O absurdo
por Larissa Prado
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O Vulto
 

O que vejo será apenas uma emboscada da minha mente? Olho em volta e todos estão com a atenção voltada para seus celulares. Ninguém parece perceber nada estranho. Constrangida, evito continuar olhando para o outro lado da rua. É meio-dia, o ponto de ônibus está apinhado de pessoas, mas nenhuma olha para o lado oposto. Ele continua parado em frente da loja de variedades, tenho a sensação que corresponde meu olhar.

Consigo desviar minha atenção por alguns minutos quando algum ônibus passa ou para descarregando passageiros. Assim que eles vão embora volto a ver a figura do outro lado. Meus olhos não conseguem parar de observá-lo.
A pessoa ao meu lado também parece notar o vulto. Ela está paralisada, os olhos estão perplexos. Pergunto a ela se consegue ver o vulto, a senhora não me escuta, permanece embasbacada. Estou convencida de que somos espectadoras da mesma absurda visão.

Mais um ônibus parou, mas continuei vendo o vulto através dele. A imagem parecia fundida à lataria, como uma tela em alto relevo. Pela primeira vez ele se moveu. Cheguei ao ponto às 14:05, passaram-se trinta minutos desde que o vi aparecer do outro lado da avenida. Naquele momento, ele deu o primeiro passo e começou a atravessar a rua vindo na minha direção. A luz do sol incidiu sobre sua cabeça negra sustentada pelo pescoço muito grande. Seus membros também eram exagerados em extensão com as mãos arrastando-se no asfalto enquanto ele caminhava.

Movi a cabeça para checar se a outra espectadora conseguia ver o bizarro vulto se deslocando em nossa direção. Para meu assombro, todas as pessoas que se amontoavam no ponto tinham desaparecido. Não existia mais nada em volta, nem mesmo o ônibus estacionado. Eu me vi sozinha enquanto o vulto se aproximava mais e mais. Ele parou ao meu lado, levantei o rosto para olhar de perto aquela criatura. Seu rosto era apenas um buraco negro. Ele não me tocou, ficou apenas me olhando, ou pelo menos era assim que me sentia: sendo observada por um rosto sem olhos. Era mais o peso de um olhar frio que vinha daquela cabeça ovalada.

Às três da tarde meu ônibus desceu a avenida, estava prestes a parar quando me joguei na sua frente. O motorista tentou desviar, mas era tarde. Ainda continuei vendo a forma do vulto ali entre as rodas. Seu longo pescoço inclinou para o lado a fim de me ver melhor. A mão com longos dedos frios aproximou da minha, virada no punho em um ângulo doloroso. “Feche os olhos”, uma voz soou em meus ouvidos, baixa e cadenciada, sabia que vinha do vulto.

Então, fechei os olhos, acatando a ordem sem qualquer resquício de consciência própria. Sua voz era como se fosse minha, suas ordens eram para mim. Quando reabri os olhos me vi numa terra vazia, cercada de milhares de vultos longilíneos. Lá, não haveriam avenidas nem pontos de ônibus, senti a crescente e inabalável agonia de uma criatura sem forma.  
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 12/05/2018
Alterado em 12/05/2018
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