O absurdo
por Larissa Prado
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O outro lado do espelho
 


Eu sabia que algo não estava certo assim que entrei pela sala escura. O silêncio e a forma como ele se manifestava, uma espécie de prelúdio de algo prestes a explodir. A atmosfera não estava boa. E eu sentia isso mais forte enquanto caminhava em direção à cozinha. De repente o estrondo e as luzes se acenderam. Todos estavam gritando parabéns e me cercando com uma chuva de sorrisos flutuantes. Não consegui definir quem era quem naquela massa humana e ruidosa. Alguns rostos me eram desconhecidos

– Feliz aniversário, Samuel. – uma mulher me abraçou apertado e eu logo me afastei.

Os outros colegas do trabalho esperaram pela vez de me felicitar e entregar pacotes. Eu não desconfiei de nada a semana inteira. Eles disfarçaram muito bem. Se tivesse percebido não teria permitido. Odeio surpresas e aniversário, os dois mesclados? Pior ainda.

Não demorou até que todos se acomodassem pela casa apertada. Em cada cômodo que eu tentava entrar para ficar sozinho por alguns minutos haviam pessoas me olhando.

Por fim, consegui sossego na garagem perto do meu carro ouvindo o murmurinho das pessoas lá dentro. A Erika saiu com um copo de refrigerante e um pedaço de bolo.

– Não me mate, Samuel, mas achei que seria triste se passasse o dia do seu aniversário sozinho.

Não disse nada, apenas a fitei. Erika estava comigo há 3 meses e achava que me conhecia como ninguém. Eu não quis discutir, preferi ficar quieto e terminar de fumar meu cigarro. Ela se manteve ao meu lado até o fim do seu pedaço de bolo que deixou marcas de chantilly em seu queixo.

Além das conversas exaltadas eu podia ouvir o som ligado. Estavam dominando até meu som da sala.

– Vamos voltar pra festa?

Erika puxou meu braço e eu respondi.

– Daqui a pouco. So vou terminar o cigarro.

– Você deveria era parar com isso.

E então, Erika foi se juntar aos outros. Fiquei observando a movimentação no interior de casa e nunca senti tanta vontade de não ser mais eu mesmo. Algo ainda estava errado e não era a sensação inquietante que antecede uma surpresa. Eu me sentia tão desconexo do mundo que não conseguia mais definir os ruídos que ouvia lá dentro ou identificar em mim o que me deixava tão alheio.

Joguei o cigarro no chão e pisei, naquele instante a lembrança de Tex veio. Completaria 1 ano da sua morte, ele era um vira lata companheiro que esteve ao meu lado por 13 anos. O que me fez evocar sua memória foi o rosnado alto que vinha do portão. Eu me virei e não tinha nenhum cachorro ali, mas o barulho continuava. Voltei depressa para dentro de casa e fiquei olhando na direção da porta. Um dos convidados bateu no meu ombro e enfiou uma lata de cerveja na minha mão. Eu afastei deixando a lata em algum canto e fui para meu quarto.

Os presentes ainda estavam sobre a cama embrulhados. Precisei afasta-los para me deitar e fiquei assim por um tempo, olhos fechados, o corpo relaxado e coração palpitando. Tentei me acalmar, voltar a mim mesmo, porém algo continuava errado como uma linha fora do padrão de um mosaico, como um osso quebrado. A sensação era que algo estava fora do lugar.

A qualquer momento, Erika iria entrar pela porta para me forçar a voltar para a festa. Não queria explicar o motivo de me refugiar no quarto. Mas ela iria insistir e minha paciência não estava transbordando. Então, fui para o banheiro e lavei o rosto. Era questão de apenas mais algumas horas para que todos fossem embora, eu daria conta. Enxuguei o rosto e encarei o espelho por um tempo, sem piscar, fiquei me olhando como se procurasse algo, a ponta solta que estivesse me causando o estranhamento.

Quanto mais encarava aquele rosto me convencia de que aquele não era eu. Aproximei do espelho a ponto de tocar a testa ali. Porém, o reflexo não acompanhou o movimento. Ele ficou parado do outro lado apenas me olhando de forma inexpressiva, afastei do espelho, assustado, sem conseguir tirar os olhos daquilo O meu reflexo ainda me encarava inerte.

Então, observei o banheiro atrás dele, estava muito diferente do meu banheiro. Aquele lugar não podia ser minha casa. Eu levantei o braço, ele não acompanhou o gesto. Ao invés disso, o homem do outro lado do espelho pegou a gilete sobre a pia e começou a abrir seus pulsos. Os cortes aparecem em meus pulsos, muito doloridos, fazendo sangue jorrar pelos braços. Eu sai do banheiro, segurando o corte que doía mais, tentando estancar.

Tentei gritar por Erika, mas a casa estava silenciosa. Todos haviam ido embora? Ou nunca estiveram lá? O meu quarto estava errado, diferente. Não reconheci nada ali, nem a cama, nem as prateleiras empoeiradas.

Voltei para o banheiro, e encontrei Tex ali deitado, mas ele havia morrido há um ano. Lembrei do rosnado que ouvi na garagem, algo tão parecido com ele. Olhei para o espelho onde o meu reflexo estava de costas abraçando Erika que se espiava sobre o ombro dele.

Eu comecei a bater com os punhos cerrados, ignorando as dores nos cortes. Ela não percebeu nada, o homem que estava com ela se afastou e a segurou pela mão. Antes que deixassem o banheiro ele olhou diretamente nos meus olhos e ao sair apagou a luz.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 22/10/2018
Alterado em 22/10/2018
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