O absurdo
por Larissa Prado
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Em memória de Luma
 
 
A linha tênue que separa vingança e justiça tremulava cada vez que visitava o leito de Luma. O som dos aparelhos que mantinham sua respiração me deixava zonzo.  O seu rosto deformado estava escondido sob ataduras, pelo menos era poupado de ver o estrago que fizeram. Mas os hematomas pelo corpo e os pinos que mantinha os ossos no lugar me faziam tremer.

Tentava apaziguar a fúria pensando que o culpado iria pagar, em breve todos envolvidos estariam enclausurados junto com loucos como eles. Era o que me mantinha firme, conservando uma réstia de esperança na humanidade.

Porém, um misto de emoções levou embora qualquer racionalidade depois do desfecho das investigações. Nenhum dos três jovens poderia ser condenado por falta de provas. Eu tentei respirar fundo para afastar a nebulosidade tóxica que envolveu os pensamentos, não adiantava. Ao deixar o tribunal após a sentença fui direto para o hospital ficar ao lado de Luma prometendo a ela e a mim mesmo que os culpados pagariam.

Minha esposa raramente a visitava, ela encontrou algum conforto ao escapar da realidade em volta. Mantinha o quarto de Luma arrumado para o dia que ela retornasse e falava sobre isso com convicção. Nós dois sabíamos que Luma não retornaria. Os últimos exames mostravam que suas funções cerebrais estavam perdidas, mesmo que um milagre acontecesse e ela abrisse os olhos não seria a mesma Luma. De uma forma ou de outra ela tinha nos deixado para sempre.

Ao deixar o hospital aquele dia voltei para casa tentando ignorar a coceira mental que insistia na ideia “o culpado vai pagar por isso”. A frase se repetia em meus pensamentos como uma obsessão, rastejando e impregnando cada flash de lembrança que tinha da minha filha desde que era uma rechonchuda garotinha sonhando em ser fotógrafa marinha. A revolta deu lugar à fúria que se mesclou ao ódio, todos sentimentos ruins aglutinavam uns aos outros sob toneladas de argamasse de Dor.

Não era apenas um desejo ou uma ideia, aquela frase havia se tornado um fato: o culpado vai pagar por isso. Naquela noite, subi para o segundo andar onde ficava meu escritório e comecei a alimentar o dia que teria a vingança em memória de Luma, para que seu espírito e o meu pudessem descansar em paz. Mais do que fazer o culpado pagar eu queria entender o que havia acontecido.
 
*
 
Quando era criança, minha mãe recitava alguns versículos bíblicos antes das refeições. Em ocasiões especiais nós rezávamos o Pai Nosso; “perdoai nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. Perdoar não é algo fácil. Deveríamos saber perdoar tanto aqueles que nos insultam no trânsito quanto o assassino de um ente querido? Não. Meu perdão é seletivo, minha alma só pode perdoar de acordo com o tamanho da ofensa e da dor infligida.

Nunca fui um bom cristão, reconheço, perdoar não é fácil. Tentei trabalhar essa ideia, o perdão, me esforcei o máximo que pude enquanto colocava o meu plano em ação tentei encontrar formas de perdoar e seguir em paz. Luma piorou muito, alguém deveria pagar por isso porque toda dor que carregava parecia pesada demais para simplesmente deixar para lá.

A princípio, me afastei do trabalho. Todos compreenderam e meu sócio ofereceu todo apoio. Eu recebi compreensão e carinho de familiares e amigos. Até mesmo minha esposa tentou me fortalecer com seu conformismo otimista me fazendo lembrar o porquê havia me apaixonado por ela. Sua benevolência e capacidade de extrair o melhor das piores situações estavam ali presentes, ela conseguia aos poucos voltar a ser a mesma.

Nada disso aquietou meu coração, a dor odiosa controlava meus pensamentos, “o culpado vai pagar por isso” dizia a mim mesmo entre um abraço e outro durante o velório de Luma. Na madrugada de uma sexta-feira, minha filha desistiu da luta, o som dos aparelhos cessou e ela pôde navegar para seu sono eterno. Luma nunca mais abriria os olhos, acabou, ela tinha desaparecido.

No enterro, eles apareceram, as três únicas pessoas que sabiam o que tinha acontecido à Luma. Sua melhor amiga Carol estava abraçada ao namorado Tyler, ao lado deles Enrico segurava duas rosas vermelhas para jogar sobre o caixão. Observei com atenção o rapaz, Enrico, ser levado pelo pai, um influente juiz que o livrou de qualquer culpa. Luma estava deslumbrada com ele, falava do namoro todo dia durante as refeições. Por que fizeram isso com ela? Eu me questionava a todo momento quando o pensamento obsessivo “alguém tem que pagar por isso” dava trégua.

 
*

Faltava apenas uma semana para retornar ao trabalho. Não podia deixar meu sócio com a empresa nas costas. A vida continua apesar dos duros golpes que levamos, o movimento não para. Na segunda-feira, três dias após enterrar minha única filha, esperei Enrico na saída da aula. Ele era um rapaz alto para a idade, não passava despercebido.

Ele andou acompanhado de alguns amigos até o estacionamento do colégio, foi direto para sua moto. Lembro como Luma contava eufórica sobre os passeios na garupa do novo namorado. Cada lembrança era uma nova pontada, como se mais um corte fosse aberto de onde não vertia sangue porque não tinha chorado ainda, nenhum dia, nenhuma vez. Eu estava seco de lágrimas e sangue, era um buraco dentro de mim por onde ecoava o pensamento estrondoso: ele vai pagar por isso!

Esperei até que ele se afastasse da escola e comecei a seguir. Foi difícil manter o ritmo porque Enrico corria muito entre as fileiras de carros no trânsito estagnado do horário de almoço. Levou algum tempo até surgir a oportunidade de fechar a moto com a lateral do meu carro, eu o joguei para cima do garoto. Enrico se desequilibrou e caiu da moto, rolou sobre o lado direito do corpo indo parar longe. A rua estava deserta, era seu bairro nobre com casas de muros altos onde ninguém conhecia ninguém, faltavam apenas alguns quarteirões para que ele chegasse em casa. Sabia disso porque já tinha buscado Luma ali algumas vezes.

Ele sentou, gemendo, sua mão esfolada segurava o braço direito, o casaco do moletom estava rasgado na altura do cotovelo. Eu encarei seus olhos assustados através da viseira do capacete. Naquele momento, não passava de um garoto de 17 anos muito atordoado e assombrado.

Não sentia mais o sol alto queimando meu rosto, o suor e a fadiga das noites insones não me incomodavam mais. Quando falei com ele a voz não parecia a minha, era apenas um som desgastado e rouco. Em meus planos de confronto ensaiava gritar com ele a plenos pulmões até fazê-lo mijar nas calças e tremer, mas naquele momento só conseguia sussurrar as palavras com esforço.

- Vamos dar uma volta e ter uma conversa, garoto.

Puxei-o pela gola da camiseta, o símbolo do colégio bordado – o mesmo que estava estampado nas roupas de Luma – deveria ter me feito parar. Minha esposa diria “Ele é apenas uma criança assustada”. Foda-se, pensei, alguém vai pagar por tudo isso.

 
*
 
Antes de me tornar um arquiteto de considerável renome, eu fui um atleta. Quando tinha a idade de Enrico ganhei alguns troféus na categoria de peso leve, eu era bom nisso. Não perdi o pique depois de tantos anos. Aos 53 anos ainda tinha um punho pesado e um gancho de direita certeiro.

Fiz explodir um soco no queixo de Enrico porque seu nariz estava estraçalhado. Terça-feira, madrugada, estávamos há duas horas da cidade, no litoral, na casa de praia da família dele.

Luma veio com ele passar um fim de semana sob meus protestos. Mas a mãe saía sempre em seu favor, elas argumentavam e insistiam. Era difícil dizer “não” quando as mulheres da casa se uniam. Quando o telefone tocou no domingo daquele fim de semana, o policial me deu a notícia de uma tragédia. Algo que nem as autoridades, nem os amigos de Luma conseguiam explicar.

Os jovens não diziam nada com nada. A princípio não senti raiva, até me compadeci da situação enxergando todos como vítima de um estranho acontecimento. Conforme as investigações avançaram passei a compreender que eles tentaram acobertar Enrico.

Nunca gostei do rapaz, era um playboy de vida fácil. Desde o começo do namoro tentei argumentar com Luma para tomar cuidado porque ele tinha má fama, sempre envolvido com festas que terminavam em brigas e uso de entorpecentes. Era instável, mimado e muitas pessoas diziam ter comportamento agressivo caso algo lhe fosse negado. Ele matou Luma de forma cruel, espancando-a até a morte e ninguém tinha como provar isso.

Na cadeira da cozinha com as mãos e tornozelos presos, não parecia nada com o valentão que pintavam. Ele tremia e suava, choramingando feito criança enquanto dizia suas sandices. Minhas mãos latejavam esfoladas dos socos que castigaram o rosto do rapaz. Do lado de fora o tempo se fechava aprisionando o sol em nuvens pesadas.

Acendi um cigarro e abri um energético esperando Enrico se recompor.

- Vou perguntar pela última vez, garoto. Quero saber o porquê e como Luma foi morta – a lâmina cintilou na penumbra da cozinha. Costumava pescar nas férias, aquela era a lâmina do escamador de peixes.

Enrico respirava com dificuldade, seus olhos cobertos de hematomas deixavam reluzir apenas o vago brilho da íris lacrimejante.

- Falei para o senhor... para os policiais, para todos. Não fiz nada. Eu falei para Luma, é perigoso, aí é perigoso, não brinque com isso. O lugar é amaldiçoado, não podia voltar aqui.

Enrico voltava aos delírios, o meu cigarro estava quase no fim. Ele fez ruídos estranhos ao tentar engolir o choro entre os lábios rachados e inchados.

- Lá fora, senhor... eles estão vindo na tempestade. Eu não podia voltar, essa é época do despertar. Luma... eu a amava, o senhor sabe, ela gostava de brincar... Ó SENHOR DEUS...

Os olhos de Enrico se arregalaram petrificados na ampla porta de vidro da sala que estava atrás de nós. Sua fisionomia adquiriu um semblante assustador de pânico.

Não houve tempo de me virar, o vidro da porta estilhaçou, os grunhidos tomaram conta de toda casa. Por instinto, corri para longe da cozinha na direção da porta de saída deixando Enrico preso à cadeira. Ele se debatia violentamente enquanto as criaturas avançaram sobre ele, estudando-o. As formas humanoides deslizavam sob pés com ventosas, não possuíam olhos, apenas bocas ventosas e membranas que cobriam orifícios auriculares que se abriam conforme captavam ruídos.

Caíram sobre ele, as ventosas grudavam em suas partes moles fazendo ossos partirem, os gritos de Enrico atraíam mais e mais criaturas que adentravam por todas janelas. O que me salvou naquele dia foi o silêncio no qual me afastei da cena aterrorizante. Eu me esgueirei para longe dali onde o carro estava estacionado, os urros de dor do garoto ecoavam se misturando aos trovões.

Atrás do volante, meus olhos não acreditaram no que viam: uma enorme onda pairava verticalmente em frente à casa de praia, os reflexos dos relâmpagos mostravam as sombras deslizantes das silhuetas das criaturas que escorregavam sobre as pedras e faixa litorânea do lugar.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 13/05/2019
Alterado em 13/05/2019
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