O absurdo
por Larissa Prado
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Dois disparos
 

 
“E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda.”
(Álvaro de Campos)

 
 
Estamos sós, suspensos na corda bamba que balança sobre o abismo. Sós como nunca nos saberemos, abandonados, a mercê das pequenas tragédias que compõe nossas vidas, esse eterno cai-não-cai da corda bamba. Quando o primeiro disparo acontece é muito fácil o corpo desequilibrar, a queda é certa e o abismo está logo embaixo.

Foi assim, primeiro senti o disparo dentro da cabeça que me derrubou, poupando-me do balançar enjoativo de uma vida incerta. Por três anos doei a maior parte dos meus dias para o ponto eletrônico de uma empresa, e por todos esses anos aguentei enxovalhos e brincadeiras de alguns colegas.

Um deles era Jones, não é seu nome real, fazia questão de testar até onde um homem consegue tolerar a pilhéria, a humilhação, o deboche. Não sou dado a orgulhos, sem me sentir merecedor de grandes coisas, os insultos não conseguiam encontrar raízes em meus ressentimentos. Mas Jones era diferente, suas piadas, seu tom de voz despertavam o pior que podia existir dentro de mim.

Assim que chegava e o via sentado na mesa ao lado uma onda de calafrios assaltava minha espinha morrendo nas palavras não-ditas e engolidas goela abaixo. Jones estava sempre com o mesmo sorriso plástico, como se alguém tivesse esculpido em sua boca um ar de triunfo em forma de dentes expostos. Ele trocava olhares com os outros colegas quando eu me sentava, e cochichavam as próximas baixezas às quais me submeteriam ao fim do expediente. Como se eu não estivesse a par de todos aqueles joguinhos depois de três anos envolto nessa atmosfera de humilhações e risos.

Então, como era de se esperar, encontrava meu carro riscado, com um dos pneus furado ou coberto de lixo. Quando estávamos reunidos em torno do supervisor que falava mais uma vez sobre a necessidade de atingirmos as metas de vendas do mês, as formas de abordagens de clientes incrementando com suas tentativas falhas de discursos motivacionais, Jones fazia questão de expor minha vergonhosa comissão e medíocre atuação. A maioria ria, o supervisor balançava sua cabeça de forma negativa para reafirmar que meus dias ali estavam contados se não melhorasse. Não era demitido, nem esforçava para melhorar o meu desempenho, nada daquilo me importava.

Não sei dizer o que aconteceu diferente para me fazer sentir o primeiro disparo. Talvez eu tivesse ultrapassado meu nível de tolerância. A represa arrebentou. Durante o dia nada tinha acontecido que divergisse do que eu estava habituado, mas algo na voz de Jones me deu um clique enquanto esperava uma ligação na minha mesa. Seu riso e cochichos, a forma que segurava o copo de café toda tarde às 15:30, fez um ruído atravessar minha cabeça como se recebesse um tiro. Ele aproximou da minha mesa me lançando seu olhar divertido de sempre.

- Hoje é sexta-feira, nós vamos no Tropical tomar uns drinques. Vamos?

Jones nunca me convidou para nenhum happy hour entre os colegas, aquilo era mais uma armadilha.

- Vamos. Que hora?

- Assim que sairmos daqui. – ele deu um sorriso para o colega ao lado.

- Antes vou passar em casa, aí nos encontramos lá. – sorri de volta, caindo na dele. Jones parecia mal se aguentar de euforia. Seria mais uma noite de deboche e risadas.

O expediente terminou, sai sem me despedir. Ao chegar em casa, alimentei meu cachorro e tomei um banho. Escolhi a melhor roupa para a ocasião. Liguei para Paolo e disse que talvez poderíamos nos ver no dia seguinte. Ele pareceu notar algo estranho na minha voz, mas não insistiu em perguntas. Aquela altura do nosso relacionamento entendia que não podia me pressionar sobre nada, não funcionava assim. Há dois anos assumira Paolo para o mundo, talvez esse era o motivo para que meu nome estivesse nos risos divertidos de Jones.

Vasculhei o guarda-roupa à procura das coisas que herdei do meu pai. Ele morreu quando ainda era criança, deixando nas mãos de minha mãe sua pistola, seu cordão de ouro e um relógio. Ela me entregou antes de morrer junto com sua aliança na qual o nome do meu pai estava gravado. Em uma caixa guardo tudo o que me restou dos dois. É triste pensar sobre o que resta das pessoas quando vão embora é sempre tão pouco ou quase nada.

Levei comigo a pistola dentro do casaco de frio, o cordão do meu pai no pescoço e a aliança da minha mãe no bolso da calça. De alguma forma, eles estariam comigo. O som do primeiro disparo ainda ecoava em minha cabeça quando o táxi parou em frente ao Tropical, um bar de gosto duvidoso onde mulheres seminuas passavam com bandejas e se deixavam apalpar em troca de algumas gorjetas.

Jones levantou da mesa assim que me viu descer. Ele veio me encontrar na porta e passou o braço sobre meus ombros. O cheiro de tabaco que vinha dele era tão forte que fazia meu nariz coçar. Ao aproximar da mesa, notei a presença de mais três colegas da empresa, um deles tinha uma garçonete no colo, sua mão segurava firme a coxa enquanto ela sorria com esforço.

- Hoje, vamos torna-lo um homem de verdade. – Jones me deu uns socos no estômago, brincando.

Ele puxou uma cadeira para mim.

- Está acostumado a ser cortejado assim? Cadeiras puxadas, portas de carro abertas para você? Como uma verdadeira donzela? – todos estavam rindo, até eu me peguei sorrindo com a perspectiva que se delineava à minha frente quando a minha mão tocou o cabo da pistola.

Jones se sentou, ele pegou a garrafa de cerveja e estava me servindo. Naquele momento, a corda bamba sacudiu uma vez quando saquei a pistola, de uma maneira forte e decisiva me jogando para cima. Apontei a arma na direção da cabeça de Jones, mais precisamente na altura do seu sorriso divertido. Nunca tinha atirado na minha vida, mas me lembro sempre de como meu pai descrevia a sensação, a forma certa de segurar, o cuidado com o coice, a forma que o punho deve ficar, onde o olho deve mirar e onde o cano da arma deve apontar, são coisas diferentes, a mira do olho e a mira da arma.

Não lembro se Jones disse algo, o grito da garçonete sentada no colo do outro colega estilhaçou tudo. Só existiram o grito estridente dela e o som do disparo. O rosto de Jones explodiu em sangue e fragmentos de ossos, a pistola do meu pai era potente, afinal, e ele também tinha estourado muitos rostos em outra vida.

É preciso sempre um primeiro disparo antes dos outros, antes da queda. Naquele momento, não existia mais a corda na qual podia tentar me equilibrar, a queda foi livre e libertadora, e ela nunca teve fim. Deixei o bar enquanto o caos se desenrolava entre os presentes. Gritos e mais gritos, uma algazarra sem fim. Ninguém tentou me impedir de ir embora, ninguém se aproximou quando me virei e sai.

Andei por avenidas, virei esquinas. Percorri uma longa distância até chegar no parque do centro da cidade, perto da minha casa. Sentado à beira dele, depositei a pistola de meu pai na superfície e a vi ser engolida pela escuridão da água, assim como todo meu ser estava sendo engolido pelo abismo. Não haveriam mais disparos, mas aquele primeiro, desperto pelos risos de Jones, ainda ressoava distante, no fundo da minha mente.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 17/05/2018
Alterado em 17/05/2018
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