O absurdo
por Larissa Prado
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Os rostos no céu

 
 
Parte I
 
 
O nome dele era Mick, tudo porque seus pais eram fãs de Rolling Stones e o conceberam após um show que foram da banda em 1967. Poderia ter sido batizado com qualquer outro nome, mas as circunstâncias nas quais os pais viveram definiram como seria chamado pelo resto da vida. E ele detestava.

Quando se mudou para o endereço da sua casa própria havia prometido para si mesmo que iria reformular sua vida, abandonar maus hábitos e o mais importante: não deixaria mais que as escolhas alheias interferissem na sua vida. Nem sempre temos controle sobre as promessas, a verdade é que elas raramente se cumprem.

As idas aos jogos de azar acentuaram, os cigarros acumularam nos cinzeiros, ele continuava se alimentando mau mesmo depois da experiência de quase morte decorrente de um enfarte. Não conseguiu abandonar os velhos hábitos.

Durante quarenta anos trabalhou como inspetor de polícia e juntou uma boa quantia para comprar aquela casa porque Hannah queria morar naquele bairro. Ela morreu antes que ele pudesse ofertar isso. Mesmo depois da morte da esposa, Mick se desdobrou para conseguir um lugar seu. Contava com um final de vida aproveitando da sua merecida aposentaria.

Ele e Hannah tiveram apenas um filho, Ivan, que seguiu os passos do pai, tinha se tornado delegado e adotado, também, seus próprios maus hábitos. O pior deles era bater na esposa e culpar a bebida por isso. Mick e Ivan não se gostavam, apenas se suportavam.

Por algum tempo, Mick se perguntou se Ivan era mesmo filho deles. Se não teria sido trocado ou, simplesmente, caído do céu. Não conseguia ver nenhum traço da personalidade de Hannah ou da sua própria no filho. Sempre seria uma aberração aos olhos de Mick, mas era a única família que lhe restara. E foi ao filho a quem teve de recorrer na primeira noite que passou na nova casa.

 
Parte II
 
Era manhã quando o caminhão de mudança subiu a rua, Mick arrumou sua mudança sozinho. Ivan sequer sabia que ele estava indo para sua nova casa naquele dia. O lugar que mais gostava era o quintal amplo com uma bela churrasqueira ao lado da piscina. Era um lugar requintado para um homem solitário, Hannah seria feliz ali. Mas ela estava morta mesmo que Mick continuasse esperando o som do seu carro estacionando na garagem todo fim de tarde.

Ansioso para deixar tudo arrumado, ele trabalhou o dia todo desfazendo caixas e tentando deixar a casa organizada. Ainda faltava muito quando sentou na varanda da área externa da casa e abriu uma cerveja encarando os últimos raios de sol refletidos na superfície da piscina recém-tratada. Seus pensamentos voltaram a evocar as lembranças da vida ao lado de Hannah, Mick não imaginava que iria sentir tanta falta da mulher. Foi pensando nela que ele mergulhou em um sono leve. Preso à inconsciência sonolenta ainda podia ouvir o som dos grilos que enchiam o jardim como se metade dele permanecesse desperta.

Mick ainda estava segurando a garrafa de cerveja ao abrir os olhos, a piscina tremulava como se alguém estivesse acabado de sair. Ele olhou em volta, sentindo uma presença, mas seus olhos não conseguiam enxergar nada além do que a fraca iluminação externa clareava. O pensamento aleatório o assaltou, sobre trocar todas lâmpadas da casa assim que pudesse. A garrafa de cerveja deslizou dos seus dedos trêmulos, Mick olhou para o céu e a imagem de um rosto se delineou entre as estrelas esparsas, como uma figura em alto relevo numa tela. A mulher o fitava com pequenos olhos vazios, o rosto era pequenino e pálido. Mick esfregou os olhos, o som da garrafa chocando-se ao chão o fez saltar da cadeira.

Ele estava de pé, desperto, olhou para o céu temendo que realidade e o sonho coexistissem numa dimensão impossível. Não haviam estrelas, ele mal podia enxergar a lua. Mick respirou fundo, aliviado e voltou para dentro da casa.

Antes de se entregar ao merecido descanso na sua cama, espiou o jardim pela janela, o céu estava coberto pelo véu da noite sem estrelas e pela brisa quente, Mick achou que em breve iria chover. Deitou-se, o sono veio rápido, e não houve sonhos.

O som de água o fez sentar na cama, Mick pegou o relógio de pulso sobre uma caixa ao lado da cama, ele marcava 2:30. Demorou um pouco a situar-se no seu novo quarto, seus olhos foram se acostumando com o ambiente e a mente retornou ao momento presente fazendo-o se lembrar da piscina lá fora, o som que o despertou foi o de algo caindo na água. Mick saiu da cama ainda cambaleando de sono, os olhos mal conseguiam ficar abertos. Ele atravessou a casa até a sala onde ficava a porta de vidro que dava acesso ao jardim, ela estava entreaberta. Então, Mick acordou por completo, pois tinha certeza de ter trancado todas as portas da casa.

Antes de sair, percorreu a casa acendendo todas as luzes, tudo estava como ele havia deixado, menos a porta da sala. Seu coração latejava em pontadas como se fosse explodir ou parar de vez enquanto seus pés o levaram para a piscina. Mick ficou parado na borda, incrédulo, rezando para acordar do sonho em sua cama.

O corpo estava flutuando de bruços, trajava um robe de seda, a pele da mulher era tão azul que contrastava com a água da piscina como se a qualquer momento fosse se fundir à superfície. Mick sentiu o corpo sucumbir a uma tremedeira súbita que o fez cair de joelhos, o corpo não possuía a cabeça, parecia os manequins que via nas vitrinas de algumas lojas. Ele esperou acordar, fechou e abriu os olhos algumas vezes, mas ela continuava flutuando serena e sombria para lá e para cá na piscina.
 
 
Parte III
 
 
O celular de Ivan mostrava o número do pai pela quinta vez naquela manhã. Ele estava tomando o café antes de ir para o departamento de polícia. Tentou ignorar as chamadas enquanto a esposa e a filha tentavam fingir que não existiam para não incomodar a leitura do seu jornal.

A insistência era atípica, Mick quase nunca ligava para o filho e quando o fazia e ele, continuamente, não atendia o pai logo desistia. Ivan bufou quando o celular tocou pela sexta fez num intervalo de apenas alguns minutos. Mick estava o importunando desde às 6:30, o relógio da cozinha marcava 7:15.

- O que você quer?

- Ivan, eu preciso muito que você venha aqui no meu endereço novo. Eu me mudei ontem.

- Eu não vou.

- Ivan, é sério, não iria te ligar se não fosse algo muito, muito sério. Não tenho a quem recorrer a não ser a você. Meu filho, eu mal consigo acreditar no que está acontecendo.

O silêncio que seguiu a isso fez Mick acreditar que o filho tinha desligado, mas a respiração permanecia na linha.

- Preciso ir trabalhar, Mick. Não tenho tempo para as suas bobagens.

- Não é bobagem. Tem o corpo de uma mulher na minha piscina, ela foi decapitada e não sei como veio parar aqui.

Mick sabia que a única forma de ter a atenção do filho era deixando-o impactado ou, no mínimo, curioso. O silêncio perdurou daquela vez até Ivan voltar a falar.

- Eu passo aí daqui 10 minutos, me passa o endereço.

O pai demorou a lembrar o nome da rua, sua mente parecia suspensa, vazia de qualquer tipo de informação. Ele não queria deixar o filho impaciente, precisava de pouco para isso, então, saiu na calçada da sua casa e leu a placa do endereço no telefone. Quando Ivan desligou, Mick se permitiu derramar as lágrimas que estava tentando ignorar desde que saiu do jardim.

Ivan era pontual e estacionou na frente da nova casa do pai depois de 10 minutos. Mick estava sentado no meio-fio sustentando a cabeça nas mãos. Quando o carro do filho parou ele levantou e foi abrindo o portão. Mal se olharam, não trocaram palavras, Ivan seguiu nos calcanhares do pai até a piscina. O corpo permanecia imóvel no canto da piscina, aos olhos de Mick ela parecia ainda mais azul, quase roxa.

- Que diabos... – Ivan murmurou colocando luvas de látex que Mick não sabia dizer de onde ele tinha tirado.

O filho moveu o corpo o suficiente para tocar no punho, Mick virou o rosto sentindo o estômago revirar, apesar dos longos anos trabalhando na seção de Narcóticos da polícia, nunca se acostumara aos cadáveres. Gente morta sempre lhe causava náuseas e arrepios, mas Ivan era de um tipo diferente, ele sequer parecia intrigado quando levantou e olhou para o pai.

- Vou ligar para o pessoal da homicídios. Quem era ela, Mick?

- Como vou saber? Eu estava dormindo quando ouvi o barulho na piscina como se alguém mergulhasse. Antes de dormir não tinha nada estranho...

- Antes que eles cheguem aqui, você pode colaborar me dizendo quem era ela e o motivo, Mick. Você não vai começar a enrolar, vai? Sabe que não consegue fazer isso.

- O que você está insinuando, Ivan? Que eu tenho algo a ver com isso?

- Cadê a cabeça?

Mick não conseguia mais falar, sua voz ficou encolhida e o coração voltou a saltar no peito e a doer. A cabeça... Mick lembrou-se do sonho absurdo com o rosto no céu, por alguma razão inexplicável estava convencido que podia ser o rosto daquela mulher.

- Eu... como você pode achar que eu sou o responsável por isso, filho?

- Não acho nada, Mick, ainda, mas vou começar a achar em breve.

Não levou muito tempo até que os colegas de Ivan chegassem, a casa de Mick se tornou uma cena de crime, ele não podia mais ficar lá. Ele foi encaminhado para a delegacia, onde narrou tudo o que havia acontecido. Ivan trocou olhares com outro policial, ambos desconfiados das palavras de Mick. Ele foi dispenso e pegou um táxi direto para um hotel até que a investigação em sua casa terminasse.

Naquela noite, Mick não conseguiu dormir bem, caiu em sonos intranquilos e acordava de hora em hora até que o dia amanheceu. Ele ficou na cama boa parte do dia se sentindo adoentado e enfraquecido.

A imagem do corpo boiando na piscina não saía da sua cabeça. “Como ela foi parar lá?” e a pergunta de Ivan ia e voltava em seus pensamentos “Cadê a cabeça?”. O rosto no céu estava nítido em sua memória, ele aproximou da janela e olhou para as nuvens: a forma do rosto estava ali, impresso em alto relevo, o fitava piscando. Mick fechou as cortinas, tremendo, o coração daquela vez parecia ter parado de fato. Ele perdeu os sentidos.

 
Parte IV
 
O celular de Mick o fez retornar a si, o dia tinha se tornado noite. O aparelho vibrava na mesa de cabeceira da cama. Ele demorou a se levantar, seu corpo todo formigava, fraco e cambaleante, Mick atendeu o telefone e se jogou na cama.

- É um caso muito estranho. – A voz de Ivan estava baixa e distante.

- O quê?

- O caso da mulher na sua piscina, Mick. Muito estranho, a mulher foi identificada, Nora Smith, 33 anos, nasceu em 1910, era uma cantora de Jazz, relativamente famosa na época que desapareceu aos 31 anos.

Ivan parecia mais nítido, Mick se convenceu que eram seus sentidos que tinham voltado de vez. Ele se sentou na cama, apesar do suor frio, se sentia bem, o coração não doía tanto.

- Como assim? Como ela pode ter aparecido na minha casa depois de tanto tempo?

- É isso que estamos investigando. Ela foi decapitada há muito, muito tempo, Mick, mas o corpo não tinha sinais de decomposição. Seu corpo não poderia ter se preservado intacto daquela forma depois de tanto tempo. Tem algo que possa contar que ajude a desvendar isso? Algo que deixou passar?

- Não, Ivan. Apenas... mas é besteira.

- Fala, nada é besteira em casos assim.

- Um sonho que tive antes do corpo aparecer na piscina. Eu sonhei com um rosto no céu, e hoje de manhã o vi de novo nítido como uma fotografia. Acho que é Nora.

- Vou te enviar uma foto dela no celular, depois me liga me dizendo se parece com esse rosto que viu.

- Você acredita em mim?

- Não.

Ivan desligou, Mick encarou o celular por alguns minutos até a mensagem de Ivan saltar com uma foto anexada. Quando Mick abriu e viu o rosto de Nora sorrindo, imediatamente, soube que era ela no céu. Ele não retornou a ligação para o filho, Mick voltou para a casa a fim de tentar encontrar alguma explicação racional para tudo aquilo.

 
Parte V
 
Assim que entrou em casa, Mick viu os resquícios da presença dos policiais ali, alguns materiais como luvas de látex enchiam o lixo da cozinha. Faixas amarelas tremulavam ao redor da piscina. Eles voltariam em breve, todos tentando encaixar as peças de um quebra-cabeça sem sentido. Mick caminhou até o jardim e ao invés de olhar em volta, ele levantou os olhos para o céu noturno.

Naquela noite, o céu estava estrelado e uma lua cheia se destacava na escuridão. Mick tentou enxergar algo além do habitual, mas não conseguia ver nada diferente. Ele olhou para a piscina, nada parecia fora do lugar. O próprio cadáver que flutuava ali na noite passada fazia parte de um pesadelo. Ele sentou-se na borda e ficou observando a imagem do céu refletida ali. Ao deslizar os dedos pela água, as ondas deformaram o reflexo do céu, Mick foi atingido pela imagem do rosto na piscina.

Olhou para o céu, não havia nada ali, o rosto existia apenas na dimensão da água. Mick aproximou-se da água, esperou que as ondas se acalmassem, o rosto permanecia ali, era Nora que o fitava com olhos vazios. Mick tentou chama-la sem perceber quão patético soava. Ela continuava piscando.

Lentamente, o buraco se abriu entre os olhos de Nora refletida na piscina. O buraco cresceu ao ponto de engolir Mick, traga-lo para dentro. A queda foi vertiginosa, como despencar no espaço sem gravidade. Para sempre cair, tornando-se disforme, Mick saltou de um lado para outro, preso no que acreditava ser um sonho.

A noite transcorreu na calma e silêncio de uma casa vazia. Quando a manhã chegou trouxe com ela os policiais que voltaram para investigar a cena. Mick flutuava na piscina. Ivan atravessou a casa ao ser chamado pelos seus colegas. O corpo do pai estava sem a cabeça, imóvel no mesmo canto no qual Nora boiava na manhã que ele entrou ali.

Ivan sentiu-se abalado como nunca, não tanto pela morte absurda do pai, mas pelo fato de não conseguir explica-la. Ele se afastou da piscina, visivelmente atordoado. Em volta, todos acreditavam ser o choque em ver o pai naquele estado, Ivan foi respirar na calçada da casa. O céu estava nublado, iria chover em breve. Ele levantou os olhos e viu, claramente, o rosto do pai impresso nas nuvens de chumbo, piscando com seus olhos feitos dos vazios do além-Terra.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 23/08/2018
Alterado em 23/08/2018
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