O absurdo
por Larissa Prado
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Corredor vermelho
 
 
Um monstro foi criado em minha cabeça se alimentando pouco a pouco da minha imaginação para se tornar mais forte e maior. Ellen sussurrava perto da minha cabeceira quase todas as noites “Não vá ao corredor, não importa o que escute, não saia da cama. Tem um monstro à espreita. Você sabe o que significa ‘à espreita’, Rebeca?” com a coberta cobrindo parte do meu rosto sacudia a cabeça em uma negativa. Eu tinha 9 anos e não sabia muito ainda sobre palavras e expressões. Eu me sentia um pouco burra por isso. Ellen continuava “Significa de olho em você às escondidas, observando você quando você não consegue vê-lo. É isso, querida, tem um monstro lá no corredor de olhos grandes e maldosos esperando só você abrir a porta e dar o primeiro passo caso escute algo.”

Ellen casou com meu pai assim que minha mãe morreu. Ela sofreu um acidente e a tampa do caixão não pôde ficar aberta porque meu pai dizia que ela estava “desfigurada”, e eu entendi isso como “sem figura, sem forma”, minha mãe tinha virado um nada e talvez nem estivesse dentro do caixão mesmo, era o que pensava. Talvez tinha se fundido às ferragens e ido embora com seu carro para o ferro-velho. A imaginação de uma criança é fascinante e aterrorizante.

Ellen era jovem, parecia bastante com as garotas que cuidavam de mim quando ainda usava fraldas. Meu pai dizia que ela gostava muito de mim, enfatizando o MUITO para que eu pudesse entender a intensidade daquele carinho. Mas era mentira, o meu pai era uma mentira assim como Ellen e tudo que veio depois da morte da minha mãe. Eu mesma me sentia uma impostora, a única coisa real era o corredor à noite.

Pela fresta da porta eu via a luminosidade avermelhada me chamando em sussurros. Olhos à espreita cheios de maldade, minhas pernas tremiam e quase me projetavam para fora da cama. Por curiosidade e por causa da voz de meu pai ecoando em urros abafados. Não sabia o que acontecia, mas ele gemia alto como se estivesse afogando, não era toda noite, mas começou a ser frequente.

Ellen me colocava para dormir, sussurrava coisas assustadoras e enigmáticas sempre me lembrando para não sair do quarto e sumia para então começarem os gemidos de papai. Ele não veio mais me colocar para dormir e não o via pela casa ou na mesa na hora das refeições. Eu ainda não sabia que Ellen estava o matando pouco a pouco. Meu pai morreu em cima da cama sendo torturado quase todas as noites por aqueles olhos maldosos que espreitavam do corredor.

O caixão ficou aberto, mas o rosto de papai era azul e feio, meio torto e com olhos murchos. A imagem da sua face morta nunca mais saiu da minha cabeça, mas foram os olhos de Ellen por cima do caixão que me afetaram de forma definitiva porque eram os olhos da coisa no corredor vermelho. Ela era uma espécie de besta em pele de mulher. Não preciso dizer que tudo que matou meu pai por causa do dinheiro, havia um seguro que ela receberia se ele morresse. Ellen me largou na casa da minha avó e desapareceu, eu e vovó vivemos numa dificuldade alarmante. E na casa dela havia o corredor dos quartos. Mesmo após os 16 anos eu ainda temia olhar pela fresta do quarto porque a luminosidade vermelha refletia em certas madrugadas insones e podia ouvir a voz de Ellen em meus ouvidos “Não vá ao corredor”.

O tempo seguiu adiante, vovó também morreu e o caixão ficou aberto, ela não parecia tão azul quanto meu pai, até porque vovó morreu de velhice ou causas naturais como costumam chamar. Então, a lividez do seu rosto parecia mais humana, ela estava serena e sorria como se anjos a carregassem para as nuvens. A lembrança do meu pai era de um semblante de agonia e raiva, seus lábios rijos se curvaram para baixo como se antes de morrer ele chorasse. Obcequei pela ideia da morte, eu gosto de acompanhar funerais de pessoas desconhecidas, velórios para ver os rostos no caixão, os mortos também choram e sorriem dependendo das horas que antecedem suas horas finais. O que uma pessoa vê antes de ir embora do corpo? Deus? Anjos? Um túnel de luz? A vida inteira? Os olhos maldosos do corredor vermelho? O nada?

Não estava nos meus planos um casamento, mas nossos caminhos correm à frente e seguimos por eles sem controle dos nossos passos. Conheci Herman quando cursava medicina, o meu objetivo era me tornar médica-legista. A fascinação pela morte me levou por essa trilha. Herman sempre gostou de crianças e elas o adoravam, por isso, sua trilha o levou à pediatria. A vida com ele era boa, mas eu desisti do curso quando estava quase concluindo.

Durante as aulas de anatomia, podia ouvir os cadáveres, muitos deles tinham sorrisos nos lábios, mas não eram do tipo que eu me lembrava de ver no rosto morto da minha avó. Eram sorrisos maus. Toda vez que precisava cruzar o corredor para a sala de anatomia podia ver a luminosidade vermelha se alongar à frente como se as luzes piscassem ofuscadas por um celofane vermelho. A vermelhidão despertava sentimentos ruins dentro de mim como raiva, angústia, medo.

Abandonei o curso porque não suportava mais ouvir os cochichos debochados daqueles mortos “Não saia por aquela porta, Rebecca”, diziam, “aconteça o que acontecer, fique conosco”. Herman nunca pôde compreender o que me levou a desistir da profissão, mas não me pressionou a falar sobre isso porque quando eu me fechava ninguém conseguiria me fazer abrir.

Os anos passaram e eu envelheci na frustração que se tornara a minha vida, a loucura foi se instalando aos poucos. Mudamos de endereço muitas vezes até encontrar uma casa que não tinha corredor. Não funcionou porque monstros vivem dentro de nossa cabeça, não fora dela. Mesmo sem um corredor em casa, durante os meus sonhos eu era transportada para o corredor longo e vermelho em que olhos me espreitavam no fim por uma porta aberta onde só havia escuridão.

Cada vez que aparecia no corredor dentro dos sonhos eu estava um passo mais perto da porta, não queria mais dormir para não sonhar e me mantive acordada por muitos dias. Isso me debilitou, me tornei arredia e adoentada. Herman ficava pouco em casa, ele tinha uma amante, mas não me importava. Imaginava sua amante com longos cabelos negros e talvez se chamasse Ellen. Não tinha relevância, Herman podia sair com quem quisesse desde que eu nunca mais voltasse ao corredor vermelho.

Ele viajou durante suas férias deixando uma enfermeira para cuidar de mim, apesar de tudo Herman se mostrava preocupado, temendo quem sabe ser acusado de negligenciar a esposa enlouquecida. O sono me vencia e eu dormia por algumas horas, mas nada de sonhos, nada de visitas ao corredor. Até que me entreguei e dormi por várias horas seguidas, quando acordei me senti reabilitada. A cabeça arejada e os pensamentos claros.

A minha enfermeira se chamava Yara, ela era pequena e tinha mãos fortes, se parecia muito com uma mãe. Não com a minha mãe, mas com mães no geral porque ela me tratava de forma maternal. Eu atravessei a sala procurando-a, à medida que caminhei para os fundos notei que a superfície da piscina balançava.

O corpo de Yara estava flutuando deixando um rastro vermelho na água, sua cabeça pintava aquela vermelhidão. Eu me virei e vi um extenso e vermelho corredor logo atrás de mim. Estava presa em um sonho, era isso. Tentei gritar, mas não saiu voz alguma. A voz de Herman ecoava ao longe, ele de repente apareceu segurando minha mão, olhei para um martelo que segurava. Nada fazia sentido. Herman cochichava numa voz que se parecia como a de Ellen “o que você fez? O que foi que você fez?”.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 30/12/2018
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