O absurdo
por Larissa Prado
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O desconhecido

 
 
“Essa é minha faca e ela tem um gume afiado, sim, tem. E ele vai entrar cortando fundo sua carne. Quando eu puxar vai ser devagar e vai sair rasgando, tudo bem lento. Ah sim, vai querer dançar valsa com o capeta no inferno, meu bem, e nem preciso dizer que isso é só o começo”. Isso eu escutava dentro de um freezer vazio e desativado. A voz era sussurrada, o choro da Maitê me impedia de ouvir com clareza, mas deduzi que era algo assim ou até pior.

Ele não nos perseguiu porque era um lunático, maníaco ou drogado. Ele fazia aquilo porque gostava, dava para sentir na forma que sua voz cuspia as ameaças. A forma que o choro da Maitê se elevava a cada golpe calculado com frieza. Ele não queria nos matar por matar, a coisa toda estava em fazer sofrer. Sádico, mas muito esperto. Não dá para dizer que alguém como ele era louco porque existia aquele brilho sábio nos olhos, um jeito manipulador. Loucos não pensam direito, e ele pensava, até demais, do contrário não teríamos caído em sua armadilha.
 
Vou começar a história do jeito mais simples, do começo. Maitê é minha melhor amiga, dizíamos desde crianças que éramos irmãs. As pessoas acreditavam, apesar de sermos diferentes havia aquela conexão que logo fazia com que me ligassem a ela. Maitê sempre foi mais alta, esguia e atraente. Eu fiquei com o lado intelectual da dupla, sempre me orgulhei das minhas notas em cálculo e das lentes grossas em aros mais grossos ainda. Como Pink e Cérebro nós sonhávamos em conquistar o mundo, mas conquistar o mundo para nós significava apenas desbrava-lo. Conhecer o máximo de lugares possíveis quando ficássemos mais velhas.
 
Ao completarmos a idade adulta, decidimos fazer uma viagem de carro da nossa cidade até o lugar onde o namorado da Maitê estava vivendo e estudando. Eram mais de 900km, estávamos tão empolgadas. Assim que as férias de verão chegaram embarcamos em nossa primeira aventura na estrada. Tudo correu bem até a segunda cidadezinha antes de chegarmos ao destino desejado.
 
Paramos para abastecer num posto, mas não havia ninguém lá apesar da loja de conveniência estar aberta. Maitê me passou a direção para descansar, enquanto ela cochilava no banco do carona eu desci para usar o banheiro, comprar cigarros e tentar achar algum frentista. O lugar estava vazio. Até que ele surgiu por trás de alguns caminhões estacionados à leste do posto.
 
A princípio, achei que era apenas mais um motorista perdido em busca de atendimento. Seu rosto tinha traços sérios e sustentava um óculos de grau quadrado. Ele tinha um ar intelectual e aquilo me passou confiança. Tolice, eu sei, nunca a frase que mamãe vivia me dizendo fez tanto sentido “as aparências enganam”. E como!
 
Ele fez um aceno com o rosto na minha direção eu estava saindo do banheiro feminino que ficava ao lado da loja e ele vinha na minha direção.
 
- Você sabe se tem alguém aqui para abastecer? - ele me perguntou quando chegou mais perto.
 
- Não sei, estou procurando também.
 
- Aquele é seu carro?
 
Olhei na direção que ele apontou. Só tinha ele e outro carro, um sedan azul escuro, parado em outra bomba que julguei ser o dele.
 
- Sim.
 
-Acho que você está com algum problema no pneu dianteiro.
 
-Mesmo? Mas quando paramos em outro posto tínhamos enchido os pneus.
 
-Quer que eu dê uma olhada?
Aceitei. O carro era da Maitê, ela tinha descido e calibrado os quatro pneus. Não podia dizer se estava tudo bem com eles. Caminhamos de volta para meu carro. Ele calçava sapatos e roupas sociais, parecia um homem de negócios ou um pesquisador. Alguém inofensivo e solidário. Assim que nos aproximamos notei a porta de Maitê aberta, ela não estava mais ali. Olhei em volta, nenhum sinal dela.

-A minha amiga estava aqui - comentei com o estranho.
 
-Quando estacionei não vi ninguém, o carro já estava assim. Talvez ela foi na conveniência ou procurar atendimento? - ele olhou em volta também. Parecia tão confiável.
 
Os dois pneus dianteiros estavam murchos por completo. Não dava para dirigir daquele jeito.
 
-Os dois estão furados, você não tinha reparado? -ele estava dando a volta no capô observando os pneus.
 
-Claro que não! Quero dizer, eles não estavam assim até sei lá 2 horas atrás!
 
-Isso acontece às vezes, algo entra neles e nem percebemos, rodamos e rodamos até o estrago ser total.
 
Não importava, o que ele me dissesse eu acreditaria. Mecânica de carros não era meu forte. Não sabia nada sobre isso e ele parecia notar minha ignorância.
 
-Eu posso trocar, você tem estepe? Eu usaria um seu e usaria o meu nos pneus.
 
Àquela altura o sumiço de Maitê começava a me causar incômodo, mal escutei o que ele sugeria. Olhava em volta, procurando-a.
 
-Ah sim, obrigada!
Abri o porta-malas para que ele checasse o estepe enquanto tentava ligar para o celular da Maitê. A minha bateria estava dando seus últimos suspiros, para meu desespero ouvi o toque dela ecoar de dentro do carro.
 
-Qual é seu nome?- a voz dele veio de trás, eu guardava o celular no bolso da calça, procurando Maitê por todo lugar do posto.
 
- Pollyana, e o seu? - eu me virei, ele segurava o macaco hidráulico.
 
-Sua mãe nunca te disse para não falar com estranhos, Polly?
 
Os segundos que antecederam a surpresa foram mais dolorosos do que o golpe. Ele me atingiu no topo da cabeça com o macaco, mas não usou toda sua força. Lembro de sentir o impacto, algo quente escorreu entre meus olhos, o corpo perdeu toda força e caiu de uma vez. Os sapatos sociais dele iam e vinham no desfoque da minha visão. Então, eu apaguei de vez.
 
Quando acordei estava deitada num sofá de dois lugares. O lugar era um sótão, pé direito muito baixo, asfixiante. Cheirava a merda de ratos e penas de pombos. Minhas mãos estavam atadas nas costas com nós fortes. Tentei me mexer, mas a cabeça e pescoço doíam muito. Escutei o barulho de passos no andar inferior. Corriam para lá e para cá. Quando o grito de Maitê ecoou seguido de uma correria mais longa, compreendi o que estava acontecendo, mesmo com os ouvidos zunindo e as vistas embaralhadas, podia sentir que estávamos muito, muito, ferradas.
 
“Sua mãe nunca te disse para não falar com estranhos, Polly?”
Foram as últimas palavras dele que ficaram martelando na minha memória. Mescladas com o rosto de mamãe. Os sons da perseguição cessaram e ouvi apenas os passos dele subindo a escada do sótão. Eram passos ritmados, calmos, de sapatos sociais. Maitê gritava, mas sua boca devia estar obstruída porque a voz saía abafada e distante.
 
Ele apareceu trazendo ela jogada no ombro como se fosse um pedaço de pernil ou um saco de laranjas. Maitê estava nua, se debatia, sem meus óculos não conseguia definir o que eram as marcas por seu corpo, se eram hematomas ou sujeira. Talvez fosse hematomas sujos.
 
Eu chamei por ela, nunca pensei que aquela voz existisse em algum lugar perdido dentro de mim. Parecia a voz de uma esganada de uma menina assustada. Ela me olhou e seu rosto era uma máscara de dor, mesmo sem conseguir enxergar direito, podia delinear os traços do pavor.
 
Ele sequer me dirigiu a atenção. Não estava mais de óculos, só trajava calça social e os sapatos. Parecia bem mais forte do que aparentava e o rosto perdera o ar de seriedade, adquiriu algo inumano, frio, uma esperteza diabólica. Mas, de alguma forma, não identifiquei loucura ali, apenas ausência de algo. Era como se ele não tivesse alma.
 
O estranho amarrou os punhos da Maitê sobre a cabeça dela, jogando a corda por cima das vigas do telhado. Ela ficou pendurada como se fosse um animal pronto para ser abatido. As pontas dos pés mal tocavam o chão. Eu vi seu rosto fazendo sinais negativos com muita força. Os cabelos recém tingidos de louro brilhavam à luz mortiça do fim de tarde que entrava pelas minúsculas janelas do lugar.
 
 
-Seu maldito doente filho da puta. - falei para as costas dele. -vai matar nós duas, e aí? Vai atrás de mais mocinhas indefesas para brincar, pervertido? Porque não se mata, verme imundo.
 
Uma onda de raiva se apossou de mim. Ela suplantou o medo que me fez urinar nas calças e sentir o coração disparado. A raiva me encheu de força. Passei a insultar ele aumentando o tom de voz até que ele distraísse a atenção da Maitê. Queria tentar dar tempo a ela. Livrar ela da dor e do pânico. Continuei cuspindo meu ódio nele. Até que ele se virou na minha direção, e sorriu. Inatingível.
 
Havia esse freezer no canto do sótão. Só vi ele quando o nosso algoz me arrastou até lá pelos cabelos. Ele abriu a tampa e me jogou lá dentro. Estava desligado, tinha sido limpo, mas podia sentir ainda resquícios do odor de sangue quando ele fechou a tampa. Evitei pensar o que ele guardava ali em outros tempos.

Não demorou até que ele começasse a falar com Maitê, ameaçando, dizendo tudo o que faria com ela nos mínimos detalhes. Podia imaginar seu terror, o corpo todo tremendo e a cada grito de dor, era como se sentisse em mim os ferimentos. Não dá para colocar em palavras o que foram as horas seguintes daquela noite. Não digo nem pelo nosso sofrimento, mas pelo o que vi quando consegui abrir a tampa do freezer.

- Pode repetir como saiu de lá? – perguntou o investigador sentado à minha frente.

Para sair do freezer usei a cabeça, literalmente. Sou enfermeira, posso dizer que sei um pouco sobre o corpo humano. Tinha sofrido uma concussão depois da pancada que ele me deu com o macaco hidráulico. O corte tinha sido feio, mas nada além disso. Algumas micro lesões deveriam ter se espalhado pelo crânio quando o cérebro chacoalhou daquela forma violenta. Por isso digo, se ele quisesse me matar teria acertado com toda sua força.

Poderia aguentar algumas pancadas ainda, nossa cabeça é dura. Com as mãos atadas, precisei investir contra a tampa do freezer com os pés. Ela afastou alguns centímetros, era um aparelho antigo, as borrachas não pareciam selar direito. Aproveitei disso e revezei entre as pancadas com os pés e com a cabeça. Foi doloroso, o sangue começou a escorrer do corte de novo e voltei a chorar sangue, pelo menos era a sensação que me causava aquele líquido quente entre os olhos misturando-se às lágrimas reais.

Quando a tampa do freezer salto mais alto, segurei-a com a cabeça até conseguir projetar meu corpo para fora. Aquilo durou muito tempo, um verdadeiro trabalho de contorcionista. Cai com o rosto no chão, foi então que veio a pior das dores, desloquei a mandíbula na queda. A dor no corte do topo da cabeça não se comparava àquela. Não sei como me assim meio de lado, e vi Maitê dependurada, ainda balançando um pouco, coberta de sangue da cabeça aos pés. E ele, tinha sumido como se nunca estivesse lá.

- E foi então que ela te perseguiu? – o investigador não parecia ainda convencido.

É a terceira vez que conto o que aconteceu, nos mínimos detalhes, e sim, ela começou a me perseguir. Eu chamei seu nome enquanto lutava contra o próprio corpo para me levantar. É horrível andar com as mãos atadas nas costas, perdemos o equilíbrio. Quando consegui me colocar de pé andei até Maitê, achava que estava morta. Mas ela abriu os olhos e levantou o rosto para mim, os olhos estavam frios e espertos como os dele. Ela parecia estar com a mesma “doença” de raiva.

Fiquei tão feliz em vê-la viva que ignorei aquele olhar, comecei a chorar. Foi naquele momento de comoção que ela conseguiu desatar as mãos da viga do teto, não sei com qual força, e me ajudou a me soltar. Ela não parecia sentir dor, e seu corpo estava horrível, todo dilacerado, mordido. Nós duas descemos as escadas às pressas, eu estava prestes a abrir a porta da sala, quando Maitê começou a gargalhar às minhas costas. Ela ria alto como se fizesse eco numa sala toda mobiliada. Eu falei para ela correr antes que ele voltasse. E ela disse “Eu estou aqui, bem aqui”, mas com a mesma voz do desconhecido. Eu perdi a consciência, não sei se por influência dela, das pancadas na cabeça ou o choque, mas não resisti ao extremo cansaço e dor que me abateram. Só acordei com o barulho das sirenes dos seus carros.

- Pollyana, você contou a mesma versão nas três vezes. Não há falhas, incoerências no seu relato, mas precisamos que passe por uma avaliação médica. Você sofreu muitas pancadas na cabeça e é surpreendente até mesmo que esteja viva.

Eu trabalhei algum tempo em uma instituição psiquiátrica. Vi coisas lá que você não imaginaria, as doenças da mente são incompreensíveis até para quem trabalha com isso. Não há cura, muitas delas. Eu vi pessoas realmente loucas lá, perturbadas, vivendo em mundos imaginários, ouvindo coisas, transformando-se, mas posso te dizer com toda segurança do mundo. A loucura não está envolvida no que vivenciei naquele dia, nem da minha parte, nem da parte deles. Aquele homem não era louco, Maitê não ficou louca, eles pareciam apenas... contaminados, entende? Se eu estou com algum problema, não é na mente, mas pode ser na alma. Morro de medo da coisa que os tomou ter passado para mim, apesar que ainda me sinta a mesma. Vocês não encontraram os corpos, não é mesmo? Nenhum sinal deles? Devem achar que estou inventado tudo.

- Nenhum sinal, Pollyana, mas as evidências no local são compatíveis com o que contou. Houve luta, sim, há marcas de pés no sótão. Você não estava sozinha ali fantasiando isso tudo e se automutilando.

Eles podem estar em qualquer lugar, essa é a pior parte. Nós nem vamos perceber se voltarem, porque acho que eles se tornaram uma espécie de força assassina. Sabe? Eu temo muito por mim, não durmo mais com medo de encontra-los em sonhos ou de abrir os olhos e vê-los ao lado da cama. Sinto tanto medo que não saio mais de casa. A ideia de uma avaliação psiquiátrica é bem-vinda, mas infelizmente, sei que não vai adiantar. Talvez, eu poderia conversar com um padre. Não sou religiosa, fui à missa quando criança por causa dos meus pais, mas acho que seria bom agora, voltar a conversar com Deus. Porque o que vi e vivi não foi nada, nada humano.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 23/04/2018
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