enquanto eles tentavam encontrar respostas para aquela noite, observei Beatriz abraçada à sua mochila e a forma como murmurava algo para si mesma. Era como se uma vibração em torno dela fizesse com que as gotículas da chuva que começava se chocassem contra o vidro da janela com força.
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 29/06/2019
Alterado em 19/07/2019
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