O absurdo
por Larissa Prado
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NAPLAK
 
 
 
 
Ano: 2113
 
 
 
1.
 

 

As janelas levantam permitindo que os raios solares invadam o quarto. Desperto, mas não levanto. O dia lá fora parece bonito, mas é tudo artificial, o sol, o céu, as árvores que posso ver da minha cama. Viro para o lado e aperto um controle remoto, é hora de Sunny despertar também.

- Bom dia, Ezra! O que vai querer para o café?

- O de sempre, qual é a previsão para o dia, Sunny?

- Vai chover no fim do dia até lá teremos um dia quente e úmido. Há mensagens na sua caixa postal, quer que eu leia?

Escuto o som do micro-ondas vir da cozinha, ela está preparando o café e isso abre meu apetite me dando algum ânimo para levantar.

- De quem são as mensagens?

- Duas garotas, Naty e Alana e do Karl.

- Pode excluir as mensagens delas e leia a do Karl, acho que combinei algo com ele, mas não lembro direito o que é.

Sunny prepara para ler, sua voz é tão despojada, tão humana, diferente do som robotizado dos seus protótipos, ela possui até certo sotaque.

- Ezra, está de pé hoje? Acho melhor nos encontrarmos na cafeteria mesmo. Até!

De pé em frente ao espelho que reflete uma das 10.500 opções de aparência, escolho manter a mesma. Há dias uso o mesmo rosto, tom de pele, cabelo. Estou preso numa constância perturbante. Sem vontade de mudar, com um leve toque na superfície touch do espelho guardo as guias que durante muitos anos me ajudaram a reinventar e diversificar minha aparência.

- Sunny, que encontro é esse com Karl? Não consigo me lembrar. – arrumo a gola do casaco encarando a estranheza dos meus olhos. Eles não parecem comigo.

- Ezra, se me permite dizer, precisa voltar ao Dr. Malcom. Sua memória está cheia de buracos dessa vez. Anda esquecendo coisas com frequência. Você marcou com Karl de se encontrarem na casa de Alana, ela está saindo com ele e com você. Karl mudou o encontro para a cafeteria que costumam frequentar na avenida 85 às 15h de hoje.

- Sunny, não sei o que seria de mim sem você.

Saio do quarto e tomo o café da manhã sob os olhos vigilantes de Sunny. Ela permanece imóvel no canto da cozinha, os olhos e o rosto inexpressivos de manequim entregam sua condição androide. Não fosse por isso seria facilmente confundida com uma bela mulher real. Depois de degustar os maravilhosos ovos mexidos e café extraforte preparado por ela, vou para o trabalho.

 

 
2.
 
 
A escola está quase vazia, apenas alguns alunos me esperam na sala, eles estão se preparando para os últimos testes antes das férias do fim do ano. Um deles me diz que a maioria da escola está reunida no Parque Coad-uli, esperando a chegada da última comitiva que voltou de Naplak, o planeta recém-descoberto e rapidamente desbravado.

A constituição de Naplak, segundo os estudiosos, é idêntica à da Terra, com os avanços frustrados sobre Marte, é o mais próximo de encontrar vida fora do nosso planeta que encontraram. E não perderam tempo, Naplak estaria sendo povoada aos poucos com os primeiros complexos de civilização que não passavam dos postos de pesquisas dos estudiosos e suas famílias. Quem ia para lá, nunca mais retornava, mas a última comitiva voltara e todos estavam entusiasmados. Menos eu.

- Bem, só com quatro alunos fica difícil ter aula. Continuem estudando, estarei aqui para qualquer dúvida.

Eles concordaram, mas logo os estudos se tornaram conversações baixas. Aproveitei aquela brecha de tempo para corrigir algumas provas. Acoplei o dispositivo ocular e ativei o HD interno da memória onde se encontravam todos os testes de todas as turmas, o brilhante armazenamento na minha nuvem mental.  Um dos alunos, o mesmo que me informou sobre o paradeiro da turma, ficou diante da minha mesa, parado. Vi seu reflexo de lance por trás das provas projetadas à minha frente. Parei o dispositivo mental no meu controle-remoto, o mesmo que ativa Sunny. As obres leitosas voltaram à sua tonalidade real. Encarei Vince.

- Desculpa te atrapalhar, professor.

- Tudo bem Vince, alguma dúvida?

- Sim, bem, não é bem sobre a matéria.

Vince era um dos melhores alunos, me intrigava o fato de ele não conseguir passar adiante no curso, estava sempre ausente.

- Prossiga.

- Eu estava lendo sobre Naplak e não sei... o senhor acredita que há vida lá? Digo, pessoas como nós, por que as primeiras comitivas não voltaram? Li que perderam o contato com eles ou eles não fizeram questão de contatar mais. Eu tenho medo.

- Bem, Vince, isso é assunto do governo, não diz respeito a nós, meros mortais. Devemos confiar nas autoridades, e filtre o que lê por aí. Inclusive há um filtro eficiente para instalarmos em nossos buscadores, é eficaz, nunca mais recebi spams ou fake News em minha caixa. E você tem medo do quê?

- Não sei direito. Senhor Ezra, às vezes me pergunto quem são os nossos governantes. Não sabemos seus nomes, quem são, nunca vimos rostos, pessoas de verdade por trás dos comunicados. Às vezes sinto que essa vida não é real, que tudo nela é tão artificial quanto a vegetação que projetaram tendo por base a natureza de antes.
                                            
Naquela manhã havia experimentado a sensação que Vince descrevia, aquele estranhamento em relação aos meus olhos, não pareciam meus. Algo indefinível como usar uma fantasia, interpretar um papel no qual não nos reconhecemos, mas resolvi ignorar. Era preciso, talvez, uma formatação mental, em breve procuraria Dr. Malcom, iria limpar minha mente de pensamentos absurdos como esses.

- Vince, você está numa idade difícil. Muita pressão, é natural que se sinta assim. Talvez seja a hora de recorrer a um tratamento de purificação da mente, eu fiz e recomendo.

- O programa de memórias seletivas? – ele pareceu alarmado.

- Sim, é a melhor invenção do atual governo. Você vai, os médicos são muito bons, te orientam, não há dor, apenas... esquecimento. Você pode selecionar o que quer lembrar e como quer lembrar. Precisa ver as maravilhas que faz com sua... – toquei na têmpora onde uma pequena cicatriz da incisão podia ser visto, um traço avermelhado e minúsculo – cabeça esse dispositivo micro. É como um... digamos, uma forma de reordenar seu sistema mental, entende?

Vince me encarou por um tempo, seu rosto parecia desolado, empalidecido, assombrado.

- Senhor Ezra, eu li que em um dos livros que meu pai coleciona que há muito tempo...haviam movimentos... desses nos quais os cidadãos lutavam por liberdade, igualdade, fraternidade. Foi muito bonito ler sobre isso, quase chorei, em pensar que há tantos anos pessoas lutavam por ... algo tão simples. Hoje em dia, ninguém luta por nada.

- Não há pelo o que lutar, vivemos um período de total estabilização social, coesão, igualdade. E não deveria ler livros antigos, Vince, eu sei que sei pai é um saudosista da época do papel e tinta, mas isso é ultrapassado. Tudo o que precisamos saber está aqui. – toquei novamente a têmpora, mas dessa vez a direita onde outro dispositivo fora instalado.

- O senhor dá aulas sobre a História, senhor Ezra... fico curioso sobre o nosso passado, como as coisas eram...diferentes, pareciam melhores.

- Sempre parecem quando não estamos vivendo nessa ou naquela época, Vince. Estar no olho do furacão sempre causa essa impressão de que tempos remotos eram melhores, mas pergunte a qualquer um dos homens do século passado se era bom? Provavelmente te responderiam que não e invejariam seu momento presente. Os seres humanos vivem apegados ao passado, mas hoje, Vince vivemos o futuro e meu dever é ensiná-los sobre ele, o futuro. Enterre o passado, deixa que morra com seus defuntos. – sorri, mas todo esse falatório não parecia sair de mim.

Vince baixou o rosto, constrangido e saiu da sala guardando na mochila um livro grosso, antiquado. Parecia querer escondê-lo, não era para menos, livros eram artefatos de antiquários e estes por sua vez se tornavam cada vez mais escassos.

 
3.
 
Naquela noite sonhei com algo terrível, a cidade inteira pegava fogo. Bolas incandescentes desciam do céu e atingiam o solo causando total destruição. Acordei molhado de suor e ativei Sunny solicitando um dos comprimidos receitados pelo Dr. Malcom, essas drogas cortavam qualquer possibilidade de sonhos. Dormi como um anjo, mas anjos eram apenas folclore. Apaguei como uma máquina em standby, sem sonhos, sem nada dentro da mente além do vazio.

Era Domingo e fazia minha corrida matinal no parque próximo de casa, era um lugar modesto com um lago no meio. Os patos entravam e saíam da água em movimentos cíclicos, apenas projeções dos animais há muito extintos. Tudo em volta era projetado, as árvores nunca morreriam, o céu nunca nublaria em dias de domingo e tudo seguia uma harmonia artificial. Karl atravessou a rua me chamando, lembrei que tinha o deixado esperando no dia anterior. Minha memória estava terrível.

- Ezra, seu maldito tratante! – nos cumprimentamos, eu ainda corria no mesmo lugar enquanto Karl me acompanhava.

- Karl, não foi por querer, minha memória está daquele jeito.

- Apagões?

- Cada vez mais frequentes.

- Acho que você anda... como se diz, purificando demais a memória, Ezra, em algum momento vai acabar entrando em conflito mental. Aí já viu, vai acabar numa das instituições para desvalidos mentais. Lá acontece todo tipo de experiência escabrosa!

Paramos numa barraca, a senhora nos deu garrafas do que parecia ser água, mas não passava de isotônicos. Olhei o rosto de Karl, daquela proximidade ele parecia mais bronzeado e com os olhos levemente puxados.

- Você alterou a aparência hoje? Está meio oriental.

- Ah sim, na verdade, eu estava testando, mas deu um problema no dispositivo do meu espelho e não consigo mais alterar a opção. Não que eu goste dela, mas acabei acostumando.

- Sabe Karl, ontem tive uma conversa com um dos meus alunos, um dos melhores. Ele levantou uma questão que ficou me incomodando o dia inteiro e tive até pesadelos à noite.

- Pesadelos? – Karl riu debochado. Não era comum isso entre nós, em uma sociedade que controlava cem por cento suas atividades mentais, pesadelos ou devaneios eram coisas de folclore, das sociedades atrasadas antes de nós.

- Sim, mas tomei o comprimido receitado pelo Malcom e tudo parou. Mas o que meu aluno disse foi sobre nossos líderes políticos, as pessoas que nos governam, já reparou que nunca vimos? Não sabemos quem são, como são seus rostos. Eles só emitem comunicados na rede e nada mais. Os nomes...poxa, Karl, nem mesmo seus nomes eu consigo me lembrar.

- São apenas variações do mesmo nome, Ezra, como Isaac-2 e Isaac-63. Não sei direito quem governa qual país, mas é basicamente isso, como programas de computador e suas versões atualizadas.

- Ou como nas antigas monarquias.

- Por aí, mas por que se intrigar com isso agora? Deve ser algo... aqui – ele tocou a têmpora na mesma cicatriz avermelhada que eu trazia em mim – com seus dispositivos. Quando começamos a pensar em coisas absurdas é hora de...você sabe.

- De dar uma purificada? Estou meio de saco de cheio disso, Karl, para ser honesto. Ainda mais depois que ferrou minha memória da última vez.

- Bem, Ezra, mas é isso que fazemos, não? Memória seletiva, ferrar com as lembranças e produzir outras, viver feliz assim em harmonia. Não é isso? Manter a harmonia em todos sentidos?

Olhei para ele, era estranho que estivesse tão diferente da última vez que nos vimos. Eu conhecia Karl de verdade? Quem ele era? Sabia que trabalhava numa empresa grande de segurança, ele projetava os dispositivos que vigiavam nossas ruas, nossas casas e redes, fora isso, não podia saber ao certo de onde ele vinha, sobre sua família e sonhos. Karl se despediu e atravessou a rua em direção ao seu carro a bateria, notei que ele checou se estava totalmente carregado ao retirá-lo da tomado.

Olhei em volta, as pessoas corriam distraídas, algumas conversavam sozinhas enquanto falavam no microfone quase imperceptível de seus fones. Foi então que aproximei do lago no centro do parque, observei o movimento que o grupo de patos fazia. Entravam na água, nadavam serenos até a outra margem e saíam, repetiam o processo, como se estivessem programados, e estavam. Uma placa de alerta próxima ao lago advertida “Não jogue lixo na água e não se aproxime das aves”. Mais uma vez olhei ao redor me certificando que ninguém estava me observando, aproximei da margem em que estava o grupo de patos se preparando para entrar de novo. Abaixei para tocar em um deles, mas minha mão atravessou sua cabeça como se tentasse tocar um holograma.

- Hey senhor! – a voz veio de imediato atrás de mim, o homem vestia o uniforme de guarda. – Não leu a placa? – olhei para o pato no qual tinha tocado, ele ficara rodando no mesmo lugar enquanto seu grupo refazia o movimento.

- Que diabos. – levantei, o guarda estava tocando meu braço e me puxando para afastar.

- Não pode aproximar das aves!

- Eu sabia que não eram “de verdade”, mas isso? As árvores... não são assim, porque as pessoas encostam nela – apontei para um casal de jovens sentados embaixo da maior árvore do parque.

O guarda não me deu atenção e me enfiou dentro da viatura. Daí por diante tudo se tornou um pesadelo, mesmo que não nos fosse mais permitido sonhar.

 
4.

 
A sala é de uma brancura enlouquecedora. Não há nada além de uma cama e uma mesa onde posso sentar e brincar com uma tela touch acoplada à superfície. Os jogos já me cansaram, então, fico sentado encarando o lugar. Não existe nenhuma janela. Essa seria uma cela, mas como nunca fui preso só ouvia falar sobre os locais de detenção, preso agora o lugar não me parece tão agradável como diziam.

O tempo está suspenso, não dá para ter ideia se é dia ou noite. O tempo não passa, é uma eternidade branca e minha cabeça começa a entrar em colapso. Sinto que estou de pé quando na verdade permaneço deitado, o corpo todo pesa sem possiblidade de se erguer, mas caminho pelo quarto, pelo menos minha mente me projeta assim. Massageio as têmporas devido a dor extrema, algo como uma onda crescente de choque. Só piora e piora como se alguém controlasse a chave elétrica que corrompe meus circuitos mentais. Grito, mas o som parece vir do homem deitado que não sou eu, pois, estou de pé. Não estou?

A mulher que aparece no sonho é minha mãe, não lembro nada sobre minha infância, mas não tem como esquecer seu rosto. Ela parece um anjo, mas anjos não existem além das artes medievais.

- Foram os patos, Yago, os patos te jogaram aí. – mamãe diz suave enquanto me mostra um pequeno pato de borracha na minha banheira de criança. O cheiro que vem de fora é de mato, mas mato real e não as projeções indolores lá de fora.

Um homem entra na sala branca, ele usa jaleco e seus olhos estão plugados, ou seja, leitosos presos à algum tipo de dispositivo. Falo com ele, ou pelo menos tento abrir a boca, mas ele nem me olha. Só quando envolve meu corpo e me coloca sentado consigo sentir que sou eu o homem na cama. Aquele que andava livre para lá e para no quarto, desapareceu. O homem de jaleco sustenta meu corpo enquanto outro vulto entra atrás dele, parece muito o Dr. Malcom, meu psiquiatra.

- Yaaa...go – minha voz sai mole de lábios flácidos, a saliva escorre pelo queixo como quando era o bebê na banheira da minha mãe.

Dr. Malcom, ou seu sósia, injeta algo no soro que está fixado no meu braço. Eu sinto a cabeça rodopiar e de repente, estou vendo tudo com uma clareza maravilhosa. A sala ainda é branca, mas agora consigo enxergar Dr. Malcom e seu assistente. É um alívio voltar a me sentir eu mesmo.

- Dr. Malcom – sussurro, mas ele toca meu ombro de forma amistosa. Como é bom ser reconfortado e ver um rosto conhecido.

- Ezra, você está muito esgotado, eu te dei um calmante, um desacelerador mental. Seus dispositivos entraram em conflito, isso é normal, não se preocupe.

- Dr. Malcom, eu sonhei. – notei que o assistente conteve o riso diante essa declaração – com minha mãe, ela me chamava de Yago.

- Ezra, conversamos sobre sonhos na nossa primeira consulta, o que eles são?

- Falhas no nosso sistema mental.

- Como você passou por dois processos de memórias seletivas em curto espaço de tempo é natural que tenha sonhos desconexos com pessoas, lugares e informações que nada tenham a ver com você.

- Eu estou numa instituição de desvalidos? Vou voltar ao normal?

- Claro, Ezra, você está no hospital. – ele deu um sorriso que deveria ser reconfortante, mas me assustou por sua carga enigmática.

 
5.
 
 
A eternidade branca me envolveu em dias solitários que não passavam. Não sei quanto tempo estava internado, o ritual do Dr. Malcom entrar, aplicar algo no soro e sair durou por muito, muito tempo. Aos poucos, não questionei mais, e os sonhos se misturaram com a realidade branca em volta. Minha mãe sempre estava neles me chamando de Yago, logo, apareceu meu pai e talvez um irmão mais velho que me fazia puxar uma pipa num céu azul-turquesa sem nuvens. Pude sentir o cheiro de framboesas reais em meus sonhos e quando acordava... odiava estar vivo.

Certo dia, o assistente me retirou do quarto branco, empurrou a cadeira de rodas e me colocou sob um sol fraco em um jardim artificial e bonito. Algumas pessoas trajando pijamas brancos como o meu perambulavam por lá, mas nenhuma interagia, permaneciam inertes, os olhos perdidos ou presos em memórias que gostariam de expurgar.

O assistente se afastou, tentei tocar o chão com os pés, mas as pernas não obedeciam meu comando cerebral. Estava preocupado com a possibilidade de estar inválido para sempre quando escutei a voz vir de muito perto.

- Senhor Ezra?

- Vince?

Forcei as vistas e o reconheci, ele aproximou em seu pijama branco.

- O senhor...também foi preso?

- Isso é uma prisão? – olhei em volta – Não entendo, Vince, o que está fazendo aqui?

- Eu matei meu pai, senhor Ezra. Naquele dia mesmo, depois que nos falamos na escola.

- Aquele que colecionava livros... – pensei comigo mesmo – Mas... o que houve? Por que fez isso?

- Porque não era meu pai, porque ele me enganava assim como todos outros. Senhor Ezra, você não percebe? – Vince sentou perto da cadeira de rodas, seus olhos pareciam paranoicos. – Nós não somos o que pensamos ser, como o senhor diz, está tudo aqui – ele tocou na têmpora, sua cicatriz parecia recente – não vivemos com nossa família de verdade, e esse mundo não é de verdade assim como as plantas, animais, céu, atmosfera. Olhe para cima, apenas observe.

Levantei os olhos para um céu azul-turquesa belíssimo, mas estático. As nuvens não tinham movimento, era como estar preso num cenário em 3D.

- Lembra quando o senhor falou de um homem que viveu há muito e muito tempo em uma época que nem nosso pensamento consegue alcançar?

Ainda mantinha os olhos fixos no céu me sentindo cada vez mais doente, traído, ultrajado. Eu me sentia uma projeção tão falsa quanto o pato que me levou até ali.

- Platô...era o nome dele.

- Platão – sussurrei.

- Isso. Eu nunca me esqueci daquela aula, senhor Ezra. Nunca me esqueci porque foi ali que comecei a pensar. Sem o lance todo dos dispositivos, a pensar por mim mesmo. Ele falava sobre... dois tipos de mundos, certo? O real e o ideal. E comecei a ver as coisas, eu comecei a enxergar sem os dispositivos mentais, entende? E vou morrer aqui por causa disso.

- Vince, você tem sonhado?

- Todos os dias. Eu sonho com um lugar escuro e sombrio onde pessoas caminham em fila e são agredidas. É horrível como aquele lugar que o senhor disse em uma aula... inferno? Algo do tipo, um lugar que inventaram em alguma época perdida.

- O inferno não existe, Vince...assim como esse céu que está sobre nossas cabeças.

Eu consegui sair da cadeira depois de concentrar todo meu esforço mental nas pernas.

 
6.
 
Não foi possível sair da brancura, o quarto continuou sendo minha prisão assim como os banhos de sol artificial continuaram sendo os poucos momentos em que me sentia de alguma forma livre. A companhia de Vince me ajudou a suportar até o dia que ele nunca mais apareceu. “Vou morrer por causa disso”, ele tinha me dito, e talvez, tenha acontecido mesmo.

Depois que ele sumiu usei o tempo que tinha de sobra para buscar na minha memória tudo o que eu havia esquecido. Lembrei de Platão, porque Vince citou ele, mas tudo se misturou. Como eu dava aulas sobre isso e por que dava aulas sobre isso numa escola onde não me permitiam falar sobre o passado mesmo ensinando História? “História do Futuro” me disse a mulher que coordenava os professores, “o senhor vai se concentrar no tipo de inovações que poderão mudar nossas vidas, formar cidadãos preparados para fazer a diferença. Supere o que passou, ensine o que pode vir a ser”, e assim, funcionava.

E tinha também Yago, o garoto dos sonhos e a mulher doce que o vestia, banhava e o ensinava a não ficar fora de casa até tarde. Quem eram as pessoas por trás daquela instituição? As perguntas começaram a surgir. Um dia, Dr. Malcom veio e trouxe mais três assistentes. A injeção daquela vez me fez apagar por muito tempo e quando acordei senti as têmporas latejando sob um curativo que circundava toda cabeça. Eles haviam removido todos os dispositivos, então, as perguntas aumentaram ao ponto de me deixar confuso e louco.

Um homem chamado Riche, ou seria Adolf? Governou um lugar chamado Além do amanhã num século distante, talvez de 1934 até não sei dizer. Ele matava bandos, sacrificava pessoas em nome de um ideal. Não me lembrava com clareza o motivo, mas essas lembranças vieram à minha mente quando o assistente me levou para fora do quarto branco em direção a outra ala daquele lugar. Um lugar onde pessoas letárgicas caminhavam seminuas em fila indiana na direção de salas de onde podia se ouvir gritos. Foi isso que me trouxe a lembrança do homem que governou Além do amanhã.

O assistente me despiu e me colocou na cadeira de novo. Ele continuava com o dispositivo dos olhos plugado, parecia um boneco enquanto empurrava minha cadeira na direção de uma das filas indianas composta apenas de homens. “Esse foi o caminho que fez, Vince?” perguntei a mim mesmo, queria saber seu nome de verdade, mas nunca lembrei de perguntar se ele mesmo tinha descoberto em sonhos.

A porta abriu, mais um homem entrou por vontade própria, porque estava naquele estado semiconsciente, a mente destroçada, conflituosa, apodrecida. Mas eu? Conseguia racionar o suficiente para observar em volta, atrás de salas de vidros eu podia ver homens mexendo em telas touch onde letras posicionadas no canto superior diziam “Monitoramento de Naplak” e as imagens se alternavam em filmagens das ruas, casas, avenidas e todos lugares que eu conhecia bem da cidade.

Em outra sala, as telas diziam algo diferente nas informações nos cantos superiores “Monitoramento da Terra”, um lugar arrasado pelo fogo onde milhares de grupos humanos eram conduzidos a estranhas aeronaves guardadas por ... seres estranhos de membros longos, mas rostos transfigurados em traços humanoides, parecidos com Dr. Malcom que sempre sorria de forma... enigmática, não-humana.

A porta abre, sou o próximo, escuto o eco do grito do homem que aguardava na minha frente, olho para o assistente que está prestes a empurrar minha cadeira, seu rosto é tão “errado” quanto o do Dr. Malcom. Escuto a voz da minha mãe me chamar por Yago, e tenho um tremor leve ao sentir, pela última vez, a lembrança do cheiro da Terra, a verdadeira.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 24/06/2018
Alterado em 24/06/2018
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