O absurdo
por Larissa Prado
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O casco é forte

 

O verão era a época do ano que mais gostava porque sempre viajávamos para aproveitar as areias paradisíacas das praias no litoral. O que mais gostava de fazer era sair de barco com meus irmãos. Como era a mais nova nem sempre me levavam junto até porque Davi e Inácio estavam na fase de tentar impressionar as primeiras namoradas e elas estavam conosco.

Naquele ano, nossos pais não foram e Davi que já era maior de idade ficou responsável por cuidar de todos, mas era o mais irresponsável. Inácio sempre foi o mais cabeça no lugar de nós três e quando ele dizia algo geralmente todos concordavam porque ele tinha bom senso.

No penúltimo dia da nossa estadia no litoral algo estranho aconteceu. Sempre acordávamos e íamos correndo para a praia que estava lotada de veranistas, mas naquela manhã não acontecia nada. Pairava no ar uma atmosfera densa, estagnada, como se as nuvens estivessem paralisadas no céu. Eu me lembro de perguntar para Inácio se aquilo era normal porque nada no lugar parecia estar normal como antes e ele responder “Sei lá”, de um jeito amedrontado. Não encontrávamos ninguém para saber o motivo do vazio da praia.

Davi não se importou muito com a má impressão e correu em direção ao mar jogando areia para cima com os pés, ele sempre foi desengonçado, a namorada dele, Pietra, foi junto aos berros. Mas Inácio ficou parado olhando o horizonte e sua namorada segurando sua mão também parecia meio incerta. Não acompanhei Davi porque confiava mais na precaução do meu outro irmão.

- Olhe ali, bem ali – Inácio apontou para o horizonte – vocês conseguem ver aquela movimentação do ar? Parece que está formando um redemoinho no meio da água.

Depois de um tempo caladas, Rita, a namorada dele, se manifestou e parecia empolgada.

- Sim! Eu vejo, o vento ali está rodando em espiral! Talvez seja um tsunami.

- Não fala besteira. – Inácio parecia mesmo assustado.

Ninguém se importava com o sumiço do Davi e da Pietra, não dava para ver eles na beira do mar. Não liguei porque eles tinham mania de explorar as pedras, nadar para longe, eram bons nadadores, mas às vezes as brincadeiras deles passavam dos limites. Foi Rita que cutucou o Inácio.

- Alguma coisa veio junto com as ondas.

Ela tinha razão, algo estava jogado na praia. Nós três corremos até lá, eu sai na frente porque estava mais perto da beira. Ao chegarmos, estagnei na areia porque o meu pavor era do tipo que paralisa as ações. Foi Rita quem soltou um berro enorme e Inácio também ficou estagnado e perplexo.

- Isso é um braço? Meu deus! Isso é um braço? – ela dizia com as mãos gesticulando para o nada.

Sim. Aquilo era um braço em estado de decomposição que foi cuspido pelo mar em nossa direção, ele havia sido arrancado. Eu fiquei um bom tempo observando a carne pútrida e o lugar onde ligava-o a um corpo, ele estava inchado e arroxeado. Não quis admitir a familiaridade, como se parecia com o braço de Davi.

- Vamos, vamos dar o fora! – Inácio gritou e puxou Rita para longe, eu os segui ainda olhando aquele braço ali exposto com os raios de sol cintilando sobre ele. Senti vontade de colocar para fora o café da manhã.

Corremos e chamamos Davi e Pietra, eles não apareciam. Como eu era mais rápida e estava acostumada a escalar as rochas, subi no alto e tentei enxergar algum sinal dos dois na água. Naquele momento comecei a ficar mais apavorada, tinha medo de não encontrar meu irmão nunca mais. O mar estava muito agitado diferente de quando chegamos ali. As ondas levantavam com violência e quebravam na areia com um estrondo assustador. Inácio e Rita acabavam de chegar até a rocha na qual estava e me ajudaram a procurar no mar por algum sinal dos dois. Eu não queria ver, ou os meus olhos se negavam a mandar aquela imagem para o cérebro, as ondas traziam mais pedaços humanos. Pernas, braços e por fim, cabeças.

Rita voltou a gritar e Inácio desceu as pedras aos tropeços, voltei a segui-los, estava cada vez mais cansada. Nós ficamos olhando aquelas peças humanas, assombrados. Tudo parecia um pesadelo, um delírio ou alguma piada. Eu olhei para o alto, ao longe onde Inácio viu um redemoinho se formar pairava uma espécie de disco tridimensional metálico. Algo que parecia ter saído de algum seriado de ficção científica. Era impossível estar ali, mas estava e se movia lentamente na nossa direção.

- Olhem só. – Rita apontou para uma movimentação sob a areia – são tartarugas?

Várias delas saíam dos seus ninhos enquanto os ovos explodiam liberando os filhotes. Eu esqueci da ilusão de ótica do disco metálico e corri para ver aqueles bichinhos tão fofos, tão lindos correndo para o mar, mas eles não correram direto para a água como seria o natural, ficaram ali paradas apenas nos observando. As mães alcançavam quase 2,5m e tinham olhos avermelhados e agigantados. Eram olhos estranhos, protuberantes, de bestas.

- O que diabos é isso? – Inácio gritou enquanto o disco se aproximava e crescia mais e mais perto.

As tartarugas marcharam em nossa direção em sincronia, tão lentas quanto o disco a deslizar entre as nuvens.

- O casco é forte.

Não era possível que aquilo estivesse acontecendo, não ali no mundo real. A primeira delas falou, eu podia ver a voz saindo dela mesmo que sua boca continuasse fechada. As outras acompanharam e se fez um coral de vozes humanas bem articuladas.

- O casco é forte. O casco é forte. – as tartarugas marinhas repetiam enquanto a marcha prosseguia ameaçadora em nossa direção.

Rita tinha corrido para longe, mas a praia estava cercada, milhares delas nos cercavam, muitas vindas com as ondas. Eu olhei na direção do céu, o objeto estava se misturando ao ar, desaparecendo. Elas continuaram com seu mantra, as nadadeiras arrastavam na areia, o movimento lento era hipnotizante. Inácio não se movia e Rita tinha caído em sua corrida e permaneceu no chão, paralisada. Ela foi a primeira a ser devorada por um grupo de quatro tartarugas anciãs que abriram as bocas curvas com uma fileira de dentes afiados. Eles não se moviam, o mundo estava aprisionado na lentidão dos movimentos daqueles bichos.

Elas eram tão fofas, sempre foram tão... inofensivas. Eu puxei a mão de Inácio para fugirmos, ele continuava parado, imóvel, os olhos delas giravam em espirais de fogo. Não importava a força que fizesse, ele continuava com os pés enterrados na areia. Os gritos da Rita chamaram a minha atenção, àquela altura os bichos haviam arrancado um de seus braços e estavam sobre sua garganta. Faziam tudo em lentos movimentos.

As que continuavam caminhando entoavam o mantra “O casco é forte”. Não podia estar acontecendo, aquilo era uma afronta à razão, esperava acordar a qualquer momento. Sai correndo, seja qual fosse o efeito que tivessem sobre Inácio e Rita, eu não fora atingida. Corri para as rochas chamando por Davi e Pietra, ao longe vislumbrei corpos boiando ao sabor do movimento das ondas.

O mundo escureceu porque o sol foi encoberto por uma onda gigante, senti as gotas respingarem em meu rosto. Atrás do véu denso de água pude ver a forma dos olhos gigantes de uma gigante criatura, olhos espiralados que aprisionam a alma numa espécie de câmera lenta, no súbito mergulho ao nada, à inexistência. Tomada por uma paralisia generalizada, nenhum músculo obedecia aos comandos do meu cérebro, queria me mexer e não conseguia.

“O casco é forte”, o eco gutural emergiu daquele véu de água que cobria o mundo, “em toda doçura existe muita amargura”. Tragada pela água, eu me vi em meio ao mar boiando para longe da praia que se tornava cada vez mais distante. Estava afogando, morrendo. As pernas não conseguiam mais me manter na superfície, o corpo foi sugado para a região abissal do mundo onde havia um imenso disco de metal rígido escondido, parecia muito com a carapaça de uma gigantesca criatura.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 27/10/2018
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