O absurdo
por Larissa Prado
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Através do véu

 
 
O que ficou da experiência foram os sons. Há dois meses não me interessava pensar sobre a frágil linha que divide a vida e a morte. Pouco – ou quase nada – me importava por assuntos metafísicos, espirituais. Mesmo depois que meu pai morreu. Eram os tipos de ideias das quais fugia. Até a noite fatídica que se tornou um divisor de águas na minha vida, definindo quem fui e quem me tornei.

Durante a infância me mudei muitas vezes com meu pai, éramos apenas nós dois, não cheguei a conhecer minha mãe e não o perturbava com perguntas. Aceitava o que a vida me oferecesse de bom ou ruim. Nossa vida era agitada porque papai era um tremendo golpista. Não é à toa que morreu alvejado pela polícia em um dia de domingo quando tentava assaltar um caixa eletrônico com dois comparsas. Ele não foi um homem exemplar, mas não o julgo. No fundo, todos querem mudar a vida para melhor, mesmo que os meios não sejam lá motivos de orgulho.

Quando ele se foi, aprendi a me virar sozinho. Não era tão criança, tinha 20 e poucos e a esperteza herdada de papai, mas não a direcionei aos trambiques. Nunca tive a mesma força de vontade dele para os caminhos ilícitos, eles dão muito trabalho. Ao invés disso, procurei estudar e arranjei um emprego como instalador de TV a cabo. Foi assim que conheci o Miguel e o mundo dos alucinógenos.

Nós trabalhamos juntos por três anos na empresa de TV por assinatura. Então, no último ano passamos a usar um tipo de droga sintética que Miguel chamava apenas de LB, todo fim de semana. Até que as coisas saíram dos eixos. Não sei se exagerei na dose, se o que vivenciei foi real, mas o fato é que ainda hoje posso ouvir os sons, vislumbrar o que há por trás da cortina que deveria ter se mantido fechada, camuflada sob os efeitos caóticos da realidade cotidiana.

Passava da meia-noite, estava na casa de Miguel, a televisão ligada em algum seriado cômico fazia meu estômago girar. Tínhamos ingerido as doses habituais, nem mais nem menos. Miguel permanecia sentado ao meu lado sussurrando frases desconexas, falando consigo mesmo. Seu cachorro descansava num canto do sofá, acostumado àqueles encontros. Eu não me sentia bem, algo estava diferente, errado.

As percepções visuais alteradas eram esperadas, aliás, era por elas que continuava usando, mas daquela vez estava acontecendo uma bad trip, nunca tinha me aventurado por uma apesar de Miguel me falar sobre isso. As coisas começaram a ir por um caminho sem volta, podia sentir. Quando fechei os olhos como sempre fazia não consegui mais abri-los, cai em uma espiral fora do tempo-espaço. Podia ouvir os sons da televisão ao longe, as risadas do seriado se elevavam e se multiplicavam em multidões de risos. A queda livre fez meu estômago rodopiar mais alto. E foi então, depois de cair em espirais por quase 1 hora que a voz do meu pai me acordou. Por um momento, quase acreditei ter retornado aos tempos de criança.

- Ei garoto, por onde andava?

Seu rosto estava bem próximo ao meu, era horrível, uma máscara cadavérica em decomposição. Eu me levantei do sofá numa sala que não era mais a da casa do Miguel. E veio os ruídos, altos e estrondosos, de uma locomotiva em movimento misturados aos urros bestiais e risos. Olhei em volta, alguns passageiros me encaravam, seus olhares eram demoníacos, maliciosos, arrepiantes. Procurei por meu pai, ele estava sentado numa das cadeiras do vagão. Não sei como, mas ali estava eu de pé no meio de um trem em movimento.

- O que é isso? – perguntei para meu pai.

- Meu filho, não vá dizer que não sabe.

Quanto mais olhava para seu rosto mais meu estômago doía, era um horror em carne viva. Marcas de queimaduras cobriam suas mãos, pescoço, fazendo a e pele derreter como marshmallow. Ignorei meu pai, certo de que era apenas uma das viagens provocadas pelos dois comprimidos que tinha ingerido na casa de Miguel. Caminhei até o último vagão, estava lotado, pessoas se aglomeravam em um empurra-empurra asqueroso. Todas elas fediam a carniça e carne queimada. Os piores sons vinham de fora e ao olhar pela janela vi apenas terras devastadas pelo fogo e um céu vermelho-sangue.

- Aonde estamos indo? – perguntei a uma mulher que tentava se levantar do banco.

Ela levantou um rosto sem olhos para mim e deu o sorriso mais podre que vi na vida, os dentes bambos sacudiram.

- Voltando, nós estamos sempre voltando.

Sai do meio do aperto daquela massa de pessoas horríveis e retornei ao primeiro vagão. Papai não estava mais lá, e a locomotiva parecia ter parado. A porta estava aberta me convidando para sair, mas não o fiz, permaneci dentro, tremendo de medo. Os gritos de dor que subiam do lado de fora para o céu avermelhado faziam todos os pelos do meu corpo arrepiarem. A angústia me dominou misturada ao pânico. Sentei e fechei os olhos na esperança de retornar à minha realidade.

A onda de pestilência me atingiu de novo anunciando a entrada de novos passageiros moribundos, olhei para eles que eram indiferentes à minha presença. Sentaram em seus bancos, a locomotiva fez seu ruído estrondoso e partiu sob os trilhos que faiscavam.

- Você atravessou o véu? – abri os olhos, uma senhora decrépita e tortuosa estava virada para mim no banco da frente.

- Que véu? – minha cabeça latejava.

- Você não é como nós, atravessou o véu, se perdeu aqui? Mas você parece ser bom.

Levantei, a visão do seu rosto tortuoso, cravado de sulcos e bichos rastejantes saindo pelos orifícios me encheu de repulsa, o pior era o fedor. Como aquelas pessoas, ou o que quer que fossem, fediam!

Lá a noção de tempo não existia, por isso, não posso dizer quanto tempo durou a viagem no trem. Quando a voz de Miguel me trouxe de volta à realidade da sua sala, eu saltei do sofá, chorando de alívio. Não passava de um maldito pesadelo. Ele ficou me olhando assustado, branco feito papel, mas não disse nada. Fui embora e não voltaria mais a ver Miguel dali em diante.

Ao retornar para casa, podia ouvir em algum nível de consciência, o som distante de uma locomotiva e os gritos como se uma TV estivesse ligada baixinho no fundo da minha mente. Estava amanhecendo, algumas pessoas caminhavam pelas ruas, outras se aglomeravam nos pontos de ônibus, ao observá-las podia ver sombras se aglomerando em torno delas, exalavam o mesmo fedor das criaturas nos vagões. Pareciam sedentas enquanto as pessoas sustentavam semblantes de cansaço extremado e melancolia.

Por dias os ruídos me perseguiram, assim como as imagens de vultos negros seguindo todos à minha volta. E continuam me seguindo em qualquer hora do dia. As palavras da senhora tortuosa do primeiro vagão ainda me assombram toda noite antes de fechar os olhos “você atravessou o véu?”. Inconscientemente, a resposta baila por trás das memórias daquela viagem na locomotiva, “sim, claro que sim”.
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 25/04/2018
Alterado em 25/04/2018
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