O absurdo
por Larissa Prado
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Querida Stella
 
 
 
Essa é a minha história com Stella e a maneira certa de começar a conta-la é dizendo que sua presença em minha vida causou extremo impacto. Não foi o tipo de relação que floresce dia após dia como broto de plantas que crescem lentamente em direção à luz. O que Stella causou em mim foi um completo desarranjo, abalou as bases nas quais minha vida monótona se alicerçava.

O meu avô era alfaiate e meu pai seguiu seu ofício mantendo a loja na esquina da rua 4, ali vendíamos trajes para festas, roupas feitas sob medida, fantasias e tudo o que o cliente pedisse. Minha mãe, irmã e eu cuidávamos das vendas, do caixa e de manter o negócio bem administrado. Se dependesse de mim, o negócio não iria se manter na tradição da família. Nunca consegui segurar direito uma agulha, eu gostava mesmo era de mexer com cálculos e fazer render nossas poucas economias.

A vida seguia assim, pacata e agradável. Trabalhar com minha família me fazia feliz, não almejava nada diferente para o futuro porque não pensava sobre ele. Era bom tê-los por perto, cuidar de Irene, minha irmã que sonhava com uma vida de madame ao lado de algum homem de posses e ajudar minha mãe, Abigail, que sempre se mostrou uma dona de casa perfeita, forte e quituteira de mão cheia. Não podia querer nada mais, apesar de ser o mais novo da casa sentia que a vida seguiria esse curso indefinidamente. As coisas não pareciam ser passíveis de drásticas mudanças.

Até que Stella entrou pela porta da nossa loja num fim de tarde do mês de outubro. Eu me lembro do mês porque era a época do calor, o olho do sol arregalado durante o dia nos fazia ligar os dois ventiladores de teto e nós tentávamos convencer meu pai a investir num ar-condicionado. Quando outubro chegava eram as mesmas queixas e a mesma sensação de mormaço e morosidade. As pessoas entravam em busca dos trajes para as festas do Dia das Bruxas, a loja ficava parecendo um circo de horrores. Uma época divertida.

Na tarde da sua chegada, eu não me sentia bem. Uma forte dor muscular dominava minhas mãos e pernas, eu me sentia enfraquecido e esgotado. Não tinha amanhecido bem, uma dor no centro do peito me impedia de respirar com normalidade. Irene me dizia que precisava ir ao médio, minha mãe me incentivava a comer melhor, o que significava comer mais, e meu pai ao me chamar num canto me disse que isso devia ser angústia porque ela que causava essa sensação de buraco no peito. Independente do que fosse, me acompanhou o dia todo. Minha conclusão era que no dia seguinte eu iria amanhecer gripado e incapaz de sair da cama.

Portanto, quando olhei para o rosto de Stella o mal-estar cedeu, todo tipo de dor foi suspenso. Os sons se calaram, o dia permaneceu amarelado pelo forte sol que não dava trégua. Seus imensos olhos negros deslizavam sobre cada peça da loja, fitando as manequins como se procurasse por algo específico, algo importante. Sua boca era esculpida de forma perfeita sustentando um sorriso semicerrado contínuo que lhe conferia um ar de perpétua simpatia serena. Stella era alta, esguia, a pele parecia tão impecável quanto seria de uma estátua de mármore. Eu fui atende-la, mas meu pai se adiantou e a levou para seu ateliê que funcionava nos fundos da loja.

- Quem é, mãe? – perguntei sentindo o impacto daquela presença.

- Quem é quem, meu filho?

- Aquela moça que foi com meu pai para o ateliê?

- Querido, não vi nenhuma moça, estava distraída arrumando a vitrine.

A conversa acabou assim, voltei para atrás do balcão e para frente do computador onde era meu lugar. Eu sempre saía com minha mãe e meu pai ficava para fechar a loja, ele costurava até mais tarde, naquele dia eu tentei enrolar mais antes de ir embora, precisava saber mais sobre Stella, ouvir sua voz, mas minha mãe logo começou a me apressar e a reclamar das dores que lhe atacavam a circulação das pernas.

Fomos embora, mas meu coração tinha ficado dentro dos olhos negros da mulher, a sensação de uma cratera no peito acentuou. Todo o papo que diziam sobre paixões avassaladoras, crimes hediondos e passionais, loucuras e obsessões de quem se apaixona, tudo isso fazia sentido depois que vi Stella. Como alguém que eu nunca vira antes podia mexer tanto comigo a ponto de começar a me sentir doente?

Passei o resto dos dias daquela semana pensando em Stella. Cada pessoa que entrava pela porta da loja eu tentava encontrar o rosto dela, a expectativa de que voltaria a vê-la. Ao questionar meu pai sobre isso, ele disse que Stella logo iria voltar. Não tínhamos intimidade para falar sobre mulheres, eu e meu pai sempre fomos distantes, então não perguntei mais sobre ela. Irene gostava de caçoar me dizendo que eu estava apaixonado e jogava em minha cara todo meu discurso individualista quebrando minha armadura de um garoto insensível.

Stella começou a me visitar em sonhos e quando abria os olhos quase podia vê-la ali no canto do meu quarto me observando com seus belos olhos negros.

Não lembro quanto tempo passou desde a tarde que a vi pela primeira vez, mas na manhã que cheguei para trabalhar e a vi ali, de pé perto do balcão, senti a mesma sensação de arrebatamento e êxtase. Não haviam incômodos ou dores. Tentei disfarçar e foi inútil, acabei correndo ao seu encontro.

- O que deseja? – a minha voz saiu diminuta, fraca.

- Você. Estou aqui há um tempo e não via ninguém. Preciso da sua ajuda.

Estava embevecido pela proximidade, seu rosto era ainda mais perfeito visto de tão perto.

- Estou aqui para isso, o que precisa?

- De um vestido como aquele. – ela apontou para a manequim na vitrine vestida com uma peça luxuosa feita sob medida para uma madame da alta sociedade.

- Aquele é exclusivo, mas... – aqueles olhos negros poderiam me convencer a pular de uma ponte. – Eu dou um jeito!

Ela abriu um sorriso de dentes perfeitos e redondos e me surpreendeu com um abraço, agradecida. Seu perfume impregnava minha roupa e se espalhava por toda loja. Ficamos assim abraçados por um tempo sem que eu pudesse notar que pressionava suas costas para que não se movesse e nos conservasse assim, juntos pela eternidade daquele dia.

- Eu posso provar o vestido que seu pai estava costurando para mim enquanto não me arranja um daquele?

Ela me largou e me encarava tão de perto que quem nos visse de fora podia arriscar dizer que um beijo aconteceria em questão de segundos. Não me afastei, seus olhos me enfeitiçavam.

- Claro, vamos lá para o ateliê.

Fomos para os fundos da loja onde funcionava o lugar que meu pai costurava, quando entramos pela porta o cheiro de tecidos amontoados nos atingiu e me despertou a familiar alergia a poeira, espirrei algumas vezes e me embaracei tentando explicar a Stella a razão dos acessos de espirros. Ela continuou com um sorriso discreto nos lábios e caminhou pelo ateliê sem fazer ruídos, era leve e graciosa.

Assim que viu seu vestido no busto de costura, Stella me dirigiu um olhar empolgado enquanto livrava-se da roupa que vestia. Naquele momento, não soube o que fazer, fiquei parado observando-a se despir sem quaisquer reservas ou constrangimento.

- Vista-me. – ela sorriu completamente nua, a pele quase reluzia na penumbra do quarto na sua imaculada palidez.

Demorei a reencontrar os meus sentidos, foi como ter sido lançado em um redemoinho de águas turvas. Meus pensamentos iam em todas direções e no fim tudo culminava em Stella ali exposta na pele nua de uma maneira tão não convencional beirando à estranheza. Nunca havia conhecido alguém como ela, mesmo sendo novo tivera minhas aventuras amorosas, mas nada comparado aquilo. Eu estava apaixonado por seus olhos e sorriso enigmáticos, a partir daquele instante no ateliê a paixão se tornou outra coisa, uma obsessão, uma doença. Se Stella me dissesse para colocar fogo no próprio corpo eu o faria sem pestanejar.

Ajudei com seu vestido e ela saiu desfilando pelo ateliê sob seus passos de gato, silenciosos e pequeninos. Ela era o resultado de uma natureza perfeita. Começamos a nos ver todos os dias, mas ela aparecia quando meu pai estava no ateliê e ele mal saía de lá, e minha mãe estava ausente da loja, pois saía para pagar as contas e comprar materiais. Irene não aparecia mais depois que se arranjou com um médico em ascensão. Stella passava as manhãs e tardes ali comigo, tocando as roupas e pedindo as mais caras e exclusivas. Qualquer um poderia desconfiar em meu lugar, mas eu estava entregue à loucura da paixão, do deslumbramento, há uma feiticeira em toda mulher e Stella sabia como dar voz a ela.

Depois que roubei o vestido da vitrine para ela, Stella desfilava com ele todos os dias, apesar do sumiço da peça meu pai não disse nada. Era como se o vestido nunca tivesse existido, passava os olhos por Stella de pé em frente ao balcão e nada dizia, cheguei a perguntar para ele se a dona da peça não iria busca-lo e ele me respondeu tranquilo que o vestido estava no lugar certo. Não compreendi a serenidade do meu pai em relação àquela situação, mas não questionei e me senti encorajado a pegar todas outras peças que Stella exigia vestir.

Nossa relação se aprofundou ao ponto de leva-la comigo para casa, deitá-la na minha cama e passar os fins de semanas assim, nós dois apenas aproveitando a companhia um do outro. Stella me contava sobre sua vida na cidade em que nasceu, em como seu pai era autoritário e violento. Haviam marcas em seu corpo, pequenas cicatrizes da grosseria com que era tratada em casa. Eu podia sentir a sua tristeza dentro de mim, como se fosse minha e a abraçava por horas para fazê-la acreditar que nós éramos a mesma pessoa e que eu a entendia. Eu podia passar o resto da vida abraçado a ela.

O sonho durou apenas um mês, a chegada da Irene arruinou tudo. Ela estava prestes a se casar com o médico, ele a levou por uma viagem ao redor da Europa e quando a revi parecia outra pessoa. Irene tinha um ar de superioridade e na boca um sorriso arrogante, suas palavras denotavam petulância e sua vaidade não cabia em si. Ela se dirigia a mim como “garoto” apenas e me tratava como um doente.

- Quando vão leva-lo para uma consulta? Ele precisa se tratar. Ele nunca bateu muito bem.

Ela sussurrava depois que eu saia da mesa de jantar e meus pais não respondiam. Quem Irene achava que era? Só porque tinha se dado bem na vida, se tornando a boneca de luxo de um rapaz engomado e cheio de si, achou que podia dar ordens e ditar as regras da casa? Achou que podia dizer que eu era um doente?

Despejei minha revolta em Stella e vi em seus olhos uma fagulha reluzir, era um brilho diferente da sua doçura habitual, era algo maligno. Naquela noite, ela sussurrou no meu ouvido o que eu deveria fazer para me ver livre de Irene e suas artimanhas, para fazê-la abaixar a crista. Stella me orientou como deveria ser feito e assim, quando o dia amanheceu, eu estava do lado de fora da casa observando. Esperei meus pais saírem para a loja, Irene dormiria até tarde, permaneci lá fora olhando. Stella estava ao meu lado me incentivando, maravilhada com as labaredas do fogo que começavam a explodir as janelas do andar superior do sobrado, onde Irene dormia.

O som da risada de Stella era a mais bela melodia aos meus ouvidos, mas quando olhei para o lado seu corpo estava caído, desconjuntado e o fogo se espalhava por ele. Mas estávamos tão longe da casa, como poderia ter a atingido? Desesperado, arranquei minha camisa e tentei conter as chamas em seu corpo, mas era inútil. A sua risada não vinha dela, e sim, da mulher que abriu a porta da frente da casa e andava nua e intacta, Irene não parecia se importar com o que acontecia, ela me encarava com os olhos negros como eram os de Stella.

O fogo parou de queimar assim que Irene nos alcançou, olhei para Stella em meus braços e soltei-a, aturdido. A manequim estava chamuscada, seu belo rosto esculpido estava derretido. Irene, abaixou-se ali perto de nós e da sua boca a voz de Stella fez cócegas em meu ouvido.

- Devo a você a minha libertação, Antony, foram anos demais dentro desse objeto inanimado.

O dia estava quente, lembro que era outubro e lembro do calor opressivo. Stella, a nova, se afastou me deixando entregue a um atordoamento que nunca iria passar, pois quando meus pais retornaram ao fim do dia encontraram um garoto paralisado, os pedaços do que restou de uma manequim da loja no colo e sem força para emitir qualquer palavra, qualquer som.

A minha vida foi suspensa naquele dia que meu pai trouxe a nova manequim para loja, revivi essa história indefinidamente na tentativa de buscar o instante exato em que a loucura se instalou em minha mente, mas tudo o que consigo pensar, no fim das contas, é que perdi Stella para sempre e muito de mim se foi com ela.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 12/09/2018
Alterado em 17/09/2018
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