O absurdo
por Larissa Prado
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Fragmentos de Viriginia 



 

1
 
Sempre gostei de flores, mas como nunca acontecia de recebe-las passei a me enviar flores no meu aniversário, natal ou qualquer outra data importante. Gosto muito de begônias e rosas brancas que ao morrerem se tornam marrons. É lindo ver o processo de morte de uma flor, é poético.

O meu coração inflava de alegria ao receber os buquês e por um momento quase me esquecia que eu mesma tinha me enviado. O amor próprio não é mesmo essencial para nossa saúde mental?

- Claro, querida.

Ela me responde, estamos sentadas na cafeteria da rua 33 observando a chuva mansa que cobre o asfalto quente.

- Você é mais forte do que imagina, Herta.

Eu não sei como Virginia faz isso, mas ela consegue curar todas minhas tensões e dores emocionais. Eu a conheci há dois anos na noite de autógrafos do seu último livro “Além de si”. Muitos criticam seu trabalho de auto ajuda, mas foi através dele que me mantive viva.

- Você está melhor do que a Herta que conheci há dois anos e melhora a cada dia que passa, a cada hora.

Eu sorrio para ela e juntas terminamos nosso café. Depois de uma hora conversando, Virginia se levanta e se despede. Quando ela vira a esquina e some é como se eu começasse a desaparecer também. Ando na chuva porque preciso sentir as gotas frias na pele e quando chego em casa a gaiola onde mantive uma cacatua por bom tempo continua coberta por um lençol.
Não me preocupo em descobri-la, isso não importa.

O relógio na estante da sala marca 15:30 e daqui meia hora vou para o meu trabalho. Hoje mais do que qualquer outro dia não me sinto disposta para lidar com o senhor Álvaro, ele não consegue sair da cama, é um pernóstico, avarento e desagradável. De todas as pessoas que já conheci, ele é uma das mais difíceis de lidar, por mais que tente deixar esse emprego, não consigo.

Penso em ligar para Virginia e pedir orientação, me sinto tão incapaz de encarar o velho hoje que qualquer palavra vinda dela ajudaria a encarar a situação. Eu tento falar com ela, mas o número não atende. Começo a acreditar que Virginia está me evitando, se esquivando, se comportando como todas outras pessoas que não tiveram paciência comigo. Enfio dois comprimidos de calmantes goela abaixo e tudo bem, vou para o banho me preparar para passar o resto do dia cuidando do senhor Álvaro, trocando suas fraldas, fazendo sua comida e aguentando suas humilhações.

Às vezes sonho que estou em um velório e no caixão Álvaro está deitado na típica posição de um cadáver, mas ele está ressonando como faz ao dormir profundo. Eu falo para todos presentes que o velho está vivo e que não podem enterrá-lo. Ninguém me escuta. Quando fecham o caixão e o levam na direção da cova eu continuo seguindo o cortejo e tentando alertar sobre o trágico erro que estão prestes a cometer. O caixão estremece ao descer pelo buraco, escuto os ruídos vindos do caixão. Tenho certeza que é Álvaro arranhando e se debatendo, ninguém se importa e eu também passo a não me importar, começo até mesmo a gostar de pensar nele sufocado e desesperado.

Esse pesadelo é contínuo e quando acordo na minha cama, quase sempre dormindo no quarto de hóspedes da casa do senhor Álvaro, me sinto triste por não ser real e vou checar se ele precisa de algo. É terrível desejar a morte de alguém mesmo que essa pessoa te humilhe e te faça sentir mal como ele faz comigo, é terrível porque não é humano sentir esse tipo de coisa. Por isso, as palavras de Virginia me confortam, eu trago uma edição de bolso do seu último livro na bolsa e sempre que posso leio os trechos grifados. Ela é a única pessoa que me entende, que não me condenaria por sentir as coisas que me assombram.
 
 
 
2
 
É a quinta vez que o meu celular toca e na tela vejo o número de Herta. Então, é a quinta vez que preciso ignorá-la. Ela não desiste. Herta é uma mulher de meia-idade carente e insegura. Esse é um dos piores tipos, dê a mão e logo vão querer braços, pernas e sua alma. Esse é o problema em ajudar as pessoas, elas sempre vão querer mais, a insatisfação parece algo inerente ao ser humano.

Quando conheci Herta eu estava passando por um ótimo momento de realização profissional. Na pré-venda do meu último livro tinha vendido mais do que o maior best-seller do último ano. Eu sempre escrevi o que as pessoas precisam ler ou o que gostariam de ouvir e ninguém lhes diz. Com o tempo meus leitores criaram essa dependência em relação a mim, mas ninguém se tornou tão dependente quanto Herta.

Naquela noite de autógrafos, Herta dirigiu por quase 1 hora e meia para me ver. Ela morava numa cidade próxima. Na fila era a pessoa mais ansiosa, eu podia ver seus gestos ao se aproximar. As pernas balançavam enquanto roía as unhas com apreensão.

Quando ela estendeu o livro e disse seu nome começou a chorar. Não tinha conhecido alguém tão mexida com minha obra. Aquilo me tocou de tal forma que aceitei tomar café com ela depois dos autógrafos.

Desde então, Herta passou a me telefonar todos os dias fosse para perguntar se deveria encontrar um dos paqueras do aplicativo para namoro, fosse para desabafar sobre os problemas que criava em torno de si. Herta me tomava por uma conselheira ou analista, fato é que sua amizade imposta passou a me soar muito a perseguição.

Às vezes, no meio de alguma reunião com meu editor ou agente, eu a via observando pela janela do escritório. Ela sorria de forma dócil e admirada. No início, aquele sorriso inspirava compaixão, mas nos últimos dias ele me causava incômodo, raiva e até medo.

Até em casa quando estava organizando meu jardim ou saindo para passear com o cachorro eu via Herta me olhando pela janela do seu carro. Não era sempre, mas eu me aproximava para saber o que ela queria e acabávamos sentadas em alguma cafeteria. Ela bebia muito café, mais do que qualquer outra pessoa que eu conhecesse. Sentia pena dela e é o tipo de sentimento que acaba te fazendo prolongar os problemas. Eu me preparei inúmeras vezes para confrontá-la e pedir para se afastar de mim, mas não conseguia. Quando chegava a hora sentia pena do sorriso estampado em seu rosto como se esperasse que eu consertasse o que havia de errado em sua vida.

À medida que esses dois anos passaram consegui encontrar um ponto de equilíbrio entre minha raiva e compaixão. Aprendi a tolerar Herta como nos acostumamos a uma dor de cabeça frequente ou com tudo aquilo do qual não temos controle. Com o tempo encontramos formas de tolerar.
 
 
3
 
O quarto é sufocante, minha cama é estreita e quando estou deitada parece que a qualquer momento as paredes vão se estreitar ao ponto de me prensarem entre elas. Baratas passeiam pelo teto às vezes, principalmente em épocas de calor como a que estamos. Não tenho problema em pisar em baratas, não é medo, mas asco. Assim que mato uma corro para lavar a mão, os pés, o rosto. Tenho nojo de quase todos insetos. Penso por onde devem ter andado antes de se infiltrarem no meu quarto e correrem sobre minhas coisas. Eu detesto estar onde estou, mas não tem outro jeito.

Aos dezoito anos sai de casa e desde então passei a pular de quarto em quarto pagando o mínimo que podiam cobrar com o máximo que era possível ganhar nos empregos temporários que encontrava. Eu tenho vício por tabaco, e boa parte do meu pouco dinheiro vai nisso. Sairia mais barato deixar qualquer tipo de vício, mas não é. Deixar algo que nos faz bem é difícil pra caramba, prefiro continuar gastando.

Depois que encontrei o quartinho do fundo da casa do senhor Álvaro, a minha vida melhorou bastante. Ele é um velho podre de rico, não sei a origem da sua fortuna, parece ser algo passado de geração para geração. A impressão que tenho é que Álvaro é rico desde que nasceu. Sua única preocupação é como gastar o dinheiro e ele não gasta. Nenhum centavo, vive como se fosse tão pobre quanto eu. Sempre fazendo economia, procurando formas de gastar o mínimo possível. Sua casa é grande, mas desprovida de luxos, tem o básico e ele não vive assim por humildade, e sim, por avareza.

Assim que vi a placa “Aluga-se quarto mobiliado” pendurada no portão dele eu senti que minha vida estava prestes a mudar. Esse sentimento que nos assalta sempre que as coisas estão se tornando escuras demais, insuportáveis, a gente quase reza por uma luz no fim do túnel e ela chega da forma mais inesperada assim simplesmente quando se está apenas caminhando pelas ruas chutando o ar.

Toquei o interfone e quem atendeu foi uma mulher, eu falei sobre o anúncio. Ela abriu o portão e me recebeu. Herta é seu nome e ela cuida do senhor Álvaro, é uma mulher gentil e muito boazinha. A princípio eu gostei dela por me oferecer chá e biscoitos, por me tratar bem e cuidar para que me tornasse a inquilina do senhor Álvaro. Ele, por sua vez, foi detestável desde o primeiro momento. Álvaro não olhava para mim, ele fingia que eu não existia, Herta se desculpava pelo gênio difícil do patrão e cuidava dos pagamentos e tudo referente ao quarto do fundo. Além de cuidadora ela era uma governanta. Admirável sua paciência com o velho, sua desenvoltura em ser humilhada sem parecer ofendida.

Porém, o tempo foi passando e cresceu em mim a semente de antipatia por Herta. Apesar de solícita e boa pessoa ela se tornou um estorvo, uma pedra, um espinho pinicando a coceira. O fato é que o senhor Álvaro gostava muito do seu dinheiro, mas não era mais tão cuidadosa quanto deveria ter sido na juventude. O que é compreensível por sua avançada idade, ele estava batendo na porta dos 95 anos de idade e para alguém que viveu tanto tempo ainda parecia lúcido em alguns momentos, principalmente quando escutava ele ralhando com Herta, insultando-a aos berros.

Ele tinha a mania de separar o dinheiro para as compras e deixar numa gaveta da estante da sala, sei disso porque observava quando Herta estava com ele ali, tentando fazê-lo terminar suas refeições era sempre nesses momentos que ele entregava a ela um envelope contendo as notas graúdas. Herta guardava na gaveta e ia cuidar do velho.

A ideia veio por causa da necessidade. Como dizia meu velho pai “a ocasião faz o ladrão”, eu não encontrava emprego, minhas poucas economias estavam chegando ao fim e tinham meus vícios que gritavam toda as noites em meus ouvidos, ou eu tomava um trago e fumava um cigarro ou enlouqueceria. A primeira vez que entrei para pegar uns trocados mal conseguia me mover pela sala, estava tremendo de medo.

Era noite e Álvaro estava roncando, dava para ouvir seus ruídos de urso velho ecoando do quarto. Abri a porta que ligava a cozinha ao meu quartinho e fui direto na gaveta onde vi Herta guardar o dinheiro naquela tarde. O envelope estava ali, gordo e reluzente como o tesouro no fim do arco-íris, eu peguei apenas uma nota de 50 e sai às pressas da sala direto para o bar mais próximo. Ou eu tomava um trago naquela noite mesmo e fumava um cigarro ou iria morrer, essa é a sensação que os vícios causam, a morte iminente decorrente da abstinência.

Houveram mais vezes, pegar dinheiro do senhor Álvaro se tornou outro tipo de vício. Às vezes não era tanto pela necessidade, mas pela revolta em saber que alguém como ele tinha tanto e não usufruía enquanto eu não podia ter nada. Era quase justiça poética tirar de quem tem muito para dar a quem não tem nada e nunca terá. Herta começou a sentir falta do dinheiro porque comecei a ser mais ousada e a roubar quantias maiores. Ela acreditava que o senhor Álvaro estava contando errado e passou a tirar do cofre mais dinheiro, se contasse a ele do sumiço ele iria acusa-la.

 A situação se tornou conveniente para mim, Herta não tinha coragem de falar que faltava dinheiro e Álvaro estava tão caquético que não se importava mais em contar. Apesar do seu gênio ruim dava para perceber que ele confiava bastante na sua empregada.

Certa vez, estava saindo do meu quarto e atravessei o corredor ao lado da casa quando Herta me chamou “Simone?Simone” ela murmurou entre as cortinas da porta de vidro da sala, eu fui até ela. Nós não éramos amigas nem nada do tipo, nossa relação se resumia a cumprimentos ocasionais, Herta era boa e muito retraída, o que chamam de pessoa introspectiva.

Ela confidenciou que estava preocupada com o sumiço do dinheiro e temia que o senhor Álvaro percebesse que ela tirava quantias do cofre para complementar as contas.

- Ele tem a mania de contar o dinheiro que seu contador traz todo dia antes de colocar de novo no cofre.

- Se ainda não percebeu, Herta, é porque ele nem deve mais saber contar direito.

Tentei tranquiliza-la.

Ela não pareceu convencida, mas nunca mais me falou nada sobre isso. Acho que quis dividir o problema porque não tinha mais ninguém com quem conversar sobre isso, nunca me passou pela cabeça que ela pudesse desconfiar de mim. Herta era ingênua, meio estúpida, boa demais para desconfiar ou acusar qualquer pessoa, mas ainda assim, ela se tornou um risco, um incômodo, para minha arrecadação diária na casa do velho Álvaro.

 
 
4
 
 
Mais um dia de fim de expediente na casa do senhor Álvaro, quando sento atrás do volante do meu carro sinto a coluna reclamar de dor. Daqui uns tempos não conseguirei mais levantá-lo para tomar banho ou trocar a fralda. E tem também os insultos, daqui uns tempos talvez o meu espirito não suporte mais as humilhações.

O que me dói é que tento gostar do senhor Álvaro, mas aquela sua voz de gralha velha, a potência que ela ainda conserva, é a única coisa realmente jovem nele. Seus olhos de lobo velho e astuto sempre me vigiando quando abro as cortinas e ele grita para fechá-las e quando fecho e ele grita para abri-las. Há pessoas que nasceram para serem odiáveis, mas não queria odiar ninguém.

Há noites, como essa, que ele parece fazer suas necessidades na fralda só para me afrontar. Sempre faltando alguns minutos para deixar sua casa, ele me olha com um sorriso sarcástico nos lábios murchos e o odor sobe pelo quarto. Eu não sei por quanto tempo uma pessoa pode suportar isso, mas troco a fralda com calma automatizada de uma máquina resistente a qualquer impacto.

Eu toco o crucifixo pendurado no retrovisor do meu carro e peço a Deus por mais um pouco de paciência, mais um pouco de equilíbrio e força de espirito para aguentar os próximos dias de humilhações. “Eu devo merecer isso” volto a alimentar os pensamentos derrotistas enquanto coloco a chave na ignição “eu devo ser merecedora de tudo de ruim que me acontece, se ele me trata assim é porque mereço e preciso suportar”.

Ligo o carro e sigo por caminhos que me levam à chácara “Rosa dos ventos”, é onde Virginia escolheu morar depois do seu último trabalho. Um lugar plácido longe de qualquer agitação urbana. Vou até lá de vez em quando, peguei o endereço com seu agente depois de inventar uma desculpa esfarrapada que era uma antiga amiga que adoraria visita-la. Foi fácil conseguir o endereço, ela sempre foi uma escritora acessível. Até porque o conteúdo dos seus livros nos aproxima dela como pessoa, Virginia parece dizer tudo o que precisamos ouvir em cada momento de nossas vidas. Dá a impressão de ser uma amiga o que ela de fato se tornou.

Eu precisava conversar com ela, a única pessoa que me acalmava com sua sensatez serena, precisava ouvir sua voz, a mesma que ecoava em seus áudios books que comprei há dois anos e com frequência ecoavam pelo som do carro. Decorei boa parte das mensagens para fins de autocontrole, é algo que Virginia diria nesse momento em que me vejo prestes a ter um surto: Não deixe que atitudes alheias controlem sua vida. Tome o controle de si mesma. Não deixe que te afetem. Não deixe que a raiva ou o desespero guiem suas ações.

Eu repito junto com a voz dela ecoando pelo carro e aos poucos o coração vai acalmando. Não posso deixar que o gênio do senhor Álvaro me desestabilize, falar é fácil, penso comigo mesma, na prática é outra história. Volto a pensar na calma de Virginia, como alguém pode ser tão indiferente às coisas do mundo. Quando estaciono em frente à sua casa na chácara nem noto que dirigi até ali.

Eu desço e abro o portão que está sem a tranca. Não vejo o carro dela ali, então, atravesso as árvores maravilhosas que cobrem o céu deixando entrar apenas uma réstia de luz da Lua Cheia. A porta de entrada é de um vitral colorido, ela tem bom gosto. O silêncio é completo, escuto apenas um pássaro ao longe, é o som de uma coruja. Entro na sua casa que está iluminada apenas por abajures altos espalhados por todos os cantos. Essa mulher é uma espécie de deus, penso comigo entregue à fascinação de estar no antro de uma das escritoras que mais admiro.

Ando pela casa que é pequena e aconchegante, todos os cômodos são abertos, a cama de casal está num canto, muito bem arrumada e cheia de almofadas que convidam para o sono.

A cozinha é pequenina e fica ali próxima ao quarto, o banheiro está mais afastado e é o único cômodo cercado por paredes, eu vou até lá e vejo uma banheira antiga vitoriana. A casa exala um cheiro maravilhoso de flores do campo, noto que ela tem muitos vasos de flores e fico feliz com essa coincidência de gostos. Eu e Virginia temos tanto em comum e isso me faz sentir como se fosse melhor do que realmente sou.

Eu vasculho seu armário de roupas ao lado da cama, poucas peças, cores sóbrias, ela vive com o mínimo. Essa mulher é realmente de outro mundo, a minha admiração aquece tanto minha mente de bons pensamentos que esqueço da vida lá fora, do senhor Álvaro dormindo e ressonando urinando em sua fralda a noite inteira, esqueço da feiura do mundo.

Quando dou por mim estou com o hobby de dormir de Virginia que desliza pelo corpo acariciando em seu tecido de seda nobre e na mão estou segurando uma taça de vinho tinto do Porto. Na bancada da cozinha, eu folheio o bloco de anotações no qual ela deve estar escrevendo as notas do seu próximo livro. Fico extasiada, cheia de animação por aquele achado.

O que está escrito ali não faz sentido, não consigo encontrar uma ligação entre os trechos soltos, são como frases de efeito, em algumas ela colocou entre parênteses um ponto de interrogação ou exclamação. A maravilhosa arte da criação.

Virginia é uma mulher muito solitária, noto pela forma que sua casa é organizada, tudo o que tem aqui só pode servir para uma pessoa e qualquer companhia seria um peso extra. Tudo é limitado, pouco, feito para o uso de uma pessoa simples. Sei da sua história de vida, Virginia teve uma infância difícil vivendo em orfanatos, o pai era um abusador, ela ficou órfã depois que ele morreu num incêndio proposital. Na época, desconfiavam que a culpada pelo incidente tinha sido ela, apenas uma menina de 8 anos. A vida foi cruel com Virginia e ela retribuiu se tornando esse anjo de pessoa, essa mulher que escreve e salva a vida de muitos. A minha salvadora.
 

 
5
 
Enquanto folheio suas anotações sentada no sofá da sala, não escuto os passos se aproximarem e quando dou por mim ela está na minha frente e ao seu lado um homem jovem e bonito sorri constrangido.

- O que é isso, Herta? O que faz aqui?

Eu vejo o rubor subindo pelo pescoço alvo e longo de Virginia, nunca a vi nervosa e nem achava que isso fosse possível.

- Desculpa Virginia! Eu vim para conversar e não te encontrei, resolvi esperar. Sinto muito.

- Bebendo meu vinho e vestindo minha roupa? Como entrou aqui?

- A porta estava destrancada e o portão também.

- E você acha que podia entrar? Eu não te dei essa intimidade, Herta. Você passou de todos os limites.

O homem que a acompanhava segurou o ombro de Virginia e beijou seus lábios dizendo que iria embora, ele tinha no rosto uma expressão estranha de assombro e vergonha. Ela segurou o braço dele pedindo para que ficasse quase implorando na verdade, aquela cena começou a me causar embrulhos no estômago. Como poderia suportar ver Virginia se humilhar a alguém daquela forma? Ainda mais uma pessoa que se desvencilhou de suas mãos e a deixou sem olhar para trás, indiferente e apressado.

Assim que o rapaz saiu ela fechou a porta atrás de si e se virou para mim, eu podia sentir os trovões que vinham do seu olhar porque o castanho claro se tornou um borrão escuro de raiva. Naquele momento senti medo dela, mas também estava com raiva da faceta de Virginia que acabara de presenciar, insegura e suplicante.

- Por que você não me deixa em paz? Eu não posso mais suportar essa sua perseguição.

- Eu precisava dos seus conselhos, só você pode me ouvir e me entender. Mas o que foi isso? O que vi aqui? Quem é aquele homem?

Ela andou para a cozinha tirando do bolso do seu casaco um maço de cigarro, acendeu um e tomou um gole do vinho na garrafa que deixei sobre a bancada.

- E o que isso te interessa? Nada da minha vida é do seu interesse, Herta, você precisa se virar sozinha, parar de me perseguir, entende? Eu não escrevo a porra dos meus livros especificamente para você!

- Ele é seu namorado? Marido? Você fala em seus livros sobre nos desvencilharmos dos apegos afetivos, sobre sermos equilibrados em nossas relações, mas quase faltou ajoelhar para ele ficar. Vocês tinham brigado antes, não foi? Eu vi a cara dele! Esse homem não é para você, Virginia. Meu deus, porque você implorou daquela forma! Parece que tudo o que escreve é mentira, nem deve seguir o que aconselha, você deve ser uma impostora, um embuste. E eu te amo tanto!

Virginia ficou me olhando, a garrafa pendia de uma mão e a fumaça do cigarro subia da outra apoiada na bancada, seu rosto estava marcado por um choro recente, eu podia saber quando ela estava triste, mas nunca a vi daquela forma. Infeliz e com o rosto tão descrente, sem força.

Ela veio andando na minha direção, e ergueu o dedo indicador enquanto os outros ainda seguravam o gargalo da garrafa, tocou a minha testa com cutucadas que até doeram enquanto enfatizava bem cada palavra sussurrada.

- Vá embora da minha casa, desapareça da minha vida. MORRA.

A proximidade do seu rosto me fez sentir o aroma forte de álcool, não era só o vinho, eles deveriam ter bebido muito antes de chegarem ali. Dei alguns passos para trás, assombrada por aquela mulher que parecia ter possuído o corpo de Virginia. Ela era como uma deusa para mim e agora não passava de um pobre diabo, seus cabelos estavam desgrenhados caindo de um coque embutido mal feito. Ela cambaleou e deixou o corpo cair no sofá. Eu não podia deixa-la, não conseguiria. Virginia encarava o rótulo da garrafa com um sorriso lunático.

- Virginia, eu te entendo. Eu também bebia muito quando as coisas apertavam, você não está sozinha.

- Não?

Ela ergueu o rosto para mim, os olhos ainda carregados de raiva.

- Não estou? Vamos ver, eu tenho você, certo? Mas eu não quero você por perto, Herta, eu quero que vá embora e me deixe sozinha. Não, você não entende nada, sua maldita perdedora, fracassada chorona, suas lamúrias são patéticas. Vá embora, corte os pulsos, pule de um prédio, desperdice sua vida medíocre em atitudes autodestrutivas, não me importo com você.

Eu sei o que era levar um tapa no rosto porque meu pai costumava me ensinar a não fazer nada errado assim quando era criança. Ele levantava a mão enorme, virava e deixava-a cair sobre minha bochecha. Era como ser atingida por um tijolo, minha mãe não dizia nada porque tinha suas próprias bofetadas para superar. Foi como um tapa da mão grande do meu pai aquelas palavras de Virginia. Ela era boa com as palavras, e descobri aquela noite que ao mesmo tempo que as palavras salvam elas também podem te matar.

Sai pela porta meio atordoada com o golpe emocional que doía mais do que os tapas do meu pai porque é o tipo de dor latente, ela não diminui com pomadas ou analgésicos, ela cria raízes fundo e vai doendo. Entrei no carro, nem percebi que ainda estava com o hobby de seda de Virginia, só notei quando cheguei em casa. Antes de dormir, tratei de pegar a tesoura e cortá-lo em tiras imaginando-a vestida com ele, como se pudesse cortar sua carne junto ao tecido.
 

 
6
 
A incursão dessa noite na sala do senhor Álvaro parece mais arriscada porque não escuto seu ronco vindo do quarto. Tenho medo que ele acorde e aos tropeços venha até a sala com seu andador, não sei o que faria, nunca pensei em planos b caso alguém me pegasse no pulo do gato. Abro a gaveta, não vejo o envelope ali. Fecho-a de novo e torno a abrir como se ele pudesse aparecer por mágica. Nada. Herta deve ter levado o dinheiro para pagar as contas, mas não era para ser assim. É odiosa a desordem causada pela ruptura imprevista de uma rotina.

Eu lembro do cofre, mas pelo o que escutei das conversas de Herta com ele fica no quarto e o velho está lá. Preciso arriscar, os vícios estão gritando essa noite, ou eu os alimento ou acabo sendo engolida por eles, preciso de um trago ou posso até mesmo me enforcar com o lençol só para não sentir mais a garganta seca e a mente ressequida urrar por um gole.

Desbravo os corredores do casarão e encontro o quarto do velho, caminho sob pés de pluma enquanto seguro os sapatos. Afasto a porta só um pouco até poder ver a cama dele, o amontoado de decrepitude ronronando é Álvaro. Hoje seu sono parece superficial, estou tremendo, se ele abrir os olhos espertos e começar a urrar, não sei o que farei. Eu coloco a cabeça para dentro do quarto como se quisesse conferir se o ar é tóxico, mas é apenas o medo que ele se mova que sinta minha presença. Até que ponto Álvaro está senil? Ele parece uma velha águia que ainda pode dar voos rasantes em animais rastejantes.

Deslizo para dentro do quarto e começo a procurar, depois do primeiro rombo de coragem no primeiro passo ganho confiança para olhar na estante de livros que fica sobre a escrivaninha do quarto.  Paraliso os movimentos quando escuto ele se mexer na cama tossindo. Mal posso olhar para trás, espero os ruídos pararem, senhor Álvaro começa a roncar como de costume e agradeço por isso.

Tiro alguns livros da estante, são pesados, não posso fazer qualquer barulho, eu me movo como uma sombra em câmera lenta. Coloco um por um sobre a escrivaninha até que quando estou prestes a desistir da estante vejo o cofre ali atrás de um enfeite. Não é grande, é apenas um pequeno cofre com um cadeado. A droga de um cadeado. Ele não usa senha porque não deve mais nem lembrar o próprio nome completo. Mas tem o cadeado. Tiro o cofre e coloco sobre a escrivaninha. Não posso leva-lo, aí seria caso de polícia.

Fico parada por um bom tempo olhando o cofre, a preocupação com Álvaro diminuiu ao ponto de desaparecer, ele está ecoando sua sinfonia do ronco constipado. Olho em volta tentando adivinhar onde ele poderia guardar a chave. Não deve ser um lugar difícil por causa da sua péssima memória. Lembro então, de Herta, com certeza a chave fica com ela. Eu sabia que se tornaria um estorvo, não posso esperar que ela chegue pela manhã. Eu posso morrer até lá de tanta fissura num trago. Estou nervosa, as mãos tremem.

Pego o cofre e fico olhando para o cadeado como se pudesse abri-lo com a força do pensamento. E não é que às vezes o que parece absurdo pode acabar se tornando realidade? Pois quando faço um movimento mais brusco para voltar o cofre para seu lugar noto que o cadeado se moveu entreaberto. Quase dou um grito de êxtase. O velho estúpido deve ter se descuidado e não ter fechado com força suficiente, ele nem deve conferir se trancou direito.
Quero sair rodopiando com o cofre, beija-lo, mas me contenho e com rapidez abro o cadeado e encontro lá dentro um pequeno baú de madeira, literalmente o baú do tesouro. Há bolos de dinheiro bem organizados e alguns são dólares.

Era mais do que eu esperava, talvez até mais do que eu mereça, mas eu mereço, no fim das contas, eu mereço mais do que ele. Tiro tudo, não deixo nada, levo comigo inclusive o pequeno baú. Vai se tornar caso de polícia com certeza, mas quando as coisas começarem a esquentar vou estar longe, bem longe desse quartinho minúsculo e dos sons asquerosos do senhor Álvaro.

Eu escondo o baú dentro de uma mala de mão no meu armário, tiro dali o suficiente para meu trago da noite. Fazia tempo que não caprichava na aparência, mas estou com um novo ânimo, uma vontade inédita de viver e parecer bonita, uma energia corre por meu corpo como descarga elétrica. É o dinheiro, é sentir-se rica, causa isso nas pessoas, essa sensação de poder, de glória, de triunfo. Agradeço a Deus porque minha hora chegou, já não era sem tempo.

 
7
 
Passou dois meses desde o incidente na casa de Virginia. Nunca mais a vi e nem a procurei apesar da vontade ser grande. Por diversas vezes eu me vi encarando seu número selecionado na tela do celular, a tecla “chamar” parecia me hipnotizar para apertá-la, mas eu me contive. Assim como ela pediu não a procurei. Ela precisa de um tempo, se acalmar, não deve ser fácil ser alguém como ela porque parece ser boa demais para ser verdade. Tudo que parece ser bom demais é apenas reflexo de um trabalho árduo.

A minha decepção acalmou, na verdade na manhã seguinte me peguei chorando silenciosamente na cozinha enquanto encarava o hobby cortado da Virginia. Como poderia machucá-la? Não posso levar em conta o que ela me disse, não posso deixar que atitudes alheias me controlem e definam meu humor, é isso que ela sempre diz. Virginia está passando por um mau momento, pobrezinha, e eu tento entende-la e engolir a seco meus problemas para não me render à necessidade de procura-la.

A vontade se torna maior todos os dias antes de sair para o trabalho com o senhor Álvaro, é o pior momento do dia. Coloco o último áudio book de Virginia e ter sua voz no carro é uma forma de trazê-la para perto. Não percebo quando as lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto, mas isso acontece toda vez que a escuto, principalmente nos últimos meses de afastamento. Parte de mim está cada dia mais enfraquecida sem a presença de Virginia.

Penso nas suas frases, nos seus trechos e personagens que superam tudo, mas as palavras não suprem a falta que a pessoa dela faz. As palavras trazem algo dela, claro, e parece agora ser insuficiente. As palavras adquiriram uma espécie de véu por onde Virginia, a real, se esconde. Não consigo mais acreditar no que estou escutando e desconfio que parte do meu choro vem dessa percepção.

Desvio do meu caminho só para passar na porta do escritório onde o agente dela trabalha. Estaciono do outro lado da rua e percebo que o carro de Virginia está parado na porta. Meu coração dá um salto, ela pode sair a qualquer momento ou ter acabado de chegar. Não sei mais sobre seus passos, e essa é a dor fundamental da saudade, não saber por onde a pessoa anda e como se sente. Fico olhando para o outro lado e não abaixo a janela, não quero ela perceba minha presença caso saía dali.

Eu imagino o que Virginia esteja fazendo lá com seu agente, talvez conversem sobre o próximo livro que aliás roubei as notas da sua casa. Ela deve estar brava por isso, evito pensar no quão irritada comigo deve ter ficado. Mas o tempo passou e isso me faz abrir a porta do carro. Desço e fico olhando para o prédio onde funcionam outras salas comerciais. Tento adivinhar em qual janela ela deve estar, mas não sei em qual andar fica. Apenas continuo olhando, a luz do fim do dia me cega por um momento.

Volto para atrás do volante, não posso procura-la, preciso me conter. Talvez lhe envie flores com um cartão pedindo desculpas. Estou profundamente arrependida, essa é a verdade e espero que ela possa sentir isso. Enquanto penso em quais flores deveria enviar para Virginia o celular vibra e toca alto como se pudesse transmitir a ansiedade de quem liga.

Quando atendo a voz do outro lado dá um grito tão alto que preciso afastar o telefone da orelha por um instante.

- Ladra!

Ele grita isso muitas vezes antes de exigir que eu vá para lá, o senhor Álvaro está arfando como se estivesse afogando no próprio desespero. Eu desligo sem dizer nada interrompendo sua falação afetada. Ligo o carro e não me preocupo com o trânsito caótico do fim do dia, corro acima da velocidade permitida furando sinais e quase atropelando pessoas. Vou tentar conter os ânimos dele.
 
 

 
8
 
 
Por mais que tente, nada surge na minha cabeça que possa preencher a tela em branco do computador. Meu último livro foi publicado há dois anos, depois disso nunca mais consegui escrever.

As ideias brotam, pairam meu campo mental vazio e não fixam ou ganham formas, elas não criam raízes. Talvez seja a hora certa para pensar em aposentadoria. Ainda estou pensando como vou dizer isso ao Filipe, meu agente literário, ele não vai receber bem a notícia.

Ele está servindo café para nós e percebe minha ansiedade, não é apenas o bloqueio criativo que está me deixando nervosa.

- Virginia, o que está acontecendo? Toda vez que nos encontramos nos últimos tempos percebo como está distraída e apreensiva.

Penso em uma resposta que despiste, mas não sei disfarçar, nunca fui boa nisso. Resolvo falar a verdade, talvez desabafar traga alguma calma.

- Estou me sentindo perseguida, Filipe.

- Como assim? Por algum ex? Um admirador? Está falando de stalkers?

Eu não sei como falar sobre o assunto, apesar de ser um bom amigo, Filipe é irônico, ele vai achar uma maneira de me constranger e me fazer sentir uma maluca. Arrependida por introduzir o assunto abaixo o rosto para meu café. Antes que possa falar para ele esquecer e começarmos a falar sobre a aposentadoria, eu olho pela janela do escritório e vejo o carro de Herta estacionado do outro lado da rua. Reconsidero a ideia de ignorar o assunto.

- Não é nenhum admirador nem nada disso. É uma leitora, ela se diz minha fã. Eu achei que era uma boa mulher apenas um pouco carente. Achei que ouvir as impressões dela sobre o que escrevo me ajudaria no bloqueio, mas ela se tornou uma tormenta.

Eu conto para Filipe sobre a invasão da minha casa e mostro o carro estacionado do outro lado da rua.

- Virginia, é melhor ir até uma delegacia, se essa Annie Wilkes chegou ao ponto de invadir sua casa isso é bem sério.

Respiro aliviada por ter falado sobre isso e, também, porque ele não fez piada.

- Não sei, Filipe. Ainda parece que ela só está meio perturbada.

- E olha só, ela tem o mesmo carro que o seu! Será que foi proposital?

Não tinha reparado no detalhe do carro, não uso muito o meu, mas é verdade o que Filipe aponta. Herta trocou o carro por do mesmo modelo do meu. Isso realmente me assusta, Filipe está sério, eu ainda olho pela janela.

- Ela parecia tão normal.

- Essas são as piores, Virginia. Quando você percebe já se deixou levar sem perceber. Quer que eu vá com você até a polícia?

A ideia de ir a uma delegacia me desagrada, tanto pelo ambiente quanto pela motivação. Dispenso a gentileza dele e prometo cuidar disso. Levo a conversa para o rumo que interessa. Quando digo que não vou mais escrever Filipe fica paralisado.

- Como? Eu ouvi direito? Você não pode fazer isso comigo, nem com seus leitores e muito menos com você mesma. É só uma fase, Virginia, você vai conseguir fazer algo.

- Não é essa questão, mesmo que voltasse a escrever e conseguisse publicar o próximo livro tão esperado... não posso continuar com isso. Não é só um bloqueio, Filipe, é mais do que isso. Não gosto mais...

- Você não pode estar falando sério.

Não respondo nada, é bem sério e ele sabe disso. Não posso continuar escrevendo. Quando a nascente de um rio seca não dá para manter a água rolando.
 
 
9
 
Antes de entrar pela porta da casa do senhor Álvaro respiro fundo e mentalizo as palavras de Virginia: não se deixe desequilibrar por conta do desequilíbrio alheio. Repito mentalmente as palavras dela como um mantra.

Assim que entro na sala o senhor Álvaro dá um grito: LADRA! Ele está se segurando no andador, as mãos tremem, os nós dos dedos estão brancos por conta da força que precisa fazer para se manter firme. Tenho medo que ele tenha um ataque cardíaco, por isso corro e o ajudo a sentar no sofá.

- Onde você colocou meu dinheiro? Sua bandida! Eu confiei em você, sua sonsa. Bandida desgraçada.

Não sabia o que era aquilo, não fazia sentido. Busco um copo d’água e o calmante dele. A princípio Álvaro resiste em tomar, mas logo cede às minhas súplicas.

- Eu não sei do que o senhor está falando. É o dinheiro? Ele sumiu?

Ele joga o copo na minha direção, sinto o impacto contra meu braço e os estilhaços de vidro caem em meus pés. Continua gritando que sou uma bandida, me insulta com os piores tipos de xingamentos, fala da minha aparência desleixada e da minha cara de sonsa. Ele consegue arrancar lágrimas dos meus olhos. Nem todos os capítulos escritos por Virginia podem me segurar. Eu caio num buraco de auto depreciação suicida.  Eu mereço toda essa humilhação e saber disso faz doer mais.

Não consigo me defender mesmo sabendo da minha inocência, quase me convenço que sou culpada. Nunca dei motivos para despertar a desconfiança dele, então faço o que sempre fiz quando me sinto ameaçada, abaixo a cabeça e choro.

É então que noto a silhueta observando-nos da porta da sala. Simone está parada com uma mochila nas costas como se fosse viajar. Diante à inquilina de Álvaro os meus sentidos disparam seus alarmes tardiamente: Foi ela! Seus olhos me dizem isso, sua pose ali de pé com ar triunfante carrega a placa de culpada.

O senhor Álvaro está me olhando, ainda tremendo, ele espera uma resposta ou explicação. Eu olho seu rosto e aponto para a porta.

- Foi ela! Ela roubou o senhor!

Ele nem se preocupa em olhar para a porta, volta a berrar dizendo que estou enrolando, mentindo para tentar me safar.

Não dou ouvidos, saio correndo atrás de Simone e vejo como último relance sua mochila passar pelo portão. Vou atrás dela, não posso levar uma culpa que não é minha, já carrego culpas demais.


 
10
 
A conversa com Filipe me deixa pior do que estava. Ele me fez enxergar que estou desistindo fácil, influenciada pelo bloqueio que dura há dois anos. Filipe é um bom amigo, mas é bem exigente. Ele fica dizendo que posso mais do que faço e essa crença em mim me torna insegura. Tenho medo de decepcioná-lo assim como temo decepcionar quem gosta do que escrevo. Estou morrendo de medo.

Herta gritou que sou uma impostora, que não acredito e nem vivo o que escrevo. Suas palavras se tornaram as sombras densas que cobrem as certezas que sempre me mantiveram firme sobre quem sou e o que faço.

Resolvo tentar mais, não entregar os pontos. Se eu desisto vou agir contra tudo sobre o que sempre escrevi: perseverança, equilíbrio, confiança. Ao abrir o arquivo em branco no computador eu sinto a mente absorver essa brancura, esse nada infrutífero. Como eu conseguia fazer isso? Eu me pergunto. Como é que se escreve?

A minha testa lateja, digito uma palavra para em seguida apertar o “delete”. Faço isso tantas vezes que o arquivo trava na frase “não sei, não sei, não sei”, ela fica ali paralisada enquanto tento fazer a tecla de apagar funcionar.
Lembro do meu bloco com as anotações feitas há dois anos quando ainda podiam me considerar uma escritora e isso me enche de mais angústia. Eu perdi essas notas. Não vou conseguir criar nada a partir do nada.

Deito a cabeça ao lado do monitor, o cansaço mental me deixa sonolenta, caio nas teias do sono onde nos aguardam os pesadelos.

No pesadelo eu estou escrevendo minhas notas, a cabeça trabalhando a mil como antes, quando Herta entra pela porta. Ela para na minha frente e abre a boca cheia de larvas brancas. Eu grito enquanto ela se aproxima como se fosse me dar um beijo, sua boca aberta é a entrada de uma cova.

Eu sabia que era um sonho, nós sempre sabemos. Acordo em frente ao computador e a frase desapareceu da tela deixando tudo branco de novo. Desligo o computador, através do reflexo no monitor eu vejo Herta de pé e quando viro a cadeira vejo que ela está chorando.

- O que estava escrevendo? – ela enxuga o rosto – Eu vim pedir seu perdão.
Estou tão chocada que demoro a recobrar o raciocínio. Não consigo sentir raiva dela, a pena volta a me deixar compadecida.

- Tudo bem Herta, vamos para o sofá.

Eu a coloco sentada, ela está gelada e pálida.

- O que aconteceu, Herta?

- Estava escrevendo algo novo? Faz tempo que não leio nada seu.
Herta segura minhas mãos com força, noto seu desequilíbrio no olhar lunático.

- E eu preciso tanto ler algo seu de novo!

- Chega Herta, para mim já deu, eu não vou escrever mais. Eu estou me aposentando disso.

É compreensível a frustração de admiradores quando descobrem que seu artista favorito se aposentou. Eles reclamam, lamentam um pouco até encontrarem outro artista para aplaudirem. O que vejo no rosto de Herta, porém, não chega nem perto de frustração. Ela está desesperada!

Herta volta a cair num choro convulsivo. Agarrada aos próprios cabelos ela urra e implora.

- Virginia pelo amor do bom Deus, não faça isso comigo. Como se atreve a dizer isso?

Tento entregar a ela um copo de água com açúcar, Herta recusa e cai numa apatia repentina. Eu evito me aproximar, permaneço na cozinha observando suas reações abruptas.

- Eu acho que nunca amei tanto alguém como amo você. Quando estávamos separadas ouvia seus áudios books antes de dormir. Você esteve comigo nos piores momentos da minha vida o que significa que esteve o tempo inteiro porque minha vida é um desastre, Virginia. Ela é um desastre do começo até hoje e vai ser até o fim, mas você? Você me deu um sentido para viver, você me encheu de força. Você falou comigo e me entendeu.

Só naquele momento notei que Herta usava um casaco de frio exatamente como o meu, fico imaginando se ela comprou um igual ou levou da minha casa no dia que a invadiu. Ela é assustadora e se torna pior ao levantar o rosto e sorrir.

- Se você parar de escrever eu não vou suportar mais.

Penso, exausta, “Ah Herta, sua louca maldita, é por essa e outras que nunca mais quero uma noite de autógrafos na minha vida!”.

Sento ao seu lado no sofá e percebo que sua bolsa está entre nós, aberta. Vejo lá dentro a ponta inconfundível do meu bloco de anotações.

- Tudo bem, querida. Vai ficar tudo bem.

Toco seu ombro e ela se encolhe pegando a bolsa. Não dá para conversar com alguém transtornada como Herta. Abraço-a e decido recuperar minhas anotações outro dia e de outra maneira.

 
11
 
A perseguição não deu em nada, Simone desapareceu assim que atravessou o portão. Volto para a casa do senhor Álvaro que a essa altura já deve estar ligando para a polícia. Precisamos encontrar Simone antes que vá para longe.

Assim que entro pela sala sinto que alguma coisa está acontecendo, não sei dizer o que é. O andador dele está tombado no meio da sala. Não o encontro em lugar nenhum.

Percorro a casa inteira diversas vezes e não encontro nenhum sinal de Álvaro. Eu estou prestes a ligar para a polícia, mas escuto o portão ranger. Será que ele conseguiu sair? A resposta para minha pergunta está parada ali na porta da sala segurando uma garrafa de cerveja.

Simone sorri para mim e bebe sua cerveja, eu me esqueço o que estava fazendo apenas corro até ela e agarro as alças da sua mochila.

- Cadê o Álvaro? O que você fez?

Simone continua sorrindo sem dizer nada. Eu nunca fui violenta, nunca me imaginei tratando alguém dessa forma. Ultrapasso qualquer limite quando estapeio o rosto de Simone e grito sobre o paradeiro dele. Ela começa a gargalhar enquanto bato mais forte em seu rosto avermelhado e inchado. Simone continua rindo mais alto.

Eu paro de agredi-la por conta do cansaço, me afasto e Simone aproveita para correr na direção do seu quartinho e se tranca lá.

Nada mais faz qualquer sentido. As marcas no chão mostram o trajeto feito por ela, são pegadas de sangue.

A primeira reação que tenho é de ligar para Virginia, ela não atende. Então, vou direto para o carro e continuo tentando falar com ela. A iminência de uma tragédia me faz não querer ser mais eu.
 
 
12
 
Outro dia e de outra maneira, e eis que chega o dia. Sei onde Herta mora porque ela sempre insiste para visita-la e me deu seu endereço. Eu bato na porta mesmo com a garagem vazia, não sei se ela mora com alguém, mesmo com a certeza de que é sozinha não quero arriscar. Ninguém abre a porta.
Procuro alguma entrada pelos fundos, não há nenhuma. A porta está trancada, mas a janela está entreaberta, basta empurrar um pouco e consigo passar por ela. Estou dentro da sala de entrada, começo a vasculhar tudo.

Não há nada interessante na primeira sala, porém, na segunda sala encontro uma estante grande contendo bastante livros, nunca imaginei que Herta pudesse ler tanto. Entre eles estão todas edições que publiquei, inclusive as mais raras que quase ninguém teve acesso por terem poucas tiragens.

Sobre uma mesa de canto eu vejo minhas notas espalhadas, quase todas que guardava em casa. A lunática trouxe todas. O que me assusta de verdade é o porta-retratos sobre a mesa com minha foto sorrindo e segurando o primeiro e único prêmio literário que recebi.

Eu vou até o quarto dela, sobre a cama vejo o meu hobby de dormir todo cortado. Herta é pior do que eu imaginava. Uma sensação ruim me faz sair correndo dali, vou na direção da janela, preciso ir embora. A porta abre no momento que chego na sala. Herta entra batendo-a atrás de si. Nós duas nos encaramos por um tempo.
 

 
13
 
O pior que uma pessoa pode fazer com você é te ignorar. Isso mostra que é insignificante para ela. Eu tentei falar com Virginia por 19 vezes e ela não me atendeu em nenhuma. Então, quando chego em casa encontro ela ali me olhando com assombro. Não foi ela que deu um ataque por me ver na sua sala? Virginia é a minha maior decepção do ano.

- Olá Virginia.

Eu acabo me esquecendo de toda confusão na casa do senhor Álvaro. Ela não responde, continua me olhando enquanto me aproximo e dou um beijo em seu rosto.

- Fico feliz que veio me ver!

- Herta, por que tem uma foto minha na sua mesa e meu hobby cortado na sua cama?

Sabe o que é pior na Virginia? Ela acha que o mundo inteiro gira em torno do seu umbigo. Ela não acredita em nada do que escreve. Eu vou até a cozinha e trago uma maçã, corto um pedacinho e ofereço a ela. Virginia nem se move.

- Eu estou meio ferrada, Virginia, preciso resolver um problemao. Acho que preciso da sua ajuda.

- Você roubou minhas coisas, lunática, esse é seu único grande problema agora!

Virginia é histérica demais para alguém que escreveu sobre paciência e equilíbrio. Eu me sinto ultrajada por ter acreditado nela, por ter sido enganada por suas palavras vazias.

- Sabe Virginia, eu quero muito fazer a coisa certa, eu quero mesmo, acredite. Talvez a única coisa certa que tenha feito em toda minha vida foi ter te trazido até mim.

Ela não espera o abraço com o qual a surpreendo. A mação rola por nossos pés, a faca na minha mão parece até se mover quando a encosto na garganta dela e rasgo de um lado a outro. A dor é lancinante em mim mesmo, quero matar essa obsessão de alta toxicidade, quero me livrar do embuste.
 

 
14
 
Eu conheci Virginia assim que ela publicou seu primeiro livro, foi um sucesso. Ela sempre escreveu sobre superação e eu sempre achei que ela era assombrada por algo que guardava dentro de si, por isso mesmo precisava escrever.

Nossa amizade ganhou força depois que me comprometi a cuidar da sua carreira. Ela era brilhante, mas não conseguia enxergar a própria luz. É incrível quando lembro de como Virginia se acusava de ser uma impostora toda vez que falávamos sobre como ela era genial quando escrevia. Apesar do seu brilhantismo, ela também sempre me pareceu sombria quando passava longos períodos desaparecida e isolada em sua chácara.

Virginia mantinha o lugar para se refugiar, mas vivia mesmo numa casa no centro da cidade onde foi encontrada morta com a garganta rasgada. Podia imaginar qualquer passo absurdo que ela fosse dar na vida, mas suicídio? Nunca passou pela minha cabeça que ela podia cometer algo assim. Hoje percebo todos sinais, seus gritos de socorros silenciosos.

No porta-malas do seu carro encontraram um corpo, era do seu tio-avô, Álvaro, de quem ela cuidava sozinha. É triste pensar na minha melhor amiga como uma assassina suicida.

Ela vinha sofrendo um doloroso bloqueio criativo há anos, acho que se perdeu em si mesma. Descobri entre suas coisas alguns escritos maravilhosos que assinou com o pseudônimo de Simone, acho que é por causa da sua admiração pela escritora francesa de Beauvoir.

Eu conhecia apenas uma parte de Virginia, a melhor fração, a mais bela. Eu sinto muito por não ter conhecido as outras, talvez pudesse ter ajudado. Acredito que nem ela mesma conhecia. Meu nome é Filipe Dalla e eu espero poder dar vida aos escritos magníficos que Virginia deixou através da voz de Simone.

 

* O TDI (transtorno dissociativo de identidade) é a presença de dois ou mais estados de personalidade diferentes ou uma experiência de possessão. Popularmente conhecido como “personalidade múltipla” e é um distúrbio incurável, porém tratável que atinge inúmeras pessoas. 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 28/09/2018
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