O absurdo
por Larissa Prado
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A forma da dor

 
 
1

Quando penso sobre a dor crônica, imagino como deve ser sua forma. Ela está comigo há 12 anos. Chegou em uma manhã de Segunda-feira. Não lembro como foi que tudo aconteceu.

Alguns dias quase chego a acreditar que ela dará uma trégua, mas o latejar no lado esquerdo do rosto me confirma sua presença. Não há meios de me livrar por completo. O doutor Sebastian receitou medicamentos para diminuir, mas isso não significou que ela acabou. Durante os primeiros meses após o incidente, nada conseguia trazer alívio. Depois, no segundo ano, Sebastian acertou ao me receitar um remédio que associado aos corticosteroides que já tomava aliviou um pouco a Dor. Sua forma se reduziu a um pequeno bloco pesado projetando espinhos sob os músculos faciais.

Sorrir dói. Chorar é pior ainda. Mas de todos incômodos, o maior deles vem quando preciso falar. Com o tempo desaprendi a me expressar através do rosto. Foi melhor torna-lo inativo, ele se reduziu a essa horrível máscara inexpressiva e deformada de um lado.

Estou falando apenas sobre a dor crônica que chegou por causa do incidente do qual não me recordo de forma alguma. No entanto, existe uma dor mais forte, essa não tem forma ou remédio. Quando me olho no espelho não me reconheço. Essa intrusa monstruosa com quem preciso conviver, carregar comigo durante todos os dias é a Grande Dor, a que se instalou na alma.
 
2
 
Ao todo são três comprimidos por dia para contê-la. Um a cada turno: manhã, tarde e noite. Ao longo desses 12 anos nunca fiquei sem toma-los, são indispensáveis para que continue vivendo. Assim que o efeito está prestes a terminar engulo outro comprimido, tudo para não sentir a Dor em todo seu real potencial. O que era para ser apenas 3 vezes ao dia se tornou 6, depois 12 vezes. Digam o que quiserem, mas apenas quem sente a dor sabe o quanto dói. Viciar no que nos traz conforto é fácil, chega a ser prazeroso.

Como de costume, faltava três comprimidos para minha última cartela de remédio acabar quando fui comprar outras caixas para estocar. As visitas ao doutor Sebastian pararam depois que aprendi a falsificar as receitas. Diante do balcão da farmácia, segurava a receita nas mãos que suavam frio. Eu podia sentir o coração palpitar como devem se sentir os viciados prestes a comprar a próxima dose de entorpecentes.

Jean me cumprimentou, era o farmacêutico que já me conhecia. Gostava dele, nunca se intrometia sobre a quantidade de caixas que eu comprava por mês, mais do que isso, gostava dele porque, diferente dos outros atendentes, não encarava minha deformação facial com asco ou curiosidade.

- Sinto muito, Victoria, mas dessa vez vou ficar te devendo. Esse remédio está em falta no mercado.

Meu mundo ruiu em questão de minutos entre o “bom dia” dele e aquela maldita informação.

- Como assim? Em falta só aqui, né? Mas posso encontrar em outro lugar?

- Improvável. Está em falta em todas redes. É algo com o fabricante, mas tenho similares para dor.

- Não. Obrigada.

Sai pelas ruas, andei toda cidade em busca do medicamento. Não tinha em lugar nenhum. Diante dessa nova realidade, ela se manifestou com toda sua força como se quisesse me dizer “Estou aqui para ficar! Você não vai mais me conter!”.

Era noite quanto voltei para casa e me tranquei no quarto escuro. Ingeri meia-dúzia de todos os tipos de remédios para dores, mas aquela não era uma dor comum. Era a Grande Dor, perdi minha principal arma para combate-la. O desespero se instalou, mas qualquer tipo de sentimento diminuía, se tornava irrelevante diante Dela.
 
3
 
Naquela noite, os sonhos esquisitos retornaram me fazendo despertar várias vezes. Em nenhuma delas consegui me lembrar o que me deixava coberta de suor frio e tremores pelo corpo. A memória não colaborava. Por mais que me esforçasse, nada aparecia nas lembranças sobre aquela manhã de Segunda-feira. Nada vinha além dos latidos.

O doutor Sebastian me disse que estou passando por um processo de amnésia dissociativa. Minha mente quer me proteger de algo muito ruim, muito traumático. Fico pensando sobre isso sempre que tento me lembrar. Às vezes, sinto que não consigo evocar as memórias por medo do que vai estar escondido atrás da porta das lembranças censuradas pelo cérebro. Mas algo sempre escapa, é o som dos latidos.

Por um mês fui atrás do meu remédio contra a Grande Dor, não encontrei. Cheguei ao ponto de telefonar para a indústria farmacêutica responsável por sua fabricação, ninguém me atendeu. Com o retorno progressivo da Dor mesclado às crises de abstinência não consegui sair da cama.

No escuro, toco meu rosto obliterado do lado esquerdo, os dedos afundam na cavidade ocular vazia. A pele dói, a mandíbula faz um ruído estranho como porta enferrujada. Eu me sinto cansada em concentrar toda atenção na Dor. Ela está vencendo. Os remédios comuns não ajudam em nada, só fazem o estômago enjoar. Como fui perder meu rosto? Pergunto em voz alta na esperança que a memória escute e possa ver que não precisa mais me proteger. Eu preciso saber o motivo de tanta Dor. A forma como ela me encontrou.
 
4
 
Acordo com o som de sirenes atravessando minha rua. Ainda é muito cedo, o despertador marca 6:30. Um cão late ao longe, seus latidos me paralisam. A respiração está difícil como se não conseguisse passar pelos pulmões. São latidos roucos de um cachorro grande. Estendo a mão para o abajur, a luz que vem dele parece iluminar os cantos obscuros da minha memória.

Não me chamo Victoria, não sou quem acreditei ser nos últimos 12 anos. Eu forjei outra personalidade. Os latidos do cão se tornam mais altos e próximos como na manhã daquela Segunda-feira em que eu e Marlon entramos na casa do senhor Assis.

- Vamos ser rápidos – Marlon me alertava – é só pegar e sair.

O que estávamos fazendo? Eu era jovem, Marlon também, iríamos nos casar. Ele tinha perdido o emprego. Assis era seu chefe, um empresário muito rico. Naquele dia, ele estaria viajando, Marlon sabia a senha do tal cofre, ele me garantiu que a casa estaria vazia. Sabia como desativar o alarme e as câmeras de segurança. Ele tinha conseguido o código do controle remoto, Marlon era muito bom nessas coisas. Mas o que diabos eu fazia lá com ele?

- Pegue tudo de valor, não vamos levar nem 20 minutos aqui dentro. – Marlon estava empolgado.

Não havia ninguém, tudo estava saindo conforme o esperado. Eu esperava ele do lado de fora, tremendo de medo, e acho que de arrependimento, quando escutei os latidos atrás de mim. Não vinham de um, mas de dois cães grandes e fortes, troncudos como pit bulls. Suas bocas arreganhadas expeliam fios grossos de saliva.

Escutei Marlon gritar para eu correr, ele estava em pé na varanda de um dos quartos. Levantei os olhos para ele, atordoada, o pensamento lento diante o inesperado, naquela fração de minutos eu perdi a chance de correr na direção do carro que iria nos levar para longe dali. Lembro de lançar a mochila contendo objetos do roubo contra os animais, mas eles estavam determinados e possuídos como se seus graves latidos raivosos gritassem “não toque no que é nosso, vadia!”.

O primeiro saltou sobre minha garganta, mas consegui segurar seu pescoço sacrificando as mãos na mandíbula nervosa. Isso explica porque me falta parte de alguns dedos. O segundo abocanhou a minha calça jeans e sacudiu até que perdesse o equilíbrio. Cai ainda abraçada ao corpo do primeiro cão que conseguiu arranca em duas mordidas pesadas parte do meu rosto. Ali, naquele exato momento, foi a primeira vez que ela se manifestou, a Grande Dor, que me acompanharia pelo resto da vida.

Marlon conseguiu ferir os cães usando o pé de cabra que levamos, mas eles ainda tiveram força para abocanhar suas panturrilhas, não foram ferimentos graves porque ele me carregou no colo até o carro. No trajeto, sentia meu olho pulsar fora da órbita enquanto lamuriava em sussurros para ele:

- Marlon... o que fizeram comigo?

- Vai ficar tudo bem, Ellen. Você vai sobreviver.

Meu rosto molhado pelo choro convulsivo das lembranças que extravasaram as barragens da mente, doía. Chorar era torturante tamanha era a Dor ao tencionar os músculos. Nunca mais soube de Marlon, nem mesmo recordo-me da sua fisionomia, mas suas últimas palavras “Você vai sobreviver” me fazem questionar todos os dias “Será?”.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 01/05/2018
Alterado em 01/05/2018
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