O absurdo
por Larissa Prado
CapaCapa
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
ContatoContato
LinksLinks
Textos


Carnívora

 
 
Ao redor de Melissa as pessoas estavam se reunindo para contemplar o céu. Não era noite ainda, mesmo assim a escuridão pouco a pouco se aproximava, a lua sobrepunha o sol. Era o primeiro eclipse que ela presenciava, sua euforia dominava os olhos que fixados naquele espetáculo não perderam nenhum segundo do que acontecia.

"Mãe, mãe olha está chegando!"

Melissa sacodia a mão da mulher que a levou até o parque naquele ano, sem conseguir conter a emoção soltou um grito quando a lua permaneceu em frente ao sol prendendo a Terra no breu. O momento foi rápido, mas ficou para sempre na memória de Melissa. Ela tinha 10 anos e muitos sonhos, acreditava que um dia iria visitar a Lua por que de uma maneira inexplicável ela a atraía.

Os anos se passaram, depois daquele dia Melissa nunca mais viu um eclipse solar mesmo sabendo da ocorrência não olhava para o céu na hora certa. Depois de adulta Melissa vivia presa à tela do computador em seu trabalho, os prazos para entregar seus projetos arquitetônicos eram suas únicas preocupações. Nos últimos anos, mal pensava sobre a lua ou eclipses, mal se lembrava que havia um céu sobre sua cabeça.

Em algum momento da sua vida decidiu ser a melhor na área que se propôs a seguir profissionalmente, debruçando-se de forma incansável sobre o trabalho conquistou o lugar de melhor arquiteta da empresa, mas esse tempo tinha passado e Melissa aos poucos foi perdendo seu lugar na máquina dentada nervosa que é o mercado de trabalho.

Por mais que se esforçasse não conseguia desenvolver projetos inovadores, estava presa na efemeridade do sucesso que conquistou no início da sua carreira. Outros profissionais vieram e tomaram o triunfo de suas mãos. No mês em que completou 37 anos, Melissa foi demitida em uma reunião de reformulação do quadro de funcionários na empresa na qual passou seus últimos 13 anos. Ganhou muito ao sair de lá, mas todo o dinheiro acumulado não podia pagar a angústia que sentiu ao desfazer sua sala e deixa-la para o novo contratado.

No dia da dispensa, ao chegar em casa com suas caixas do escritório, Melissa encontrou a casa vazia. O gato, Spencer, tinha fugido havia um mês, por mais que espalhasse cartazes na vizinhança ninguém ligou para dar notícia do seu paradeiro. A companheira havia ido embora mais ou menos na mesma época de Spencer, como se ambos tivessem entrado em um acordo para deixa-la sozinha e não tivessem deixado aviso prévio, simplesmente sumiram.

Ela perambulou pela cozinha e preparou um lanche sem sentir fome. Comeu sem sentir que estava se alimentando e ao deitar muito cedo para sua rotina normal que era dormir sempre depois da meia-noite, o sono que veio foi mais exaustivo do que reparador, pois veio povoado de sonhos ruins.

Na manhã seguinte, colocou em ação o que vinha pensando há anos. Quando tirasse férias iria se refugiar em um chalé alugado na serra. Ver o sol nascer e se pôr do alto, longe do mundo e na tentativa de encontrar a si mesma. O momento tinha chegado, não como ela planejava e Melissa costumava ter a sensação de ter tudo sob o seu controle como os projetos que criava, cada linha perfeitamente projetada para criar uma estrutura quase perfeita, impecável. Para sua vida não haviam projetos perfeitos, linhas retas ou quadrados de quatro lados, tudo era uma completa bagunça de imprevistos e sensações estranhas como os sonhos ruins dos quais não parecia acordar mesmo quando o sol nascia.

Depois de dois dias de planejamento, ela dirigiu por volta de 10 horas até chegar ao extremo sul do país. O frio da região a envolveu e a neblina que cobria a cidade a fez mergulhar numa espécie de dormência. Não conseguia mais sentir nada além de uma sensação vaga de estar carregando um peso nas costas. À procura de paz Melissa encontrou apenas mais angústia. Aquela cidadezinha foi onde nasceu, sua mãe ainda morava ali antes de falecer há um ano ela nunca deixou o lugar. Melissa se lembrou do eclipse solar que viu aos dez anos ao passar pela praça central onde todos se reuniram.

A forma como a Lua se intrometeu à frente do Sol como se quisesse ocultar algo dos olhos humanos, como se naqueles instantes de escuridão ninguém pudesse saber o que acontecia atrás das cortinas que cobrem a rotação do planeta. O pensamento ficou cercando sua mente e quando ela levantou os olhos para céu pensou “Vai chover hoje”, e por uma fração de segundos se sentiu bem, de onde vinha pouco chovia.

Melissa chegou ao chalé e foi recebida pela senhora que alugou, recebeu todas instruções sobre como usar a lareira e os contatos se precisasse de algo. A proprietária morava por perto, ela agradeceu e foi descansar das longas horas de viagem. Quando escutou o carro da senhora dar partida e ir embora, respirou, aliviada. A solidão a envolveu como a neblina que cobria toda cidade e as nuvens que impediam o sol de iluminar por completo.

A noite veio, Melissa colocou em dia algumas leituras, assistiu alguns filmes e bebeu uma garrafa de vinho do Porto em frente à lareira, se permitindo realizar tudo o que não conseguia quando estava preocupada demais em ser a melhor. Lembrou-se de Lygia com uma pontada no meio dos pulmões seguida de uma falta de ar momentânea, a falta da companheira doía como se algo estivesse cutucando seu coração. Talvez fosse isso que diziam sobre dores de amor, algo que ela não imaginava sentir algum dia sequer pensava sobre o que sentia por Lygia, não pensou que fosse algo tão forte.

No segundo dia, resolveu caminhar pelas imediações do chalé. Visitou alguns parques ecológicos e andou a cavalo o que trouxe mais lembranças à tona de quando era criança vivendo ali, numa cidadezinha entre serras esquecida apartada do resto do mundo. O pai selava o seu cavalo e a acompanhava com o dele, esqueciam-se das horas cavalgando pelas manhãs aos fins de semana. O pai sempre a levava num haras para isso, a vida era boa, simples e sem os pesos de agora. Melissa voltou para o chalé com a tarde se tornando noite. Depois de um longo banho quente, sentou-se do lado de fora para tomar mais vinho ao som de Ne me quitte
pas na voz de Piaf ecoando de uma vitrola na sala, sempre gostou do melodrama carregado por seu timbre.

A iluminação externa do chalé era fraca, mas ela conseguiu notar que havia um pequeno jardim abandonado ali da varanda. As plantas estavam mortas, murchas, outras foram podadas. Melissa se levantou para checar, gostava de plantas, desde pequena a mãe ensinou a cuidar delas e a trata-las como seres vivos. Ela tocou as flores mortas que exalavam um odor desagradável, entre as plantas havia um pequeno vaso com uma dionaea, popularmente conhecida por planta carnívora, ela estava caída, enegrecida. Melissa abaixou-se para tocá-la e resolveu tentar reviver aquele pedaço do jardim.

Na manhã seguinte, regou-as e tratou-as como a mãe ensinava, tocando suas folhas e conversando como se pudessem sentir suas palavras, como se pudessem ouvir. À medida que as horas transcorriam e os dias passavam, Melissa se envolveu tanto com o cuidado das plantas que em algumas noites chegou a acreditar que podia ouvi-las sussurrando, convidando-a para longas conversas noturnas. Ela se sentava na varanda, de volta aos cigarros, fumava um atrás do outro enquanto conversava com as plantas sobre assuntos que nem ela mesma sabia trazer na cabeça. Então, no quinto dia aconteceu o eclipse solar, afastada das notícias, longe do mundo, Melissa não soube que ele iria acontecer. Estava sentada na varanda, fim do dia, quando notou que o céu estava se tornando escuro.

Ela levantou os olhos, a emoção que a invadiu foi a mesma da infância, conseguiu se transportar aos 10 anos de idade e a euforia dominou seus sentidos. Melissa correu até o jardim e ficou parada apenas contemplando a passagem da Lua em frente ao Sol bloqueando toda claridade ardente que ele pudesse emitir. Sentiu toda influência daquele satélite e desejou ser tragada por sua escuridão. O eclipse dura muito pouco, mas Melissa se viu presa numa eternidade de segundos ao olhar para os próprios pés e notar o processo de circum nutação das plantas mortas ganhando vida. Diferente do que acontece na natureza, aquele movimento estava acelerado, as trepadeiras ressecadas atravessaram o solo e subiram por seus tornozelos, prendendo-a ao solo. Melissa não sentiu medo, a dormência ainda estava presente, ela permaneceu parada, os olhos queriam subir ao céu para não perder nenhum instante do eclipse, mas não conseguia deixar de observar as plantas se movendo.

Dionaea revivida abriu suas inúmeras bocarras, maiores do que podia conceber, para devorar cada parte do seu corpo começando pelo topo da cabeça. A ideia de estar morrendo passou por sua cabeça como um raio, como uma Lua desfilando em frente ao Sol, mas não havia qualquer tipo de pânico ou dor. Melissa se encolheu num abraço em si mesma e deixou-se ser devorada pela planta com a qual conversou na última semana. Ela a conhecia melhor do que ninguém, parte de si queria acreditar que tudo aquilo era apenas um sonho, mas quando Melissa abriu os olhos o mundo estava claro de novo. O jardim estava em seu esplendor verde com dionaea movendo as pequenas fendas a cada pouso de insetos e as trepadeiras enroladas nas cercas.

Melissa sentiu algo molhado nas mãos, como uma gosma, mas era vermelho. Ela levantou da varanda e seguiu adiante sobre passos titubeantes. Em frente ao chalé o carro da proprietária estava com as portas abertas, do banco do motorista seus pés se projetavam sob uma poça de sangue. Seguiu até lá sabendo o que encontraria, mas temendo encontrar de verdade. Melissa tocou o próprio rosto, o queixo estava dolorido e as mãos tremiam. Quando chegou na porta do carro viu a senhora com o rosto todo devorado, sua cabeça não parecia mais humana, e sim, com os olhos protuberantes como de moscas.

Não houve desespero, dor, desolação, apenas a dormência. Melissa tomou banho e arrumou sua mala. Andou até o próprio carro guardado na garagem e deixou o chalé para traz, pensando no rosto da senhora. No trajeto de volta para casa observou os outros motoristas que passavam ou as pessoas nos postos de gasolina, todos tinham cabeças de insetos, e ao falarem não emitiam palavras, mas sim, zunidos. Ela pensou na Lua e sua influência sobre si, nas plantas que sussurravam segredos. Os pensamentos não alcançavam qualquer tipo de consciência, no lugar dela, havia apenas a dormência de um ser que apenas existia.
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 09/08/2018
Alterado em 09/08/2018
Copyright © 2018. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.