O absurdo
por Larissa Prado
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A Sombra chiada
 
 
 
E foi assim que ela se aproximou, discreta e tímida, numa madrugada de lua suja no céu onde as gotas de chuva batiam na janela como se fossem os dedos de gigantes pedindo pra entrar.

Não acreditei quando vi o que vi. Às vezes, dá vontade de arrancar nossos olhos para não ter que enxergar o que não suportamos. Eu não sabia ainda que aquela era a Morte e que iria estar por perto pelo resto da minha vida, mas eu sabia que era algo muito triste, não chegava a ser ruim, era como sentir um peso de algo sem forma. Doía muito e não sabia a origem dessa dor, ela se espalhava.

Meu nome é Júlio, eu tinha 11 anos quando comecei a cair no que chamaram de distorção da realidade. Foi como Alice entrando pela toca atrás do coelho, eu mergulhei num mar pegajoso de areia movediça naquela madrugada em que vi a morte pela primeira vez.

Nós éramos quatro em casa, com a chegada da maioridade o Carlos acabou indo embora. Ele estava quase se casando com Marina. Eu gostava do nome dela porque me lembrava o mar, nunca vi o mar, mas eu sempre gostei dele porque eu costumava gostar mesmo do que não conhecia. Se eu conhecia perdia a graça de gostar.

Então, quando Carlos saiu de casa, papai ficou mais quieto e quase não saía da garagem. Ele consertava algumas coisas eletrônicas, mas era físico. Gostava de dar aulas sobre eletricidade e seu pesquisador favorito era o Einstein. Eu acho que gostei do Einstein só por causa da admiração do papai.

Às vezes acho que eu queria ser igual o papai para não precisar ser outra pessoa diferente. Dava medo ser diferente, eu preferia ser como ele que conhecia bem. Então, mamãe também ficou muito calada e ela sempre gostou de festas e falar alto. Quando a gente saía era sempre uma farra mesmo que fosse só pra ir no mercado comprar frutas. Eu gostava dos barulhos que mamãe fazia porque me lembrava dos fogos de artifícios do fim do ano. Era festa.

Aí eu acho que eles amavam tanto o Carlos que quando ele foi embora os dois ficaram tão tristes que não conseguiram mais nem falar. A tristeza é estranha, ela acaba levando embora nossa cara e deixa no lugar um nada mesmo, eu nem reconhecia os rostos deles. Pareciam sem forma, sem olhos e boca. Apenas manchas. Foi então que mamãe me levou ao oculista e comecei a usar óculos. Era miopia, mas ainda assim a tristeza ajudava minha visão ruim, ainda acho que ela deforma as pessoas.

Na escola, meus colegas ficaram rindo dos meus óculos como se ninguém mais no mundo usasse e fosse um problema só meu. Como se eu fosse vestido com sapatos de palhaço todos os dias. O professor de literatura usava óculos e todos achavam legal, mas como eu não era adulto acabava sendo piada. Quase nenhuma criança lá usava óculos. Comecei a me sentir velho porque me sentia parecido com o professor de literatura.

Eu adorava as aulas dele. Ele tinha um jeito diferente de ler os textos que me fazia pensar se um dia eu iria conseguir ler daquele jeito, nem parecia ler, parecia mais estar falando mesmo e ele mudava sua voz de acordo com as personagens. As femininas eram as melhores. Ele tinha mil vozes dentro da garganta. Depois fiquei sabendo que seu sonho era ser dublador ou radialista, mas ele estava ali dando aulas para um bando de criança que nem ligava para as histórias que ele contava. Só eu ligava, porque sempre gostei de ouvir histórias.

A escola não me ajudou muito porque depois que se faz 11 anos a gente começa a ter problemas meio sérios se não fazemos parte da turma dos legais, dos bons em matemática ou dos atletas. Quem não se destaca em nada começa a ser piada ou deixa de existir e acho que não existir é ainda pior. Comecei a pensar que sou um fracasso mesmo, que nunca vou ser físico igual o papai ou um homem de mil vozes como o professor de literatura. Eu comecei a me sentir fino feito papel, prestes a rasgar e às vezes eu chorava muito antes de dormir. Sentia falta do meu irmão e dos meus pais.

As pessoas foram perdendo seus rostos e eu não podia mais saber quem queria ser quando crescesse.

Foi então que aconteceu. Eu a vi chegar na madrugada. Era uma sombra, feito uma pessoa, mas espichada. Ela desceu assim do céu como se caísse da lua suja amarela, espiou lá de fora. Eu estava parado na janela do meu quarto depois de ter chorado por coisas que nem sei explicar. A sombra ficou flutuando no ar, perto da árvore no jardim, escondida e sem rosto. Ela tinha frio, eu podia ver seus tremores.

Não sabia o que era aquilo, mas a tristeza era tão grande que fiquei com medo e sai correndo. No meio do caminho escutei meu pai gritando com mamãe. Ela também gritava, mas não como antes, cheia de alegria, e sim com raiva. Parecia o urro de um tiranossauro. Naquele momento, eu podia ver os dois como dinossauros em uma luta por comida.

Encolhi no canto do corredor, e depois de muitos gritos eu ouvi o choro da mamãe. Senti vontade de correr até ela e abraçar, mas estava todo molhado como um bebe idiota. Eu senti tanto medo que nem vi o xixi sair. Foi aí que me dei conta que a sombra estava ali dentro da sala por que de repente tudo ficou escuro! Tudo apagou como quando mamãe vinha no meu quarto e desligava o abajur antes de me dar um beijo na testa.

A sombra passou por mim no corredor e escutei seus chiados. Ela me fez olhar a sala, envolvendo mamãe que chorou ainda mais na frente do revólver. O tiro foi tão alto e eu desabei no chão como se tivesse me atingido. Não importava o quanto cobrisse os ouvidos o tiro estava dentro da minha cabeça. O rosto da mamãe sem forma estava vermelho e o do papai respingado de sangue. Ele não tinha mais qualquer forma. Era uma coisa sem rosto. A sombra saiu pela janela da sala escorregando e eu voltei para o meu quarto. Não consegui mais chorar. Estava seco e sem sentidos e estou assim até hoje.

Não sei quanto tempo fiquei parado olhando a janela do meu quarto. A sombra que fugiu tinha se espalhado pelo mundo como se fosse a noite. O sol veio e eu ainda via tudo escuro. Carlos entrou no quarto e me levou para casa dele. Nunca mais vi papai ou mamãe, mas Carlos me dizia que ela estava comigo o tempo todo e eu passei a sentir medo dela.

Sonhava com a madrugada que vi seu rosto se desmanchar numa pasta vermelha e o do papai desaparecer em uma máscara branca respingada. Acordava suando frio e tremendo, com medo que minha mãe pudesse estar ali no quarto. Quem estava era a sombra espichada, no canto e chiando. A Morte respirava como um velho terminal puxando oxigênio do aparelho.

A esposa do meu irmão não gostava de mim. Ela me tratava bem no começo, mas aí eles tiveram o Ulisses e comecei a me tornar um peso. Ele nasceu e tiveram que me tirar do quarto de hóspedes porque era o dele. Eu dormia na despensa e o cheiro de desinfetante me causava alergia.

Aos poucos, a ideia de que mamãe estava comigo deixou de me assombrar, a Sombra permanecia por perto em todas horas da minha vida. Eu não consegui continuar indo para a escola mesmo com todas as conversas que Carlos tinha comigo sobre ser alguém, ter um futuro, meu irmão nem parecia mais o mesmo. Ele não parecia a mamãe ou o papai, era algo totalmente novo, diferente, assustador. Ele usava um bigode fino e vivia no telefone falando com os clientes. Meu irmão tinha virado um advogado, e estava também perdendo o rosto.

No dia do meu aniversário de 13 anos, a Marina me deu uma bicicleta. Eu passava a maior parte do tempo no quarto do Ulisses fingindo que era meu quarto, mas na verdade era para cuidar dele. A esposa do meu irmão parecia gostar mais de mim quando podia sair e eu ficava com meu sobrinho. Naquela casa, ele era o único com um rosto definido, quando chorava ficava ainda mais real. Todo o resto era feito papel quando a água cai e borra.

Nos primeiros dias, andei de bicicleta pelo condomínio todo. Carlos tinha uma vida de gente rica embora ele e a esposa vivessem calculando as dívidas. Todos que eu via passar pelas ruas eram meio nervosos e desconfiados, me olhavam ruim. A sombra não estava por perto quando eu sentia o vento no rosto sobre a bicicleta, era os únicos momentos que me deixava sozinho. Quando voltara para casa, ela estava lá, chiando. Não falei dela com ninguém, eu escutava a Marina sussurrando com meu irmão que eu deveria ir em um psiquiatra ou ser internado, ela tinha medo de mim.

Não sei o motivo. Analisei minha imagem no espelho muitas vezes para encontrar algo de errado, mas eu era como todos outros, sem rosto, disforme, feito papel desintegrando mesmo. Aí, eu comecei a entender que a Marina tinha medo da minha alma como eu tinha medo da sombra. Nem sempre é a aparência que causa medo, muitas vezes é a alma da pessoa, porque ela dá vida ao corpo e ela é o problema no final das contas.

Eu rezei para que minha alma fosse consertada, cheguei a pedir para a Sombra me consertar. Eu queria ter rosto e ser igual o Ulisses, ser alguém de verdade com uma alma branca, mas eu me sentia cada dia mais apagado, triste e cansado.

Não preciso dizer que a Marina ficou com mais raiva de mim enquanto o tempo passava e o bebê crescia. A casa parecia pequena demais para nós quatro, então, eu ficava a maior parte do tempo andando de bicicleta. Numa dessas andanças eu sai do condomínio. O homem da guarita não impediu que eu passasse, ele já me conhecia de vista. Desbravei terrenos vazios do bairro e todos lugares que nunca conheci. Naquele fim de tarde eu notei que quase nunca saía de casa e não tinha percebido isso até o momento que me vi do lado de fora. Eu devia ter 14 anos ou 15, não me lembro bem, e a Sombra estava mais presente até mesmo nos passeios de bicicleta. Ela escorregava à minha volta sendo levado pelo vento.

Escutei um choro agudo vir de um dos lotes baldios e quando me aproximou notei uma caixa de papelão manchada de sangue. Eu tremi de medo porque lembrei da madrugada em que vi o rosto de mamãe virar um borrão vermelho. O sangue me causava tremedeira, tontura e um mau estado de espírito. Era uma ninhada de gatos, alguns estavam esmagados ou comidos, não sei dizer, eram apenas borrões de sangue. Alguém deve ter abandonado eles e um animal os dilacerou. Imaginei todo tipo de situação sombria envolvendo aquela caixa e perdi a noção do tempo.

Quando voltei para casa era início da noite, os choros dos gatinhos não me deixaram em paz, assim como o disparo que papai deu com o revólver, eles entraram dentro dos meus ouvidos e ficaram para sempre. É muito ruim não conseguir se livrar de um som, é pior do que não conseguir se livrar de uma imagem.

Na hora do jantar, Marina começou a falar em mudarmos para uma casa maior, da sua boca eu ouvia sair os choros dos gatos. Carlos também falava como os gatos chorosos e até o bebê Ulisses na sua cadeirinha ao rir parecia estar miando. Eu fiquei parado um tempo até o meu irmão estalar os dedos na frente do meu rosto e me chamar de volta do lugar da Sombra.

Quando isso acontecia eu ia embora do corpo sendo levado por ela que me envolvia como uma cortina e me fazia voar. Nesse lugar escuro todos os sons se misturavam, gatos chorando, tiros sendo disparados, bebês chorando, pessoas gritando. Eu ficava vagando por lá, perdido, andando rápido e em círculos até que o Carlos me trazia de volta.
Ele e a Marina ficaram me olhando um tempo, pareciam assustados. Eu corri da mesa me sentindo cheio de vergonha como quando cheguei na escola a primeira vez usando óculos de grau. Aí, fiquei de frente para o espelho tentando encontrar o que era errado em mim. Meu rosto estava borrado e agora também tinha o miado dos gatos esmagados. Eu me deitei e voltei a pedir para Sombra me consertar ou me levar embora de uma vez. Ela continuou chiando, respirando pesado no meu ouvido.

Quando eu completei 16 anos eu perdi completamente minha forma. Eu me tornei um papel mesmo, amassado, sem peso ou forma, inutilizado. Porque foi nesse ano que Marina morreu.

Ela acordou num Sábado do mês de abril e começou a arrumar a casa como sempre fazia, o Carlos tinha viajado e voltaria no fim do dia. Nós estávamos bem ou pelo menos nem brigávamos tanto como antes. Eu estava tentando consertar o barbeador elétrico do Carlos porque acreditava que era como papai, um físico que gostava da eletricidade mesmo não sabendo nem calcular nada. Na despensa eu tinha um rádio de pilha que ficava sempre na mesma estação que tocava só música instrumental e a mulher falava a hora o tempo todo.

Eu só tinha um colchão para dormir, uns livros que Carlos me dava a cada aniversário e uma foto do Einstein na estante dos produtos de limpeza. Um dos livros era de frases e tinham muitas do Einstein a que mais gostava era uma que dizia “Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio - e eis que a verdade se me revela.” E eu ficava tentando pensar noventa e nove vezes, mas perdia o rumo dos pensamentos quando chegava no trinta. Aí eu olhava para o lado e a Sombra estava chiando, entendi que ela era o silêncio que ele falou, eu mergulhava na Sombra, deitava a cabeça nela, mas só sentia vazio.

Marina chegou na porta da despensa naquela manhã e disse que precisava conversar comigo. Nós sentamos na cozinha, ela começou a falar que eu era um garoto muito especial, mas que não iria poder continuar ali com eles porque daqui a pouco estaria adulto. Ela falou que sabia que eu não era bobo nem nada e que eu fingia porque não queria fazer nada da vida, “é isso que vagabundos fazem, encostam em gente de bem para viver como parasitas”, ela disse com um rosto cheio de maldade e sem forma definida. A Sombra apareceu atrás dela, gigante! Era como um muro negro se espalhando e cobrindo toda a casa de escuridão.

A minha mente foi embora para o lugar negro, eu sai do meu corpo como sempre acontecia. E por um momento breve eu lembrei que antes da mamãe virar um borrão vermelho eu me sentia um garoto normal, míope e que gostava de ouvir histórias. Onde estava aquele garoto? Eu não me sentia eu mesmo há muito tempo.

Quando voltei a mim, a Marina estava caída no chão da cozinha com o pescoço aberto, seu rosto estava todo vermelho e deformado como papel amassado, jogado fora. Minha mão doía, meu corpo todo latejava. O barbeador estava ligado sobre a mesa, cheio de sangue. A Sombra escorregou em direção à porta da sala, queria ir embora, mas eu a segui porque ela tinha atacado a Marina. Lembrei dos gatos esmagados na caixa de papelão e compreendi que tinha sido ação daquela Sombra amaldiçoada. A morte.

Corri atrás dela, chamei por ela, mas ela continuou deslizando mais e mais rápido. Subi na bicicleta e continuei perseguindo-a pelas ruas do condomínio, passei pela guarita onde o guarda apenas acenou e me deixou passar. Atravessei ruas e avenidas atrás da Sombra e ela me levou direto para o túmulo de mamãe no cemitério do outro lado da cidade.

Eu fiquei sentado sobre a mamãe morta pelo resto do dia, os ruídos não saíam da minha cabeça, os gatos, os tiros, o som do barbeador elétrico, a voz da Marina me dizendo coisas ruins, o choro do bebê Ulisses, as mil vozes do professores de literatura, papai falando sobre física, as frases de Einstein na voz que imaginava ser a dele, mas por trás de todos ruídos estava o chiado da Sombra, quando me virei ela permanecia atrás de mim, misturada ao meu corpo, ela era eu e eu era parte dela. Eu lembro que fui um garoto normal, mas onde ele foi parar?
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/08/2018
Alterado em 17/08/2018
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