O absurdo
por Larissa Prado
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Ansiedade
 
 
O teatro não era para estar cheio, mas está. Em plena noite de Segunda-feira, dezenas de cabeças com olhos reluzentes esperam o concerto. Faço parte da primeira fila de flautistas, as notas que saem do instrumento sobrevoam a plateia que absorve a música em torpor apático. Não expressam nada. São estátuas de cera, objetos inanimados.

As gotas de suor frio despencam entre meus cabelos emplastrados de pomada de pentear. Cheiro a tabaco e perfume francês. Ensaio todos os dias por duas horas, é o ideal segundo o meu regente. Meu fôlego está curto, não consigo chegar ao ápice da minha potencialidade.

Quando os outros instrumentos se juntam ao conjunto harmonioso, me perco. Não alcanço mais nada, estou sozinho no descampado onde olhos frios me cercam cheios de expectativa. Penso no que estão pensando, todas as cabeças negras enchendo o auditório. Todos estão com suas pálpebras voltadas para mim porque vou errar e tropeçar a próxima nota. Nunca tropeço, mas não consigo respirar como deveria. Eu ensaio há mais de 5 anos as mesmas notas e, agora, tudo parece escorrer ralo abaixo junto com a sudorese morrendo nas sobrancelhas e axilas.

Estou encharcado e em pânico. Todos cochicham meu nome. Quando as luzes se apagam, sinto uma lufada de alívio ao som das palmas tímidas. Estão contidos, não há estouro de euforia da plateia. Eles estão tímidos por causa da minha péssima performance, arruinei tudo como sempre fiz durante a vida.

Ao voltar para casa, escuto os carros passando e vejo as luzes dos sinais alternando entre verde e vermelho. Os olhos da plateia ainda me perseguem pelas esquinas e quarteirões. O celular vibra no bolso, evito olhar as mensagens porque vão me dizer como fui péssimo na noite mais aguardada do ano. Não quero falar com ninguém enquanto o suor insiste em escorrer, frio e pegajoso.

O ar da minha sala é pesado porque não deixei nenhuma janela aberta, o passarinho grita na sua gaiola por atenção. Passo direto, piso no rabo do cachorro que estava aninhado no tapete, sigo para o quarto ignorando seu ganido. O celular continua vibrando, alguém chamando minha atenção que está totalmente voltado para a plateia. Os olhos refletem na tela da televisão, eles continuam me assistindo de algum lugar. Amanhã estarei ensaiando de novo, tentando não cometer os mesmos erros.

Não sinto fome, não quero beber, desligo o celular e o jogo na privada depois aciono a descarga. Estou perdendo o controle de novo, tudo por causa da plateia e seus olhos, tudo por causa da respiração. Penso nos compromissos que marquei para o dia seguinte, em como deixarei Elizabeth me esperando no café porque não vou aparecer. Nunca mais vou aceitar suas investidas. Não quero pensar mais em olhos sobre mim e sentir as gotículas frias se acumulando em minha testa.

Preciso distrair, os ombros estão tensionados chegam a doer. Sento em frente à tevê e afrouxo a gravata, a tela continua me mostrando todas aquelas cabeças intrometidas. Ligo, procuro algo para assistir. Então, me convenço que Elizabeth esteve brincando comigo todo esse tempo e que meus amigos do trabalho estão sempre tramando situações vexatórias para me causar danos mentais. É uma conspiração, todos os olhos das plateia estão esperando minha queda e que perca o fôlego finalmente.

A poltrona no meu quarto é pequena demais, me remexo. Preciso tomar banho, mas não consigo. Estou preso, os olhos fixos nas notícias terríveis que algum jornal sensacionalista transmite. Eu errei as notas, tenho certeza, elas saíram no tempo errado, por isso, os aplausos foram tímidos, quase arrancados à força. Eu não vou parar de errar as notas e os meus trejeitos em lidar com Elizabeth e com qualquer outra que vir depois dela. Sou o tipo de fracassado que ainda acredita na redenção. Enxugo o suor com a gravata. E recorro às pílulas escondidas no armário do banheiro.

Engulo duas delas, e leio no frasco que são indicadas para combater a ansiedade. Há quanto tempo estou nesse combate? Não me lembro. Nasci tremendo e chorando com os olhos de uma plateia sobre mim.

Desde que me entendo por gente, as coisas pinicam e me deixam em estado de pânico. Os olhos, as vozes, as incertezas e certezas do amanhã. Eu não deveria ter jogado o celular na privada, não deveria sequer ter começado a me sentir músico. Ando pela casa esbarrando nos móveis, preso mentalmente numa espiral de “se” e “porquês” aleatórios. Abro a geladeira, bebo um pouco de leite frio. O cachorro cerca meus pés, eu o ignoro. Volto para o quarto, coloco a gravata no pescoço e penso em ir até a casa de Elizabeth e lhe dizer que sinto muito por fazê-la esperar no dia seguinte que nem chegou.

Bagunço os cabelos que levei longos minutos para deixar no lugar, arruíno tudo e me lanço contra a cama. A química não está certa, pois não surte efeito no organismo. Não importa quantos comprimidos eu tome, as coisas vêm e vão me deixando nesse estado azucrinado de agonia.

Levanto e vou dar uma volta no quarteirão para sentir o cheiro gostoso da noite e quem sabe acalmar os ânimos. Foi tudo culpa das notas que saíram erradas e fora do tom. Assim que viro a esquina eu vejo todas as cabeças na penumbra, os olhos me espionando e condenando. Fico paraliso, atônito, assim no meio da avenida quando uma buzina ecoa em algum lugar. Olho direto nos faróis que aproximam como dois sóis. Atrás do volante, o motorista da caminhonete me olha apavorado, ele e as cabeças da plateia trituram-me os miolos.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 27/06/2019
Alterado em 19/07/2019