O absurdo
por Larissa Prado
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O Medo
 
 
 
1

 
M. Seidler amou o cinema assim que viu o primeiro filme aos dez anos de idade e seus olhos não puderam desgrudar da enorme tela exercendo sobre ele um domínio inimaginável. Para M. Seidler os filmes não eram apenas meios de entretenimento, eles podiam despertar emoções que não conseguia experimentar na vida real.

O responsável por despertar seu interesse pelo cinema foi o pai que trabalhou durante anos numa bilheteria do cinema de rua da sua cidade deixando M. Seidler assistir as sessões de graça aos finais de semana. Muitas vezes ele assistia o mesmo filme inúmeras vezes a ponto de decorar as falas e a sequência de tomadas. Apesar de apaixonado por cinema sempre sentiu que ao fim de cada filme algo deixava a desejar.

Quando as luzes acendiam as pessoas se levantavam e voltavam para as suas rotinas esquecendo da experiência que tiveram na sala de reprodução. Seidler observava que muitas dessas pessoas saíam de suas poltronas comentando sobre os afazeres do dia seguinte. Era como se o filme morresse para elas assim que as luzes acendiam.

Sua primeira tentativa como diretor foi aos 14 anos ao reunir os colegas de escola e filmar seus próprios roteiros sobre alienígenas, fantasmas e cães enlouquecidos que falavam como seres humanos. Seu fiel vira lata sempre se mostrava um excelente ator nesses casos.

Seidler levava a sério o que parecia ser apenas brincadeiras com a câmera. Ele se tornou um diretor de cinema reconhecido no meio alternativo e desprezado pela crítica especializada. O seu gênero de atuação favorito era horror. Sempre fora fascinado pelas sensações que os filmes desse tipo lhes transmitiam através da tela. Porém, suas produções se tornaram apelativas, exagerando em carnificinas, à medida que tentava dar ao público o que sempre procurou durante sua vida de cinéfilo. Seidler associava o medo ao pior que o ser humano poderia sentir, asco, repulsa, agonia, então, resolveu explorar outros níveis do horror nas mentes do seu seleto grupo de espectadores.

Apesar de algumas produções bem-sucedidas, Seidler nunca chegou a fazer sucesso. Os atores e atrizes que o procuravam eram amadores e Seidler gostava de trabalhar com eles, sempre esquivando dos grandes nomes da dramaturgia

As entrevistas duraram apenas uma semana, M. Seidler não demorou para encontrar o elenco ideal para sua nova produção cinematográfica, o que ele deixou intitulou provisoriamente como “O Medo”. Nas reuniões com sua equipe de filmagem o diretor gostava de enfatizar o desejo de mostrar aos espectadores os sentimentos reais de pânico, medo, agonia na tela, sem roteiro, sem enredo, apenas o medo agindo e transformando as pessoas sob seu domínio.

A intenção de Seidler era entregar uma câmera digital para cada um dos atores e trabalhar um found footage onde nenhum dos envolvidos saberia o que deveria fazer no local que ele e a equipe selecionasse, entregando ao público os sentimentos reais de pessoas perdidas, angustiadas e desnorteadas.

Seidler passou a vida tentando produzir o filme de terror perfeito, mesmo sabendo que tal feito jamais poderia ser alcançado. Seu intuito era aproximar ao máximo os espectadores das cenas gravadas pelos atores, em nome da sua paixão pela arte cinematográfica e pelo horror, Seidler seria capaz de sacrificar aspectos importantes da própria vida o que explicava os inúmeros términos de relacionamentos e casamentos. Ninguém poderia compreender a sua obsessão em tentar criar algo magnânimo. 

O material encontrado no trailer abandonado num chalé, logo após o desaparecimento de toda equipe, revela o que de fato aconteceu desde a seleção dos quatro atores participantes até o fim das gravações noturnas naquela região litorânea afastada da capital.

 
2

O foco da câmera demora a estabilizar no rosto da garota sentada à frente de uma mesa no que parece ser o escritório de Seidler. Ele trabalhava em sua luxuosa mansão localizada na cidade em que as filmagens foram gravadas. A garota tem o rosto tenso, nervoso, os olhos se deslocam do homem que está sentado à sua frente, atrás da câmera sobre a mesa, para a lente. Seu nome é Isabela.

A voz de Seidler é inconfundível próxima a câmera, ele nunca perdeu os resquícios do sotaque de sua terra natal em algum recôndito alemão.

- Por que gostaria de fazer esse filme, Isabela?

Ela demora a responder, está com as mãos cruzadas sobre o colo, é jovem, recém-saída da adolescência.

- Eu amo atuar, faço isso desde pequena, mas venho do teatro, meu sonho é ir para o cinema.

- E você gosta do horror, Isabela?

- Você me viu no palco, senhor Seidler, eu posso gritar como ninguém.

O que fez o diretor convidar a garota para aquela conversa foi seu talento em interpretar peças teatrais. Apesar da pouca idade Isabela realmente podia encarnar uma moça em desespero como ninguém e isso atraiu a atenção do diretor que acompanhou suas apresentações por longos meses. Mas, mesmo diante a habilidade interpretativa de Isabela, algo ainda o desagradava, aqueles simulacros de emoções nunca o convenciam.

- Vou te fazer uma pergunta muito importante, Isabela, talvez seja a única que realmente importe em todo esse processo de seleção: o que te dá medo de verdade?

Naquele instante, os olhos de Isabela se fixaram em Seidler, ela esqueceu-se da câmera que a filmava sobre a mesa. Pensativa, entortou os lábios, ponderou, parecia que não iria falar nada por um bom tempo até que respirou fundo.

- Eu tenho medo do escuro e um tipo de fobia. O psicólogo do colégio me indicou um psiquiatra, eu venho tentando tratar o meu medo de buracos.

- Tripofobia. – arrematou Seidler

- Isso, o senhor conhece? Olha só o que inventam.

- Sim, existem mais pessoas do que imagina que sofrem com isso. Pânico de padrões geométricos, principalmente de buracos que sigam um padrão. Como uma colmeia de abelha. Como você se sente ao encarar uma colmeia, Isabela?

- Eu não sei, senhor Seidler, eu me sinto mal começa com uma tontura e vem a falta de ar e parece... não sei.

- Que você vai morrer. – Seidler arrematou de novo.

- Exatamente.

- No fim das contas, o que todos nós tememos é a morte.

A garota deu uma rápida olhada para a lente da câmera como se o objeto fosse alguém e baixou o rosto.
 
O primeiro teste é seguido de outro. No lugar de Isabela está sentado um homem, não dá para sugerir qual sua idade por causa da barba cheia que cobre seu rosto, mas não parece ser tão mais velho que a garota.

- O que te fez vir ao meu convite, Joaquim?

- Eu me interesso por cinema. Na verdade, eu prefiro ficar por trás da câmera. – ele sustenta um sorriso autoconfiante para a câmera sobre a mesa.

- Mas você sabe que vai atuar também, não é? Eu sei que já atuou algumas vezes. Eu vi seus documentários.

- Sim, como o senhor viu, eu faço mais documentários. Nada tão ficcional, não sou bom ator na verdade. O que faço é apenas ser eu mesmo na frente da minha câmera.

- Me diga, Joaquim: o que te dá medo de verdade?

O rapaz assim como Isabela pondera a pergunta, ele dá um riso constrangido.

- Medo? Acho que nada. Talvez de altura, é, pode ser... eu não gosto de lugares altos.

- Você riu antes de responder. Acha que não tem medo de nada? Altura, não vem ao caso, é algo que todos diriam.

Joaquim adquiriu um semblante mais sério e se mexeu na cadeira.

- Eu realmente não tenho medo. Poucas coisas conseguem me assustar.

- Joaquim, nos dias que passar gravando o meu filme vai descobrir muito sobre seus medos. Você disse que apenas era você mesmo na frente da sua câmera, mas arrisco dizer que vai começar a se conhecer a partir do momento que começar a filmar o que eu propor. Você tem interesse em fazer parte dessa equipe?

A gravação é interrompida antes que Joaquim possa responder, mas pelo o sorriso que iluminou seu rosto a resposta pareceu óbvia.
 
O terceiro teste é a imagem estática da cadeira vazia, Seidler pede para o homem se sentar. Ele senta e não olha para câmera nenhuma vez. Diferente dos outros dois esse é mais velho, calvo e o rosto está encovado denunciando que está abaixo do seu peso ideal.

O silêncio se instala entre os dois, o homem observa Seidler até que o diretor começa a rodada de perguntas.

-  Não costumo atender quem me escreve pedindo para participar do que faço, eu gosto de ir atrás dos atores. No seu caso, fiquei intrigado como um ator experiente como você possa se interessar por uma produção de baixo orçamento e gosto duvidoso como essa?

- Seidler tenho tudo o que você já fez. Não posso dizer que sou um admirador porque não sou dado a fanatismos, mas eu gosto muito do que faz e seria um prazer poder voltar a atuar se me desse a oportunidade, mesmo que não saiba ainda direito qual é o roteiro que vai filmar. Não importa, confio no seu feeling como diretor.

- Você afastou dos filmes por conta de problemas de saúde? Como está em relação a isso?

- Eu tenho câncer no pulmão, Seidler e não vou me curar. Eu tenho pouco tempo e quero fazer o que gosto com o que me resta.

- Já se conformou com a ideia de que a sua morte está perto?

Graco dá de ombros e coça a cabeça.

- E tem como se conformar com a morte? Mas a gente acostuma. O que vai ser esse filme, Seidler? Uma produtora, nossa amiga em comum, disse que vai se chamar “O medo”. Ela que me fez vir procura-lo.

- Você vai ver Graco, como disse a outro ator, seu colega nessa produção, vai descobrir muito sobre você mesmo nesse trabalho. Está dentro!
 
 A quarta e última entrevista inicia-se no meio da pergunta que Seidler fez a todos outros atores.

- O que te dá medo de verdade?

A mulher está fumando e encara o diretor, ela tem um olhar petulante e maquiagem carregada que tenta a deixar mais jovem do que realmente é, seus cabelos desgrenhados de propósito denotam estilo e não desleixo.

- Quando era pequena eu fui atacada por meu próprio cão, tenho a cicatriz, o diabo quase arrancou meu peito esquerdo. Desde então não posso nem ouvir a palavra. Eu me cago de medo de cachorros, essa é a verdade.

- A câmera te incomoda, Marie?  - ela evita olhar para a câmera, mas deixa escapar olhadelas desconfiadas.

- Como poderia? Eu sou atriz, se uma câmera me incomodasse não faria isso. Quanto vai pagar?

- Vamos falar sobre o pagamento depois. Você realmente acha que está apta para trabalhar no que te propus? Improviso, sem roteiro, apenas você e uma câmera em mãos.

- Eu faço o que quiser, Seidler, desde que me pague bem por isso. Eu preciso de trabalho de verdade e você é o mais perto que conseguirei disso.
A fumaça envolve seu rosto, ela apaga o cigarro no cinzeiro e dá a última olhadela incomodada para a câmera antes da filmagem desaparecer.
 
 
3
 
Isabela, Joaquim, Graco e Marie conversavam a caminho do local onde iriam acontecer as filmagens, foram levados até lá pelo próprio Seidler em sua van de trabalho. O dia estava começando, a outra parte da pequena equipe estava instalada ali com dois trailers e terminava de instalar as câmeras pelo chalé e em pontos estratégicos da mata em volta. O som do mar podia ser ouvido dali e ele parecia furioso naquela época do ano.

O trajeto entre a capital e a região litorânea era de quase duas horas, tempo suficiente para Seidler falar sobre as histórias que cercavam o lugar. Ninguém morava ali, a região era explorada por madeireiras e nada mais.

Abandonada em meados do século XX, os relatos diziam que havia na floresta ou vindo do mar uma espécie de espírito da loucura que dominava os habitantes e os faziam cometer atos cruéis uns contra os outros ou contra eles mesmos. Algo que afetava até os animais da região que se lançavam ao mar em busca da morte. Seidler contou, empolgado, todos os fatos macabros para os atores. Cada um reagiu de uma maneira, mas o fato é que nenhum expressou ceticismo diante os relatos narrados pelo diretor.

Assim que desceram no chalé das filmagens, Seidler entregou a câmera digital para cada um orientando-os a não interromperem as filmagens em nenhum momento. As baterias extras foram entregues. Eles não sabiam das câmeras espalhadas estrategicamente pelo local, elas os vigiariam dia e noite. Apesar de ainda ser o início da tarde, o céu estava quase todo coberto de negro, aquilo inquietou Isabela, a mais assustada do grupo.

Após todas orientações, Seidler se retirou com a equipe do local levando os trailers com os monitores de monitoramento. Há trinta minutos se hospedaram perto da região num pacato bairro periférico da cidade. Os três membros da sua reduzida equipe de apoio se recolheram nos quartos do hotel barato enquanto Seidler permaneceu dentro do trailer com os olhos fixos nos monitores e um copo de café na mão.

O grupo de atores se acomodou no antigo e modesto chalé. Haviam três quartos e deixaram Graco, por estar doente, ter mais privacidade e ficar sozinho como ele exigiu. Joaquim dividiu o quarto com Isabela que não queria dormir sozinha enquanto Marie não abriu mão de ficar sozinha para alimentar certos vícios.

Depois de organizarem as malas em seus respectivos quartos, os membros se reuniram na sala para discutir o que fariam nas próximas horas sem qualquer tipo de orientação quanto aos personagens que deveriam interpretar.

- Seidler é imprevisível, talvez nem tenham papéis para cada um. – Graco estava sentado no canto do sofá.

- Prefiro não falar o que acho dele já que ele deve estar acompanhando nossas câmeras – Joaquim foi o primeiro a usufruir o que havia na geladeira e dava longos goles numa lata de refrigerante.

- Você não parece ator, Joaquim. Já conhecia Seidler? – Isabela estava sentada ao lado do colega de quarto.

- Não. Ele me convidou para esse projeto depois de ver uns documentários que fiz.

- É? Documentários sobre o que? - Isabela parecia realmente interessada.

- Sobre lugares assombrados. Mas não foram nada demais, eu produzia e filmava e jogava na rede e fui ganhando mais e mais seguidores, até que acabei parando na televisão com meu próprio programa. Você não deve conhecer, não parece gostar desses assuntos.

A única que não estava sentada ali era Marie que fumava seu cigarro em frente à janela da sala, alheia às conversas. Isabela e Joaquim logo pareciam amigos de infância, talvez por serem da mesma faixa etária ou era apenas a magia de gostos comuns. Fato é que Graco perdeu o interesse nos dois e passou a caminhar pela casa filmando cada detalhe. As câmeras dos outros permanecia sobre a mesa de centro apontadas para direções diferentes.
Depois de longa contemplação silenciosa, Marie sentou na poltrona ao lado do sofá em que o casal estava.

- Sleider não comentou nada sobre essa escuridão, percebem? Desde que chegamos aqui está assim, como se fosse noite à uma da tarde.

- Isso é normal na região, Marie. Aqui a noite dura mais do que deveria, por isso as pessoas são estranhas. - Joaquim comentou.

- É como no Alasca? – Isabela sorria, animada. – Lá acontece o Sol da meia noite e nunca anoitece certa época do ano.

- Não é que nunca anoitece, Isabela, só que os dias são mais longos e as noites bem curtas. Aqui parece acontecer o contrário. – Joaquim olhou para a escuridão na janela.

- Isso foi um erro. – Marie sussurrou, os outros ficaram calados.

- Onde está sua câmera? – Isabela observou que Marie estava com o cigarro entre os dedos e mais nada.

- Deixei no quarto. Eu não vou ficar andando para lá e para cá segurando isso, Sleider deve vir entregar o roteiro. O que deveria ter feito antes, não decoro e construo personagens assim... de súbito.

- Você ainda não percebeu o que ele fez aqui? 

Joaquim pegou sua câmera e filmou o rosto aproximado de Marie, ela tentou conter a irritação.

- Ele contou aquela besteira toda sobre região amaldiçoada e blá-blá-blá para mexer com nossa cabeça. Depois nos soltou aqui para filmarmos algo sobrenatural que supostamente vai nos acontecer. Mas deve começar a fazer sua mágica de efeitos e isso vai começar a nos assustar pra valer e voilà: ele tem seu found footage... Algo bem batido e me surpreende que não tenham percebido.

- Tira essa câmera da minha cara. – Marie fita Joaquim com um olhar quase odioso.

- Por que, Marie, é tímida? HUMN?

- Para de me filmar, seu bosta.

Isabela se encolhe quando Marie passa por cima dela saltando em direção a Joaquim. A câmera cai, mas não quebra. Isabela tenta sair do meio da confusão até que Graco volta.

- Vocês precisam ver o que filmei lá fora.

Marie esquece Joaquim e vai ver a tela da câmera de Graco. Ela deixou vergões doloridos no rosto do rapaz que deixa a sala com sua câmera seguido por Isabela.

- Eu estava filmando a casa, não sei ao certo o que Sleider quer, então presumi que seria bom fazer meu próprio filme do lugar e fui andando cômodo por cômodo. Eu ouvi um ruído do lado de fora, achei que fosse o vento porque foi um zunido. Fui até lá. Há um balanço de pneu numa árvore, veja – ele e Marie acompanhavam sua filmagem – e ele balançava mesmo sem ter brisa, o ar está parado lá fora. Então, veja só, é rápido, então, preste atenção.

Marie aproxima o rosto da pequena tela e Graco coloca a imagem em câmera lenta, uma figura atravessa as arvores correndo, parece algo grande e pesado, mas que se move com rapidez. Por um momento, Marie acredita que viu uma cabeça de cachorro na forma fugidia.

- Puta que pariu, Graco isso é a merda de um cão gigante!

- Um cão? – ele voltou a imagem e assistiu de novo por mais de três vezes.

- Não Marie, não pode ser, isso parece uma pessoa. Será alguém da produção do Sleider?

Marie se afastou, estava pálida, sentou-se no sofá.

- Eu estou sentindo que isso foi um erro, Graco.

Graco abriu a boca para falar quando o grito assombroso de Isabela irrompeu o silêncio do lugar. Eles saíram da sala correndo, Graco se preocupava em filmar tudo. Ao chegar no corredor dos quartos encontraram Isabela num canto, fitando a porta aberta do fim do corredor, envolvida pelo próprio abraço. Joaquim estava saindo do quarto e, também, vinha filmando.

- Isabela?! – Joaquim focou no rosto dela e era uma face de pura consternação, as lágrimas riscavam as bochechas ruborizadas.

- O banheiro...- ela apontou.

Graco se adiantou e entrou no lugar na frente de Joaquim, Marie ficou atrás de Isabela observando e tocando os fios de cabelo da garota.

- O que tem, querida? Foi algum bicho que viu? – ela olhava para o banheiro.

Joaquim se aproximou, ele e Graco filmavam todos os detalhes do banheiro.

- É esse papel de parede, Graco, veja. São pequenas colmeias de abelha em sequência, olha só, em todas paredes até o teto.

- Ah sim. E o que tem isso? É um gosto bizarro, mas tem gosto pra tudo.

Joaquim olhou para Isabela, ela estava sendo confortada por Marie.

- Ela não gosta disso, de buracos, não sei direito como é isso. Ela estava me contando sobre isso antes de vir ao banheiro.

Graco pensou sobre o assunto em silêncio, deixou o banheiro e apagou a luz.

- Isabela, pode usar o banheiro do meu quarto. – Graco a levou para lá.

Marie sentiu que Joaquim estava filmando-a.

- Qual seu problema? Para de me filmar!

- Marie, você acha que ninguém vai te reconhecer? É isso que te incomoda? Alguém lembrar onde foi que começou a atuar? Como eu poderia não saber quem é você?

- Cala a boca, você não percebe que estamos metidos numa coisa estranha aqui?

Joaquim virou a câmera para si e cochichou aos seus espectadores imaginários o sucesso meteórico que Marie alcançara na indústria de filmes eróticos. Ela o ignorou e se recolheu no quarto.
 
4
 
O dia passou se tornando cada vez mais escuro o que fez a maioria do grupo dormir mais do que devia. Apenas Graco permaneceu acordado, a doença que consumia seu corpo o fazia passar noites em claro, por mais que parecesse noite ele não se sentia sonolento. Sentado na varanda, ele filmava a noite apenas com a pouca luminosidade do lampião na parede.

Enquanto isso, Sleider estava reunido no seu trailer com o restante da sua equipe. Ele mostrou a eles a fantasia que usaria para assombrar os atores. Todos parecerem empolgados com a ideia de inserir um psicopata insano no chalé para persegui-los. Sleider tirava a poeira de um macacão jeans e de uma camisa xadrez, mas o melhor do seu disfarce era a máscara de cão, mas não era um cão de bocarra aberta e dentes horríveis, pelo contrário, era uma dócil e inofensiva fuça de um beagle.

- Devia usar uma máscara assustadora, Sleider, isso é quase patético. – o técnico de vídeo comentou ao encarar a máscara.

- Não tem nada mais assustador do que uma docilidade assassina. – Sleider vestiu a máscara, seus olhos cintilaram dentro dos pequenos buracos dos olhos meigos do cãozinho.

Depois de instruir seus técnicos a não deixarem de monitorar cada câmera instalada, Sleider foi para sua van trajando as vestes do bizarro personagem que forjou para si. Ele foi até o chalé e seus colegas não podiam supor que nunca mais veriam o diretor de novo.

Isabela aproximou da varanda, ela estava envolvida na manta quente da sua cama, o sono visível em seu rosto inchado a deixava ainda mais nova.

- Graco? Não dormiu? Nem sei que horas são, aqui não tem um relógio.

- Você não está usando sua câmera? Tem relógio nela, querida e ainda nem é noite. São 17:25.

Ela sentou-se na cadeira de balanço ao lado dele.

- Eu tive um sonho ruim com as paredes do banheiro. Esse lugar me dá calafrios, um medo de a qualquer momento alguma coisa vai acontecer.

Graco filmava o movimento que os galhos das árvores faziam ao sabor da brisa que chegava do mar.

- Isabela, coisas podem acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar. Minha mãe morreu depois que foi atropelada voltando da feira de manhã. Ela saiu de casa como sempre fazia aos domingos, com certeza não esperava que algo assim pudesse matá-la, mas matou. É assim, a vida acontece, a morte faz parte disso.

- Eu sinto por sua mãe, Graco... e concordo, mas em lugares assim, essa sensação estranha é como se algo pior que a morte estivesse prestes a acontecer, entende?

Ele olhou para ela e foi assim que notou como Isabela era preciosa, não tanto pela beleza que era algo bem visível, mas pela maneira que se comportava não camuflando e escondendo o seu medo, ela se entregava ao pavor, seus olhos brilhavam em gotículas de lágrimas que não escorriam e apenas deixavam o olhar reluzente.

- Acho que morrer nem é tanto o problema, Graco, mas a forma que isso vai acontecer. Eu tenho tanto medo de sofrer, de passar pelo inferno antes disso, entende? Eu vivi tantas personagens trágicas no teatro que acho que absorvi um pouco de cada uma. Às vezes acho que nós vamos perdendo um pouco de nós em cada vida que interpretamos. Às vezes tenho medo de enlouquecer.

- Querida, ainda é muito jovem para esses tipos de pensamentos. É normal se envolver com suas personagens e até doar um pouco de si para elas, porque afinal de contas cada personagem nosso é um pouco de nós. Eu sempre interpretei para me esconder atrás daquilo, mas no fim eu acabava descobrindo ainda mais sobre mim... e às vezes isso pode ser meio louco mesmo. Tem muitas faces de nós que são odiosas, é isso que causa o medo.
Isabela sorriu para ele e se encolheu mais dentro da manta.

- Você é um cara legal, Graco e fico triste por estar doente.

- Não fique. Eu tive uma vida ótima apesar de tudo.

Eles esperavam ver o sol nascer até Graco lembrar que ali a noite não teria fim.

No quarto Marie tinha um sono leve e atormentado. As pílulas de anfetamina esparramadas na mesa de cabeceira denunciavam o motivo do seu sono intranquilo. Ela sentou-se na cama, o grito preso na garganta e o suor frio que cobria seu rosto diziam a ela que estava num pesadelo, mas não via diferença ao abrir os olhos. Havia um armário na frente da sua cama de casal e nele um grande espelho refletia o seu aspecto assombro sem a maquiagem, uma mulher arrasada e envelhecida antes do tempo. A luminosidade do abajur fez com que ela se assustasse consigo mesma, pois aquilo no espelho parecia uma assombração, alguma criatura que tomara seu corpo.

Marie esticou a mão e desligou o abajur, os dedos rolaram pelas pílulas e ela engoliu mais uma. Esperou até que voltasse a se sentir viva de novo sob o efeito da droga. Marie saiu do quarto, a câmera estava filmando seus pés, ela não se preocupava em registrar nada, apenas sacudia a câmera.

Quando chegou na sala escutou a conversa sussurrada na varanda de Graco e Isabela, mas não foi até lá porque a silhueta parada no meio da sala a fez congelar os passos e largar a câmera apontada para os pés da aparição. A cabeça de beagle virou para o lado, como um cãozinho faria tentando entender os movimentos dela. Marie tentou chamar Graco, mas não deu tempo, a criatura ergueu o machado que segurava e correu atrás dela pela cozinha.

Naquele momento, Graco e Isabela correram na direção dos ruídos da perseguição e ao chegarem na cozinha se depararam com Marie encurralada por um homem estranho com uma máscara de cão. Apenas a mesa os separava, Marie gritava a pleno pulmões para que ele a deixasse em paz. O machado estava erguido e ameaçador, mas o homem permaneceu parado, observando. Sua cabeça girava devagar dos recém-chegados para Marie.

O primeiro a agir foi Graco que correu na direção de Marie com a câmera na mão, ele segurou o braço dela e a puxou para longe do homem com o machado. Sabia que aquilo era parte do show de Sleider, sabia que precisava dar movimento ao que acontecia, mas a palidez de Marie mostrava que o seu pânico era real, ela não estava encenando. Eles correram na direção da varanda, Isabela seguiu os passos dos dois e por fim, perderam o homem de vista.

- O que foi isso? – Isabela ofegou olhando na direção da varanda.

Os três estavam parados a uma boa distância do chalé.

- Graco... – Marie apoiava as mãos nos joelhos, arfava com dificuldade. Na penumbra seu rosto sem maquiagem parecia o de uma múmia sem as faixas. – Foi aquilo que apareceu na sua filmagem, aquela que me mostrou mais cedo.

Graco estava observando o chalé, não havia nenhum movimento no interior da casa.

- Faz parte do que Sleider está fazendo, Marie. – ele se preocupava em continuar filmando tudo. – Não se preocupe, tente se recuperar.

- Sim! Na entrevista ele me perguntou do que tinha medo. E então, chego aqui e vejo aquele papel de parede no banheiro. – Isabela sentiu arrepios percorrerem seu corpo.

- O idiota do Joaquim está dormindo. Acho melhor acordarmos ele e falar o que aconteceu. Pode ser coisa da minha cabeça, mas aquele homem...aquela máscara, não pareceu fantasia, ele não parecia de verdade. – Marie saiu andando na direção da casa.

Graco e Isabela trocaram olhares e a seguiram.

 
5
 
O céu estava mais escuro porque era noite, os quatro atores estavam reunidos na sala. Joaquim ainda sentia sono e mal conseguia prestar atenção ou levar a sério o relato do estranho homem de machado. Isabela parecia apreensiva, olhando a todo minuto para a cozinha, com a sua câmera em mãos ela filmava tudo em volta como se através da câmera pudesse ver algo que seus olhos não conseguiam.

Enquanto eles conversavam e combinavam o que faria nas próximas armadilhas que Sleider enviasse, do trailer de gravação, Rafael, o técnico de vídeo que Sleider encarregou de acompanhar as filmagens estava rebobinando a última imagem da aparição do personagem que o diretor tinha criado para si.

- Tem algo errado, Diana. – a mulher estava em pé ao seu lado, Diana era a produtora que ajudava Sleider desde seus áureos anos de juventude.

- Estou vendo, quer dizer, eu não estou vendo. O que é que os assustou desse jeito?

Na imagem que o técnico rebobinava aparecia Marie correndo para cozinha, toda cena da aparição do homem com machado, porém, não havia ninguém ali na cena. A figura na qual Sleider tinha se transformado simplesmente não aparecia.

- Não é nada com as câmeras que instalei no chalé. Não entendo, eles parecem fugir de alguém. Sleider não deveria ter chegado lá e ter começado a persegui-los com aquela ideia idiota da máscara de beagle?

- Sim... – Diana aproxima o rosto do monitor – Rafael, tem alguma coisa errada. Olha.

No monitor ao lado daquele as imagens que as câmeras instaladas do lado de fora do chalé mostravam cervos correndo em bandos, desesperados, como se fugissem de algo que as lentes não podiam captar. As árvores sacodiam com a fuga dos animais.

- Eu acho melhor ir até lá. Não consigo contato com Sleider, ele não atende o telefone.

- Cuidado, Diana. Eu queria ir com você, mas preciso ficar de olho. Eu estarei aqui caso algo estranho aconteça. Mas o que poderia acontecer de errado?

Diana saiu, Rafael ouviu o carro dela dando partida e se arrependeu por não ter ido junto.

 
6
 
Eles resolveram dormir na sala. As mulheres se acomodaram juntas no sofá que era bastante confortável e grande. Graco ficou acordado na poltrona e Joaquim pegou seu colchão do quarto e jogou ali no meio da sala. Eles ressonavam enquanto Graco continuava filmando. Não queria admitir a sensação ruim que o assaltava cada vez que ouvia a brisa do lado de fora gemer.

A câmera do velho ator não parou de filmar mesmo quando ele se pegava dormitando, a cabeça apoiada no queixo. Foi a lente que capturou o movimento antes de Graco ouvir o ruído de passos aproximar da varanda. Ele saltou da cadeira com a câmera apontada como uma arma. Olhou para Joaquim que dormia profundamente no chão, as garotas não se mexeram.

Graco caminhou na direção da varanda e então se deparou com o homem do machado de novo. Ele ficou parado, observando, o machado descansava em seu ombro. Os dois se encararam em silêncio, porém, na lente da câmera de Graco a imagem do homem mascarado não aparecia.

Isabela acordou num sobressalto e procurou Graco na poltrona vazia. Sacudiu Marie e demorou a fazer Joaquim sair do sono, eles começaram a procurar o companheiro pelo chalé. Marie encontrou a câmera dele jogada no chão da varanda, fora isso nenhum sinal do paradeiro de Graco.

Os três se reuniram na sala e assistiram as últimas filmagens que mostravam os ruídos dos passos de Graco e algo indecifrável que Joaquim percebeu no áudio.

- Aumenta o volume ao máximo, Marie. – ela estava entre ele e Isabela, segurando a câmera.

Joaquim prestou atenção aos ruídos.

- Parece que o vento sopra um grito, não sei... alguém pedindo socorro ou algo do tipo.

Elas não disseram nada, mas Marie confirmou que também escutou estranhos sussurros nas filmagens e não pareciam ser de Graco, pois sua respiração estava nítida.

- Precisamos falar com o Sleider, mas ele confiscou nossos celulares quando chegamos. Temos que dar um jeito de sair daqui e avisar sobre o sumiço do Graco. – Marie disse.

Isabela estava petrificada, os olhos fixos na varanda e a sua pele adquirira um tom esbranquiçado de pó branco. Joaquim viu o semblante da garota e acompanhou seu olhar.

Do lado de fora, vários homens de machado e máscaras de beagle estavam organizados em fila, apenas olhando para o chalé. Eles meneavam as cabeças em sincronia. Então, os animais irromperam pela mata, vários cervos correndo em bandos na direção do mar ficava e os homens também correram, mas direto para o chalé. O ruído dos pés em disparada lembrava a Joaquim os exércitos que atacavam em seus filmes épicos favoritos. Isabela soltou a voz e seu grito potente abafou quaisquer outros ruídos do mundo.

 
7
 
À medida que Diana se aproximava do local onde o grupo estava instalada, sentiu calafrios percorrerem seu corpo e a sensação de que algo muito ruim acontecia acentuava. Faltava apenas alguns minutos para alcançar o chalé quando ela viu a van que Sleider dirigia jogada no acostamento.

Ela tentou contato com Rafael para dizer sobre o que acabava de encontrar, mas o celular não ligava. Diana desceu e a passos incertos foi até a van que estava com a porta do motorista aberta, mas não havia nenhum sinal de Sleider.

Ela checou o carro, a máscara de cachorro estava jogada no banco do passageiro e a chave permanecia na ignição. Diana tentou ligar o telefone de novo, mas não funcionava. Ela escutou um murmúrio vir por trás de si e ao virar viu o corpo do diretor pendurado no galho mais alto de uma das árvores da mata que cobria a região.

O primeiro impulso foi correr, mas Diana se conteve e respirou fundo antes de se aproximar do corpo. Algumas aves carniceiras e ela não sabia dizer se eram corvos, se banqueteavam no rosto do homem. Apesar de trabalhar ao lado de Sleider a vida toda, acompanhando suas produções e efeitos grotescos de carnificina, Diana não conseguiu segurar a bile que expeliu causada pela ânsia. Aquilo era real, não tinha cheiro dos produtos que os maquiadores usavam, o sangue real era diferente e a morte real causava aquele efeito, vômitos, nojo e perturbação. Ela voltou correndo, girou a chave na ignição e tentou dirigir de volta para o hotel, mas seu carro não funcionou mais.
 
Rafael acompanhou o desespero dos atores diante uma ameaça invisível, era difícil ver o que os assustava tanto. Ele insistia em aumentar o zoom das câmeras instaladas pelo chalé, alternava de um monitor a outro para checar o local de fora, mas não enxergava nada além do vento movimentando as árvores e alguns animais correndo.

Em dado momento, ele não conseguiu encontrar mais nem mesmo os atores. O chalé estava vazio. Ele viu que eles se dispersaram numa corrida ensandecida, mas não conseguia encontra-los em nenhum lugar da casa ou fora dela. Rafael começou a ficar realmente incomodado. Diana não dava notícias, Sleider parece que nunca chegou ao chalé e ele estava sozinho e sem conseguir comunicação com nenhum deles.

Resolveu reiniciar todo equipamento, as imagens continuavam paradas, nada acontecia além do movimento da brisa. Ele saiu do trailer e foi buscar café na lanchonete do hotel, tentando se acalmar e raciocinar sobre os seus próximos passos.
 
8
 
O mar estava revoltoso, Graco sentia a vibração furiosa da natureza ao seu redor. Em pé ali comtemplando as ondas, ele não sentia o próprio corpo, sentia-se imaterial, submerso em uma espécie de não-existência. Em algum ponto da sua consciência escutou o grito de Isabela. Aquele era o tipo de grito de um horror genuíno, real, vindo das entranhas da pessoa. Era o grito do medo, um medo de carne e osso que podia matar.

Os animais irromperam pela mata e se ofereceram às ondas do mar sem olhar para ele. Graco ficou maravilhado em observar os olhos arregalados dos cervos desaparecendo na água, o desespero da morte e o alívio nos ruídos que faziam como bebês que acabam de nascer. Talvez estivessem nascendo de verdade para outro tipo de vida. Ele deu um passo, conseguiu fazer as pernas se moverem sem o peso e a fraqueza trêmula da doença que o deteriorava.

Assim, sob passos de formiga ele foi entrando no mar, enfrentando as ondas, compenetrado, deixando que a água lhe inundasse a cabeça e se misturasse ao seu sangue e aos órgãos doentes. Graco sentiu que iria virar o mar e deixou-se afundar de olhos abertos, apenas os olhos pareciam desesperados, seu corpo estava entregue. Quanto mais fundo chegava menos sentia os efeitos do medo, o desespero foi se acalmando e se tornando uma paz resignada.
 

 
9
 
O único que viu o céu escuro adquirir sua tonalidade acinzentada do início de uma nova manhã foi Joaquim. Sentado na varanda do chalé, ele segurava o cabo de um cutelo que estava na bancada da cozinha, sua respiração parecia cada vez mais lenta e equilibrada. As árvores sussurravam palavras incompreensíveis carregadas de agouro. Ele não piscava mesmo com os olhos secos. Fitava algum ponto entre o meio da mata e o chalé, como se prestasse atenção a algum tipo de orientação. Mal podia sentir os batimentos do próprio coração.

Rafael observava a imagem no monitor, sua preocupação alcançou um nível intolerável porque no cutelo e em todo corpo de Joaquim haviam marcas de sangue. O técnico tentou ligar para Diana e Sleider de novo, nenhum atendeu. Ele saltou para o banco do motorista e levou o trailer até o chalé, algo muito ruim aconteceu no tempo que ele foi tomar seu café. 

No curto trajeto até o local, Rafael pensava sobre as reuniões que Sleider fazia antes das gravações daquele malfadado filme, a forma como falava sobre o medo e o que ele podia fazer com as pessoas, “Eu quero alcançar os níveis mais altos de medo nessas pessoas e vão ver o que são capazes de fazer. Quero que enlouqueçam porque o medo pode levar qualquer um à loucura. Quero que quem assista possa enlouquecer junto.” Foi o que Sleider disse na última reunião.

Rafael prosseguiu por uma rota mais rápida e não passou pelos carros abandonados de Sleider e Diana. Ele chegou por trás do chalé e deixou o trailer estacionado ali. Desceu chamando por Joaquim e anunciando que tudo aquilo estava terminado.

Joaquim caminhou na direção de Rafael, o cutelo pendia de uma das mãos o que fez o técnico de vídeo parar, ele ficou estagnado observando Joaquim e seu olhar apavorado.

- Calma, cara – Rafael ergueu as mãos – O que foi que aconteceu?

Ao redor dele, Joaquim viu os movimentos rápidos e logo as figuras de cabeça de cachorro estavam o cercando mais uma vez, Rafael mantinha as mãos sobre a cabeça pedindo por calma, mas tudo o que Joaquim via era o machado suspenso em sua direção. E ele voltou a atacar enquanto eles vinham correndo da mata fazendo seus ruídos animalescos. Não sobraria muito de Rafael, assim como não sobrou muito de Marie ou Isabela.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 21/09/2018
Alterado em 21/09/2018
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