O absurdo
por Larissa Prado
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A rua dos sugadores


 
“Os senhores que vêm da cidade não podem compreender
os sentimentos de um caçador!”

 
 
 
I
 
Eu me senti vacilar, assim que viramos a esquina em direção ao novo endereço. Não tinha mais certeza do que estava fazendo, se aquela mudança iria nos ajudar a superar o passado ou se os fantasmas iriam continuar nos perseguindo. Portanto, olhei para o lado e vi o sorriso de Gerta, ela estava certa de que tudo ficaria bem. Por isso, guardei para mim o mau pressentimento que me abateu assim que estacionamos em frente à nova casa.

Gerta abriu a porta de trás do carro, Odin saltou e foi logo cheirar o portão e marcar território. Ele era um vira-lata de médio porte que resgatamos há dois anos enquanto voltávamos de férias. Odin estava entregue à própria sorte na beira da rodovia, tinha moscas sobrevoando seu olho direito aberto em um ferimento provocado por algum instrumento contundente. Faminto e evocando talvez seus últimos suspiros, ele abriu seu olho sadio e nos fitou. Quando o sol bateu no seu fuço ressecado fazendo-o soltar um choramingo eu tive certeza de que deveria salvá-lo. Amei Odin naquele momento, e ainda hoje, ao lembrar dele sinto a mesma onda de ternura me assaltar. Era um cão inteligentíssimo e adorável.

Nossa mudança foi rápida, com o entusiasmo da vida nova organizamos tudo em menos de uma semana. Esquecia-me, assim, da má sensação inicial que me dominou. A animação de Gerta e Odin me contagiaram. Nos três primeiros meses vivemos dias de completa paz e boas energias. Aos poucos, Gerta conseguiu se desfazer dos pertences da criança e retomou o trabalho.
O vazio que Dylan deixara não foi preenchido, mas pelo menos conseguimos seguir adiante.

Apesar de ser filho de Gerta o considerava como se fosse meu. Quando ele desapareceu parte de mim morreu um pouco. Em algumas madrugadas, acordava na cama com Gerta ausente e ia encontra-la sentada na varanda do quarto olhando para a rua como se esperasse por ele, como se ele fosse aparecer perambulando por lá. Não sabia mais quais palavras usar para consolar, todas eram insuficientes.
 
 
II
 
Assim que Gerta voltou a trabalhar em seus projetos de decoração ela conseguiu alguns clientes importantes. Um deles era o casal que morava em frente à nossa casa. Amadeu e Leena formava um tipo excêntrico, ele ganhava a vida vendendo seguros de vida e ela, nunca soube ao certo o que fazia, algo relacionado com revenda de cosméticos. Eles eram muito ricos para o tipo de função que exerciam, quase não os via em casa, as poucas vezes sempre se mantinham por trás de janelas trancadas.

Depois do quarto mês morando em nossa nova casa, eles tocaram a campainha para nos dar as boas-vindas. Algo atípico para nós, no outro bairro que morávamos, localizado do outro lado da cidade, não conhecíamos nenhum dos nossos vizinhos. Eles impuseram sua presença no jantar, Gerta ficou feliz em conhece-los, houve afinidades mútuas, comigo não foi tão fácil. Tratava-os com cordialidade, mas nunca consegui me sentir confortável na presença deles. Leena tinha sempre um sorriso expansivo no rosto, muito maquiado, e Amadeu estava sempre com um cachimbo que exalava um cheiro enjoativo. Eles pareciam personagens de alguma peça teatral, irreais, incômodos, cheios de trejeitos afetados. A verdade é que eles me passavam a impressão de viverem apenas envoltos em mentiras. Gerta, por outro lado, os adorava e os enfiou em nossa casa.

Por causa da hipoteca da casa passei a trabalhar o máximo que conseguia, mantinha um escritório de advocacia com meu primo. A situação financeira não estava boa para nós, desde que Dylan desapareceu eu mal aparecia no trabalho o que me fez perder bons casos. Quando eu chegava do trabalho, encontrava Amadeu e Leena sentados à mesa travando conversas animadas com Gerta. Assim que descia do carro podia escutar as boas risadas ao aproximar da porta de entrada. Aquela situação estava se tornando mais e mais desconfortável.

- Eu não acho bom que eles passem o dia inteiro aqui em casa. – disse para Gerta certa noite, depois de mais um jantar na presença do casal de vizinhos.

- Eles conseguem muitos clientes para mim. Peguei um projeto enorme de decoração de uma empresa. Eles são meus amigos, Herman. Não vai me impedir agora de ter amigos, né?

- Eu já te impedi de alguma coisa? Pelo contrário, dedico todo meu tempo e minha vida a você, Gerta. Desde que Dylan sumiu, por descuido seu, nunca mais pude pensar em mim. Agora, coloca dois estranhos dentro da nossa casa, não gosto deles. Não deveria confiar.

Ela ficou calada, eu sabia que tinha sido intransigente, mas o fato é que toda minha paciência se esgotara. Não conseguia mais manter os meus pensamentos presos na cabeça, tinha vontade de despejar tudo sobre ela como jamais fiz durante nossos 8 anos de casamento. Dylan desapareceu enquanto fazia compras com ela, como pôde ser tão distraída? Se tudo isso estava acontecendo em nossas vidas era tudo culpa dela.

Terminamos de arrumar a cozinha, fiquei pela sala vendo TV enquanto Gerta foi se recolher para dormir. Naquela noite, escutei ela chorar entre uma propaganda e outra do filme que assistia. Não sai do sofá, sem qualquer disposição em consolá-la dormi ali mesmo. Odin estava fazendo-lhe companhia, era o suficiente.
 
III
 
À medida que Amadeu e Leena entravam em nossas vidas eu me via afastado de Gerta. Passava muito tempo no escritório depois do expediente e quando Ignácio, meu primo e sócio, podia sempre saímos para tomar uns drinques. Fazia de tudo para não estar em casa, não queria encontrar o casal de vizinhos, muito menos suportar a melancolia de Gerta. Estava fugindo da minha vida.

Não sei quanto tempo essa situação perdurou. Olhando em retrocesso, creio que tudo desmoronou em menos de dois meses. Quando chegava em casa ela e Odin estavam sempre dormindo, eu não prestava atenção neles, apenas tomava uma ducha e me deitava na cama empurrando o corpo do cão aos pés de Gerta para me acomodar. Aos fins de semana, tratava de fazer pequenas viagens com amigos, Ignácio, e Angie, nossa secretária. Não sei como a relação extraconjugal começou, só sei que era a única forma de escapar do incômodo que se tornara a vida ao lado de Gerta. Não gostava de Angie de forma apaixonada, era apenas uma companhia diferente, jovial, sem traumas e lamúrias.

Gerta sabia, mas mantinha-se em silêncio desde a noite que lhe joguei na cara sobre o desaparecimento do seu filho. Ela nunca mais falou comigo. Quando passava minhas roupas e encontrava os bilhetes de Angie ela apenas os deixava sobre a roupa dobrada em cima da cama. Fazia questão de me mostrar que sabia de tudo e, mesmo assim, não reagiria, não reclamaria ou surtaria. Gerta tinha se tornado uma reclusa que só sabia pensar nos projetos que Amadeu e Leena lhe traziam, na amizade doentia que compartilhavam.

O fim se deu na volta de um fim de semana maravilhoso que passei com Angie numa pousada em uma cidadezinha montanhosa. Quando cheguei em casa notei que a porta estava entreaberta. Fiquei um tempo com a chave erguida na direção da fechadura. Agucei os ouvidos e escutei o choramingo de Odin como no dia que o encontramos à beira da estrada. Aquilo fazia tanto tempo, eu não era mais aquele homem, não sabia mais quem era ou o que estava fazendo da minha vida.

Entrei com cautela deixando a mochila da viagem sobre o sofá. Chamei por Odin, seu tom lamurioso se elevou, vinha do quarto. Andei pelo corredor, a velha má sensação me dominou os nervos, senti a boca seca e as pernas fracas. Chamei por Gerta e quem respondeu foi a voz de Leena.

- Estamos aqui, querido.

Vinha mesmo do nosso quarto. Por um momento, me senti mais calmo, Odin devia querer sair ou estava fazendo manha querendo algo, tentava me enganar mesmo sabendo que aquele seu tom lamurioso significava só uma coisa: dor, muita dor.

Assim que cheguei perto da porta do nosso quarto, ela também estava entreaberta, o cheiro do cachimbo de Amadeu me atingiu em cheio. Afastei a porta e vi a trilha de sangue que levou meus olhos até a cama. Odin estava com a cabeça no colo de Gerta, ela mantinha o rosto abaixado para ele. Leena e Amadeu posicionados atrás dela me encaravam com seus olhos impostores.

- Herman, sua esposa finalmente acordou. Ela abriu os portais para uma nova existência. Sinto informar que teremos que leva-la conosco. –

Leena estava nua, os cabelos vermelhos não estavam encolhidos no coque que sempre usava no topo da cabeça. Eles cobriam toda extensão do seu corpo, nunca imaginei que fossem tão longos. Ela parecia mais nova, o rosto afinado era até mesmo bonito. Leena para mim sempre pareceu uma senhora de meia-idade esdruxula.

Amadeu, por sua vez, tinha apenas a camisa social aberta, seu torso estava coberto de cortes superficiais, vergões feitos à unha. Ele abotoou a camisa e fumou seu cachimbo, me encarava com olhos brilhantes na penumbra do quarto de janelas e cortinas fechadas. Ele parecia maior do que eu me lembrava, como Leena conservava uma juventude atípica. Ambos deviam ter entre 50-55 anos, mas aparentavam ser apenas dois jovens de vinte e poucos.

Gerta levantou o rosto para mim, sua boca estava manchada pelo sangue de Odin, do seu pescoço vertia um jorro de sangue. Aquela imagem não parecia ser decodificada por minha mente, eu me sentia zonzo, nauseado, como se estivesse preso em algum outro tipo de realidade. Ansiando por retornar à vida normal.

- O que é isso, Gerta? – eu senti o choro embargar a minha voz – Que porra é essa que fez com Odin, sua puta desvairada!

Um sentimento inexplicável tomou conta de mim, eu sentia vontade de eliminar Gerta, ver Odin perdendo a vida em seu colo, aquele casal de loucos ali de pé, tudo culminou no meu surto. Avancei contra Gerta e derrubei o corpo de Odin no chão, afastando-o dela, mas em um movimento ágil Amadeu caiu sobre mim vindo não sei de onde. Ele me imobilizou por baixo do seu corpo e passou a me esganar com mãos muito fortes e unhas imensas.

O teto do quarto descia e subia enquanto o ar se tornava mais e mais difícil de passar por minhas vias. Meu corpo todo se debatia embaixo daquele homem que parecia pesar uma tonelada. Os rostos de Leena e Gerta surgiram por cima da cabeça dele. Minha esposa não sorria, seus olhos estavam diferentes, de íris amarelada como olhos de felinos. Leena sustentava seu típico sorriso expansivo, a diferença era que os dentes pareciam afiados como se todos fossem presas.

A tormenta deve ter durado pouco, mas a sensação era que não iria acabar nunca. Amadeu livrou o meu pescoço da pressão, não sabia mais como respirar e me sentei louco por um pouco de ar, arfando. Não tive tempo de restabelecer os sentidos, Amadeu agarrou o colarinho da minha camisa e me arrastou pelo quarto com facilidade, me jogaram sobre o corpo frio de Odin, a língua pendia do canto da boca e seus olhos estavam vidrados. Tentei me afastar dele, mas Leena me segurou em um abraço forte por trás das costas. A última imagem que vi foi a enorme boca de Gerta se abrir próxima ao meu rosto. Depois veio a escuridão indolor.

 
IV

Os primeiros raios de sol conseguem atravessar as cortinas do quarto. Com as mãos e pés amarrados, acordo sobre a cama. O fedor que me atinge é tão inconcebível que viro para o lado e regurgito o resto da minha última refeição que deve ter sido há 24 horas. O corpo de Odin atrai moscas e compreendo que é ele quem está exalando aquela pestilência de morte. Demoro até me situar, as dores pelo corpo me fazem despertar de uma vez. Observo minha situação, estou nu, todo meu corpo possui marcas de mordidas profundas, em alguns pontos como na altura das costelas arrancaram lascas de pele e carne.

Fecho os olhos e me recordo do dia em que viramos a esquina em direção a essa casa. A sensação ruim que me atingiu. Nossa rua composta por casarões antigos, sem nenhum sinal de vizinhos. Todos escondidos por trás de cortinas fechadas. A visita de boas-vindas do casal de vizinhos da frente. O cheiro enjoativo que o cachimbo de Amadeu deixava nos ambientes, as risadas afetadas de Leena. São elas que me tiram do transe das recordações, elas estão vindo lá sala.

Atendendo ao chamado da sobrevivência me remexo na cama tentando de todas formas me soltar das amarras que fizeram com fios. É impossível desatar os nós cegos, quem os fez sabe tudo sobre tipos de nós. Imagino que tenha sido Amadeu. Ele e seu bigode fora de moda sobre os lábios pequenos, como se fosse uma mistura tragicômica de Adolf Hitler e Chaplin. Ele com seus olhos miúdos e analíticos, conversando sobre política em um linguajar rebuscado e antiquado para nossos tempos. Leena continua rindo alto, não escuto sinal de Gerta, mas ela sempre foi discreta, nunca fazia barulho ao caminhar pela casa, falava baixinho, me conquistava por causa da sua vulnerabilidade.

A porta do quarto está aberta e meus olhos repousados sobre ela na expectativa de algo aconteça a qualquer momento. Demora metade do dia até que Gerta apareça ali. Dormitando e tentando ignorar todas dores que me atingem, não percebo quando ela se aproxima da cama. Ao sentir sua presença ela está sentada ao meu lado avaliando as unhas.

- Querida – murmuro  - escute bem, me solta, vamos dar um jeito nesses dois, me solta e vamos dar o fora daqui. Gerta, eu te dizia sempre, eles são estranhos, nunca confiei...

Ela cobre meus lábios com os dedos de unhas afiadas. Os seus olhos estão amarelados. Não foi um pesadelo, Gerta está com eles. Essa percepção faz meus olhos voltaram a derramar lágrimas. Ela abre um corte em uma das minhas bochechas com a unha do indicador. Aproxima os lábios e começa a chupá-lo com voracidade. Seu cheiro é bolorento como se não se lavasse há semanas.

Do lado de fora, escuto passos, muitos passos, entrarem pela porta da sala. As risadas de Leena são abafadas pelas conversações indefiníveis. De quem são aquelas vozes? De onde vieram? Ao longe, o cão de algum vizinho solta uivos intermitentes. Depois vem a escuridão, por trás das minhas memórias a nossa entrada naquela rua sempre está se repetindo com novos elementos em cada rememorar. Olhos amarelos por trás das cortinas dos casarões, sussurros todas as vezes que saía com o carro da garagem. Éramos estranhos no ninho, e eles farejaram tudo à longas distâncias: sangue fresco, carne humana.

Eu temo que minha vida dure indefinidamente, sonhando a todo momento com o momento em que podia ter ido embora do destino ao qual havia me condenado. 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 12/04/2018
Alterado em 17/04/2018
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