O absurdo
por Larissa Prado
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Um estranho visitante


Não é fácil lutar para realizar as tarefas mais simples do cotidiano. Sair da cama se tornou a parte mais complicada dos meus dias, preciso contar com a ajuda das enfermeiras para fazê-lo. Todo o meu corpo dói. Os ossos parecem peças de chumbo prestes a arrebentarem os músculos fracos. Usar o banheiro ou me alimentar? Sem dúvida, atividades que se tornaram suplícios.

Aos poucos, a vida foi se reduzindo às enormes dificuldades dos pequenos atos do dia-a-dia. Depois de dois meses preso ao leito do hospital, perdi a esperança de um dia voltar para casa.

Minha querida Lidia está tão exausta. Sinto que me torno um fardo mais pesado do que ela pode carregar. Resoluta, se mantém ao meu lado mesmo quando peço para que se liberte das amarras de uma vida ao lado de um paciente terminal. O problema não é mais a morte, isso foi no início quando ainda acreditava que não estava acontecendo de verdade. O grande incômodo nem mesmo vem das dores, limitações, fraquezas. O que mais atormenta é a espera.

Ao abrir os olhos toda manhã, espero estar em outro lugar. Sem dores, sem a decomposição da matéria. Longe, em paz. Mas, a luz mortiça que atravessa a janela do quarto parece trazer os cheiros enjoativos do hospital. Em um logo suspiro percebo que a espera continuará sob as primeiras latências das dores a percorrer meu corpo.

A expectativa do meu médico foi de apenas três meses de vida, mas se passaram seis e a espera continua. Nos últimos dias, algo inesperado aconteceu. Recebi uma estranha visita. Com o passar dos meses, os amigos deixaram de vir, alguns ainda enviam flores. Os familiares diminuíram bastante suas vindas. Lidia permanece invulnerável cumprindo bem seu dever de boa esposa, ela ainda me faz companhia todos os dias.

A presença do homem me causou boa surpresa. Era bom ver alguém diferente de Lidia e das enfermeiras, mesmo que fosse alguém como ele. Podia ver apenas seus olhos através das bandagens. Eram estranhos, opacos e sapientes, como se guardassem segredos obscuros, típico olhar de quem viu demais e sabe demais. Havia um traço forte de astúcia. O resto do corpo estava coberto por ataduras como se ele tivesse acabado de levantar de um sarcófago. Olhei para seus pés, descalços, enormes, sem unhas.

Minha primeira reação foi cobrir o rosto para me livrar do cheiro que vinha dele. Enjoativo, muito adocicado na tentativa de esconder um traço de fedor azedo de carne decomposta. Ficamos em silêncio, eu avaliava sua figura lastimável. Passado o impactante assombro da primeira impressão, senti muita pena. Imaginei as dores horríveis que as queimaduras provocavam. Ele, por sua vez, permaneceu parado entre a porta e os pés da minha cama. Não me olhava, seu olhar estava fixo em algum ponto fora da janela.

- Você está aqui no hospital faz tempo? – perguntei.

O homem não respondeu, diante do som da minha voz apernas inclinou um pouco o rosto na minha direção. Na abertura das bandagens sob os lábios se projetavam coisas em forma de pinças como mandíbulas de alguns escaravelhos.

Tentei me sentar, mas não restava força em meus músculos. O homem virou com lentidão e deixou o quarto. Eu não sei por quanto tempo fiquei olhando embasbacado para a porta com medo que ele voltasse. Uma sensação muito ruim tomou conta de mim e não tinha nada a ver com a espera.

Desde a visita do estranho de ataduras, não me sinto bem. Perdi a noção de tempo. Perguntei para uma das enfermeiras sobre o paciente vítima de queimaduras pelo corpo. Ela garantiu que não havia nenhum naquela ala do hospital, pois, eles tinham um lugar próprio para esses tipos de casos, e não ficava ali onde eu estava. Encabulado, contei para ela sobre a visita do estranho, escondendo os detalhes das pinças nos lugar de lábios, julguei ser a minha imaginação afetada pelos fortes tratamentos químicos. Ela me olhou com pena, como se eu não passasse de um lunático e me aconselhou a descansar e tentar dormir.

Não consigo mais dormir desde que ele veio. Caio em sonos leves, cochilos que não descansam e só acentuam o desgaste físico e mental, acordo suando frio e tremendo envolvido pelo cheiro agridoce e enjoativo dominando o quarto.

Depois daquele dia, as dores sumiram pouco a pouco. Ganhei novo ânimo, visto pela minha Lidia com imenso alívio e satisfação. Ela sempre repete que é um milagre, eufórica, segurou um pequeno espelho diante meu rosto enquanto exclamava.

- Olha! Nem parece você! Deus te deu outra chance!

De fato, os meus traços estão diferentes, de alguma forma alterados de tal modo que não posso me reconhecer. Os meus olhos remetem a estranha opacidade sábia escondida atrás das bandagens do estranho. Quero dizer a Lidia que isso nada tem a ver com a vontade de Deus, mas permaneço calado em um corpo que não é mais o meu.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 04/05/2018
Alterado em 16/05/2018
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