O absurdo
por Larissa Prado
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Noite no parque

 
O que restou de Silas é muito pouco, quando olho para ele percebo sua falta de alma. Não é apenas o braço amputado que dá ao conjunto da sua imagem um aspecto falho, antes de desviarmos o olhar para aquele membro incompleto podemos perceber o seu olhar vazio, sempre vago em algum ponto à frente. Silas se senta com lentidão na cadeira ao meu lado, o ritual de bater a ponta do cigarro na perna e depois acendê-lo com ajuda de apenas uma das mãos é corriqueiro, aparenta ser um gesto fácil. As pessoas se adaptam às perdas mais rápido do que se acostumam com vitórias porque quando o tempo de vitória passa demoram mais a se conformar.

Ele dá uma tragada, posso ouvir o filtro do cigarro queimando, bafora uma nuvem de fumaça. É assim todo fim de tarde, eu não uso mais meu bloco de anotações, depois de três dias de conversas aprendi que com Silas é questão apenas de escutar, seu relato fica salvo na memória, impregnado para ser mais honesta. É difícil acompanhar suas lembranças, por diversas vezes ele interrompe e pigarreia, levanta com a desculpa de buscar mais um cigarro ou fazer café para nós, mas sei que ele só está tentando ser forte.

Nos últimos anos, lido com todo tipo de sobreviventes. Tento passar para o papel tudo o que essas pessoas precisam enfrentar para continuar vivendo depois de grandes traumas. Apesar de tudo que já vivi na minha curta trajetória como jornalista, nada me chocou tanto quanto a história de Silas. Diferente dos outros relatos que acompanhei, esse é envolto numa atmosfera de irrealidade, misticismo e loucura.

Hoje à tarde foi nosso último encontro, fechei a minha história sobre a noite no parque de diversões em que Silas, ainda garoto, perdeu seu braço e toda sua família. A sua história é diferente de todas as outras e não é algo para estampar a minha coluna no jornal, ela precisa ser contada por inteiro. Por isso, resolvi organizar tudo o que ele me contou e escrever um livro sobre aquela noite. Muitos irão me criticar por isso como sempre têm feito, eles costumam dizer que sou a “repórter das desgraças” alegando que exploro a dor e trauma alheios, mas Silas concordou em ter sua história divulgada para mundo.

Antes de me organizar para viajar até a cidade em que funcionava o parque e averiguar todas as informações, deixo aqui os relatos de Silas anotados na íntegra para que tirem as próprias conclusões enquanto o meu livro está sendo feito com todo cuidado necessário. Em breve, partirei para a tal cidadezinha e espero descobrir mais sobreviventes dessa noite fatídica embora saiba que é praticamente impossível encontrar alguém além de Silas que tenha sido testemunha ocular de todo horror daquela noite.
 
 
 
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A cidade de Duas Rochas era muito velha, quase ninguém se interessava em visita-la. Quando o parque chegou e se instalou fez a alegria das crianças, até meus pais se sentiam felizes quando precisavam levar eu e meu irmão para lá aos domingos. Eles trabalhavam muito, eu tenho uma lembrança frequente do meu pai chegando em casa toda noite do trabalho sempre cansado e carrancudo. Ele trabalhava de taxista, numa cidade como Duas Rochas isso não leva a nada, só entrava mais dinheiro em épocas de alta temporada.

Quem sustentava mesmo a casa era minha mãe, ela ajudava no posto de saúde, visitava as pessoas mais necessitadas, era assistente social, mas acabava servindo como psicóloga, parteira, entre outras coisas. A vida não era fácil, meu pai sempre procurava emprego melhor, mas não encontrava. Nós tínhamos pouco, mas tinha família na cidade que vivia com menos ainda. Assim, as coisas seguiam no seu curso habitual até a chegada do parque.

Parece exagero dizer que o Parque mudou tudo, mas é verdade. Ele não era tão grande, não tinha tantas atrações exóticas como as que vemos em parques realmente grandes feito a Disney, mas para os moldes da cidadezinha, aquilo era algo inédito. Atraiu gente das imediações, de outras cidades menores e acabou se tornando referência na cidade. O Parque nunca mais foi embora. 

Não lembro do nome dele, me confundo ao pensar nele como “Recanto dos sonhos” ou “Recanto do assombro”, os dois nomes parecem a mesma coisa. Ele tinha uma temática cheia de surpresas, barracas de tiro ao alvo, jogos eletrônicos e uma imensa roda-gigante, mas a melhor parte do parque com certeza era a casa do espanto! Era dali que saíam os monstros durante a Noite Sombria, uma atração que acontecia todo mês de outubro para comemorar a o Dia das Bruxas.

Os moradores nunca tiverem isso, então todos estavam tão eufóricos com essa atração. A primeira noite do Dia das Bruxas de Duas Rochas foi uma verdadeira comoção. Todos estavam preparados para ir. Não restou nenhum ingresso e o pessoal do parque precisou se reorganizar para que coubessem todos visitantes. Eles deram seu jeito, não queriam perder público.

Não preciso dizer que eu era uma das crianças eufóricas correndo pelo parque naquela noite da atração de horror. Eu via isso em filmes, sabia o que era Dia das Bruxas e sempre sonhei em participar de algo assim mesmo sendo uma criança medrosa.

Nós chegamos cedo, era fim do dia. Não me lembro que hora, o parque abria pela manhã e fechava apenas às 22 horas, mas naquela noite iria ficar aberto até meia-noite, algo sugestivo para a ocasião. Meia-noite é quando os mortos levantam da tumba no Dia das Bruxas, um homem ficava dizendo isso num megafone perto da casa do horror, seu timbre era assustador. Eu e meu irmão nos olhávamos cheios de animação e nervosismo. Ele era dois anos mais velho do que eu e se mostrava mais corajoso.

Meus pais brincavam nas barracas espalhadas pelo parque e comiam os lanches enquanto revezávamos nos brinquedos, esperando em filas longas. Aquela noite prometia ser um marco em nossas vidas, eu nunca vi minha família tão feliz, muito menos, a cidade inteira reunida e com um espírito de total celebração. Duas Rochas era um local de pessoas tristes, e quando digo isso não é só por todos ali serem muito simples, mas é porque pairava no lugar uma atmosfera melancólica, nublada, quase não tínhamos dias de sol, a nossa vida era cinza e sem atrativos. É por isso que não exagero ao dizer que a chegada daquele Parque alterou tudo para sempre.

Quando foi aproximando das 22 horas todas as luzes se apagaram, eu lembro dos gritos das crianças, mas não eram pavorosos e, sim, repletos de excitação. Balões voavam para o céu, eles tinham soltados os balões de todas barracas do parque. Os brinquedos pararam de funcionar, apagaram. Tudo caiu no completo breu. O Parque ficava montado numa região mais afastada, era cercado pelo campo aberto onde algumas poucas casas da região rural se espalhavam. Ali a escuridão era mais escura, sem estrelas, silenciosa.

A primeira coisa que me lembro daquele momento foi do abraço que dei em meu irmão. A gente raramente se abraçava, não éramos tão próximos apesar de nos darmos bem. Eu me agarrei a ele e fiquei com muito medo porque as luzes não acenderam mais. O meu irmão retribuiu o abraço e falou para mim que tudo ia ficar bem e deveríamos encontrar nossos pais. Estávamos perto da roda-gigante, procurando a barraca de cachorro-quente, quando o apagão anunciando a Noite Sombria aconteceu. Não sabíamos onde nossos pais estavam, porque até então eles estariam apenas aproveitando as barracas de comidas e jogos. Era para estarem na barraca de cachorro-quente como combinamos antes de irmos para fila da roda-gigante, mas não havia ninguém lá.

O que aconteceu em seguida foi um caos, um pandemônio. A sucessão de eventos foi muito rápida e minha memória me trai quando tento recordar. Eu não sei o que veio primeiro se foram os gritos ou o sangue, ou se tudo aconteceu ao mesmo tempo.

Primeiro, estabeleceu-se um silêncio repleto de murmúrios porque as luzes não foram mais acesas, nada acontecia. Nos primeiros minutos, as crianças gritaram comemorando, os jovens e adultos também berraram empolgados. Todos esperavam o início da noite sombria com muito horror e atrações tenebrosas saindo do Recanto do assombro, mas simplesmente nada aconteceu. E então, todos ficaram quietos, algumas pessoas passavam correndo procurando seus conhecidos. Não posso dizer com certeza quanto tempo transcorreu, tenho a impressão que foram horas longas de escuridão até o caos se instalar, mas talvez tenham sido apenas alguns minutos.

Eu me desvencilhei do meu irmão e andamos de mãos dados pelo parque procurando nossos pais, então, encontramos uma perna no meio do caminho, jogada próxima à barraca de tiro ao alvo. O meu irmão iluminava o caminho com a luz do celular, ele soltou uma risada porque achava que aquilo era cenográfico, mas aos poucos foi se tornando pálido. A perna era real, uma perna de criança fora do corpo, o sangue e a ponta do osso quando meu irmão cutucou com o pé nos mostrava a realidade do que acontecia.

Ele soltou um grito alto e eu não consegui falar ou fazer nada, fiquei parado, meio fora de mim. E depois, todos começaram a correr e a gritar, uma bagunça terrível. Eu perdi meu irmão porque ele saiu correndo seguindo um fluxo de pessoas que passou por lá, ele saiu me chamando, me dizendo para correr com ele, mas minhas pernas não me obedeciam. Fiquei ali encarando a perna ser pisoteada e chutada pela onda de pessoas correndo desnorteadas.

A saída do Parque estava trancada, muitas pessoas tentaram escalar o muro e caíam. Tudo de repente era apenas gritos e loucura generalizada no escuro. O que vi ali, nos flashes de luz que não sei de onde vinham, me marcou bastante. É aquele tipo de coisa que não tem como falar sobre aquilo ou escrever sobre aquilo porque não existem palavras capazes de descrever. Apenas quem esteve ali pode saber o que relato. O terror, como ele é frio e intenso, como ele transforma o que somos para sempre.

Eu fiquei um bom tempo parado observando na tentativa de compreender. Queria encontrar meus pais, por isso, observava as pessoas correndo procurando nos rostos desesperados e chorosos os rostos dos meus pais. Acreditava que meu irmão iria voltar e me buscar, não sabia o que estava acontecendo e minha mente estava lenta, o corpo todo mole e anestesiado.
Foi então, depois que as primeiras levas de pessoas correndo passou me empurrando e se entrechocando como um estouro de boiada, que eu vi o que estava causando todo aquele pânico geral.

Primeiro, vi três deles: um com máscara de Hockey e uma motosserra gotejando sangue e urrando seus barulhos assustadores; outro com uma maquiagem fiel de um zumbi carniceiro, ele segurava o que parecia ser pedaço de um couro cabeludo e a mulher que se arrastava tinha as pernas dobradas para trás. Aqueles artistas tinham uma caracterização tão realista que causou o pânico geral.

Eu senti alívio, e depois comecei a rir de colocar as mãos na barriga. Pensei que era a Noite Sombria e de que como o pessoal de Duas Rochas nunca viveu aquilo estava realmente apavorado. A perna que encontramos era apenas um elemento do cenário, então, eu parei de rir, as lágrimas explodindo dos olhos. Pensava: que grande bobagem! E o desespero foi acalmando, tanto que permaneci parado vendo aqueles monstros se aproximarem.

Mais monstros surgiram vindos do Casa do horror e saindo de trás de outros brinquedos. Eles cercaram todo o parque e então as luzes se acenderam sob uma música de parque, algo alegre e sombrio. Um holofote caiu sobre a figura de um palhaço do estilo Pierrot, ele estava se sacodindo de um lado para o outro em cima da roda-gigante, isso mesmo, ela dançava e dava corda numa caixinha surpresa de onde saía um boneco com seu próprio rosto. Lá no alto, não sabia como aquele palhaço conseguia se equilibrar ali. O sorriso negro no rosto branco era escabroso. Ele abriu sua boca e começou a gargalhar, a risada se misturou à música e quando dei por mim, o homem com a fantasia de Jason fazia a motosserra urrar sobre meu ombro.

Era para ser engraçado, era para ser uma encenação, mas ele realmente decepou o meu braço. A motosserra era real assim como o odor de sangue que vinha dela. Eu me lembro de abrir a boca e gritar, mas os sons ao redor eram mais altos e fiquei abafado. Eu tentei correr, o homem decepou o meu braço rapidamente e me segurou pela touca da minha blusa de frio. Instintivamente, coloquei a mão sobre o ombro, eu ainda sentia o meu braço ali, doía demais, mas ele estava fora do meu corpo. Ainda hoje, sentado aqui te contando isso tudo, às vezes sinto a sombra do meu braço aqui comigo, é o que chamam de membro fantasma, eu sempre achei que isso era uma bobagem.

Ele ficou me segurando, a motosserra urrando. Eu não sabia o que pensava naquele momento, os gritos das pessoas eram atordoantes. Eu vi muitas sendo mortas pelo zumbi, devoradas vivas, a mulher tortuosa simplesmente espancava a cabeça das crianças contra o chão, ou contras os potes de iluminação. Havia um homem pequenino que atirava em todo mundo com um arco-e-flecha. O cheiro de sangue se tornou tão forte misturado ao de fezes. Eis que surgiu de dentro da Casa de Horror um cavaleiro sem a cabeça, o cavalo empinava e relinchava com ocos. Cego. Ele corria na direção das pessoas com aquele relincho selvagem e pisoteava e abocanhava.

Foi horrível, um verdadeiro espetáculo de pura carnificina. Não me lembro como me livrei do homem com a motosserra. Ele acabou ficando com minha blusa de frio e eu saí correndo sem saber para onde ir. Vi muita coisa acontecendo à minha volta e toda vez que levantava os olhos na direção do holofote o Pierrot estava lá bailando e gargalhando enquanto a música ecoava.

Eu vi o meu irmão ser pisoteado pelo cavalo do cavaleiro sem a cabeça enquanto tentava escalar o muro, meus pais tinham sido empalados por um homem trajando vestes negras que se locomovia com tamanha rapidez que parecia voar ou se tele transportar, acho que é isso que chamam de vampiro. Uma mulher alta e magra tinha os olhos sangrentos e boca costurada, quando aproximava das pessoas as fazia cometer suicídio, elas paravam de gritar e simplesmente caminhavam e chocavam as cabeças contra o chão ou contra os brinquedos até explodirem.

Não sei o que me salvou naquela noite. Diante o horror do espetáculo que se desenrolava eu corri e me escondi dentro da cabana da mulher que lia o futuro, minha mãe tinha ido lá assim que chegamos ao parque. A cartomante não estava lá quando entrei, eu fiquei metido entre suas coisas, entre seus lenços perfumados, tremendo e chorando. Acho que rezei também, me sentia fraco sem tirar a mão do meu ombro que latejava. Aos poucos, fui perdendo a consciência e me entregando à fraqueza, perdia muito sangue.

Ouvi os ruídos se aproximando, a todo momento pensava “eu vou morrer, vão me encontrar aqui” e temia a forma dolorosa que aconteceria. Mas nenhum daqueles monstros me encontrou, todas pessoas no parque tiveram um fim muito terrível. A música que o Pierrot emanava ficou ecoando na minha cabeça até que perdesse a consciência e ainda hoje acordo em algumas madrugadas me sentindo perturbado e zonzo e escuto ao longe a melodia daquela canção do parque.

Quando o dia amanheceu, eu fui resgatado e levado ao hospital. Fiquei lá por um tempo, acordei como se tivesse saído de um pesadelo depois de alguns dias. Não consegui me lembrar dessa noite com clareza nas primeiras semanas, algo bloqueava a minha memória. Foi com terapias e tratamentos que comecei a resgatar o que aconteceu. Eu sei que a imprensa não acredita na minha versão assim como a polícia porque simplesmente ninguém encontrou a trupe de artistas macabros. Eles inventaram a história dos jovens que planejaram atacar todos ali, os jovens que apodrecem na cadeia, e que estavam ali nas imediações aprontando. Eles que não têm culpa.

Conto a minha história há mais de 10 anos e não acreditam porque não é fácil acreditar nisso, que existem forças malignas agindo no mundo e vão continuar agindo porque não acreditamos, estamos cegos. O que restou da estrutura do parque é maldito. Há dezenas de histórias de crianças e jovens que vão ali brincar e desaparecem. À meia-noite, dizem que podem ouvir a roda-gigante girar e a música ecoar baixinho convidando as pessoas a se aventurarem na noite sombria. Todos os anos, na véspera do Dia das Bruxas, de três a quatro crianças desaparecem naquelas imediações. Para onde vão todas essas crianças?

Ninguém sabe responder, pois o Parque está desativado, entregue ao abandono. Eu ainda posso ouvir a música, em sonhos eu o vejo dançando para lá e para cá em sua fantasia de Pierrot preta e branca. Aqueles não eram artistas fantasiados, entende? Eram monstros reais que estão por aí perambulando, podem estar nos espreitando de algum lugar aqui e agora.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/02/2019
Alterado em 17/02/2019
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