O absurdo
por Larissa Prado
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
ContatoContato
LinksLinks
Textos


Uma história assombrosa
 
 
 
1


Mabel e Laura estavam sentadas no sofá de uma sala requintada no condomínio Aurora. Eram vizinhas. Mabel era uma pianista bem-sucedida, vinha de uma abastada família norueguesa. Seu porte aristocrático a deixava mais velha do que realmente era. Laura não passava de uma jovem comum, enfrentava problemas emocionais desde que perdeu a mãe há sete anos. Com a ajuda do marido, Jorge, Laura tentava se reequilibrar e elegeu no inconsciente dos seus afetos Mabel como sua melhor e única amiga.

- Querida, tente não ficar tão ansiosa. Creio que Jorge não irá fazer nada contra sua vontade. Se o médico receitou um novo tratamento a internação não vai ser necessária. Você está ótima!

Mabel tocava os cabelos castanhos de Laura, enrolando as pontas em seus dedos hábeis de pianista. Sua voz era musical, Laura olhava para a amiga como quem venera a imagem de um anjo.

- Não sei, Mabel, eu me sinto perdida a cada consulta. Esse novo psiquiatra é conhecido do Jorge, não me sinto à vontade, mas ele tem razão, preciso mudar os remédios antigos já que não me fazem bem. Não consigo dormir direito.

- Sabe que pode contar comigo. Sempre que precisar conversar venha me ver, é só atravessar a rua. Por que não passa uns dias comigo? Fred só volta de viagem daqui uns dias. Vai poder assistir meus ensaios para a próxima apresentação.

Laura olhou em volta, o reflexo delas no grande espelho que cobria quase toda parede da sala a deixou mais entristecida. Perto da luminosidade que emanava de Mabel, Laura se tornava ainda mais desgastada e cinzenta.

- Obrigada, Mabel, mas não posso. Jorge gosta de chegar em casa e me ver. Ele não gosta de jantar sozinho. Além do mais, preciso me restabelecer sozinha, não vou ter alguém sempre por perto para me ajudar.

Mabel tocou as mãos de Laura e sorriu. Seu rosto, envolvido por fios claros e sedosos, era angelical. Laura abraçou-a num rompante de afetividade. Sentia falta da mãe e Mabel parecia ocupar esse buraco em sua vida. Laura se afastou tentando conter as lágrimas inesperadas, Mabel continuava afagando seus cabelos.

- Querida, você é feliz no casamento? Jorge a trata bem? Ele sempre pareceu ser um homem bom, mas não sei como ele deve ser como marido.

Laura não respondeu de imediato, ficou pensando sobre aquelas perguntas, elas nunca tinham surgido antes em sua cabeça. Jorge era advogado da sua mãe e a ajudou muito quando ela morreu. Laura era a única herdeira do que a mãe acumulou em imóveis de alto padrão. Ela não sabia definir o que sentia por ele, mas sabia que precisava estar onde estava. Jorge ajudava como podia na sua reabilitação mental.

- Sim, claro, Mabel. Sou muito feliz com Jorge, ele me trata bem, me ajuda a não cair. Ele é um bom marido. Eu me casei muito cedo, não sei como teria sido sem o Jorge por perto.

Mabel olhou para ela com algo nos olhos que Laura supôs ser desconfiança. Elas não falaram mais sobre Jorge. Laura se levantou para despedir e antes que Mabel afastasse do seu abraço, Laura viu um novo porta-retratos sobre o móvel da sala.

Mabel estava ao lado do marido Fred, Laura sentiu-se sugada pelos olhos do homem. O olho esquerdo era quase da cor ametista, aquele azul era algo inédito para ela, mas o contraste com o olho direito, castanho escuro, era o que a perturbava, como se ele fosse duas pessoas dividindo o mesmo rosto.

Laura sabia que aquele rosto era familiar, tinha quase certeza de que Fred não era um desconhecido mesmo que não tivesse conhecido pessoalmente o novo marido de Mabel. Ele nunca estava em casa quando ela fazia suas vistas.

 
2


Jorge estava lendo um processo na mesa da cozinha quando Laura entrou pela porta da sala.

- Hey docinho! – ele veio ao encontro da mulher.

- Jorge, você chegou mais cedo. Eu estava na casa da Mabel. – Laura o abraçou.

- A mulher da frente, né? Vocês são muito ligadas mesmo.

- Muito. A Mabel me ajudou muito depois que... – ela fechou os olhos e a imagem do rosto de Fred voltou a assombrá-la, os olhos de cores diferentes, o sorriso forçado.

- O que foi, docinho? – Jorge estava muito perto do seu rosto, Laura se afastou.

- Jorge, o que aconteceu depois que minha mãe morreu? Eu não consigo me lembrar. Hoje, o médico trocou o tratamento.

Ele guiou a esposa até a cozinha e a colocou sentada massagenado seus ombros tensos.

- Querida, não aconteceu nada. O trauma da morte da sua mãe te deixou confusa. Você tinha apenas quinze anos, estava envolvida com todas aquelas coisas e brigava com sua mãe quase todo dia. Não deve continuar se culpando pela morte dela. Mudar o tratamento pode, finalmente te ajudar.

Ela levantou os olhos e observou o rosto do marido, por que eles estavam juntos? Os espaços em branco em suas memórias a convenciam sobre sua insanidade. A mãe bateu o carro depois que saiu nervosa por causa de uma das discussões acaloradas.

Laura lembrava dos seus problemas com entorpecentes e das más companhias, mas suas lembranças fluídas pareciam fragmentos de um sonho. Se estou sonhando acordada dentro de um sonho, quem está no controle das minhas memórias reais? Laura se fechou em seus próprios pensamentos enquanto observava Jorge voltar para sua cadeira e para seu trabalho.

Jorge era controlador, Laura não sabia como eles começaram o relacionamento que culminou naquele casamento, mas reconhecia quem estava no controle de tudo.

- Docinho, é melhor você tomar seu remédio e ir dormir. Toda vez que volta do médico está muito cansada e com a cabeça a mil.

Laura saiu da mesa e fez o que ele sugeriu como sempre costumava fazer porque Jorge sempre parecia sensato e inquestionável.

 
3


Quando estava acordada Laura se sentia vivendo em sequências oníricas, aquela vida não parecia ser sua. Ao dormir e abrir os olhos nos sonhos eles sempre eram mais vívidos e coerentes do que a realidade.

Naquela noite, Laura retornou ao sonho que há muito não tinha, ela voltou a encontrar a mulher de longos cabelos vermelhos. Seus lábios borrados com batom arroxeado diziam “Minha menina, minha pombinha” e Laura sussurrava seu nome “Yasmin” ao tentar alcança-la. Yasmin sempre aparecia sentada num sofá vermelho, tudo o que Laura conseguia ver eram os lábios se movendo em conjunto com uma manchinha feita com lápis negro que imitava um sinal acima do lábio direito superior.

Então, acordava desse encontro com o coração disparado e a cascata de suor frio cobrindo seu rosto. Jorge sempre trazia um copo de água e a fazia voltar para o sono murmurando “Docinho, foi apenas um pesadelo”.

Durante muito tempo, Laura se manteve reclusa em casa, depois da perda da mãe. Não fosse os cuidados de Jorge ela teria definhado de vez. E também tinham as visitas de Mabel, elas traziam novo ânimo ao espírito de Laura. Com o novo tratamento, Laura se sentia mais disposta, os sonhos não trouxeram Yasmin de volta, mas ela não podia deixar de lembrar da mulher, principalmente ali diante o marido de Mabel. Eles estavam jantando, depois da sua última visita fazia duas semanas que Laura não ia até a casa da amiga.

Fred tinha aquele olhar perturbador, Laura culpava sua heterocromia, mas algo nele inspirava-lhe uma familiaridade assombrosa. Mabel estava falante, eufórica por causa da sua apresentação num famoso teatro da cidade aquela noite. O marido apenas sorria, enigmático, enquanto segurava a mão da esposa sobre a mesa.

- Laura, querida, não tocou na comida. Não lhe agrada a culinária japonesa? Se soubesse teria pedido a comida naquele restaurante árabe que você adora, Fred.

Ele beijou a mão de Mabel e voltou a encarar Laura à sua frente.

- Não! Eu adoro comida japonesa, Mabel. Estou um pouco nauseada hoje, só isso.

- Oh pobrezinha, deve ser efeito dos seus remédios novos. Ela faz uso de psicotrópicos, querido. Fred também tomou isso na juventude, Laura. Ele sempre foi muito sensível.

Laura não suportava os olhos de Fred, por isso abaixou o rosto.

- Ah sim, mas isso faz tanto tempo, pombinha. – ele sorriu, aquela voz fez Laura arrepiar, seu tom era conhecido.

Mabel observava a forma que Laura estava se comportando diante Fred. Encarava a garota que olhava para seu marido de forma perplexa, quase admirada.

- O que houve, querida? Acho que você e Fred ainda não tinham se encontrado, não é? Ele não é magnífico?

Laura não conseguiu esconder o constrangimento, enrubesceu.

- É, nunca nos encontramos, mas o que me intriga é que parece que já o conheci antes.

Foi Fred quem falou, seus olhos bicolores não paravam de avaliar os gestos de Laura.

- Talvez tenha me visto em “Olhos diabólicos” ou “Um coração em chamas”, são meus maiores sucessos.

Mabel sorria cheia de orgulho.

- Fred é ator, Laura, e diretor também, mas seu verdadeiro talento é interpretar.

Laura sabia que não tinha visto Fred em filmes, ela nunca tinha visto ele antes, mas havia aquela familiaridade desconfortável.

- Ah sim, claro, deve ser de algum filme que conheço sua voz.

- Realmente, a voz dele é marcante. - Mabel não economizava elogios para o marido.

O resto da noite seguiu cada vez mais estranho para Laura.

 
4


A apresentação de Mabel foi impecável, entre releituras de Chopin e Tchaikovsky, a pianista deixou o público inebriado. Fred estava ao lado de Laura e aplaudia a esposa com veneração. Enquanto Laura prestava atenção nele, Fred não parecia lembrar que ela estava ao seu lado.

Em dado momento, nas últimas músicas que Mabel tocava, Laura sentiu os sintomas iniciais de um ataque de pânico. As mãos tremiam, o suor descia frio e pegajoso pelas têmporas e o coração disparado batia na garganta. Sua visão duplicou deixando-a zonza. Ela pensou em como queria que Jorge estivesse ali antes de se agarrar ao ombro de Fred, quando ele virou para segurá-la foi o rosto da mulher dos sonhos que estava ali, “Yasmin!”,  Laura murmurou.

Um feixe de luz incidiu sobre seus olhos, Laura acreditava ser um túnel de luz se abrindo à sua frente. À medida que piscava, delineou a luz no teto.

- Como se sente, Laura? – Fred estava sentado ao seu lado, aquilo parecia uma enfermaria.

- O que aconteceu? – ela tentou se sentar.

- Fica deitada, você desmaiou, deve ter sido o ambiente. A música afeta nosso organismo mais do que podemos imaginar.

Por um instante, Laura voltou a sentir a onda de pânico cobrindo-lhe os sentidos, fechou os olhos com força.

- E a Mabel? Onde ela está?

- Na apresentação, não quis estragar sua noite, então eu te trouxe até aqui para depois ligar para ela.

O rosto dele estava mais perto, difuso, misturando-se à luz no teto. Ela sentiu sua mão sobre seu peito, pressionando como o peso de uma rocha fria.

- Você está com taquicardia, querida. O que há com você?

- Eu quero ir embora, por favor.

- Você vai morrer.

Laura ouviu Fred dizer aquilo, mas foram os lábios roxos de Yasmin que apareceram na sua frente. Ela escorregou para dentro do sonho onde um sofá vermelho a aguardava com a mulher ruiva balançando sua perna cruzada.

 
5


O grito ecoou pelo quarto: JORGE!

Ele saltou da cadeira da cozinha e irrompeu pelo quarto.

- Laura? Minha querida, foi só um pesadelo.

Ela estava com os braços estendidos e Jorge a abraçou, Laura mergulhou num choro desesperado.

- Eu apaguei num concerto da Mabel. Tinha aquele homem de olhos diferentes, o marido dela. Jorge, achei que fosse morrer.

Ele acolhia Laura como uma criança, como fizera no dia fatídico da morte da mãe dela.

- Laura, calma. Não foi um sonho, ontem você passou mal no show dela. Eles te deixaram aqui, estava sob efeito dos calmantes que te deram no pronto socorro.

Laura afastou do marido, incrédula.

- Por que você não foi comigo, Jorge? Por que você é tão ruim às vezes?

- Minha querida, eu te alertei para não ir sozinha, mas eu estava ocupado demais com os processos e você queria tanto ir. Não se preocupe, foi apenas um malestar passageiro.

O relógio na parede do quarto marcava 7:15. Ela saiu da cama se sentindo trêmula e faminta. Jorge amparou-a até a cozinha e preparou um café reforçado.

- Eu não gosto do marido dela, Jorge, na enfermaria ele me sufocou, pressionou meu peito assim.  – Laura cobriu o coração com as mãos com força. – Como se fosse esmagar meu coração.

- Ele me pareceu um sujeito excêntrico mesmo, mas artistas são assim. Querida, talvez você tenha sonhado com isso, ele disse que você não acordou durante o tempo que ficou lá na enfermaria.

Laura perdeu o apetite de repente, Jorge estava concentrado em seu trabalho no computador.

- Jorge...

- Sim? – ele tirou os óculos de grau e a encarou.

- A maneira como lembro das coisas não é a maneira como elas aconteceram de verdade.

Ele suspirou, não sabia o que dizer, Jorge estava cansado de Laura, mas disfarçou ao sair da mesa e brindá-la com um beijo na testa. Antes de se recolher em seu escritório, disse para a esposa ir dormir mais um pouco, e assim ela o obedeceu.

No fim do dia, Mabel estava lá para visitar Laura, elas tomavam chá e comiam as rosquinhas que Mabel levara.

- Laura, eu estou muito preocupada com você. Desde que mudou de médico parece que está piorando, até seu olhar se tornou disperdo e confuso.

A garota mexia seu chá, distante.

- Mabel, você sabe quando está sonhando? Dentro do sonho você pensa e sabe “Isso é um sonho”, mas não consegue voltar ao seu corpo e fazê-lo despertar.

- Sim, querida, acho que sei o que quer dizer. Nós passamos por isso quando estamos prestes a cair no sono profundo, quando a alma vai deslizando para fora do corpo.

- Eu me sinto assim o tempo todo desde que a mamãe morreu.

Mabel deixou a xícara sobre a mesa de centro e envolveu as pontas dos cabelos da garota.

- Talvez você deva parar com esses remédios e consultas, querida. Pode ser que estejam te deixando pior. Já ouviu dizer que a diferença entre o veneno e o remédio é apenas a dose? Laura, quando foi que você e Jorge começaram a se relacionar?

Laura estava fitando o próprio reflexo na superfície do seu chá.

- Assim que mamãe faleceu, o Jorge era nosso advogado. Eu não sei o que seria de mim sem ele.

- E sua mãe deixou para você essa casa e mais outros imóveis, não foi? Laura, foi ideia do Jorge começar os tratamentos psiquiátricos?

- Sim, Mabel. Meu pai deixou muitas propriedades para a mamãe e com a morte dela eu herdei todas. Nunca tive paciência para lidar com esses assuntos, o Jorge cuida de tudo. Ele só quer meu bem.

- Claro, querida, é claro.

Mabel passou o resto da noite distraindo sua jovem amiga, quando voltou para casa e encontrou Fred arrumando as malas às pressas, ela se sentiu ultrajada.

- O que está fazendo Fred?

- Eu preciso passar um tempo longe.

Ele saiu pela porta sem olhar para trás, o som do carro saindo e cantando pneus fez Mabel pensar no marido como um fugitivo e arrancou Laura do sono.

 
6

 
Naquela noite, Laura esteve sentada no sofá vermelho ao lado de Yasmin e seus lábios roxos. A cena voltou a se repetir, não tinha sentido, elas repetiam as mesmas palavras e gestos. Ela acordou atordoada. Jorge lia o jornal na cozinha quando Laura se arrastou até lá. Ele a colocou sentada e serviu o café, os comprimidos estavam preparados para ela como Jorge sempre fazia.

- O mundo está perdido mesmo – ele virou a página do jornal. Laura olhou para ele. - Encontraram um apartamento ali no centro, sabe? Repleto de cadáveres num freezer.

- O quê? – Laura sentiu o estômago rodopiar na garganta.

- É querida, um lunático matava as garotas e escondia as partes num freezer. Parece que foi um vizinho que denunciou a atitude suspeita do homem. Sem contar que diziam que ele colocava som alto tarde da noite, pelo menos eram músicas clássicas como Chopin. Está aqui na manchete policial.

Laura estava distraída olhando a superfície do seu café. O seu reflexo ia e vinha deixando-a zonza.

- Querida?

- Jorge, o que aconteceu comigo?

Ela viu a preocupação transformar o rosto dele, Jorge correu até ela antes que Laura perdesse os sentidos.

Aos poucos, a luz se afunilou até os feixes fragmentados se tornarem uma linha. Laura abriu os olhos para a luz no teto da sala. Os rostos de Mabel e Jorge a fitavam, mas tinha um terceiro rosto entre os dois, ele tinha olhos de cores diferentes.

- Fred? – Laura quase gritou.

Mabel agarrou suas mãos enquanto Jorge tocava sua testa.

- Laura, você está bem? Querida, eu vim te visitar e Jorge me disse que estava passando mal.

Laura sentou no seu sofá, mas era o mesmo sofá vermelho dos sonhos.

- Mabel, algo aconteceu comigo e sempre que tento me lembrar eu apago.

Jorge estava olhando para Laura com um semblante diferente, estava impiedoso e frio.

- Querida, sinto muito, mas você está me obrigando a fazer isso.

Laura observou as sombras se moverem com rapidez atrás do marido. Eram os homens com jalecos brancos que entraram pela porta, eles tocaram seus ombros pedindo a ela para não se alterar ou se assustar.

Laura procurou Mabel pela sala, mas ela não estava mais ali, muito menos Fred. Apenas Jorge e os homens que a ajudavam a sair do sofá. Ela não resistiu, nem questionou quando viu as luzes da ambulância girando e convidando-a do lado de fora.

Ao olhar por cima do ombro, a sala estava ficando para trás imersa na penumbra e o sofá vermelho se destacava com a silhueta feminina de cabelos ruivos e lábios roxos. Laura sussurrava sem parar o nome “Yasmin” quando a colocaram deitada na maca da ambulância.

 
7

 
Laura foi internada numa instituição psiquiátrica e Jorge foi visita-la nos primeiros meses prometendo que em breve ela sairia. Na última visita levou papéis para que ela assinasse, e depois não voltou mais. Laura se afundou cada dia mais nos sonhos com o sofá vermelho e a mulher de batom roxo chamada Yasmin.

Depois de dois anos, Jorge estava terminando as reformas na casa e compartilhava umas cervejas com um dos seus melhores amigos para quem contava todos seus planos e sonhos.

- Você não dá ponto sem nó, Jorge. Mas não sente nenhum pouco de remorso pelo o que fez com essa garota?

- Remorso? Ah, Beto, por favor. Eu mereço o que tenho depois de ter suportado aquela louca por tanto tempo.

- O que aconteceu realmente, cara? Como conseguiu levar uma pessoa à loucura desse jeito?

- Não precisei fazer muito, Beto. Depois que a mãe morreu, Laura ficou doida mesmo e desapareceu por dias. Não encontrava ela em lugar nenhum. Você sabe, ela tinha problemas com drogas, começou cedo, por isso ela e a mãe discutiam tanto. Um belo dia, ela bateu aqui na porta toda detonada, suja, machucada, dizendo coisas desconexas sobre ter sido sequestrada por uma mulher estranha chamada Yasmin e que tinha escapado do cativeiro. Claro que não dava para levar a sério, convenci ela que tudo era delírio, efeito do luto, da culpa e dos entorpecentes. Ela foi acreditando, eu só precisei cuidar dela, da cabecinha dela, e cuidei, cara. Ela ficou mais louca, foi fácil atestar sua incapacidade mental e ficar responsável por tudo que é da minha esposa.

Beto deu um gole na cerveja, eles observavam os homens trabalhando na instalação de uma nova piscina.

- Mas, Jorge, você não soube?

Jorge olhou para o amigo, ainda degustava sua cerveja.

- Aquele caso dos corpos de garotas escondidos num freezer num apartamentozinho do centro? O psicótico foi preso, era um maníaco, ex-ator ou algo assim, ele se transvestia de mulher enquanto torturava e abusava das vítimas, falam até sobre canibalismo. Tem alguns trechos dos vídeos que ele fazia na internet, além de tudo o cara filmava. Ele dizia se chamar Yasmin, fazia as garotas o chamar assim. Em um dos vídeos ele tortura uma garota chamada Mabel, cara, ela era linda parecia um anjo. E pelo o que me contou, essa tal Mabel desapareceu na mesma época que a Laura, pode ser que elas tenham estado juntas lá no inferno. Enfim, cara, ela pode realmente ter fugido.

Jorge parecia perplexo.

- Tem foto desse psicopata, Beto?

O amigo de Jorge mexeu no celular por alguns minutos e encontrou a notícia online que trazia uma foto do culpado, o rosto de Fred estava estampado ali sorrindo sem seus áureos tempos de ator renomado. Sua heterocromia era algo desconcertante por causa da insanidade concentrada no olho claro.

- Esse era o homem com o qual Laura sonhava, ele e a tal Mabel.

Beto guardou o celular e Jorge deu um gole na cerveja. Ambos permaneceram calados até Jorge se manifestar.

- Cara, como esse mundo é doido, hein?
 
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 28/08/2018
Alterado em 29/08/2018
Copyright © 2018. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.