O absurdo
por Larissa Prado
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Doçura maligna


Haviam ali muitos tipos de árvores frutíferas e um odor quase imperceptível de podridão. Um pé de jabuticaba espocava as frutinhas no quintal da casa assim como o pé de mexerica. Meu amigo Yago dizia que aquele cheiro vinha das frutas que caíam maduras e apodreciam. Não era sempre que limpavam o quintal e mesmo depois de limpo o cheiro ficava. Como fica o efeito de uma morte depois que ela acontece, exalando sua podridão e afetando as vidas daqueles que ficam vivos.

Eu gostava de ir até a casa do Yago porque assim podia ver seu irmão Matheus. Ele tinha um problema de saúde que o impedia de sair de casa e deixava sua carne apodrecida como casca de fruta passada. Yago me dizia que ele sofria desde a infância de uma estranha doença congênita que apodrecia os tecidos epiteliais. Não sabíamos o nome da doença e passamos a chamar o irmão dele de Zumbi. Por causa da doença Matheus foi se tornando cada dia mais estranho na aparência, mas sua essência era doce e gentil. Ele não parecia sequer se importar com as marcas que faziam sua carne se desintegrar como cascas de frutas podres.

Eu gostava de vê-lo, por um sórdido prazer inexplicável gostava de acompanhar sua decadência e pensar “ainda bem que isso não aconteceu comigo”. Cada vez que o via mais destruído agradecia pela minha saúde perfeita.

Yago e Matheus tinham uma irmãzinha de uns 8 anos chamada Eugenia, ela amava o irmão-zumbi, mas era distante de Yago. Enquanto Matheus sofria com a doença sempre achei que Eugenia sofria de excesso de imaginação beirando ao delírio. O problema dela não podia ser percebido no corpo, mas sua mente parecia desintegrada da realidade.

Era ao fim das tardes que costumava sair da minha aula e ir visitar Yago, nós estávamos a um passo de ingressar em um curso superior, por isso costumávamos encontrar para estudar. Encontrava Eugenia e Matheus no quintal e me juntava a eles enquanto Yago não chegava da aula. Eugenia caminhava segurando a mão do irmão e chutando algumas frutas que encontrava pelo caminho ou as levava até a boca e mordia proporcionando um espetáculo asqueroso. Matheus apenas olhava a irmã, inerte em seus próprios pensamentos. Eugenia o tratava como uma de suas bonecas, não sei se eram traços da doença que o tornavam mais e mais apático.

Algo no casal de irmãos sempre me incomodava. Apesar de me sentir animado em observar Matheus em sua decadência e notar as pústulas pelo seu corpo e rosto espocarem como frutas podres, quando Eugenia estava com ele eu me sentia desconfortável. Não sabia como Yago conseguia conviver numa casa com aqueles dois.

Alguns dias, Matheus e Eugenia sentavam-se ao meu lado, eu me limitava apenas a observá-los, não tentava entabular nenhuma conversa, era inútil. Se perguntasse algo para qualquer um eles apenas me olhavam por alguns instantes e diziam frases desconexas, como se não pudessem entender o sentido das palavras, criavam seus próprios sentidos. Eu podia ver por baixo das feridas na pele de Matheus elevações que se moviam e me arrepiava diante aquela aberração.

Dominado pela curiosidade, certa vez, perguntei a Eugenia o que eram aquelas oscilações sob a pele do irmão. Primeiro, a menina pareceu se assustar com minha voz e colou o corpo ao do irmão mais velho segurando sua mão. Em seguida, ela abriu um sorriso sem os dentes da frente e esticou o braço dele para que eu visse. “São formiguinhas”, ela parecia admirada e orgulhosa, “meu maninho é doce, tão doce, que as formigas passeiam dentro dele, olha!”

E assim, pude ver as quilométricas filas de formigas-fantasmas se deslocando lentamente por todo corpo de Matheus, subindo pelo pescoço e deslizando atrás dos seus olhos, através de uma orelha a outra. O odor que exalava me remetia a jabuticabas, mexericas, maçãs, mangas apodrecidas. Tentei disfarçar o incômodo, Matheus continuava olhando para a frente alheio a nossa conversa e Eugenia acariciava a pele do irmão que se movia flácida da carne. Yago chegou no momento que eu pretendia me levantar e ir embora.

“Yago, você viu as feridas do seu irmão?”, perguntei atordoado, “as formigas estão nelas, acho melhor leva-lo ao médico”. Para meu espanto Yago apenas sorriu, tranquilo. “Ah, Matheus sempre foi uma pessoa muito doce mesmo. Mamãe diz que ele é tão cheio de virtudes que acabou apodrecendo”. Eugenia gargalhou assim como Matheus, Yago continuou sorrindo. Naquele dia, voltei para casa pensando em formigas-fantasmas e ouvindo as gargalhadas ecoando em minha memória.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 02/09/2018
Alterado em 02/09/2018
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