O absurdo
por Larissa Prado
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Negócio diabólico
 
 
 
 
I
 
 
Vicente tinha muitos motivos para estar nervoso. As contas acumulavam sobre a mesa da sala, nosso filho tinha aprontado de novo e estava preso. Nós não estávamos faturando nada.

Nesses tempos de altas tecnologias, a internet substituiu os nossos serviços. Tudo o que as pessoas precisam encontram lá. Qual é nossa relevância? Não é apenas o fato de as pessoas descobrirem tudo na internet, elas estão cada vez mais céticas. Ruídos em instalações antigas não colam mais, histórias sobre passados violentos e estranhos não convencem. Aos poucos, as pessoas foram perdendo o medo e nós o trabalho.

Os telefones não tocam como antes e o computador não recebe mais mensagens. Vicente tem toda razão em estar nervoso, eu começo a me desesperar também.

Em nosso último caso, uma família nos chamou por causa de estranhos fenômenos em sua propriedade. O caso teve repercussão na mídia, Vicente deu entrevistas e conseguiu publicar seu tão sonhado livro sobre o sobrenatural. No fim das contas, a casa estava condenada por uma combinação de más condições da estrutura e um passado sombrio acerca de cemitérios clandestinos.

Vicente não se sentiu constrangido por causa das mentiras que contamos para as pessoas que atendemos, acredito que todos esses anos ele quis acreditar e conseguiu. O fardo do ceticismo pesava apenas sobre mim.

Ganhamos dinheiro e certa notoriedade, não chegamos a ser como Ed e Lorraine Warren, mas chegamos perto. A diferença é que eles são profissionais sérios, e nós? Apenas mais dois charlatães entre tantos.

Se me perguntam “você acredita mesmo em fantasmas?” eu respondo com toda convicção que sim, mas a verdade é que sempre há uma explicação racional e lógica para todo evento sobrenatural. Fantasmas não existem, eu e Vicente os criamos para podermos caçá-los, pelo menos foi assim até o último ano. O ano em que começamos a negociar nossas próprias almas.
 
 
 
 
II
 
O outono estava despindo as árvores de suas folhagens, de vez em quando caía uma chuva fina à noite, eu sempre gostei dessa estação, mas naquele ano as coisas estavam indo de mal a pior, não tinha como me animar nem com a chegada do outono. Vicente tentava encontrar formas de ganhar dinheiro, chegou a entrar como sócio num negócio de compra e venda de carros usados, mas não deu certo. A tentativa serviu apenas para nos endividar mais.

A situação chegou ao ponto crítico quando recebemos a ordem de despejo. Não tínhamos instrução, com a vida financeira por um fio e nosso filho encarcerado por causa do envolvimento com drogas, Vicente sentou na cama certa noite insone e me acordou.

Apesar de todas as preocupações, eu ainda conseguia manter meu sono em dia, coisa que ele não conseguia mais e por isso ficava até altas horas pensando em formas de sairmos do vermelho.

- Cristina, eu sonhei com a nossa solução. Pode ser que dê certo dessa vez.

Eu me sentei na cama, atordoada por ter sido puxada do sono com a voz dele ansiosa, quase eufórica.

- O que está dizendo, Vicente?

- Vou conjurar um demônio e fazer um pacto. Essa pode ser a sociedade que vai dar certo, tê-lo como sócio é a única saída, foi isso que queriam dizer os fragmentos dos meus últimos sonhos. Se Deus age de forma misteriosa, imagine como deve agir o Diabo.

Eu não me lembrava desses sonhos dos quais ele falava, se tinha me contado fiz questão de esquecer. Vicente estava animado, saiu da cama e foi sentar em frente ao computador, pesquisando algo. Eu estava sonolenta e sem ânimo para dar atenção aos delírios dele, então, voltei a dormir enquanto ele ficava conversando consigo mesmo.

Os dias foram passando e Vicente levou adiante a ideia de conjurar alguma força diabólica para uma negociação. Não preciso dizer que nada daquilo fazia sentido para mim, se eu o ajudei foi por não acreditar nem por um momento que daria certo. Estava fazendo aquilo por desespero, logo Vicente se convenceria que era perda de tempo.

Na noite da primeira tentativa de conjuração, Vicente trouxe um livro grosso de capa escura e gasta. Dizia conter as palavras de evocação. Ele esteve em contato com um grupo de demonologistas, amigos de longa data. Vicente parecia ter o controle e conhecimento de tudo que envolvesse demônios, afinal, era assim que sobrevivíamos, do seu trabalho como demonologista.

Nós sentamos um de frente para o outro na mesa da cozinha e ele rabiscou símbolos sobre a mesa com o próprio sangue. Eu me mantive quieta, sempre fui sensitiva, sentia vibrações nos ambientes que íamos exorcizar, mas naquele momento não havia nada diferente enquanto Vicente dizia frases desconexas num idioma morta.

Nada aconteceu na primeira noite, muito menos nas quatro noites posteriores. Por fim, o convenci de que aquilo não iria levar a anda, Vicente estava contrariado, revoltado e entristecido. Diante seu comportamento eu me convenci de que ele estava frustrado não tanto por nossa condição financeira lastimável, e sim, por não ter estabelecido nenhum contato. Ele queria acreditar, sempre quis, mas é difícil manter a crença em algo que não existe.

A vida seguiu adiante, eu consegui um emprego como cuidadora de crianças por meio período. Vicente tinha desistido, ele se entregou ao desânimo e descrença por algum tempo. Não procurou mais trabalho, não se movia para nenhuma direção. Eu mantive a casa com o pouco que ganhava, pouco a pouco não aguentei mais vê-lo naquele estado de apatia.

Na noite que fui cuidar das crianças para o casal, sai de casa muito preocupada com Vicente, ele estava diante a tevê desligada como se assistisse algo, os olhos vidrados e concentrados. Quando passei e me despedi ele não respondeu, estava em cima da minha hora, não pude questionar o que ele tinha. Deixei a casa com os pensamentos voltados para ele.

Eu voltei para casa e assim que desci do carro, ainda na garagem, senti uma das vibrações mais estranhas e fortes. Minha cabeça zuniu e as vistas escureceram. Respirei fundo antes de entrar em casa, a energia estava tão baixa que minha pressão começou a cair. Quando atravessei a sala notei a tevê espatifada no chão, procurei por Vicente chamando por seu nome, o encontrei na área externa, próximo ao jardim. Todas as plantas estavam mortas, ressecadas, murchas. Ele estava de costas e quando virou eu olhei a face de um demônio.
 
 
 
 
III
 
 
Ficamos nos encarando por algum tempo. A vibração que vinha de Vicente era algo tenebroso, era como estar próxima a regiões vulcânicas. Era como se todo o equilíbrio do meu corpo e mente estivesse se despedaçando, senti vontade de chorar, gritar, morrer. A minha alma estremeceu, não consegui dar um passo adiante. Estava tremendo de medo. O rosto dele estava indiferente, sem qualquer tipo de expressão, mas os olhos... estavam completamente negros e brilhantes.

- Vicente? O que foi? – por mais que meus olhos estivessem vendo e minha alma estivesse sentido, ainda assim a minha razão não podia me deixar crer.

- Ele foi embora, Cristina.

A voz era a de Vicente, mas com uma variação estranha, não era como vemos em filmes, nada de cavernoso, nada de excêntrico. A voz simplesmente não tinha entonação humana, é algo impossível de descrever.

- Vicente, pare com isso. Você está impressionado.

Aos poucos fui dando alguns passos para trás, na direção da casa, sem tirar os olhos dele que permanecia parado.

Durante os longos anos que trabalhamos com casas assombradas, nunca me deparei com algo assim. Não sabia como lidar, o que fazer, toda minha mente parecia devastada, vazia, sem conhecimento nenhum. E tinha o medo, nunca senti tanto medo e ele atordoa a cabeça, embaralha os pensamentos.

Sai correndo para dentro da casa e fui direto para o escritório de Vicente onde ele guardava todo tipo de instrumento santificado que levava para nossas visitas. Tranquei a porta atrás de mim, as mãos tremiam tanto que mal conseguia abrir gavetas e armários. O livro escuro que ele havia usado nas tentativas de contato com o além estava sobre a mesa, folheei em busca de alguma explicação para aquele comportamento de Vicente.

As palavras nas páginas embaralharam, eu não conseguia ler, não conseguia parar de tremer. Eu sentia a vibração aproximando da porta, chegando mais perto, aquela presença negra que nos suga, esgota toda energia.

Eu estava lendo as evocações que ele tinha entoado, tentando encontrar algo que pudesse fazer foi então que a porta foi lançada para fora das dobradiças se chocando contra um dos armários. O barulho me fez cair, as pernas não sustentaram mais eu corpo.

Vicente entrou e quando seus olhos negros recaíram sobre mim comecei a chorar como uma criança. Aquela presença, aqueles olhos, podia matar qualquer um de tanta dor e tristeza.

Ele ficou parado no batente da porta, apenas me olhando encolhida contra a mesa.

- Você está tremendo de medo, Cristina.

- Me deixa em paz, deixa Vicente em paz! – gritei de olhos fechados. Aquilo não podia ser real.

- Vocês me chamaram e foi muito generoso da parte de vocês e eu estou aqui.

Ele andou alguns passos na minha direção, mas parou, o rosto contraiu, então eu vi o crucifixo que Vicente pendurou na parede sobre a mesa. Comecei a orar de forma desastrosa, não lembrava da ordem das palavras, orei de qualquer jeito. Vicente afastou alguns passos, seu rosto adquiriu aquele aspecto odioso de besta e quando me calei todos os objetos do escritório se ergueram e flutuaram alguns minutos antes de caírem de novo causando um estrondo. A mesa me atingiu e perdi os sentidos.

Quando acordei, estava na cama e ao meu lado tinha uma vasilha com compressa. Vicente estava parado diante a janela, seu rosto de perfil parecia ser o mesmo de sempre, sem qualquer tipo de manifestação do diabólico.

- Vicente? Eu estava delirando. Os sonhos que você disse ter, acabo de ter um.

Ele se virou para mim, estava esgotado, as olheiras manchavam seu rosto como se tivesse sido espancado.

- Cristina, não foi um sonho. Agora, nós temos um sócio.
 
 

 
IV
 
 
A princípio não pude conceber a dimensão do que nos aconteceu, uma parte minha ainda não conseguia acreditar. Após minha experiência sobrenatural, Vicente falou sobre a sociedade com a força demoníaca nos primeiros dias. Depois ele se calou e eu passei a viver presa num pesadelo.

Aquele não era mais ele, não podia ser. Não houveram mais olhos negros ou eventos poltergeist. Tudo transcorreu dentro de certa normalidade, mas Vicente se desapareceu subjugado por essa força devastadora. Era apenas seu corpo servindo como receptáculo do hospedeiro intruso.

Eu cai de cama sob uma forte melancolia que me abateu. A saúde debilitou a ponto de não conseguir me alimentar, contrai inúmeras moléstias como viroses, alergias, infecções. Passei longo tempo na cama enquanto Vicente construía sua carreira como pastor.

Ele conseguiu um programa num canal local onde prometia aos desesperados sucesso e prosperidade. Muitas pessoas iam assistir seus sermões prometendo entregar-se de corpo e alma em busca de sucesso financeiro. Vicente enriqueceu às custas das almas atormentadas que o procuravam, ele as fazia enriquecer. E assim, todos os consideravam um homem divino.

Foi irônico e angustiante ver sua ascensão como pastor sabendo o que sei sobre aquele que o habita. Presa às minhas moléstias não posso combate-lo, muito menos trazer Vicente de volta, creio que não voltarei a tê-lo por perto nunca mais.

Essa coisa que o controla me mantém enferma, é como se sugasse minha força só por estar perto. À noite quando deita ao meu lado, escuto seu ressonar e o frio que o acompanha não me permitem dormir.

No dia que tentei ir embora ele me segurou num abraço asfixiante e repetia sem parar.

- Cristina, Cristina, só eu sei como cuidar de você. Nunca vai poder ir embora, me deixa curar sua alma.

Quando me soltou, voltei para a cama me sentindo pior, mais doente e fraca. Recordando dos nossos passos até a situação atual, lembro das palavras de Vicente na noite que teve sua grande e maldita ideia: Se Deus age de forma misteriosa, imagine como deve agir o Diabo.

Durante toda minha vida trabalhei forjando situações sobrenaturais para ganhar dinheiro. Eu não conseguia me fazer crer como Vicente, para mim tudo poderia ser explicado racionalmente.

Depois de me tornar refém da vontade do ser que dominou Vicente, percebi que o Mal está disperso no mundo de forma tão discreta e enraizada em nossas vidas que não conseguimos perceber. É como um vírus invisível e letal. Se Deus age de forma misteriosa, o Diabo está anos-luz à sua frente manipulando o homem de forma astuta.  
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 05/08/2018
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