O absurdo
por Larissa Prado
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Joe não está mais sozinho

 
 
Entre todas as crianças na escola, Joe sempre se sentia o mais sozinho. Quando precisava atravessar o pátio e sair pela porta indo direto para o ponto de ônibus, ele ficava pensando se no mundo haveria garoto mais solitário. E sempre chegava à conclusão que não haveria. Era ele, o menino mais sozinho. Enquanto as outras crianças corriam para os braços dos pais ou para as vans escolares estacionadas do lado de fora, Joe se condoía da sua infelicidade por tamanha solidão.

Ele completara 9 anos e o mundo se tornava cada vez pior, mais vazio e sua solidão crescia acompanhando sua altura. Era como se ele precisasse se tornar maior para que coubesse todo aquele sentimento estranho de deslocamento. Joe perdeu a mãe assim que nasceu, acreditava que os dois não poderiam ter existido no mundo simultaneamente, por isso, Deus ou algo parecido a Ele levou a mãe embora e lhe permitiu viver. O pai, não conhecia, ninguém falava dele. Talvez Joe tivesse caído do céu ou brotado da terra, não conseguia se ligar à figura materna exposta em fotos pela casa do avô, muito menos pensar em como seria a figura paterna. Ele não tinha referenciais e se debruçava sobre o humor irritadiço do avô para moldar sua própria personalidade arredia, impaciente e muito ranzinza para uma criança.

Ao seu modo o avô de Joe tentava cria-lo da melhor maneira. Um senhor que tinha muito dinheiro e não sabia como gastá-lo, cercava o garoto com os melhores brinquedos, fazia todas as suas vontades, ainda assim, Joe não tirava do rosto aquele ar de melancolia, um arquear de sobrancelhas desconfiado e arrogante. Muitas vezes, Joe lamentava à mesa do café-da-manhã, “Eu queria ter amigos, vô. Uma dúzia deles! Todos os meus brinquedos podiam se tornar reais, meus amigos de verdade”. O avô repreendia o garoto dizendo “Não seja tolo, Joe, quem é que precisa de amigos? Nós temos dinheiro e podemos comprar o que quisermos. As pessoas são dispensáveis.”

Joe não sabia o que significava “dispensável” e por isso não ligou para o que o avô disse, raramente ele o escutava. O avô tinha um jeito esquisito de falar, usando palavras que não existem no dicionário. Joe corria ao dicionário sempre que o avô falava, mas não encontrava as palavras. Talvez, ele ouvisse errado ou o dicionário também fosse “dispensável”.

Quando chegava a época do Natal, Joe se sentia mais desolado. A mulher que trabalhava para seu avô decorava usando os velhos enfeites de todos os anos e deixava preparada a comida. A noite chegava e Joe estava arrumado, sentado à frente do avô na mesa com as mãos juntas e olhos fechados enquanto o homem fazia uma oração longa demais. Joe espiava o avô pela fresta de um olho, desejava que ele desaparecesse, que a casa se enchesse de pessoas diferentes. Ele não compreendia porque sentia tanta raiva e desgosto em relação ao homem que cuidava dele desde que era um bebê.

“Acho que é o jeito que a dentadura dele fica se mexendo na boca”, Joe pensava. “Ou, é a voz dele muito alta e rouca, me assusta sempre que fala de repente.”. O avô, por sua vez, também nutria por Joe certa antipatia, como se culpasse o menino pela morte da filha. Os dois diziam “Amém” e se serviam. Joe sabia se servir desde cedo, mesmo que sujasse a mesa, ele enchia a colher de arroz, e cortava seu próprio pedaço de pernil. Oferecia ao avô que aceitava em silêncio. Eles mastigavam, condenados ao som da própria mastigação.

O avô havia presenteado Joe com dois bonecos grandes de cowboy, sabia que o menino estava na sua fase de Velho Oeste. Os bonecos seguravam armas e estavam sobre cavalos. Joe fez questão de fazer sua refeição com os presentes sobre a mesa. O avô desistira de chamar atenção do menino para não levar seus brinquedos para a mesa. Olhava, cabisbaixo, os bonecos, incomodado. A dentadura que incomodava Joe fazendo aquele movimento estranho toda vez que ele levava os talhares até os lábios.
 
Joe, que sempre teve o hábito de engolir a comida para fugir da mesa, pegou os bonecos e deixou o avô sozinho na mesa. Ele se refugiou próximo à pequena árvore de natal na sala, sentou-se no chão e ficou simulando uma luta entre seus novos bonecos.

Uma brisa suave bagunçou os cabelos de Joe, ele levantou os olhos para a janela da sala que permanecia fechada. O garoto deixou os bonecos no chão e ficou paralisado, sentindo a paralisia do medo.

- O que você quer essa noite, Joe?

Uma voz ecoou como se circulasse pela sala junto à brisa. A boca de Joe estava seca, ele não conseguia falar. Lançou olhares para o avô na cozinha, mas o homem parecia preso em outro tipo de plano material, longe demais para que Joe pudesse chamar.

- Eu... – Joe não encontrava as palavras até que a voz acariciou seu rosto com dedos frios de vento.

- O que você mais que na vida, Joe?

O menino fechou os olhos se sentindo sonolento.

- Eu quero ter amigos. Não quero mais ser sozinho.

Joe achou que estivesse dormindo porque foi difícil abrir os olhos e seu corpo estava jogado no tapete da sala, a brisa passara, a voz silenciou. Ele estava sonhando, era isso, o sonho veio e o fez ir embora. Precisou se esforçar para se sentar.

Joe olhou em volta, seus bonecos não estavam ali. Talvez tivesse sonhado com aquilo também, o avô não lhe presenteara com nada ainda. Talvez nem fosse natal mesmo, mas ele olhou a árvore enfeitada atrás de si, o pisca-pisca fazia sua visão se tornar meio embaçada.

O garoto levantou, as pernas pareciam moles, ele olhou para a cozinha, a cadeira que o avô sentava estava tombada. Ele correu até lá, manchas de sangue pintavam o assoalho da cozinha, o prato com uma refeição pela metade, o que parecia ser pedaços de cérebro decoravam a geladeira que ficava atrás da mesa. O corpo do avô estava caído na porta entreaberta que o levava para o quintal. Joe demorou a se conectar à cena, para ele tudo ainda fazia parte de um sonho ruim.

Havia um rastro de sangue que guiava o corpo do avô até a porta, ele tentou se salvar. Joe não se aproximou, não conseguia chegar perto do amontoado de agasalhos que se tornara seu avô.

“A cabeça dele...” Joe pensava, “está esquisita, amassada, incompleta”, ele avaliava de longe.

- JOE.

Uma voz ecoou vinda da sala. O garoto se virou de súbito, a cabecinha do seu boneco cowboy aparecia, escondido atrás de um dos sofás.

- JOE, vem cá! Ele vai acabar te encontrando!

O garoto correu, a sensação de irrealidade o fez cair algumas vezes, suas pernas pareciam não ter pés para sustenta-lo. Ele se jogou atrás do sofá e ficou olhando o boneco de 15 cm, lustrando seu revólver de vaqueiro.

- Você... – Joe estava com a voz trêmula – Você matou o meu avô?

- Eu? Não, garoto, foi o sacana do Cabeça Raspada. Vamos esperar aqui.

“Cabeça Raspada?” Joe pensou, era esse o nome que dera ao outro boneco cowboy que o avô lhe dera. Seria possível?

Ele escutou passos descendo a escada, o som dos ruídos lembrava a Joe botas pesadas de vaqueiro. Então, uma voz rouca, muito parecida com a do avô retumbou pela sala, fazendo até mesmo uma das bolas da árvore de natal cair.

- Seu grande covarde, eu sei onde você está!

O tiro ricocheteou na parede acima do sofá, Joe correu seguindo os passos do seu boneco, envolvido na trama esquecia-se do avô alvejado na cozinha. Tomado por uma emoção que nunca havia sentido, Joe confabulou com o boneco e foi encontrar Cabeça Raspada para um acordo. Quando, com as mãos para o alto em sinal de rendição, aproximou da escada notou que lá em cima no corredor dos quartos, vários olhos reluziam fitando aquele impasse. Uma dezena de vozes cochichavam, todos seus brinquedos eram testemunhas do que aconteceria ali. Joe sorriu, não se sentia mais sozinho. Ele fazia parte de algo, finalmente. E aquele seria o melhor Natal da sua vida.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 10/12/2018
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