O absurdo
por Larissa Prado
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Ameaça invisível
 
 
O relógio marcava onze e quarenta quando atendi a ligação de Luíza, minha sogra, me dizendo que Bel havia entrado em trabalho de parto, meu primeiro filho estaria dando seu primeiro grito nesse mundo ainda naquela madrugada. Não houve tempo de despedir, apenas avisei que estava a caminho. Abracei o meu colega de trabalho que ficou para terminar seu drinque sozinho no bar do hotel. Levei menos de 10 minutos para arrumar a mala, fazer o checkout e cair na estrada de volta para casa.

Aquelas cinco horas que me separavam de casa pareceriam uma eternidade. Pisei fundo no acelerador, checando as mensagens no celular sempre que podia. Deixei o GPS acionado marcando o trajeto mais rápido. Queria fugir do trânsito complicado que estava acusando no mapa próximo ao primeiro pedágio. Cortei por estradas de terras e vi a lua emergir em um céu negro quando me aventurei por um caminho que mal sabia existir.

Há dois anos trabalhando como representante farmacêutico, indo e vindo dos mesmos lugares, nunca vi aquela entrada. Foi como se o GPS ou Deus tivesse criado às pressas aquela rodovia para que conectasse com maior rapidez à Bel e nosso filho. Eu tinha prometido a ela que estaria ao seu lado. A promessa fazia gotas de suor frio brotarem da minha testa, e mastiguei por diversas vezes a língua misturada ao chiclete que mascava por ansiedade ao invés de acender um cigarro atrás do outro, era a segunda promessa que fiz para Bel e estava sendo difícil mantê-la. Recorria às balas e chicletes para me manter longe do cigarro.

Aquele momento tão esperado que parecia tão distante estava acontecendo. Nosso primeiro filho! A mistura de emoções deixava minha cabeça zonza e me fazia checar a rota no celular por diversas vezes, a voz robótica por trás do aplicativo de GPS me dizia para manter a velocidade por causa de radares na rodovia, ignorei-a e pisei fundo.

A voz do GPS me disse algo como “buraco na pista” ou algo do tipo, mas não estava prestando atenção, o rádio ligado abafava os alertas. Tocava uma música antiga, dos anos 80, Bel adorava, “Total Eclipse of the Heart” na voz de Bonnie. Senti o sorriso aparecendo na boca com a lembrança da minha esposa. Costumava fazer isso com frequência, sorria sempre que me lembrava dela porque Isabel era um amor, o meu amor, a pessoa mais generosa e divertida que tinha conhecido. Por que diabos pensava nela assim? Talvez fosse porque ela seria a mãe do meu filho, dos meus filhos e aquilo me deixava meio tolo, apreensivo e elétrico.

Não pude ver declive que a voz do GPS alertou, quando passei a toda velocidade por ele o carro sacudiu de um lado para outro e demorou a estabilizar. Meu coração batia tão forte na garganta e a barriga rodopiara em uma ventania que quase me fez vomitar os drinques da noite. Desacelerei e parei no acostamento, pois foi para aquela direção que o carro me guiou. Demorei um bom tempo até recobrar a calma, o suor frio escorria feito cascatas. Comecei a rir por nervosismo e alívio. Por pouco não perdi o controle, minhas mãos tremiam e meu corpo todo parecia prestes a convulsionar.

Pensei se dava para ter um colapso de euforia porque parecia exatamente isso, minha empolgação era tanto que não conseguia controlar as mãos ou pensamentos. Respirei fundo, o crucifixo que Bel pendurou no espelho do carro sacudia loucamente e o segurei. Abaixei o som, a voz de Bonnie não passou de um sussurro e a do GPS tinha silenciado. Foi então que olhei para fora do carro, estava tão concentrado em mim mesmo, na mudança radical pela qual minha vida passaria assim que meu filho nascesse que mal lembrei que fazia parte de um mundo e que lá fora estava chovendo.

A chuva era fininha e lenta do tipo que dura a noite inteira e se torna irritante para quem está a pé ou de moto. Eu vi algo parado no acostamento logo à frente do meu carro, os faróis não conseguiam iluminar por inteiro, precisei acionar a luz alta. Era uma criança, ela estava com um agasalho com o capuz cobrindo o rosto. Forcei os olhos na direção da aparição, me lembrei de filmes de terror e toda aquela merda de suspense com pessoas ou aberrações em beira de estradas. Comecei a rir de novo e fechei os olhos porque tudo aquilo parecia delírio.

Quando abrisse os olhos não haveria ninguém parado ali, e eu retomaria o meu caminho com mais calma e autocontrole, Bel e nosso bebê precisavam de mim vivo. Não foi isso que aconteceu. Ao abrir os olhos, a criança estava em cima do meu carro, as mãos sobre o capô e o rosto lívido fora do capuz pedia ajuda. “Moço! Moço”, o garoto dava socos enfraquecidos contra o capô.

O primeiro pensamento que me assaltou foi “é um golpe, uma emboscada, um assalto!”. Eles usam crianças ou mulheres para isso. Eu não era estúpido, vivia com precaução. Mas na ansiedade de chegar em casa o mais rápido possível cometi o erro de confiar nas rotas sugeridas pelo meu maldito GPS e sabemos o que isso pode significar. Liguei o carro e engatei a ré, ignorando a criança e a voz no aplicativo, eu comecei a acelerar para afastar daquela armadilha. Não consegui ir longe. Uma mulher apareceu atrás do meu carro e eu atingi de leve fazendo-a cair e gritar.

O segundo pensamento que me fez ir na direção contrária das emoções foi “eu matei uma mulher, ela precisa de ajuda”. Não me lembrei mais de golpes e da possibilidade de ser morto na emboscada quando abri a porta e sai do carro para ver o estado da mulher.

Dei a volta e a encontrei sentada, usava um pesado agasalho e tinha o rosto afogueado e ferido. Camadas de sangue coagulado cobriam toda parte direita da sua testa no que parecia ser resultado de um corte ou pancada. A chuva fina livrara sua pele da maior parte da sujeira. Eu me aproximei com as mãos para cima, não queria assustá-la. Pessoas amedrontadas reagem de maneiras impensadas.

- O que houve com você? Está muito ferida?

Àquela altura tinha me esquecido completamente do garoto. Ele apareceu ao lado da mulher e segurou o ombro com delicadeza, ajudando-a a se colocar de pé.

- Nós precisamos de ajuda, senhor – o garotinho disse quase aos berros – minha mãe está muito ferida! Precisamos de carona.

- Apenas até o próximo posto – ela arrematou, apoiando-se no menino.

- Certo, entrem no carro.

Não tive tempo de pensar. Lembrei do motivo que me fez pegar aquele atalho e a causa da minha ansiedade, queria acabar logo com aquilo e deixa-los em lugar seguro. Sem mais conversas.

A mulher e o garoto se abraçaram no banco de trás. Ele se encolheu enquanto ela olhava a estrada com uma expressão assustada, quase paranoica. Seus olhos estavam arregalados e atentos, à flor da pele. Cada vez que a voz no GPS falava algo, a mulher saltava no banco como se esperasse um ataque. Não puxei conversa, queria apenas me livrar logo, foi ela quem iniciou o assunto.

- Você precisa voltar. Precisa voltar por essa estrada! Foi de lá que nós viemos! – e apontou adiante para a próxima curva fechada que a rodovia desenhava.

- Como assim? Eu não posso me desviar desse caminho, moça.

- Ah por favor! Nós vamos...

- O quê? O que aconteceu com vocês? Vou ligar para polícia.

Tirei o celular do suporte em cima do meu painel e tentei ligar, não tinha sinal, estranhamente a voz do aplicativo estava repetindo a mesma informação sobre radar há muito tempo e não tinha percebido. Joguei o celular para a mulher. A princípio, não pareceu que sabia mexer em um telefone, estava em choque apenas olhando a estrada à frente. Alertei que ela devia tentar ligar para a polícia, mas ela disse que era inútil. Os sinais não pegavam ali. O garotinho tremia e não desgrudava os olhos do acostamento que passava em alta velocidade pelas janelas.

- Pelo amor de Deus, dê a volta! Ô DEUS! – o grito que ela soltou encheu o carro de apreensão e minha cabeça rodopiou.

O que diabos aquela louca queria? Eu pisei no freio e parei no acostamento. Ao me virar para os dois no banco de trás notei que me olhavam, o pânico naqueles rostos era real e os ferimentos também.

- Escuta, o que aconteceu? Eu não posso voltar, entende? Estou atrasado para algo muito, muito sério e urgente. Não posso ajudá-los se forem me atrasar, entende? Não posso continuar levando vocês se continuarem gritando que não devo dirigir por essa rodovia! E não posso continuar com essa loucura se não me disse o que houve com vocês.

Não foi um trovão, nada parecido com um raio caindo próximo a nós. O ruído foi como se algo estivesse saindo da terra e quebrando o asfalto. Vinha de dentro do chão e não de fora. O carro foi lançado e capotou por duas vezes até ficar sobre as rodas de novo. No movimento brusco choquei a cabeça inúmeras vezes contra o volante e senti os estilhaços das janelas penetrando meu rosto e mãos. Quando parou, olhei para trás e tirei o cinto.

A mulher estava saindo pela porta puxando seu filho desacordado. Ela gritava:

- Nos deixe em paz!!

Tão alto que a voz retumbava na mata do acostamento. Demorei a sair do carro, e quando vi o garotinho estava flutuando sobre a cabeça dela como se algo invisível estivesse o suspendendo. Não conseguia ver nada, mas a mulher parecia que podia. Ela gritava em desespero e golpeava algo maciço que projetava seu corpo para trás.

A paralisia tomou conta dos meus movimentos por alguns minutos, aquela cena era tão absurda que meu cérebro demorou a tomar alguma atitude. Parecia um maldito pesadelo. Aquela coisa de roteiro de filmes de terror, aquela coisa que queria ignorar, mas não era possível. Foi quando o corpo do garoto partiu ao meio derramando as entranhas sobre a mãe que comecei a me mover. Aquilo era real, não dava para me entregar à paralisia do absurdo.

Corri na direção dela, a forma que gritava era assustadora. Parecia que nunca mais iria parar, eu agarrei seus braços para fazê-la correr comigo, mas algo a segurava pelo outro braço. Algo que não conseguia ver.

- O que diabos é isso?

O rosto dela estava resignado, coberto pelos restos viscerais do filho, ela apenas soltou minha mão e se deixou ser arrastada. Meus olhos não conseguiam ver. Mas eu podia sentir aquela presença, o gigantismo daquela maldição. O chão tremulava enquanto ela era arrastada.

- Acredite e estará perdido. Acredite e verá!

Foram as últimas palavras da mulher antes de partir-se ao meio por uma força invisível. Corri de volta para meu carro, as pernas tão fracas que me sentei encostado no pneu dianteiro. Fechei os olhos, quando abrisse nada daquilo teria acontecido. Eu teria pegado no sono quando parei a primeira vez que fugi do declive na estrada. Sim. Eu estaria dormindo. As cascatas de suor frio começaram a inundar minha camisa social e a emplastrar meus cabelos. “Acredite e verá” ela berrou. Não, isso não passa de um delírio.

A coisa arrastou-se sob o asfalto rachando-o. Ela podia farejar porque senti sua respiração quente no meu rosto e fedia à morte. Tentei pensar em Isabel e em nosso filho, a casa que reformamos para recebê-lo, nosso cachorro Zeus, um belo Husky de olhos azuis. Pensei no que faria com o meu filho quando completasse dez anos, acho que era idade que o menino da estrada tinha. Ele nunca vai crescer, será que tinha pai? Algum homem esperava pelos dois em algum lugar? Ou, talvez, o pai tinha morrido dessa forma absurda por aí? Que lugar era aquele que estava metido onde o celular não pegava?

Abri os olhos, não estava sonhando e eu vi por que comecei a acreditar. Eu vi por que o medo o fez me farejar.  Nós dois nos tornamos reais um para outro, a coisa tinha quase 2 metros de altura e no lugar dos braços eram tentáculos fortes que quebravam o asfalto. Ele podia sentir vibrações através daquelas ventosas em seus tentáculos? O resto do corpo não diferenciava muito de um homem musculoso, mas tinha um aspecto reptiliano como se um maldito sapo tivesse se fundido a um homem imenso. Aquilo parecia algo saído de algum filme de Ridley Scott.

O riso brotou na minha garganta, comecei a gargalhar. Aquilo era tão absurdo que não podia ser real. Não podia, me negava acreditar, mas estava de olhos abertos encarando a coisa. Escutei o meu riso expandindo pela mata mesmo quando tinha calado a boca. Era ele? Ele podia reproduz meu riso? Agora parecia algo saído da cabeça dos irmãos Thomas, era uma espécie de um maldito Predador? Fiquei parado, observando, encolhendo cada vez dentro do meu medo e do meu corpo.

Os tentáculos passearam por mim, infiltraram em meus cabelos e vasculharam minhas roupas. Ele não parecia ter interesse em mim e pude respirar com alívio. A coisa estava se virando, devagar quando o meu celular vibrou e tocou dentro do carro. Era Luíza me dizendo que meu filho tinha nascido, só podia. Aquele toque era reservado para família. No fundo do meu coração sabia que tinha me tornado pai. Levantei com um movimento rápido para atender.

A minha euforia parecia explodir o coração, mas não era euforia aquilo. A força daqueles tentáculos me ergueu do chão antes que conseguisse abrir a porta, um deles se infiltrou pela pele, músculos e ossos até chegar na caixa torácica e forçar a minha abertura ao meio. Antes de morrer vislumbrei o horizonte da estrada do alto, pois ele suspendia os corpos das suas vítimas ao céu antes de terminar de extirpá-las. Não era o único, afinal. No horizonte pude ver dezenas de coisas farejando o ar, atentas, caminhando pelo descampado ao lado da estrada.

O céu negro parecia aberto em um imenso buraco fosforescente naquele ponto da rodovia. Aberto para uma dimensão secreta por onde eram cuspidas essas grotescas ameaças invisíveis à humanidade.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 26/05/2019
Alterado em 26/05/2019
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