O absurdo
por Larissa Prado
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O cadáver de Úrsula
 
 
Essa história não aconteceu comigo, e sim, com uma pessoa muito séria, dessas pessoas que não dá para desconfiar. Seu nome verdadeiro prefiro preservar, vou chama-lo de Taurus porque é assim que o conheci quando estávamos no colégio. Ele rabiscava “Taurus” na cadeira da escola com um estilete e vivia mascando goma de mascar. Taurus era um garoto bastante introspectivo e bom com os números. Ele me ajudava a passar de ano fazendo minhas questões de matemática. Sempre achei que quando chegasse a hora ele iria seguir como um matemático ou envolvido com números porque era muito bom nisso. Porém, ao nos reencontramos depois de adultos descobri que Taurus tinha se tornado coveiro.

Entre um drinque e outro ele me contou sobre sua vida. As tentativas desastrosas de dois casamentos, a morte dos pais e da irmã num acidente de carro, seus problemas com bebida e o mau funcionamento do fígado. Eu poderia ter sido muito bom, mas não quis, tem gente que deve nascer com algo ruim no sangue e o único caminho é se tornar uma pessoa má, ele disse. Naquela tarde, Taurus me levou para conhecer o lugar no qual trabalhava.

Nunca gostei de cemitérios. Devo ter ido apenas uma vez quando criança para o enterro de algum parente da minha mãe. Depois de adulto sempre evito passar por esses lugares. Não vou a enterros. O cheiro me causa um incomodo inexplicável, deve ser a mistura de vela derretida, flores e morte. É como se pudesse sentir a podridão dos mortos emanar do solo. Preferiria não ter pisado no lugar.

Taurus caminhou ao meu lado através dos corredores de lápides e estátuas, a cada passo que dava me sentia mais desconfortável. O nariz coçava por causa do cheiro das flores. A alergia dava seus primeiros sinais em sequências de espirros.

- Na semana passada enterraram uma mulher aqui, ela se chama Úrsula.

Olhei na direção que ele apontou. A lápide ainda estava coberta de coroas de flores. Ele me levou até lá.

- Desde que ela chegou começou.

Pude ver a foto da falecida entre as flores, seu sorriso era tímido e os olhos vazios estavam fixos em algum ponto indefinido da lente da câmera.

- Começou o que? - perguntei.

Taurus ficou parado e calado por um tempo até eu perguntar de novo. Ele sacudiu a cabeça como se acordasse de um sonho.

- Escuto barulhos aqui no túmulo. É como se fossem unhas arranhando, igual um cão faria arranhando uma porta.

Olhei para ele, Taurus estava sério, não era um homem espiritualizado e não parecia mentir ou delirar. A verdade é que ele falava muito sério.

- Deve ser coisa da sua cabeça. - me afastei do túmulo de Úrsula e pedi para ir embora.

Taurus me levou até o outro lado da rua onde deixei o carro estacionado. Ele se despediu e voltou correndo para o cemitério. No trajeto para casa, fiquei pensando no que ele tinha de me falado sobre a mulher. Não sei o que queria contar e naquele momento não me interessava saber. Por mim nunca mais iria rever Taurus.

Passados alguns dias depois desse encontro, me vi em frente ao cemitério de novo esperando por ele que demorou a aparecer. Esperei por quase duas horas até que o vi atravessar a rua na minha direção. Estava esquálido, perdeu muito peso desde nosso último encontro. Era como ver um dos defuntos saindo pelo portão do cemitério. Ele jogou o cigarro fora e me cumprimentou.

- O que aconteceu?

Taurus tinha me ligado na noite anterior dizendo que precisava de um favor e eu era seu único amigo.

- Úrsula. Isso nunca vai parar, precisamos nos livrar dela. Agora que você sabe vai vir atrás de você também.

Eu mal me lembrava da morta da qual ele tanto falava. Talvez ele estivesse perdendo o juízo depois de tanto tempo enterrando mortos. Se fosse eu não duraria muito tempo naquele tipo de lugar. Quando Taurus falou o nome da mulher senti calafrios pelo corpo.

- Como assim. O que tem ela?

- Para você acreditar preciso te mostrar. O sol logo vai embora, são quase 20h, e então vamos comigo lá.

Não podia acreditar que ele tinha me chamado ali para fazer um passeio noturno pelo cemitério. Eu ri de nervosismo e me neguei.

- Não vai dar. Não vou entrar lá no escuro. Só me conta o que está acontecendo e vou tentar te ajudar.

- Não tem como só contar. Você não iria acreditar. Tem coisa que só vendo pra crer.

Eu sabia que Taurus não estava mentindo, quem sabe delirando, mas mentir nunca foi do seu feitio. A curiosidade tomou o lugar do medo, depois de muito resistir acabei o seguindo para dentro do cemitério.

Taurus foi direto para o túmulo da tal Úrsula e ficou lá parado, imóvel, os olhos vidrados sobre a lápide.

- Olha, olha! Lá vem! - ele apontou para a terra do túmulo. Eu aproximei, fiquei atrás dele. Não vi nada.

- Vamos embora, você precisa tirar umas férias. - toquei seu ombro.

Taurus estava gelado, não tirava os olhos do túmulo, e por um instante achei ter visto seu rosto perder ainda mais peso, ele foi sendo sugado por algo invisível, seu crânio ficou evidente sob a pele.

Afastei assustado, da terra que cobria a lápide eu pude ver uma forma emergir. Era um rosto esquelético com o maxilar aberto buscando pelo ar. As mãos se ergueram cavando e cavando seguiu-se uma lamúria agourenta, era a voz feminina.

Apesar de sentir a fraqueza e tremedeira dominarem meu corpo, sai correndo. Olhei para trás para chamar Taurus, mas ele foi se fundido ao solo maldito no qual os restos mortais de Úrsula espalhavam sua maldição.

Deixei o cemitério aos tropeços. Por muito tempo esperei a ligação de Taurus me dizendo que tudo aquilo não tinha passado de um delírio compartilhado. O ambiente noturno naquele lugar e as coisas que ele ficava dizendo sobre Úrsula talvez tivessem nos impressionado. Ele nunca ligou e quando voltei lá para saber dele o homem que estava em seu lugar me disse que ele tinha falecido há muito tempo.

 - Foi numa madrugada. Caiu duro por ali - ele apontou na direção do túmulo de Úrsula - parece que foi enfarte. Mas isso foi há mais de dez anos.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 03/08/2018
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