O absurdo
por Larissa Prado
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Abismal
 
 
Frederick sempre foi um homem dedicado à ciência. Desde muito jovem se interessou pelos mistérios do reino animal. Ele se tornou um cientista renomado no meio acadêmico, apesar de lecionar para muitas turmas e ocupar cadeiras importantes em instituições de ensino superior, sua grande paixão sempre foi a pesquisa. Frederick era o tipo de homem prático, pouco teórico e seguia firmemente o ditado “é preciso ver para crer”. O seu radical ceticismo legou a ele sua fama de ateísta, algo que Frederick nunca contestou.

No último ano do seu fracassado casamento, sua esposa Marie procurou a polícia e registrou o desaparecimento de Frederick. Eles estavam em processo de divórcio, mesmo assim a mulher nutria grande estima pelo marido. Para os policiais que a atenderam, Marie relatou que Frederick era movido pelo seu trabalho e espírito investigativo e temia que ele pudesse ter ido longe demais por conta disso.

Os policiais anotaram tudo o que Marie lhes repassou como características físicas. Em meados dos anos 50 o hábito de fotografar não era tão comum e o próprio Frederick não gostava de fotos, a que Marie levou estava desfocada e distante, não mostrava detalhes do rosto do homem. Além das descrições físicas, Marie forneceu o destino para onde ele viajara há 2 semanas e os detalhes da sua pesquisa sobre insetos raros que viviam na Ilha de Cramp. Assim, uma equipe de 4 policiais se deslocou até a região litorânea da cidade para tomar o barco que levaria à Ilha próxima dali.

Quando pisou na areia do lugar, Lionel sentiu que aquela busca seria vã. O policial olhou em volta enquanto seus colegas caminhavam em direção às comunidades ribeirinhas que viviam ali. Os poucos moradores de Cramp eram pessoas simples e de certa forma retrogradas, isoladas naquela ilha não mantinham contato com a cidade do outro lado do rio. A verdade é que não gostavam das pessoas de lá, isso fez com que os policiais tivessem dificuldade em fazer suas perguntas. Muitos moradores batiam as portas das casas assim que percebiam a presença dos homens de farda. A comunidade sobrevivia basicamente da pesca, alguns pescadores se mostraram mais abertos, mesmo assim, não sabiam nada sobre o professor e biólogo Frederick.

Lionel, então, encontrou um homem que tinha guiado o professor rio acima levando-a até uma das regiões mais isoladas da floresta que cobria toda ilha. O guia aceitou levar os quatro policiais até lá por uma boa quantia, durante o trajeto implorou inúmeras vezes para que os homens não olhassem para o fundo das águas. Contrariando as advertências, Lionel e o colega, Batista, encararam a superfície da água por todo caminho trocando cochichos desdenhosos sobre a crença folclórica local de que havia uma força antiga e terrível vivendo naquelas águas e mata.

Ao descer no local indicado pelo guia, Lionel sentiu-se zonzo e expeliu seu almoço próximo ao barco, Batista não sentia nenhum tipo de efeito e ajudou o colega a se recompor. “Não estou acostumado a andar de barco” tentou justificar Lionel para o líder da busca que o ignorou e seguiu adiante atrás do guia.

O guia levou o grupo até a entrada da mata por onde Frederick passara e informou que o professor havia se hospedado numa das cabanas próximas ao local onde alguns turistas e estudiosos ficavam, e teria passado uma noite saindo durante a madrugada para acampar na mata. O grupo se separou, Lionel e Batista foram investigar a cabana onde estavam os pertences de Frederick e o líder do grupo e outro policial se aventuraram pela mata ignorando todos alertas do guia para não seguirem nenhum tipo assobio ou chamado. Lionel sentiu arrepios percorrerem seu corpo quando o homem mirrado de aspecto adoentado e sombrio disse.

“Há uma força oculta nessa mata, ela não gosta de seres humanos e pode deixar um homem louco ao ponto de se pendurar no galho mais alto da floresta e se jogar de lá aos risos. Muitos que entraram aí nunca mais saíram, eu diria que ninguém saiu da mata para contar o que viu. Mas a gente aqui de fora escuta ela sussurrando durante à noite e a superfície do rio vibra como se levasse as ondas sonoras pela ilha”.

O líder do grupo, um homem de semblante rígido e grosseiro, assentiu aquelas palavras e seguiu adiante com seu subordinado que aparentava um certo pânico no jeito de olhar em volta. Lionel sentiu-se grato por não precisar entrar naquela mata fechada e escura, mas temia pelos colegas mesmo que não fosse simpático do seu chefe. Ele e Batista seguiram os passos do guia que os deixou na cabana de Frederick.

Depois que o pequeno ribeirinho os deixou a sós na vila de cabanas, Batista saiu pelas ruas de terra verificando pistas sobre o professor enquanto Lionel permaneceu na cabana recolhendo os pertences de Frederick. Ele tinha acabado de colocar luvas grossas para manusear as pistas quando escutou um ruído alto espalhando-se pelo céu. Lionel correu até a única janela da cabana, escondida por uma cortina fina e maltrapilha, dali ele tinha a vista das árvores negras que cobriam toda a mata. O ruído se parecia com um urro de lobo, mas ali não haviam lobos, ele sentiu o suor frio brotar na testa e temeu pelos colegas embrenhados naquele lugar agourento de árvores que pareciam se mover.

Lionel continuou reunindo os pertences espalhados de Frederick, o homem era bem organizado, suas anotações estavam protegidas dentro de uma pasta sobre a cama, havia um prato de barro com restos de um guisado malcheiroso feito com pedaços de peixes. O estômago de Lionel embrulhou e ele quase vomitou de novo. Respirou fundo e sentou-se na cama de colchão fino e desconfortável. O lugar era muito úmido e tinha um odor estranho de lodo e algas como se fosse um enorme aquário sujo. Enquanto Batista não retornava, Lionel se pôs a ler as anotações de Frederick. Eram as melhores pistas sobre o professor que teriam até o momento.
 
  
1º dia:

Há lugares que nem o sol nem Deus alcançam. Assim percebi que estava em um desses lugares quando viajei até essa região insular conhecida como Ilha Cramp. As pessoas que moram aqui me contaram muitas histórias horríveis sobre o lugar, disseram que a noite nunca tem fim. E é verdade, desde que adentrei a encosta da ilha noto que o sol não consegue alcançar o lugar o que torna tudo meio úmido. Creio que é por causa da enorme quantidade de árvores gigantes que formam a floresta do lugar, elas criaram uma espécie de teto sobre a comunidade local impedindo os raios solares de atingirem a terra.

O povo daqui é do tipo supersticioso e temeroso. Contam histórias sobre forças sombrias que mantém as águas que cortam a floresta envenenadas, a mata engole e mastiga aqueles que se atrevem a entrar. Eu deixo aqui registrado a minha primeira visita ao interior da mata e o fato de ter saído de lá com vida.

Há muito temor por parte das pessoas ignorantes, infelizmente, ainda existem comunidades inteiras guiadas por crenças absurdas e infundadas sobre deuses e forças do Além. Eu vim com o propósito de colher amostras dos insetos mais venenos e raros não catalogados, mas quem sabe poderei provar a essas pessoas que nada aqui é resultado do poder de forças ocultas, quem sabe irei embora depois de ter trazido um pouco da sabedoria científica para essas pobres almas apavoradas e adoecidas.

O acesso para dentro da mata é muito difícil, cansativo, ainda mais por não ter um encontrado ninguém disposto a me guiar pelas trilhas certas. Acabei me perdendo muitas vezes e por um momento quase acreditei que estava perdido, mas as minhas marcações me ajudaram a encontrar a saída.

A primeira visita foi apenas um reconhecimento do terreno no qual iria acampar no dia seguinte. Vasculhei boa parte da mata até encontrar uma pequena clareira ideal para montar minha barraca. Plantas com flores exóticas e odoríferas espalham-se por esse lugar o que me ajudará a capturar muitas amostras dos insetos que vim estudar, pois eles são atraídos pelo odor forte de flores como essas. Zangões gigantes e vespas minúsculas, dois tipos de insetos que não tiveram a oportunidade de capturar para estudos. Estou tão excitado com essa perspectiva que não conseguirei dormir.

Não é só por causa da minha ansiedade, mas os ruídos que a floresta emite são incômodos e não sei qual é a origem de tais berros. Além dos insetos posso sair dessa expedição com outras espécies raras de pássaros, pois, os ruídos que escuto nunca ouvi antes em qualquer tipo de animal. Parecem berros humanos, mas há aves que podem vocalizar como seres humanos. Estou cada vez mais intrigado e parei de escrever várias vezes para tentar prestar atenção nos ecos que sobem da mata ao lado da cabana.
 
  
2º dia:
 
Durante a madrugada algo curioso aconteceu. Não sou um homem de grande imaginação, reconheço que pouco consigo fantasiar, a minha mente nunca foi impressionável devido a isso talvez não tenha sonhado muito durante a vida. Alguns psicanalistas sugerem que sempre sonhamos embora raramente nos lembremos com exatidão sobre os sonhos. Outros garantem que nossa alma se desliga da matéria nos perídios de repouso completa e vaga por dimensões ocultas dentro do nosso mundo real.

Nunca fui adepto desses tipos de perspectivas. Na minha forma de compreender os sonhos eles não passam das regiões psíquicas criando suas ilusões, é apenas a mente trabalhando. Aqueles dotados de grande sensibilidade imaginativa conseguem ir mais longe em sonhos e o fazem com frequência. Portanto, sonhos nunca foram frequentes na minha vida. O meu sono sempre foi tranquilo e minha alma – caso haja realmente uma – se manteve quieta e aprisionada ao meu corpo. Porém, nessa madrugada eu experimentei algo inédito assim que fechei os olhos.

Os ruídos que ecoavam da mata se prolongaram madrugada adentro e me proporcionaram um exercício imaginativo peculiar. Fechei os olhos e tentei imaginar quais animais estariam emitindo tais ruídos, muitas formas se delinearam em minha mente e logo cai num sono profundo com a cabeça envolta em projeções do que vivia ali na floresta.

Em dado momento, despertei assustado. Não me lembro o que havia me causado tamanho susto, então, sentei na cama e tentei reordenar minhas ideias. Por um breve momento, procurei nesse pequeno quarto úmido e superaquecido por minhas estantes e escrivaninha até perceber que esse local não era minha casa. A minha mente estava confusa e minha visão me traía porque vislumbrei um vulto me encarando pela janela. As finas cortinas de algodão se moviam ao sabor de uma brisa molhada.

Sem os meus óculos de grau não podia enxergar com clareza, aquele vulto poderia ser apenas a projeção de alguma árvore, afinal minha cabana estava logo ao lado da mata. Ao esticar o braço e procurar meus óculos que deixei ao lado do travesseiro, aquela silhueta se moveu desaparecendo da janela. Não encontrei os óculos, curioso e instigado por aquela imagem sai da cama mesmo sem enxergar direito e fui checar o lado de fora da cabana.

É preciso explicar como funciona essa pequena comunidade de nativos. Eles alugam cabanas de dois cômodos, - com um quarto e um banheiro – para pessoas que precisam se hospedar nesse fim de mundo, pessoas como eu que pesquisam árvores e animais nativas, pessoas que gostam de turismo sobrenatural, pois há várias lendas sobre a Ilha e de vez em quando o pessoal do governo também fiscaliza a manutenção do ambiente. Há pelo menos quatro pontos de hospedagens pela ilha que não é tão grande, e podemos encontrar lanchonetes e restaurantes entre as cabanas, além de lojas que vendem as muambas feitas pelos moradores locais. Todos se recolhem assim que a noite chega, a iluminação precária vem apenas de lampiões a gás espalhados pelas varandas das cabanas.

Não teria qualquer chance de ter alguma pessoa perambulando pela vila aquela hora da madrugada. Eu não vi ninguém quando sai da minha cabana. Olhei na direção da mata, o silêncio absoluto me causava certo incômodo porque antes os ruídos estranhos me fizeram dormir e agora não podia escutar mais nada.

Andei em volta da cabana, e por um momento julguei ter visto a silhueta se esgueirar para dentro da mata. Sem perder tempo eu segui o vulto, meus olhos apertados tentavam enxergar e definir quem era aquele, depois de dois dias no lugar e pelo número reduzido de habitantes, poderia adivinhar quais deles era aquele aventureiro noturno. Porém, não dava para enxergar nada direito, assim me arrisquei em continuar andando para dentro da mata o que em outras circunstâncias não teria feito.

Foi então que de uma maneira inexplicável parte de mim sabia que estava sonhando a partir daquela atitude impensada de continuar andando pela mata, descalço e sem óculos de grau. Então, continuei seguindo o vulto, era apenas uma sombra que se movia ora com rapidez e ora com uma lentidão incomum que me impedia de aproximar. Eu senti medo de chegar perto enquanto a sombra permanecia parada ou em movimento lento.

Ela me levou por trilhas ocultas, caminhamos por longo tempo até que ouvi os ruídos peculiares de novo. Eles ecoavam por todos os lados sem ter qualquer ponto de origem definido. Parei e olhei em volta, milhares de olhos se escondiam por trás das árvores, uma luminosidade esbranquiçada cobria os globos oculares sem pálpebras. Do solo da floresta erguia-se uma densa neblina esverdeada e tóxica. A crise de tosse me fez curvar o corpo e levar as mãos até a garganta, por um momento achei que estava morrendo asfixiado, então, perdi a consciência.
 
 
3º dia:

Quando acordei estava deitado na minha cama e meu óculos machucava meu rosto. O sonho que tive foi tão real que notei lama nas solas dos meus pés. Seria um episódio de sonambulismo? Nunca sofri com nada disso.

A ideia era acampar essa manhã, mas me sinto muito debilitado. Meus pés doem e meu corpo todo está tremendo. Com muito esforço vou até um lanche perto da minha cabana e tomei um café sem açúcar na intenção de recuperar a energia. Assim que ele bateu no estômago precisei expelir tudo de volta. Minha boca queimava minhas entranhas ardiam.

Corri de volta para minha cabana e daqui não sai mais. Decidi dormir o dia inteiro e talvez amanhã me sinta melhor para acampar e começar o que vim fazer aqui. Creio que o tempo úmido e a comida local – de péssima qualidade e feita em péssimas condições sanitárias – tenham me deixado indisposto. Boas horas de sono e repouso me fariam bem.

Apesar dos mosquitos zunindo em minha cabana e dos ruídos que as pessoas faziam do lado de fora consegui cair no sono assim que deitei. Para meu grande assombro, acordei assustado sem entender a origem do meu susto de novo e ao sentar na cama, observei a silhueta na janela como aconteceu na noite passada.

Isso é um pesadelo recorrente, evitei sair da cabana para não obedecer aos padrões da minha mente cansada, mesmo assim sai da cama e segui o vulto. Foi uma experiência muito desesperadora porque fazia isso contra minha vontade, o meu corpo não me pertencia, eu estava sendo guiado por uma força poderosa externa como uma marionete que ganha vida quando o titereiro domina as cordas.

O vulto não me levou pela mata e, sim, guiou os meus passos de volta para o rio onde o barco me deixou. Olhei fixamente para a superfície da água, uma forma alongada serpenteou lá embaixo, a sombra de uma cobra gigante, talvez, o animal deslizou por um tempo e de repente eu fui tragado pelas águas que se abriram num movimento tsunâmico.

Continuo acordando na minha cama e refazendo os trajetos à noite para a mata ou para o fundo das águas onde esconde-se parte de uma criatura magnânima. Continuarei escrevendo nessas páginas enquanto o policial está segurando e passando os olhos espantados por elas. Preso em outro tipo de realidade, ele joga o diário para longe...

Fuja Lionel, como sei seu nome? De repente eu sei sobre tudo.
 
***
 
Lionel lançou as notas para longe quando percebeu que as últimas mensagens apareciam à medida que seus olhos percorriam as folhas. Batista abriu a porta num rompante e Lionel estava branco.

“Vamos Lionel! Precisam de nós!”

Batista estava om o revolver fora do coldre e saiu correndo em direção à mata, Lionel demorou a se mover, os olhos fixos nas anotações ainda podiam ver as palavras surgindo como um truque de mágica.

Ele seguiu o colega para adverti-lo sobre o perigo que estava correndo e viu apenas a silhueta de Batista se embrenhando pela mata. Lionel tentou gritar por ele, mas o colega ignorou o chamado. Ele parou próximo da mata e ficou ouvindo os ruídos estranhos elevando-se. Assim como Frederick havia registrado, pareciam berros humanos, mas ao mesmo tempo havia um tom gutural que nunca ouviu antes na vida como se fossem criaturas de outro tempo e espaço.

Lionel girou nos calcanhares e correu de volta para o barco, porém, a margem do rio estava deserta. A comunidade ribeirinha não existia ali, ele se deu conta que tinha corrido para o lado errado. Começou a gritar por ajuda, seus ecos se elevaram fazendo os berros da mata silenciarem. Lionel também parou de gritar porque aquele silêncio agourento parecia anunciar que os berros tinham parado apenas para saber de onde ele gritava.

As copas das árvores se moveram discretamente, movido por pânico Lionel se lançou nas águas do rio tentando fugir para longe da floresta. Ele continuou entrando na água até que seus passos deixaram de tocar o solo. Uma força esmagadora o puxou para baixo como um vácuo e a primeira coisa que Lionel viu ao abrir os olhos embaixo d’água foi o corpo de Frederick inchado e decomposto, ele morreu sorrindo sonhadoramente.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 01/01/2019
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