O absurdo
por Larissa Prado
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Caminhante dos sonhos


 
Tudo o que vemos ou transparecemos
É nada além de um sonho dentro de um sonho.
(Edgar Allan Poe)

 
 
6:00

A minha pulsação descontrolada mostra que estava presa num pesadelo. E não consigo me lembrar o que era. Enquanto fico sentada na cama, o suor frio emplastra os cabelos, o quarto volta aos poucos para suas formas reais.
Onde estive quando meu corpo se desligou da materialidade?

Um cheiro diferente está enchendo o quarto, ligo o abajur na cabeceira e me surpreendo com as costas de Paolo encharcadas de sangue. O cheiro metálico e amargoso faz a minha boca encher de vômito, eu viro para o lado e me livro daquele bolo azedo que me faz lembrar da sopa de frutos do mar que jantei com ele na noite passada.

Chamo por ele tomando o cuidado pra não tocar em seu corpo, mas Paolo está rijo e meio lilás. A cor roxa da sua pele me joga de volta no mundo louco dos sonhos porque o torna irreal. Não acredito que isso possa estar acontecendo. Fico parada no mesmo lugar por longo tempo apenas observando o corpo dele de bruços, as costas esmagadas junto com a cabeça que está afundada na parte posterior me revelando à meia luz parte do seu cérebro bom em cálculos, excelente em informática e apaixonado por poesia.

O bolo de vomito ao lado da cama exala um odor nauseante que se mistura ao sangue de Paolo. Ele escreveu uma poesia para mim no ensino médio, deixou dentro da minha mochila e eu li assim que cheguei em casa.

“Seus olhos são como os portais pro Eden;
Olhar para eles é saber que eu posso ser salvo, que ainda há esperança para o Belo”
e prosseguia na sua pieguice a la Neruda.


Na última viagem a Compostela, Paolo pediu minha mão em casamento em frente a Catedral de Santiago de Compostela e me disse que os anjos estavam testemunhando a verdade do seu amor. Eu não chorei apesar dos olhos marejados porque a felicidade sobrepôs tudo, inclusive as lágrimas de emoção. O sorriso prevaleceu e nosso amor também.

Paolo me trocou pela carreira no ano seguinte ao casamento. Ele se associou a um grupo de empreendedores da área de informática. Criaram softwares de segurança e eles mesmos invadiam sistemas de grandes empresas para depois fornecer a elas os serviços de proteção. Paolo era um programador incomparável, mas lhe faltava a malícia para ser um empresário e ele deixou isso nas mãos dos sócios que acabaram ficando com a maior parte dos lucros. Nós discutimos por dias colocando em xeque sua ingenuidade. Ele não gosta de ser chamado de ingênuo, tenta provar a qualquer preço que pode ser malandro quando quer. Mas Paolo tem o coração tão nobre que seria difícil ser bem-sucedido na selva impiedosa dos negócios. Não é à toa que sem ele os seus sócios não teriam nenhum programa de proteção decente, nenhuma ideia boa.
 
 
6:20

Não consigo mover um músculo para sair da cama. Fico observando o corpo dele aparecer à medida que a luz do sol invade o quarto me mostrando a realidade difícil de engolir. Seu corpo foi brutalmente espancado e não posso acreditar que estive o tempo todo ali ao seu lado enquanto isso acontecia.

Tremendo de medo coloco uma perna para fora da cama seguida da outra em movimentos que parecem pesados e difíceis demais para meu corpo realizar. Eu escorrego sobre os joelhos, o meu rosto quase encontra o vômito no chão. Agora que fugi da visão do cadáver de Paolo não posso mais voltar a ver, por isso, eu rastejo pelo quarto até a porta.

As minhas pernas não podem sustentar o meu corpo, pois são feitas de um material fraco e trêmulo. Eu me sinto como uma pasta de confeiteiro ao escorrer pela porta do quarto e ficar assim encostada nela, apenas tentando conter o choro. Não volto a olhar para a cama, permaneço de olhos fechados fazendo as lágrimas explodirem entre as pálpebras.

6:30

Finalmente, eu espalmo a parede e me levanto, mas continuo sem olhar para trás, temo ver Paolo morto, comprovar a veracidade daquela situação. Para mim tudo ainda está preso no campo do sonho do qual não consigo acordar.
Saio pela casa cambaleando, há diversas formas de ebriedade e estou sentindo uma delas, não tem nada a ver com álcool, a minha náusea vem da morte alastrando pela casa. Aos pés da mesa da cozinha encontro o Bravo com a cabeça rachada.

Um labrador amarelado, há 9 anos esteve conosco, ganhamos ele de presente de casamento do irmão de Paolo. Bravo era um dos meus melhores amigos, viciado em biscoitos amanteigados que sempre o deixavam com o intestino frouxo, mas não tinha como não presenteá-lo com biscoitos porque seus olhos pidões eram irresistíveis. Bravo que caminhava conosco todo fim de tarde cumprindo bem seu papel de melhor amigo do homem dava lambidas em minhas mãos se me visse triste.

É a tremedeira que volta a atingir meus nervos e me fazer cair no sofá da sala fitando o corpo do cachorro acumulando moscas gordas. Não tenho mais o que vomitar, apenas abro a boca e fico tossindo, o meu estômago está fugindo para o meio dos pulmões. Eu me sinto toda comprimida como se estivesse numa caixa minúscula, sem ar. Olho em volta, a porta da sala está aberta. Evito me aproximar de Bravo porque se eu comprovar a sua morte de perto posso ficar louca, posso chegar ao limite de algo que não sabia existir dentro de mim.

Eu sinto uma onda de raiva desesperada me aquecendo. Levanto e corro na direção da porta como se fosse flagrar o autor daquela barbárie. E se flagrasse? Eu o mataria. É a primeira e única vez em toda minha vida que penso em matar alguém. Mataria mil vezes se fosse preciso só pela dor de ver as duas únicas criaturas que amei durante a vida, mataria duas mil vezes por causa do meu desespero e atordoamento. Ele vai pagar por isso, eu penso enquanto rodopio pela sala à procura de algum objeto que fira, mate e arranque pedaços porque não adianta apenas a morte pura e simples. Eu preciso provocar a dor extrema, transpor para o culpado a dor insuportável a qual ele me condenou.

7:00

Rodopio e rodopio entre a sala e os quartos, não encontro nada que possa matar alguém. A nossa casa é composta de quadros, vasos de plantas, os computadores de Paolo, os móveis que eu restava restaurando. As minhas ferramentas para restauração estão do lado de fora da casa, presas no meu quarto de trabalho. A ideia de atravessar o jardim faz meus nervos se acalmarem, o medo sufoca quaisquer sentimentos.

Fico parada observando a porta da sala que me leva até o jardim, ela está aberta e me permite ver o lugar da casa que mais amo, parcialmente. Esse lugar, no momento, me causa arrepios e assombro.

O cheiro de morte me impulsiona a dar os primeiros passos para fora. Pensar que Bravo está fedendo daquela forma reacende a minha fúria e dor. Pensar que o lavei há dois dias e ele cheirava a shampoo de caramelo especial para os pelos de um labrador corta meu coração em um milhão de pedaços. Vou perdendo o coração, a sanidade, o que restou da minha alma no trajeto até o quartinho das ferramentas.

A porta está arrombada e eu tenho a certeza que o assassino está lá dentro. Eu posso ouvir seus movimentos, ele deve procurar algo de valor, mas por que não me matou também?

Onde estive quando meu corpo se desligou da materialidade?

Qual era o sonho? Eu estava sonhando?

Os ruídos persistem, ele está andando e de repente eu vejo a silhueta dentro do quartinho, ela fica imóvel e na escuridão do cômodo parece me encarar ali, prostrado. Eu sinto uma mistura de pânico, ódio e tristeza que faz meu estômago se misturar ao coração. Por dentro eu começo a me misturar inteira numa massa de incompreensão e dor. A dor está se alastrando por cada milímetro do meu corpo e mente. Eu só sinto os músculos contraírem e meus ossos tremerem.

7:20

A pessoa continua parada, estamos nos encarando como duelistas, mas nenhum dá o passo necessário para o confronto. Ao contrário disso, eu ando para trás, meus pés quase andam por vontade própria, querem sair correndo para longe dali. A casa não parece mais ser a minha. Eu quero gritar para a pessoa sair ou eu a matarei, mas não tenho nada para provocar dor além das minhas próprias lágrimas e para alguém que fez o que fez o meu desespero não quer dizer nada. Alguém mais vai morrer e não pretendo ser eu.

A janela do meu quarto abre e atrai a minha atenção. Paolo está lá encarando o sol nascente e espreguiçando seu corpo magro. Paolo? Eu sussurro e vejo sair do quartinho Erika Casanova, a restauradora de móveis e antiguidades. Eu mesma, porém, mais velha. Os meus cabelos estão esbranquiçados como disse que deixaria acontecer um dia, eu não cobriria a ação da idade em meus fios.

Estou me sentindo presa num filme, essa Erika sorri para o marido e acena, algo que fiz quase todas manhãs quando o via ali de pé na janela sorrindo para mim.

Estou sonhando? Volto para a casa, Bravo levanta a cabeça deitado na sua almofada no canto da sala, os olhos esperançosos por biscoitos amanteigados. Passo direto por ele porque não se parece com o meu labrador. Nada na casa me lembra a Erika que acordou com o corpo espancado do marido ao lado.

Eu tento abrir a porta da sala que me leva para a garagem, quero correr até meu carro e ir embora dessa loucura, mas a porta está trancada. Um momento atrás e a vi entreaberta.

Estou presa dentro de um sonho?

Paolo está me olhando da cozinha, ele segura uma caneca e a fumaça se espalha por seu rosto vazio. Não vejo olhos, boca ou nariz, sua face se limita à brancura da pele. Não há nada ali. Eu estou segurando um martelo ensanguentado na mão esquerda, eu sou canhota. Na escola, sempre tive problemas com as cadeiras. A lembrança da infância faz a minha cabeça girar. Desabo no chão jogando o martelo longe, mas ele volta para minha mão como se eu fosse um centro magnético.
 
6:00

De súbito, salto na cama tragada por meu grito. O suor frio e grosso emplastra meus cabelos. Olho para o lado, é uma cama de solteiro, é a casa dos meus pais. Eu coloco as pernas para fora da cama, minha mãe bate na porta perguntando se estou bem. Eu levo alguns segundos para encontrar minha voz.

Respondo que estava apenas sonhando. E olho pela janela, o dia claro promete ser quente. Eu me arrasto para fora do quarto e me junto a ela na cozinha. Um gato se enrosca nas minhas pernas antes de saltar para o colo. É o Puma, meu siamês que cuidei na adolescência. Mas, eu voltei no tempo?

- Mãe, você acredita que sonhei com meu futuro?

Ela se vira e é Paolo que vejo em seu rosto.

6:20

- Seu futuro, querida?

Ele responde depois de longos minutos, a voz se misturando ao resto de voz de mamãe. A cabeça de Bravo está descansando em meu colo e não é mais Puma que estou afagando. Bravo pede pelos biscoitos amanteigados e eu olho em volta me perguntando.
Aonde vou quando me desligo da materialidade desse corpo?  
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 06/11/2018
Alterado em 06/11/2018
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