O absurdo
por Larissa Prado
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Ave Chaugnar!
 
 
As gotas do sorvete escorriam pela casquinha deixando os dedos da menina grudentos. Os olhos estavam concentrados em algum ponto da vitrine de uma loja de chocolates. Quem passasse por ali não poderia notar nada de errado, apenas uma menina cobiçando doces caros.Quando o irmão se aproximou e tocou o ombro dela, a menina se virou para ele expelindo um viscoso líquido esbranquiçando pelos cantos da boca e pelo nariz. Era como se ela estivesse se afogando com o sorvete de baunilha. Ele ficou parado por breves segundos tentando compreender e quando a compreensão não veio ele soltou um grito e deu passos para longe da irmã.

Hector estava sentado no pronto-socorro enquanto a mãe conversava com o médico que atendeu sua irmã, Cecília. Involuntário era o movimento que seus pensamentos faziam ao atingi-lo com a lembrança da irmã empolgada se arrumando para ir ao cinema com ele e dois amigos. Cecília estava na sua fase de deslumbre com o primeiro garoto por quem se apaixonara, um dos amigos do irmão. Ele sentia ciúmes da irmã caçula, mas disfarçava bem sob grossas camadas de deboche.

Enquanto esteve sentado ali sem notícias, sem saber se algum dia Cecília voltaria para casa, ele sentiu vontade de dizer como sentia ciúmes, falar sobre o medo de perder sua companheira de brincadeira e ciladas. O amor que nutria pela irmã despontava rompendo as camadas de vergonha e negação que geralmente constituíam relações entre irmãos adolescentes. A mãe veio para sala de espera com os olhos vermelhos, o rosto era uma contração de pura desolação. Hector sentiu as lágrimas escorrerem e tratou de limpar antes que a mãe pudesse notar, grossas camadas de indiferença que não ousava ultrapassar.

Após oito dias sob observação médica, Cecília voltou para casa. O enigma em torno do seu apagão, consequência das fortes convulsões, continuou sendo estudado pela junta médica embora sua família não se importasse tanto com isso. Eles só queriam a garota de volta e ela estava lá, ocupando o quarto em frente ao do Hector como sempre.

A espera pelo retorno da irmã fez com que Hector refletisse sobre sua importância, ele não queria mais disfarçar o afeto que sentia por ela. Arrumou o quarto com balões, as paredes pintadas com cores diferentes eram resultado da promessa que ele fazia para irmã que iria reformar o quarto e não cumpria.

Quando Cecília entrou pela porta, ainda nos braços do pai, pois não sentia firmeza nas pernas, arregalou os olhos de surpresa e jogou para o irmão um beijo. Hector sentiu-se envergonhado, não pelo beijo que a irmã lançou, mas por conta da imagem que lhe assaltava ao observá-la, os olhos purulentos que choravam gosma branca.

Ele deixou o quarto assim que o pai acomodou a garota na cama e se trancou no seu, o coração disparado o fazia tremer. Ficou decidido que nos próximos dias ninguém comentaria nada sobre os dias ruins que vieram com o ataque de Cecília. Todos seguiriam em frente. Hector concordou embora acreditasse que isso era apenas uma forma de varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Fingir que nada aconteceu, não apagaria o que passou. Cecília estava com algum problema grave que ninguém descobria, mas sua família ignorava os problemas como sempre faziam. Hector não disse nada, cansado por levar a fama de ser do contra nas reuniões familiares. Ele apenas assentiu ao emocionado discurso do pai antes de darem as mãos na mesa e orarem agradecendo o retorno de Cecília.
Hector nunca fechava os olhos em tais ocasiões, geralmente era por conta da sua ansiedade em comer logo, mas naquele momento ele olhava o rosto da irmã enquanto o pai dizia a prece.

Cecília estava sorrindo de forma debochada, ele achou aquele sorriso enigmático e fora de lugar, pois nunca vira irmã com aquela expressão. Foi então que Hector começou a despertar a sua atenção para o fato de que aquela não poderia ser Cecília, pelo menos não era a mesma que ele conhecia antes do estranho episódio na tarde no shopping.

À medida que os dias passaram, Hector se pegou trancando a porta do quarto à noite. A irmã o encarava do seu quarto, imóvel, em pé na porta com aquele sorriso nos lábios e um cintilar metálico nos olhos. Ele começou a temer a irmã e tentava desviar seus pensamentos do fato de que aquela era outra. Onde estava sua irmã de verdade? Aquela que Hector decidira assumir que amava?

Passaram 1 mês, 2 meses até o dia que culminou na morte inesperada de Hector. Os pais não entendiam, ninguém que o conheceu poderia compreender. Ele não deu nenhuma pista, não deixou nada que pudesse dar à sua morte alguma justificativa.

Cada um tentava puxar para si a parte da sua contribuição naquela morte. A mãe sentia-se negligente, “eu deveria ter percebido”, murmurava para si enquanto o pai tentava se conformar, “eu fiz o que pude, mas poderia ter prestado mais atenção”, assim renovavam suas lamúrias a cada manhã para diminuir a estranheza da circunstância.

Assim, deixaram de prestar atenção em Cecília que não derramou nenhuma lágrima quando encontrou Hector morto na cama, “ele morreu dormindo”, ela disse aos pais como se isso suavizasse a perda, “morrer dormindo” soava como “morrer tranquilamente”. Mas quem poderia saber onde Hector esteve enquanto sua matéria se desprendia da alma?

O laudo constatou “suicídio por intoxicação de remédios” e todos se apegaram a isso para seguir em frente. Cecília, porém, mantinha o sorriso fino nos lábios como se soubesse de algo inacessível aos outros. Ela se movimentava pela casa sem causar ruídos, tal como Hector fizera antes ela reformou seu quarto.

Os pais deixaram-na com a chave sem importar com o que ela fazia lá trancada durante todos os dias. A garota distribuiu entre as prateleiras, pelo chão, sobre a mesa de estudos pequenos artefatos talhados em material diferente de tudo que há na natureza. Imagens em todos tamanhos de uma criatura sentada sobre uma rocha de forma contemplativa onde uma estranha tromba descia do centro de um rosto obscuro. À primeira vista na penumbra do quarto aquilo poderia ser confundido com réplicas malfeitas do deus hindu Ganesha, mas não era, as sombras enganam as percepções visuais. Aquelas imagens não eram réplicas de nenhum ser de qualquer panteão existente na História humana.

Cecília sussurrava para os objetos em um dialeto indecifrável aos ouvidos humanos, ao fim de cada ritual, a garota caía em ataques convulsivos expelindo a grotesca matéria gosmenta e malcheirosa pelos orifícios. Ela era composta daquele líquido, o que restava da alma da garota há muito tinha se perdido no universo dos sonhos.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 03/03/2019
Alterado em 03/03/2019
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