O absurdo
por Larissa Prado
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Mr. White

 
Pois o gato é enigmático, e íntimo de coisas que os homens não conseguem enxergar. Ele é a alma do antigo Egito, e portador de histórias das cidades esquecidas em Meroe e Ophir. Ele é parente dos senhores da selva, e herdeiro dos segredos da África antiga e sinistra. A Esfinge é sua prima, e o gato fala seu idioma; mas ele é mais antigo que a Esfinge, e recorda tudo que ela já esqueceu. (Os Gatos de Ulthar, H.P.Lovecraft)

 
A impressora tinha emperrado de novo me fazendo chamar o M. Ele veio e avaliou a máquina coçando o queixo. Faltava apenas 10 minutos para o fim do expediente, apenas 10 minutos me separavam da tão sonhada lasanha no restaurante da Lilian. A impressora, porém, tinha que dar um chilique naquele momento. Infindáveis testes de paciência, somos submetidos a eles a todo momento. M consertou a máquina depois de uns dois ou três minutos. Agradeci, e tratei de imprimir os últimos relatórios para meu supervisor. Quando ia saindo da sua sala, M chegou atrás de mim e me chamou. Não quis acreditar, faltava apenas 1 minuto para o almoço quando ele apareceu.

- Que foi M?

- Sei que ja está indo, mas só queria saber se você gosta de gatos.

- Gatos?

- É. To com um pra doar.

- Ah cara, até gosto, mas meu apartamento é complicado. Não moro sozinho. Lá é minúsculo.

- Não sei o que fazer com ele. Já tentei abandonar mais de três vezes, mas ele sempre volta pra casa. Não tem como ficar, a Yolanda tem pavor do bicho.

- Pavor? Por quê?

- Não gosta de gatos, diz que são traiçoeiros. Vou trazer ele amanhã pra você ver, é bonitinho.

Na ansiedade de ir embora logo, concordei. Deixei a empresa e não me lembrei mais da conversa que tive com M pelo resto do dia. Na manhã seguinte, cheguei para trabalhar como todos os dias. M estava sentado na sua mesa ao lado da Vic, outra esquisita do grupo de programação, ele levantou e veio falar comigo. Nós não tínhamos muito contato, a não ser quando as máquinas das quais meu trabalho dependia davam problemas.

- E aí,Gaspar. Eu trouxe.

- O quê?

- O gato que te falei ontem, tá lá no meu carro na caixa dele.

Bati na testa, ele notou que não me lembrava da conversa que tivemos antes. Tentei disfarçar meu incômodo, mas não convenci porque M começou a insistir.

- Vamos lá, você vai ver que graça ele é. Rapidinho.

Saiu andando na minha frente na certeza de que eu o seguiria. Antes de sair da sala lancei um olhara pra Vic, ela não notou, estava submersa na tela do computador usando seus fones.

Chegamos no estacionamento do prédio, a empresa era média, prometia crescer como as outras filiais. No campo da publicidade virtual era uma das melhores, a minha tarefa era mantê-la longe dos problemas jurídicos e eu era bom nisso, uma pena não conseguir me livrar de complicações também na vida pessoal.

Quando M abriu a porta de trás do seu carro escutei um miado baixo, não precisei olhar para o animal, aquele som tinha me encantado. Esperei ele pegar a caixa própria para transporte de gatos, quando a suspendeu do banco vislumbrei dois olhos atrás das grades, amarelos e desconfiados.

- Ele não tem nome ainda. Não deu tempo de batizá-lo. Yolanda criou verdadeiro nojo desse gato, Gaspar, e ela sempre gostou de bichos. Quando namorávamos tinha três cachorros na casa dos pais.

- Gatos são animais para tipos de pessoas específicos, M, acho que Yolanda não deve se encaixar nesses tipos.

- Como assim? Quem gosta de gatos é especial? – ele deu uma risada descontraída.

- Algo assim. Já ouvi dizer que não são os humanos que escolhem os gatos, mas o contrário. Se um gato não gostar de você, tem algo errado com você e vice-versa. Quem não gosta de gatos não são pessoas muito confiáveis. Cuidado M, provavelmente está dormindo com o inimigo.

- Quanta asneira, Gaspar. Olha – ele abriu a portinhola da gaiola. – Vamos ver se ele vai com sua cara.

A princípio, o bicho não saiu, nós ficamos olhando para a portinhola ouvindo os miados baixos. Com cuidado, aproximei e abaixei o rosto o suficiente para vê-lo acuado no fundo, evitei chegar mais perto, não queria ser surpreendido por garras afiadas. Arrisquei o braço ao coloca-lo e puxá-lo, ele não mostrou resistência. Senti os pelos eriçarem, o corpo era macio e quente acompanhado de um barulho ronronante como se fosse um bicho a motor.

- Pronto, pronto – aninhei o pequeno gato nos meus braços, ele projetou as unhas e agarrou-se ao meu braço.

Não preciso dizer que foi amor ao primeiro toque.

- É, Gaspar, talvez você faça parte dos tipos especiais.

Como se concordasse, o gato miou mais alto e levantou os olhos para mim. Naquele momento, não podia perceber devido ao meu deslumbre – era mesmo um animal bonito de pelos brilhosos e brancos – mas naquele olhar havia uma espécie de astúcia humana.

Não foi difícil convencer Isis a aceitar o bichano em casa. Minha irmã estava passando por uma fase muito difícil após um término de casamento embaraçoso e violento. Era de se esperar que a presença do gato trouxesse de volta a ternura que ela havia perdido durante anos de um relacionamento abusivo. No decorrer dos meses, Isis e Mr.White se tornaram inseparáveis. Gostava do gato, mas não como Isis, ele era tranquilo, passava a maior parte do dia no batente da janela da sala olhando a TV que ela assistia.

Na hora das refeições saltava e se enroscava em seus calcanhares enquanto minha irmã ia para cozinha. Sua caixa de areia ficava do lado de fora da casa, ele nunca fez suas sujeiras fora dela, era educado. Se pudesse falar seria polido, pois até seus miados soavam comedidos, respeitosos. Isis o enchia de apetrechos que vendem em pet-shops, ele suportava seus caprichos piegas com paciência, o semblante era sempre indiferente e tedioso, como acontece com a maioria dos gatos. Suportam os humanos com enfado.

Mas, quanto mais velho o bichano ficava mais conseguia perceber aquele olhar estranho, de ser humano maligno. Isis se tornava mais apegada, tratava-o como um filho, não o deixava dormir fora da sua cama e certo dia flagrei-a tentando fazê-lo tomar seu leite da noite numa mamadeira. Repreendi a atitude e lhe aconselhei procurar terapia, Mr. White estava prostrado em seu colo me olhando com um ar divertido.

- Ele está com um problema nos dentes, Gaspar, por isso resolvi tentar dar na mamadeira. Não estou louca. Eu vejo como você nos olha.

- Isis, tudo bem gostar dele, cuidar. Eu também gosto do Mr. White, mas está passando dos limites. Se está com problemas nos dentes, leve no veterinário.

- Não! – ela abraçou o gato, projetou o lábio inferior numa carranca infantil – JAMAIS! Ele odeia médico, já me disse.

- Hã?

- Digo, eu sei que odeia. Da última vez que levei para vacinar ele quase teve um ataque! Fugiu do meu colo, quase o perdi de vista. Corri pela rua, se eu o perdesse, Gaspar, se ele sumisse.

- Nenhum bicho gosta de veterinário. Normal. Nem gente gosta de ir em médico também, mas é preciso se existe algum problema. Você o trata como um maldito bebê de colo.

Mr. White soltou um miado de contestação. Isis afagou seu pelo sedoso, o branco cintilava na penumbra da sala. Para mim, ele estava cada dia mais branco, quase reluzente.
 
- Um dia, nós vamos embora daqui, não se preocupe. Não vai precisar suportar mais nossas loucuras.

- Irmã, você precisa procurar ajuda.

Não lembro o que iria dizer em seguida, porque Mr.White roubou minha atenção. Ele me espiava no colo de Isis, ela estava envolvendo ele num abraço apertado que só me permitia ver um de seus olhos pela fresta dos braços cruzados. E por Deus, o gato estava sorrindo. Isso mesmo, pude ver as pontinhas das presas projetadas de um sorriso, sua cara estava amassada nos braços dela, mas pude ver com exatidão seu semblante humano.

Afastei da sala, sem dizer nada, e fui para o quarto. Um medo inexplicável tomou conta de mim me fazendo trancar a porta antes de dormir.

Os dias se passaram sem que eu tocasse no assunto do gato com Isis, mal via os dois em casa. Preferi deixa-los em paz, quanto menos olhasse para a cara daquele animal, melhor seria.

Em certas ocasiões, perguntei ao M a procedência do gato, ele apenas disse que ele apareceu num dia de chuva à porta da sua casa miando com fome. M começou a alimentá-lo, então, ele foi ficando. Questionei sobre a má impressão da sua esposa, Yolanda, em relação ao bicho, M não sabia explicar o que era, e ela também não sabia dizer, apenas não gostava do gato. Não comentei sobre a malignidade que percebia no seu olhar, julguei ser apenas coisas da minha cabeça. Estava preocupado com a saúde mental de Isis e acabei relacionando isso ao gato. 

Ele estava conosco há um ano, não conseguia mais interagir com minha irmã. Mal a via fora do quarto. Vez ou outra podia escutar sua voz nas madrugadas conversando, sussurrando e rindo sem parar com o gato. Temia pela saúde de Isis, por isso, procurei um médico psiquiatra. Ele não podia agir sem o consentimento dela, mas Isis insistia em dizer que não precisava de ajuda. Foi então que, aproveitando da sua ausência em uma tarde, Isis fora para última audiência do processo de divórcio, resolvi confrontar Mr. White.

O gato estava deitado no seu lugar, no batente da janela da sala, a luz da tarde incidia em seu pelo branco reluzindo uma estranha tonalidade azulada. Ele dormitava, a cabeça de pé e o corpo todo espichado, o rabo balançava com sutileza como se possuísse vida própria. Sentei no lugar de Isis no sofá, sua cabeça ficava abaixo dele. Quando me virei para fita-lo, Mr. White estava me olhando atento, como se não estivesse cochilando antes, sentado e tenso. Seu corpo era grande, não percebi o quanto tinha crescido.

- Mr. White, Mr. White... – estendi a mão para tocá-lo, ele permaneceu inerte, os olhos faiscavam de ódio.

Toquei entre seus olhos, tentei acaricia-lo, mas permanecia me olhando atento. Na minha pouca experiência com gatos de conhecidos, eles gostavam do toque sobre os olhos, na cabeça, geralmente, se derretiam, mas Mr. White permanecia sério, e seu ruído ronronante estava mudo.

- Sua dona está precisando de ajuda, Mr. White. Ela está perturbada, e isso me preocupa muito. Eu temo que esteja enlouquecendo desde que aquele maldito fez o que fez o que ela. Isis te contou o que ele fazia?

O gato continuava me encarando o que me fez abaixar os olhos, todo meu corpo tremia.

- Ela te conta tudo, não é? – levantei os olhos, para meu horror Mr. White estava sorrindo.

A luz que emanava do seu pelo ganhou uma fluorescência insuportável. Cobri os olhos e tentei me levantar do sofá, mas não pude. Meus músculos estavam travados, meus ossos tremiam e a pior de todos dores se manifestou no centro da minha testa, entre os olhos. Mr. White pulou da janela sobre meu corpo, caminhou sob patas leves por meu abdômen e sentou-se no colo. Ficou me encarando, o sorriso expandindo. E então, veio a voz de algum lugar distante.

- Nós somos muitos, Gaspar, e estamos vindo de muito, muito longe. Você está precisando de ajuda, Isis está precisando de ajuda, todos seres humanos estão doentes, quebrando o equilíbrio. E nós, estamos aqui para ajudar.

Minha arcada dentária parecia bamba, os dentes se chocavam tamanha era a tremedeira que me dominava conforme ele me encarava e a voz infiltrava-se na minha mente através da dor lancinante no centro da testa.

- O que vocês fazem com as pragas que invadem suas casas, plantações, cidades? Exterminam. Sabe por que exterminam? Porque, oras, pragas acabam com tudo, incomodam, causam desequilíbrio no ambiente. E o que são vocês, Gaspar? O que são se não uma praga espalhando pestilência?

Escutei o ruído do carro de Isis estacionando na garagem. Meu corpo relaxou de uma vez, desabei no sofá. Estranho, mas acreditei que tinha morrido mesmo ouvindo tudo ao redor. A porta abrindo, Isis chamando pelo gato e ele miando. Isis me chamando baixo, preocupada. Tudo tão distante, como eu poderia estar morto se continuava ouvindo?

Acordei na manhã do dia seguinte, no leito de um hospital. Isis me olhava sentada numa cadeira ao lado, Mr. White descansava em seu colo dentro de uma sacola.

Naquele instante, uma onda forte de amor e submissão me atingiu ao vislumbrar os olhos amarelos me fitando. A dominação mais eficaz se manifesta de forma sutil, macia e dócil.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 14/05/2018
Alterado em 14/05/2018
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