O absurdo
por Larissa Prado
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A mulher dos trilhos
 
 
Algumas histórias são apenas histórias e nada mais. Você escuta, se impressiona, mas logo as esquece. As pessoas gostam de contar coisas sobre fatos que não conhecem bem, então, podem inventar, florear, exagerar. À medida que os acontecimentos são contados de uma pessoa para outra surgem novas variações da mesma história. Assim nascem as lendas e conforme são disseminadas se tornam mais e mais absurdas.

Sempre fui curioso a respeito de histórias sobrenaturais, lendas urbanas e fatos insólitos e foi isso que me fez desenvolver uma forte relação com Isis. Ela estava perambulando pelo festival de cinema independente no qual eu participava quando nos esbarramos.

Isis segurava o flyer com a programação do evento e sorriu pedindo desculpa por sua distração, retribui o sorriso e a convidei para assistir o curta-metragem com o qual eu e minha equipe estávamos concorrendo. Ele era um documentário sobre histórias de aparições alienígenas em uma pequena cidadezinha.

- Começa agora, “Nós acreditamos’. – disse, mostrando na programação.

- Legal! É sobre o que?

- Alienígenas.

Os olhos dela cintilaram de animação. Nós assistimos, ela adorou o meu trabalho como roteirista e disse que também gostava de escrever creepypastas em seu blog. Ali nasceu uma boa amizade, trocamos telefones e passamos a nos ver com frequência.

Acompanhei as histórias macabras que ela publicava em seu site, eram apenas histórias dessas que não poderiam ser reais. Apesar de ser fanático por lendas e fatos bizarros sempre tive consciência de que tudo não passava de ficção. Era divertido ficar intrigado e sentir medo.

Aos poucos, Isis se tornou uma pessoa muito ansiosa e irritadiça. Quando perguntei o motivo do seu estado de contínua apreensão ela me falou sobre uma lenda urbana que tinha encontrado escrita em uma carta dentro dos seus livros da faculdade.

- É sobre uma mulher que morreu, no Japão da Segunda Guerra, ela se jogou nos trilhos do trem depois de ter sido estuprada. O corpo foi partido ao meio, mas ela continuou viva no meio da neve. O tronco se arrastou por quilômetros até a estação... – Isis se encolheu e calou, estava pálida.

- É apenas uma baboseira qualquer que alguém inventou para assustar as pessoas. É como suas creepypastas, não fique impressionada com isso, Isis.

- Você não entende. Essa é diferente, por que essa carta apareceu nas minhas coisas? Não fui eu quem escreveu. Não sei de quem é aquela caligrafia, parece ter sido escrita com sangue.... Disseram, no fim da carta, que a mulher vai atrás da pessoa que conhecer sua história depois de 3 dias. O primeiro sinal da sua aproximação é um som como teke-teke...

- Isis, isso é tão bobo quanto a lenda da loira do banheiro ou da brincadeira com o copo que se move com a evocação de espíritos.

- Eu comecei a escutar ontem de madrugada, teke-teke-teke, um som horrível como um ranger ou estralar de ossos. Achei que estava sonhando, mas eu continuo escutando. Hoje é o terceiro dia desde que encontrei a carta. Eu escuto o ruído mesmo agora falando com você.

Isis começou a chorar e compreendi a seriedade do seu pânico. Tentei acalmá-la convidando para dormir na minha casa. Ela resistiu no início, mas acabou aceitando. Meus pais a receberam com carinho e deixei que ela dormisse na minha cama enquanto me acomodei no sofá da sala.

A noite correu bem, assistimos filmes e comemos pipoca. Ela conseguiu até mesmo sorrir. Às 3:00 acordei com um ruído tenebroso vindo do meu quarto, teke-teke-teke, como um ranger de galhos arranhando o vidro da janela.

Fui checar Isis e quando aproximei da porta percebi o rastro de sangue no chão. Alguém se arrastou até ali, abri a porta sentindo a garganta seca e as mãos frias. O ruído intensificou, teke-teke-teke, Isis estava encostada no canto do quarto, lágrimas marcavam seu rosto em total desespero. Acompanhei seu olhar e vi quem havia deixado o rastro.

Um tronco de mulher apoiada sobre as mãos encarava Isis. Os longos cabelos pretos cobriam seu rosto, mas podia notar o cintilar do olhar zombeteiro. A voz que saiu da mulher cadáver era um sussurro.

- Você vai precisar das suas pernas?

Isis fechou os olhos com força e negou, acho que para tentar acordar do possível pesadelo. Então, seu corpo se retorceu, os olhos arregalados vidraram em mim antes que ela fosse partida ao meio por mãos invisíveis. Seu corpo ficou ali no canto, partido como a mulher nos trilhos. Antes que eu perdesse a consciência num desmaio escutei o ruído insistente e alto: teke-teke-teke.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 15/06/2018
Alterado em 15/06/2018
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