O absurdo
por Larissa Prado
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Matéria-morta

 
 
O toca-vinil roda um disco de Billie Holiday, quase todas faixas arranhadas fazem-na engasgar. Não me dou ao trabalho de levantar para trocar, era seu disco favorito. Ao lado do aparelho o porta retratos enquadra seu melhor ângulo, o sorriso que me dava todas as vezes em que eu falava sobre casamento e filhos.

- Você não tem mais idade para pensar nisso – me dizia.

- Não tem idade certa para ser feliz, querida.

E então, o sorriso resplandecia em seu rosto.

- Você é feliz comigo?

- Como nunca achei que fosse conseguir.

Então, você se afogava no meu abraço porque sempre disse que estar apaixonada por mim era como mergulhar em mar aberto, afundar até perder o fôlego e... esvanecer, tornar-se água.

Billie continua suas melodias, eu sei que logo a manhã vai chegar. Lá fora, o mundo prosseguirá indiferente a sua partida. A pior parte de estar vivo é o sofrer sozinho. Não faço nada, deixo assim então, os finais de semana passando enquanto permaneço internet no sofá. Olho para meu reflexo na tela da tevê desligada e seu rosto me encarando ao lado da nossa vitrola.

Não faço nada sequer me movo. Penso sobre seu corpo pequeno como a matéria-morta que se tornou servindo como adubo para a terra. Penso na forma que os deuses continuarão rindo da humanidade sentados em seus tronos de ouro no fundo do mar, o mesmo que nos traga em paixões assassinas. Penso em muitas formas de continuar vivendo, descubro, para meu espanto, que nunca estive vivo. Também me sinto matéria-morta se agarrando ao brilho de um sorriso preso numa fotografia analógica.

- Você tem o dobro da idade dela – era o que Eunice enfatizava toda vez que me ligava, como um disco arranhado ecoando as mesmas palavras.

Ela também partiu, foi viver em Amsterdã. Fugiu de algo que desconfio, acabou a perseguindo até lá. Eunice, a menina que eu costumava chamar de filha, não por amor, mas por força do hábito.

Não é só o dobro da idade, agora recai sobre mim o dobro do sofrimento por continuar pensando, aqui jogado no sofá no fim de um domingo, nas matérias-mortas que compõe todas as vidas.
Larissa Prado e Cleber Junior
Enviado por Larissa Prado em 29/06/2018
Alterado em 29/06/2018
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