O absurdo
por Larissa Prado
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Amanhã não estarei aqui


Eu vejo o peito de Samuel palpitando embaixo da fina camisa social. Ele vestiu a melhor roupa para esse encontro. Está pulsando e pulsando enquanto ameaço esticar os lábios para beijar sua boca. Não existe beijo nenhum porque eu fico hipnotizada pela música que o homem no violão começa a tocar: Hotel Califórnia. Posso ouvir essa música quinhentas vezes que vai ser emocionante.

Sou transportada para o hall do Hotel Califórnia e vejo vultos perambulando com seus carrinhos de malas, de mãos dadas, solitários, o elevador descendo e subindo como meu estado emocional. Samuel continua esperando, me olhando de lado, remexendo o copo de suco de abacaxi com hortelã, constrangido, meio sem saber o que dizer. Eu viro o meu copo de cerveja que está tão gelada que adormece a garganta.

“- Nunca mais vou beber álcool”, ele repete o que me disse assim que sentamos.

Eu dou de ombros, já sei sobre o problema no fígado que deixou ele meio amarelado. Samuel adora falar sobre problemas de saúde, viagens para o interior do país, o amor eterno dos pais. Entediante. Só existe Hotel Califórnia na voz do homem na penumbra com o violão em primeiro plano se destacando como se fosse a única coisa real em todo bar.

A noite para nós termina junto com a música. Levanto, vou ao banheiro e quase deixo a urina escorrer pelas pernas enquanto a mulher está na cabine do banheiro vomitando. A cabine ao lado é impossível usar, e a fila está grande. Saio, caminho meio torta, Samuel está em pé, a testa dele quase encosta no meu queixo. Ele é bem pequeno e parece menor a cada aniversário de namoro. Ele me lembra uma fuinha, os cabelos são sebosos, vejo caspas descendo por seu pescoço como animais microscópicos.

“- Nem consegui mijar”

“- Mijar é feio, odeio quando fala assim.”

“- Fazer xixi é melhor?”

“- Sei lá.”

Saímos. Continuo tentando focar a atenção em outra coisa, esquecer o xixi, ou urina, ou mijo, quase arrebentando a bexiga. A minha aliança de compromisso reluz no breu do interior do carro, quase me cega. Continuo ouvindo a letra de Hotel Califórnia e Samuel está tirando o carro da vaga. Nervoso por causa da baliza. Ele xinga quem o fechou, ele está vermelho no pescoço. Eu toco seu ombro, sem carinho, é só uma mão em um ombro que se tornou estranho.

O trajeto para nossa casa é silencioso.

“- Estou com dor de cabeça”, Samuel desliga o som. Eu estava ouvindo Led Zeppelin. Ele odeia rock n roll, deixou isso claro no primeiro encontro há 7 anos.

Eu dou de ombros, quero fumar, mas Samuel não deixa mais. Fico balançando as pernas como se o xixi fosse o maior problema da minha vida. Cruzo bem, aperto as coxas. Nunca mais transamos. Samuel vive cansado, fatigado, chateado e amarelado. Ele me detesta, eu acho.

Em casa, nosso vira-lata acorda e vem espreguiçando para Samuel, ele passa direto. Eu dou atenção ao nosso pequeno Bobby e logo vou vestir o pijama velho, folgado, desbotado. Não ligo, eu estou tão desgastada quanto as minhas roupas. Não tiro a maquiagem do rosto, quando acordar vou estar manchada, não importa.

Samuel deita, a cueca samba-canção mostra parte da sua bunda peluda e murcha. Ele fica um tempo arrotando para dentro e diz que está com azia. Eu jogo uma pastilha para ele que fica na cabeceira da cama. Ele nem liga, a pastilha fica entre nós como o Muro de Berlim. Eu me viro, a fatiga dele está em mim, a preguiça dele sou eu.

Aperto o travesseiro, espero Samuel deitar e se acomodar com o tapa-olho, ele não consegue dormir com nenhuma luminosidade. Sento na cama como faço quase todas noites nos últimos 5 anos, seguro o travesseiro e ensaio: coloco perto do rosto dele.

Nos filmes é fácil, rápido, indolor. Volto atrás, cubro a minha cabeça com o travesseiro e aperto até me debater, o ar se torna rarefeito embaixo do universo do travesseiro. Não posso largar, não posso largar agora. Hotel Califórnia me espera resplandecente, amarelado à luz do sol como a pele de Samuel. Vários rostos sorriem para mim, piscinas de cerveja me aguardam com homens para massagear meus pés cansados.

Tiro o travesseiro, a boca arreganhada procurando o ar. Samuel está roncando e seus ruídos me invadem como um gigante de pedra embaixo do solo do planeta. Eu corro para o armário e me tranco abraçada às malas que há dias escondo. Fico sussurrando para mim mesma enquanto o ronco dele preenche todo quarto: de alguma forma amanhã não estarei aqui, amanhã não estarei aqui.
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/11/2018
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