O absurdo
por Larissa Prado
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Quando assassinei Kafka

 
 
O som da chuva gotejando na janela é a sinfonia que faltava nos dias em que o sol alto, quente, impiedoso, queimava o céu com seus raios de fogo. A chuva que goteja a janela parece as lágrimas que pingam dos meus olhos. Tenho ganas em espetá-los com a caneta que escrevo, as lágrimas seriam tingidas de vermelho, mas não é vermelho o meu sangue. Ele deixou de ser no dia que a astro nave pouso no meu jardim.

A astro nave não é feita de luzes ofuscantes, não possui forma estranha que não existira no mundo real. Ela é pequena, ela é do formato de um vagalume, mas ao entrar em contato com a estratosfera vai ganhando forma e peso. Ela se torna gigante como minha uma piscina voadora, e pousa na grama do lado de fora sempre que a chuva vem.

Nas primeiras noites nada saiu dela. As duas portas laterais ficaram abertas e nenhuma movimentação. Achei que estava vazia, os tripulantes devem ter morrido na viagem ou saltado por vontade própria. Porque todo alienígena é suicida. Eu sei disse, ele me contou antes do primeiro pouso.

Não me preocupei na primeira vez, mas a recorrência acaba deixando nossos sentidos em alerta. Piscando. Veio a segunda e a terceira, mas foi na quarta vez que eles desceram. E não eram exatamente os alienígenas aos quais estamos acostumados. Pareciam pessoas pequenas como os anões de circo sem as pernas curvadas.

As pernas eram longas sustentando corpos pequenos, mas eram da cor da chuva. Não tinha nada de florescência. Eu contei isso para uma pessoa ao telefone e ela deu uma risada estrondosa. “O que está tomando dessa vez?”. Como se eu precisasse tomar outras coisas para abrir as portas das infinitas possibilidades de perspectivas.

Ninguém acredita em você quando conta a verdade. Preferem culpar os alucinógenos, seu humor desequilibrado, Deus. Preferem culpar Deus ou o diabo, mas não querem escutar a verdade. Desisti de tentar falar com as pessoas, elas só acreditam no que querem. Podem até ver pra crer que continuarão duvidando dos próprios olhos. É a conveniência o campo no qual atuam.

Lentamente você se acha doido, sutilmente começa a acreditar na própria loucura mesmo sendo lúcido porque as duas coisas são parceiras. Anote isso que estou falando: a loucura e a lucidez são irmãs, faces da mesma moeda. As partes de um todo que chamam de sua mente.

Eu sei que amanhã é Segunda-feira. A astro nave continua estacionada no meu jardim. Eu ligo para o homem do livro e ele me fala para ficar em casa, segura, longe. Eu fico, mas eles entram mesmo assim. Minha porta está com o trinco quebrado, nunca mandei consertar. Ninguém iria gostar de entrar aqui. Eles gostam, porque são da cor da chuva.
 
Eu sei que acordarei às 4 da manhã por três dias até chegar quarta-feira. Enquanto não durmo escuto os passos pela casa, só podem ser os tripulantes pousados no jardim. Eles desbravam a casa e comem meus doces, porque todo alienígena é louco por doces terrestres. Eles são como formigas, até o senso de organização e trabalho é o mesmo. Nós temos nossos próprios alienígenas em não sabemos. Não interfiro na invasão, eles precisam ser livres assim como nós e assim como os homens da História que pregaram a liberdade, a fraternidade, a igualdade. Mas nenhum deles foi livre mesmo. Ninguém é, nem os alienígenas andando pela cozinha.

Eles estão presos a algo inconcebível a nós, humanos. Cada um tem a prisão que projeta, nosso campo de existência é cercado por barras de ferros mentais. Ela está aqui outra vez, a mente. Parece que tudo gira em torno dela como centro gravitacional do nosso corpo.

Às vezes me dá medo que o telefone toque às 4 da manhã e seja Deus do outro lado. Sempre tive medo dos deuses desde o jardim da infância porque pregam a sua malignidade, não pode ser feio, não pode ter problemas, Deus acaba mandando chuva de meteoros no fim das contas ou morte por gangrena, asfixia, guerras entre as maiores potências. Ele está em tudo, mas nada O quer de fato. Eu tenho medo que algum ruído faça os alienígenas na cozinha irem embora, a manhã vai aparecer estranha a mim como esse corpo embaixo do pescoço. As pernas, a barriga murcha, a pele descascada cheia de veias azuis que levam petróleo ao cérebro.

Da próxima que eu sair com o homem que me chama a cada dez minutos, vou levar comigo uma arma, mas não dessas que cospem chumbo. Eu tenho uma arma escondida no céu da boca, foram eles que acoplaram em mim, os seres da astro nave. Eles acoplaram uma espécie de câmera no meu céu da boca porque as lentes do novo século são as armas mais eficiente. Vou tirar fotos do homem, dele por dentro, e enviar em sua caixa de entrada de um endereço anônimo. Porque eu saio com ele de tanta raiva que sinto em ser... um bando de fumaça sem rumo. Essa é a solidão de quem é feito de ar.
 
 
Eu sei que passaram alguns meses desde a última visita dos astros de Saturno. Não sei de onde vem, mas não creio que seja de uma região próxima, então, imagino os anéis saturianos se movendo e expelindo-os para longe do próprio planeta enquanto Terra nos come em seu solo profano. Ela nunca quis que saíssemos dela, cada criatura tem o planeta que merece.

À noite, o movimento da saia não me deixa tirar os olhos de Marcela. Ela tem um olho maior que o outro e pisca sem parar quando conta sobre seus últimos empregos. Ela dança na cadeira, a luz do lugar projeta pequenas aranhas em seu rosto. Estamos no meio de uma penumbra e vozes ecoam abafadas no centro da mesa. Eu acho que escutei uma voz me chamando, não pode ser o homem preso no telefone, o que me chama a cada dez minutos, O que você está fazendo?, ele insiste. Eu sempre respondo, Nada. Eu não estou fazendo nada, nunca, como se fosse um ventilador de teto quebrado que gira e não faz vento..

Ele vai continuar perguntando o que estou fazendo até o dia que eu estiver fazendo algo e não responde-lo, ele vai se afundar na tela do telefone e virar um número como os outros se tornaram um bando de números. Sempre fui péssima em matemática, diziam que eu era burra na infância, eu acho que cresci com um pouco de inteligência emocional. Gritem comigo, eu olho. Espanquem minha cara, eu continuo olhando feito um animal empalhado num museu natural. Eu sou uma cabeça de alce sobre a lareira de um grande caçador. Continue me insultando, eu não sinto nada. Meu coração está morto igual a borboleta caída no meio da nossa bebida derramada.

A Marcela continua falando para as sombras que nos cercam, todas as pessoas em volta são sombras de pessoas que já morreram. O telefone está me perguntando, O que estou fazendo?, é o mesmo homem que conheci na véspera da Páscoa. Ele tem um olho menor que o outro, parece com a Marcela. Ela deve se fantasiar dele e me chamar ao telefone porque ela é o coringa do baralho. O humor afetado das pessoas me dá vontade de vomitar sangue do meu estômago porque machuca, e se machuca. Seja triste e morra apodrecido na privada junto com seus dejetos. Nós não passamos de sacos de fezes prestes a explodir. Há há eu escuto a Marcela rindo bem dentro de mim porque está tocando o cotovelo no meu, a mesa ficou bem pequena depois que a sombra chegou. O homem do telefone senta na mesa e me pergunta, Você está bem?, e eu deixo a testa bater na mesa, esmago a borboleta morta. E preciso voltar cedo para casa.

A banda não toca nada porque estão parados à minha frente, o homem segura a guitarra como se fosse seu Deus, e eu tenho medo dele porque seu rosto é feito apenas de boca. Uma boca gigante no meio de um rosto sem expressão. Ele me olha feito um mamute congelado no ponto mais longe do planeta. Abre a boca e me diz coisas que não entendo porque os outros sons entram por sua boca e o transforma em um monte de notas musicais que ele não toca. Você está bem? É o mesmo homem segurando o pedestal de um microfone, é a banda dos homens duplicados e não há som que possam fazer porque as notas musicais estão presas na boca deles.

Eles ficam se movendo de acordo com o som, as pessoas estão se movendo ao redor como se fossem galhos de árvores ao vento, só eu não escuto a música. A boca da guitarra é como um Grand Canyon, eu adoro homens que tocam guitarra com a boca, Jimi Hendrix disse que era Deus e eu tenho medo de deuses. Você continua bem? A música dá golpes em um lugar que não parece existir, está ligado à minha cabeça por um fio invisível e se segura nas nuvens de Deus. Eu queria ter uma boneca que falasse, ganhei um urso assassino na infância tudo é maior do que realmente parece.

Eu saio para a rua de uma noite bem escura que dá medo nos cachorros e gatos. Eu escuto alguém me chamar da esquina e vejo a boca de uma guitarra pendurada nas costas do homem de cabelo verde-claro. Ele tem grama na cabeça porque é como as coisas que desceram na astro nave. Ele pode me chamar o quanto quiser, meu nome não é esse. Quando ele toca minha mão no meio da praça eu quero cuspir fogo na sua boca porque ele não tem mais olhos. Quero gritar que estou no meio do asfalto de uma noite sem estrelas repleta de bichos que gritam nas árvores. O homem é uma guitarra e quando abre a boca escuto a melodia de Purple Haze.  Pergunto a ele se ele é um tipo de Deus morto, ele continua abrindo a boca imensa de onde sai as notas de uma melodia agressiva. Eu quero falar que sei que ele está louco, mas fico parada porque há muito tempo perdi a energia para me manter ativa.
 
 
Atividades que não vão dar dinheiro são essas que nos faz parecer doido. Pintar a casa inteira de preto e depois passar o branco para ver se cobre tudo de uma vez. O meu tempo é como uma cobra de duas cabeças, cada uma puxa para um lado diferente até se partir no meio e explodir em sangue e vísceras. Eu estou olhando para o homem no livro, ele também parece algum tipo de ... cobra. Seu rosto é bem murcho e seus olhos parecem duas bolinhas de gude pretas. Eu lia muita quando me sentia sozinha, agora eu tenho o livro na cabeceira da cama com a foto do homem que veio de um lugar que nunca fui e nunca irei.

O telefone está me dizendo que sou isso e aquilo, que não posso ser isso e aquilo. O homem no telefone é uma espécie de diabinho diminuto sussurrando suas cantigas de todas as horas. Ele vai continuar me chamando até o dia que perceber que não tenho voz. As aves que NONO cria do lado de fora comeram meus dedos e minha língua. Eu sei que preciso estacionar os pensamentos em algum lugar, mas eles voam livres entre as asas das galinhas e galos no chiqueiro dos porcos. Tudo está trocado ultimamente.

A gente vê sangue na escada e pensa que é tinta, eu pinto o teto de vermelho para poder imaginar um céu feito de morangos amassados. À noite ele fica roxo porque não tem luz suficiente. Eu pinto o teto com o sangue que sai da minha veia azul do pulso, não morro e não tem problema, não quero encontrar Deus. Ele vai me dizer barbaridades como dizem todos esses homens presos no telefone. Eu espatifo o meu aparelho na parede porque estou cansada dos sons do mundo.

E olho para a cabeceira da cama onde o livro está em pé me encarando. O homem que tem olhos de bolas de gude abre sua boca de lábios finos e me diz coisas sobre Blumfeld, Graco, O cavaleiro do balde e seu Desejo de ser índio. Ele me diz coisas sobre as baratas que estão me olhando em cima dos restos de comida. Eu nunca comi de verdade, eu encho a minha garganta de produtos químicos para sentir prazer e morrer de fome.

Ele vai continuar me falando sobre artistas da fome e sobre filhos que escrevem aos pais. Eu tive um pai algum dia, mas ele virou terra de defunto. Eu tive um dedo maior que o outro e o arranquei porque a desordem, o desalinho, ferem minha convicção de que a perfeição é tangível. Eu tenho vontade de arrancar o olho maior de Marcela e fazer dele um anel de bronze.
 
Continuam falando de mim como se eu fosse importante, criticam meus cabelos e minha cara de boi. Eu tenho uma cara comprida e toda desalinhada, a boca troca de lugar com o nariz, os olhos às vezes se escondem atrás das orelhas. Continuam falando de mim como seu me importasse. Eles sussurram que eu tenho um parafuso a menos porque não falo, que sou antissocial, que preciso de ajuda e carinho. Eles não sabem que as estrelas caíram do céu e incendiaram toda a raça humana e estão se preocupando comigo? É porque eu cuspo nas etiquetas nas quais enrolam seus corpos feitos de mármore, corpos cheios de saúde, por dentro todo mundo fede e é feio.
 
Escrevo cartas para o homem do livro porque ele está vivo em algum lugar do outro mundo que é cercado de anéis saturianos. Quando eles pousaram no meu jardim de novo vou entregar as cartas para ele e sei que vai me responder, Tudo bem amanhã estarei te buscando. Mas eles nunca mais voltaram e fico triste em pensar que terei que passar o resto dos meus dias vivendo entre homens que andam sobre duas pernas e vivem dentro de telefones.

Eu escrevo no teto vermelho todas as minhas músicas favoritas porque um dia quem sabe o homem da guitarra de boca vai entrar aqui e se surpreender com minha capacidade argumentativa. Eu escrevo coisas sem nexo porque você também é um ser humano desconexo. Eu escrevo coisas sem pensar sobre elas porque a minha mente é uma Deusa louca, uma assassina fria e desordeira. Ela mata tudo o que há de certo por dentro, ela mata Deus e me faz escrever cartas para o diabo.

Sobre a minha mesa de cabeceira o livro cai e faz um estrondo grande. Não cubro os ouvidos porque eu não sinto mais susto ou medo. Eu sou um nada repleto de vento, é como ser um saco vazio que fica sobrevoando a cidade inteira e nunca cai. Um vento é mais forte que outro e te leva longe, nem sempre para lugares bons. O livro cai de novo, dessa vez de cara para o chão. O homem na capa está chorando como Jesus deve ter chorado quando foi torturado, eu tenho pena de lágrimas alheias porque só eu posso sofrer no mundo. O resto deveriam ir embora e me deixar sozinha.

Eu pego o livro e vejo o homem chorando sem parar, ele queria queimar até a última folha de tudo o que escreveu, ele queria voltar à vida só para poder morrer lentamente a cada minuto. Embalo o livro que não é meu filho, mas poderia ser. Eu digo que vai ficar tudo bem, ele diz, Não vai ficar porque você e eu caímos no jardim e nunca mais retornaremos ao nosso mundinho feito de papel e silêncio.

Entristeço de um tipo de melancolia que daria para matar um país inteiro, e fico pensando se eu deveria ir embora, a astro nave não vai mais vir e estamos nós dois assim abraçados como amantes num naufrágio, eu e Deus, Kafka e Eu, o absurdo e eu, tudo se tornando um só. Eu sempre tive medo de ser absurda, incompreendida, ausente, eu sempre tive medo da morte e dos deuses, mas agora, aqui com a faca que apareceu na minha mão como se a própria Morte tivesse me emprestado sua foice, não sinto nada. Enfio a faca com tanta força no livro que está sobre meu peito que ela atravessa tudo e chega ao meu coração. A lâmina pulsa, pulsa de acordo com meu coração que vai morrendo porque está furado, porque está murchando e manchando de sangue o quarto, o mundo, e Deus. Estou tão feliz em escutar a astro nave chegando e tomando sua forma no jardim que por um momento eu quase acredito que Deus sempre fui Eu.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 01/10/2018
Alterado em 01/10/2018
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