O absurdo
por Larissa Prado
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A coisa vem até mim
 
 
Há sempre algo deslocado em mim, ontem foi uma articulação, hoje a retina, em outros tempos desloquei o maxilar. Assim do nada, algo sempre está saindo do eixo em alguma parte do meu corpo. Às vezes me pego pensando se nossa mente também não se desloca de vez em quando nos levando a lugares errados?

E foi assim, pensando em coisas impensáveis que encontrei pela primeira vez a coisa que espreita por trás da dor do deslocamento. Coisa é algo sem significado ou definição, uma coisa é uma coisa e você sabe exatamente o que é no momento que a vê ou que a sente, é uma coisa, sem delimitação, apenas uma coisa. No dicionário, Coisa significa tudo que existe ou possa existir na natureza de forma corpórea ou incorpórea. Como podem definir coisa usando apenas a noção de qualquer coisa? Tão estranho quanto deslocar um osso assim do nada enquanto atravessa a rua ou levanta da cadeira num restaurante.

Atravessei a rua enquanto todos carros paravam para que eu e outros transeuntes passassem e foi aí que desloquei o tornozelo como se fosse composto assim de uma massa de modelar que derrete sob o sol forte. A coisa estava lá parada atrás do poste da esquina, me olhando com um tipo de rosto indefinível como só as coisas podem ter.

A princípio não me alarmei, era apenas mais um deslocamento. Tomei os remédios que já conhecia bem e imobilizei o tornozelo, não era preciso ir ao médico para que colocasse o osso no eixo, ele voltava por si próprio como a serpente que sabe o caminho de volta para o buraco onde vive depois que troca a pele. Nós também trocamos de pele todos os dias, veja bem, olhe em volta e perceberá muitas peles dispostas pelos lugares nos quais vaga para que possa escolher e por trás de cada uma haverá a Coisa te olhando.

No segundo encontro ela chegou mais perto, a Coisa estava apenas alguns passos de mim na discoteca, eu dançava enquanto ela me observava com outro tipo de rosto. Daquela vez, ela parecia alegre, multicolor, o que assombrava mais porque a felicidade naquele tipo de rosto parecia algo desconexo como ver um cadáver gargalhando. Naquela noite desloquei o ombro, e ao me deitar imóvel na cama para conter a dor, outra parte minha fez clique e saiu do lugar. Creio que foi nesse momento que pude conceber a dor do deslocamento mental.

Então, o terceiro encontro foi íntimo como se algo entrasse por meus ouvidos e bagunçasse o que restou da consciência que me fazia ser um animal racional, pensante, criativo, errante. Algo se apropriou do que antes era o terreno das minhas atividades mentais. Contar, correr, equilibrar em duas pernas, amar, temer, errar. Algo substituiu meus sentidos, ver, escutar, degustar, apalpar, sonhar, por um tipo de negrume insubstancial.

A coisa vem até mim, saída sabe-se de lá de qual canto do quarto minúsculo, sabe-se lá de onde retira sua força astronômica para me envolver no seu abraço. A cobra que volta para toca, o pássaro que sai do ninho e cai no primeiro voo, despedaçado, o carro que está atravessando o sinal fechado, a mulher que morre para que o malformado filho nasça e suporte apenas o primeiro grito, o homem soterrado nas minas de ouro no extremo sul de um continente esquecido e miserável, a roda da vida, a roda do mundo que gira independente da ação humana, os animais que correm nas pradarias e as bactérias que se escondem nas selvas. A água no oceano esconde antigas civilizações formadas por coisas, as últimas invenções humanas, o homem voando em uma máquina silenciosa. Eu estou prestes a perder o que me resta de noção espacial.

O ombro de deslocado não dói mais, todo meu corpo não passa de um quebra-cabeça de ossos fora dos eixos, a cabeça é uma massa disforme, molenga, a Coisa olha o mundo através das janelas onde antes estavam meus olhos. Ela vem até mim, sempre veio antes mesmo que pudesse nascer. Em minha mãe deslocada que concebeu o filho de um homem morto. A vida que nunca foi minha, mas sim da Coisa. A coisa que é tudo o que existe e pode não existir nesse tempo impreciso da vida humana no planeta, nesse espaço indefinido de uma Via Láctea.

Eu durmo, mas quando acordo estou preso numa caixa de madeira enquanto escuto os cânticos gregorianos do lado de fora. Eu penso em Jesus deslocado na cruz e no canto dos pássaros deslocando a madrugada para que o Sol venha. O girar da vida numa cadeia alimentar deslocada.

Tudo está girando, eu tenho a consciência de que estou sendo enterrado, sem reação, me resta apenas um fio de respiração. Logo estarei debaixo da terra servindo como adubo para o solo do mundo. A coisa vem até mim enquanto estou deitado, ela é negra como a cor que há por trás das retinas deslocadas.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 14/07/2018
Alterado em 14/07/2018
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