O absurdo
por Larissa Prado
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Os fones de Gaia

 
 
Ela não entendia o motivo de estar ali sentada na antessala de um consultório médico, pois não se sentia doente. É verdade que andava enjoada e seu estômago ardia nos últimos dias, mas não era para tanto.

Sua mãe tinha o hábito de marcar consultas sem avisar à Gaia e ela nunca queria ir. Conservava a esperança de encontrar meios pelos quais a filha pudesse viver normal. Era assim que costumavam falar em casa “Gaia você é normal, não pense o contrário”. Porém, ela pensava o contrário o tempo todo.

A primeira vez que Gaia sentiu o mundo girar num ritmo diferente do seu foi durante a infância, na escola. De alguma forma, as crianças se moviam em ritmos diferentes, elas pareciam alinhadas numa lógica na qual Gaia não se encaixava. Haviam movimentos, os rostos das pessoas se transformavam em sequências expressivas sem ruídos. Era confuso. Gaia tomou consciência da sua surdez aos 6 anos de idade quando o mundo a projetou para fora. Por mais que os pais se esforçassem, a garota se manteve alheia a tudo, gravitando em torno de si mesma, incapaz de articular quaisquer palavras.

Os pais conseguiram os primeiros aparelhos auditivos para Gaia quando ela completou 8 anos. Ao ouvir a voz da mãe pela primeira vez preferiu continuar decifrando os movimentos labiais dos pais porque os barulhos machucavam o fundo da sua cabeça.

Apesar de todo esforço inclusivo, as diversas escolas pelas quais passou na tentativa de fazer parte da comunidade normal, Gaia se sentia bem por não escutar. Seu mundo era tão silencioso e vazio que ao acionar os dispositivos auditivos sentia-se nauseada e atordoada.

“Eu nunca vou ser normal”, ela pensava às vezes entristecida por não conseguir se esforçar, faltava-lhe vontade. A sua noção de normalidade estava ligada à quietude da sua surdez.

Naquele consultório, depois de tantos anos, a mãe de Gaia suplicava ao médico por uma chance de testar o protótipo de um dispositivo inovador para surdos. Não era o que Gaia queria, mas resignou-se à vontade da mãe desligando seus dispositivos para não ter que ouvir a voz suplicante.

Para euforia dos pais, o protótipo seria enviado para eles dali duas semanas. Eles fizeram planos durante todos os dias enquanto Gaia permanecia gravitando em torno de si mesma em seu silêncio perpétuo.

Nas poucas ocasiões que deixava os aparelhos ligados ouvia a mãe e o pai planejarem sua entrada numa faculdade, seus tratamentos com fonoaudiólogos, sua voz seria desenvolvida e até falaram sobre casamento e filhos como se apenas naquele momento ela fosse digna de uma existência humana normal. Gaia se perguntava o que ela teria sido para eles durante todo o tempo de anomalia? Talvez um instrumento defeituoso, um peso morto.

Quando o protótipo chegou, Gaia cogitou jogá-lo fora. Seus olhos investigaram o pacote que não tinha nenhuma informação do remetente e as mãos remexeram nos fones com curiosidade. Ela substituiu seus dispositivos antigos e desconfortáveis pelos novos fones e surpreendida foi atingida por uma onda pesada de sons que nunca pensou existirem no mundo. Gaia olhou em volta, assombrada com aquelas novas sensações auditivas que abriram novas formas sensoriais. Ela esticou as mãos e sentiu partículas de poeira sob a pele além do movimento de ácaros em seus micro pelos.

A mãe chegou correndo vinda da garagem segurando um pacote, ela gritava para Gaia “Querida, seus novos fones chegaram!”, a filha olhou para ela e por trás da voz da mãe escutou outras vozes distantes, sinos, cânticos, estáticas e batidas de dimensões cruzadas.

Gaia olhou para a mãe e escutou seus mais profundos pensamentos escondidos num lugar que talvez nenhum ser humano pudesse alcançar.

“Gaia nunca vai ser normal. Não importa o que faça. Não é só pela surdez, ela é estranha e não é nossa filha. Esses problemas devem ser da sua família biológica. Seria melhor que desaparecesse de uma vez”, a mãe abria o pacote enquanto Gaia escutava as dezenas de vozes sobrepostas espalhadas pelo mundo. Ela tentou tirar os fones ou desliga-los, mas naquela altura tinham se fundido aos seus tímpanos, absorvidos pelo seu novo cérebro.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 29/10/2018
Alterado em 29/10/2018
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