O absurdo
por Larissa Prado
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Os cavalos de Buzuluk


 
 
1922, Buzuluk
 
 A fome pode transformar um homem. Eu vi o que ela é capaz de fazer, presenciei a bestificação de seres humanos e ainda assim mantive meus deveres de soldado seguindo as regras em prol da consolidação de um Estado igualitário. Nenhuma conquista pode ser alcançada sem sacrifícios, é preciso estar preparado para perder inúmeras vezes antes de sentir o gosto da vitória. Movido por meus ideais consegui sobreviver aos dias obscuros que vivi em Buzuluk. Não foi fácil para os habitantes do lugar assim como não foi para mim. Porém, nada poderia ter me preparado para o que aconteceu numa propriedade rural na região sul da cidade. Lá, descobri que quando uma guerra começa não termina, seus reflexos continuam ecoando, indefinidamente, dentro da nossa mente.
 
Fazia muito frio naquela época do ano, os casacos não barravam a entrada do vento que congelava os ossos. Não importa o que fazíamos sempre estávamos tremendo. Essa situação contribuía com a frustração e impaciência, então descontávamos nas pessoas que viviam em Buzuluk. Eu e meus companheiros de pelotão erámos responsáveis pela região de propriedades rurais e a ordem expressa era: deixem os camponeses morrerem de fome.
 
A intervenção em Buzuluk se tornou violenta de tal forma que fomos enviados para barrar a chegada de suprimentos aos moradores e força-los a produzir. Naquele momento, eu compactuava com as medidas do nosso líder porque eram em prol de uma causa maior. Porém, olhando para trás percebo que aos poucos deixávamos de ser humanos e passávamos a viver como bichos numa selva. O problema é que bichos se comportam de maneira justa, nós desconhecemos o significado da palavra Justiça ou o reinventamos ao bel-prazer.
 
A fazenda era grande e estava condenada, fui com um grupo de seis companheiros vasculhar o lugar à procura dos proprietários e mantimentos que poderiam esconder ou desperdiçar. Empunhávamos rifles que pesavam muito naquela situação de fraqueza e inverno rígido. Cada passo dado exigia de nós muita força física e mental. Dimitri era meu comandante e ia na frente adentrando na casa.
 
- Não façam barulho. – ele sussurrou antes de passarmos pela porta da frente.
 
Assim, pisando em ovos, entramos e cada um vasculhou todos os cantos. Não encontramos nada além de abandono. Os quartos das crianças eram ambientes tristes, brinquedos maltrapilhos jogados às traças abrigavam ratos que corriam cada vez que nos movíamos.
 
- Eles foram embora. – Nikolai disse a Dimitri no fim da nossa visita. O grupo estava reunido no celeiro vazio de mantimentos.
 
- Não podem ter ido muito longe, a cidade está toda cercada. Se tentarem passar pelas barreiras vamos saber. – Dimitri mascava fumo e cuspia grossos bolos negros a todo momento, seus dentes estavam apodrecendo.
 
- Talvez seja melhor voltarmos para o centro, aqui não vamos encontrar nada. Até os animais sumiram. – Nikolai olhava em volta e percebi que algo também o incomodava ali na região.
 
O vento assobiava diferente, dava para sentir que não estávamos sozinhos, mas não se tratava da presença da família que vivia ali, aquele tipo de sensação era maligna como se Baba Yaga espreitasse da floresta agourenta que cercava a fazenda.
 
- Eu tenho um mau pressentimento sobre isso. – comentei.
 
- Sobre o quê, Bóris? – Dimitri me encarava, seus olhos muito verdes – quase brancos – davam a ele uma contínua expressão de loucura.
 
- Isso tudo, esse lugar o que estamos fazendo aqui. Não me parece um bom caminho matar as pessoas de fome, não é assim que deveria ser.
 
Então, ao dar vazão aos meus pensamentos mais secretos os cinco homens me olharam em silêncio condenatório, mas foi Dimitri que se exaltou ruborizando no rosto.
 
- E o que você sabe sobre as coisas? É um soldado raso, acabou de sair das fraldas. Esse é o empecilho para a nossa atuação na consolidação de um Estado igualitário, a juventude desacreditada, alienada, a falta de obstinação.
 
Ele estava pronto para continuar falando e falando, Dimitri era dado a discursos longos, um velho guerrilheiro, um agitador vermelho típico, mas os ruídos o interromperam, altos, insistentes e horríveis. Eram cavalos relinchando. Ficamos alertas, as armas preparadas para alvejar qualquer coisa que se movesse. Os sons intensificaram vindos do lado de fora do celeiro, pareciam ecoar de todos lugares ao mesmo tempo. Dimitri foi o primeiro a sair e o seguimos. Não era comum sentir aquela onda de pânico dominar meus sentidos, a cada passo que dava em direção aos relinchos mais meu corpo sucumbia à tremedeira.
 
Não havia nada lá além dos ruídos. Os cavalos continuaram relinchando em desespero e ao fundo podíamos ouvir choros de crianças. A estranheza tomou conta de nossos rostos, eles estavam pálidos e assombrados, eu olhei para Nikolai que vinha logo atrás de mim.
 
- O que é isso? – ele me perguntou, sua voz era só um fio de rouquidão.
 
- Parece que estão na floresta – olhei em volta.
 
A única explicação era que alguém estava se escondendo na mata densa que cercava a fazenda, provavelmente tentando fugir com animais e crianças. Dimitri acatou minha sugestão e adentramos na floresta atrás dos barulhos que se tornavam mais altos. Foi um esforço indizível entrar naquele lugar, antigos medos infantis voltavam a me atormentar. Feiticeiras da floresta, criaturas diabólicas da terra, todas lendas que me enchiam os pesadelos da infância.
 
Em completo estado de alerta não prestei atenção na ausência de Nikolai que estava logo atrás de mim. Assim que entramos pela floresta ele já não estava nos acompanhando. Os outros seguiram adiante nos calcanhares de Dimitri, movimentávamos em harmonia para evitar desencontros, mas de súbito os cavalos pararam de relinchar, seus cascos pararam de trotar e os ruídos findaram em um último grito de bebê. Instalou-se o silêncio agourento, então eu vi.
 
Um casal de crianças estava de pé entre as árvores, uma delas, a menina, segurava um bebê envolto numa manta imunda. Dimitri apontou o rifle para eles, eu e os outros permanecemos parados, as armas em repouso, a visão era deplorável, eles pareciam trapos humanos em pele e ossos de olhos agigantados. Não pareciam mais humanas.
 
- Ei vocês, fiquem parados não vamos fazer mal. – Dimitri gritou enquanto caminhava na direção deles, o rifle sempre preparado.
 
Eles permaneceram parados e nós também, o único que se movia era o comandante. Ele chegou perto o suficiente para tocá-los, mas quando ergueu a mão para puxar o menino as três crianças desapareceram e os relinchos de cavalos recomeçaram mais fortes e próximos. O rifle de Dimitri começou a disparar, desnorteados, tentávamos procura-lo entre as árvores, mas ele parecia perseguir fantasmas. Não dava para enxergar nada, apesar da manhã invernal clara, ali no interior da mata parecia noite. Gritamos para que Dimitri parasse e tentamos segui-lo, foi então que notei a ausência de Nikolai.
 
- Yvan – ele estava ao meu lado – onde está Nikolai?
 
- Não sei – os olhos de Yvan eram puro desespero. – onde estão esses malditos cavalos?
 
Como se a floresta respondesse nos deparamos com as silhuetas equinas nos observando entre as árvores. Os olhos faiscavam de ódio enquanto os cascos pisoteavam os cascalhos. Dimitri irrompeu entre os bichos, parte do seu rosto estava faltando, ele caiu sobre os joelhos arfando. Yvan precipitou e o apanhou. Os cavalos fugiram espantados.
 
- O que aconteceu? – perguntei enquanto ajudava Yvan a levantá-lo, sustentamos seu corpo e tentamos fazer o caminho de volta para fazenda.
 
- Aquelas malditas crianças. Cuidado. – Dimitri arregalou os olhos e nos empurrou, parecia ver algo que nos escapava à frente, na semiescuridão da mata.
Seu rosto de perto era um horror, faltava parte do nariz e lábios, a bochecha esquerda havia desaparecido, eram mordidas.
 
- Yvan, leva ele de volta. Eu vou tentar achar os outros. – ele assentiu.
 
Àquela altura não sabia mais onde estavam os outros soldados, os relinchos de cavalos persistiam. Preparei o rifle e dominei meu pânico, segui os sons decidido a dar um fim aquele show de bizarrices. Adentrei a mata, os relinchos e trotares se tornavam mais próximos, então me deparei com uma cabana de caça abandonada. Não sentia mais medo, agia de forma mecânica, sem pensar.
 
Quando abri a porta do lugar que desprendeu das dobradiças podres, os relinchos cessaram. Entrei, vasculhei os poucos cômodos, e sai pela portinhola dos fundos. Ali na parte de trás haviam três carcaças de cavalos em decomposição, aproximei e para meu espanto no interior de cada uma havia os corpos de três crianças em posição fetal. Mortas pelo frio e fome.
Os relinchos recomeçaram e os choros de crianças também misturado a eles escutei passos, virei e vi Nikolai aproximar das carcaças, seus olhos estavam injetados de sangue.
 
- Você os viu? – ele me olhou, agachado com uma das mãos sobre a cabeça do cavalo morto.
 
- Sim. Eles atacaram Dimitri, mas não entendo...devem ter mais crianças escondidas na floresta.
 
- Não Bóris, não. São essas! As mesmas crianças que vimos.
 
Aproximei e observei os cadáveres, as semelhanças eram assustadoras.
 
- Mas...como pode ser? Isso está errado. – ergui o rifle na direção da cabana de onde vinham sons de mais passos. Yvan aproximou, seu rosto estava respingado de sangue, notei que não era dele quando chegou perto.
 
- Dimitri enlouqueceu, ele desapareceu na mata. Não consegui encontrar mais.
 
- Olha – apontei para as carcaças.
 
- Devem ter escondido as crianças nos corpos dos cavalos por causa do frio.  - Yvan observava a cena. – Mas o problema não é só o frio. A fome é pior.
 
- Isso está errado. – insisti em dar voz ao meu pensamento.
 
- O que está errado? – Nikolai me encarava.
 
- Isso! Essa porcaria toda, pessoas estão comendo pessoas lá na cidade, Nikolai.
 
Atrás de nós Yvan começou a disparar a esmo. Tudo aconteceu rápido: os tiros que espatifaram o rosto de Nikolai, Yvan gritando alucinado. Eu corri sem olhar para trás perseguido pelos sons dos tiros e gritos acompanhados dos cascos dos cavalos fantasmas da floresta condenada de Buzuluk. Não parecia ter fim assim como a guerra, aquela situação perdurou pelo o que pareceu uma eternidade até que me vi saindo pela borda da mata por onde entramos.
 
Não escutei mais nenhum ruído, o ar ficou estagnado como se nunca mais fosse existir brisa ou vento anunciando nevasca. O ardor que subiu por meu pescoço foi bem-vindo, pois trazia calor. Olhei para a floresta na expectativa de ver Yvan sair atirando para todos os lados. Ele nunca saiu, aquilo parecia desvario.
 
Andei na direção da casa abandonada da propriedade, sem forças nas pernas me sentei nos degraus da varanda acomodando a arma no colo. Uma súbita vontade de chorar me assolou enfraquecendo qualquer resquício de força, as lágrimas não vieram e imaginei-as congeladas por dentro em pequenos cristais de diamantes. Não sabia o que fazer e tinha me esquecido o que fora fazer ali naquela pequena cidade amaldiçoada pela fome.
 
Antes de chegarmos a Buzuluk escutávamos rumores de que a escassez de alimento era tamanha que obrigava os moradores a comercializarem carne de animais domésticos e do que restava de rebanhos e cavalos num mercado aberto no centro da cidade. Ao chegarmos confirmamos os rumores, mas a situação era pior do que pensávamos. Os animais morriam de fome também e pouco podia ser aproveitado de suas carcaças, o que presenciávamos nas bancadas improvisadas eram partes de corpos humanos, a maior parte era de crianças e velhos. Nós não intervíamos, apesar de Dimitri espancar um ou outro comerciante por causa do asco que aquilo lhe causava, mas na medida que o tempo passava aquela situação se tornara normal.
 
Era a lembrança do mercado de carne no centro da cidade que dominava meu pensamento naquela manhã enevoada em que escapei de um ataque de loucura dos meus companheiros de pelotão. Fiquei pensando sobre a fome e no que ela era capaz de fazer às pessoas. Desviei assim a mente da minha situação, abandonado naquela região afastada e sombria sem esperança de encontrar Yvan, ou qualquer outro ser humano, com vida. Mas eu precisava fazer algo, não podia ficar o resto de dia sentado na varanda da casa.
 
Eu tinha dispersado as lembranças ruins sobre Buzuluk e o que eu deveria fazer lá quando escutei o primeiro som. Cascos de cavalos trotando ao longe. Olhei para a floresta segurando minha arma, mas os sons estavam vindo do celeiro atrás da casa. Fui checar ignorando a fraqueza que tentava incapacitar meus passos e cerceava minha coragem.
 
Fiquei diante o celeiro apontando na direção da porta entreaberta. Os ruídos começaram a vir da floresta de novo e me virei para fitar. Nada se movia de dentro da mata até que Yvan surgiu cambaleando. Ele segurava o ombro esquerdo e ao correr até ele notei que a mão pressionava o toco do braço amputado na altura da clavícula.
 
- Que diabos foi isso, Yvan?
 
Ele me fitou com olhos de um morto, opacos e perdidos. O sangue fluía em cascata sobre o uniforme. Sangue vermelho como nossa causa, naquele momento a cor fez todo sentido. Era preciso morrer para vencer, morrer pela causa como dizia o chefe em seus discursos inflamados.
 
- Bóris, tem alguma coisa na floresta. – ele apertava com força minha mão enquanto nós dois sucumbimos de joelhos – Não é natural...cavalos relincham e nossa cabeça explode. Você só quer matar e matar como um bicho raivoso. Eu tive um cão quando era garoto e ele pegou a Raiva. Tivemos que dar um tiro em sua cabeça.
 
Yvan apoiou a mão no rifle que descansava entre nós dois, a arma pesou em volta do meu corpo. Compreendi o que ele pedia.
 
- O que aconteceu com seu braço? Precisamos chegar ao hospital. – tentei estancar o sangue apertando com toda força.

- Os cavalos relincham antes de arrancarem seu pedaço. É assim também nessa coisa toda de guerra, conflitos... Bóris, eu vivi numa fazenda como essa, minha família toda é camponesa. De onde você veio?
 
Eu vi o terror em seus olhos, as lágrimas que escorriam transbordavam seu desespero diante a morte, Yvan estava tão branco quanto a neve que cobria o descampado à nossa volta.
 
- Eu vim da cidade grande, Yvan, meu pai era soldado antes de mim, mas eu sempre quis ser artista de música.
 
Ele sorriu e morreu assim, de olhos abertos fitando um céu cor de chumbo.
 
Não sei quanto tempo levei para abrir a cova e deixar o corpo de Yvan nela, mas o céu estava escuro quando levantei o rosto e olhei para a floresta. Milhares de silhuetas me espreitavam na escuridão da mata, eram crianças eu sabia por causa do tamanho. Ou seriam duendes zombeteiros a me espreitar segurando os risos por conta da minha desgraça?
 
Decidi que era hora de ir embora dali nenhum dos companheiros tinha sobrevivido e Yvan era o último. Ao me aproximar do jipe que nos levou até lá escutei um ruído muito próximo. O bafejo farejador arrepiou minha nunca, eu me virei e encarei os olhos desvairados de um cavalo a expor enormes dentes fortes e quadrados afundados em salientes gengivas esbranquiçadas.
 
Disparei até que não restasse nenhuma bala na arma. O cheiro de pólvora envolveu meus sentidos e quando baixei a arma notei que havia atirado a esmo. O jipe demorou a funcionar, mas quando ligou demorei um tempo até recobrar a razão. Da mata podia ver as silhuetas pequenas me encarando e o trotar de cascos de cavalos misturado ao choro de crianças.
 
Ainda posso ouvir os relinchos lá fora, mesmo agora passado um ano do ocorrido. A pior guerra é aquela na qual não sabemos quem são nossos inimigos.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 05/06/2018
Alterado em 17/06/2018
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