O absurdo
por Larissa Prado
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Quinquilharias 

Sempre que via ele chegar do trabalho eu me sentia murcha. Era como se o cansaço extremado de Alburqueque me atingisse no centro do olho. Eu caía logo de cama fingindo sono e ele, coitado, mal percebia que ainda tinha um esposa dormindo ao seu lado.

Ao chegar os fins de semana, ele entrava em outro emprego. Esse era noturno, pagavam bem e por mais que eu pedisse para ele ficar só no escritório do senhor Julio, Alburqueque me dizia que precisava manter meu padrão de vida. Eu gostava de gastar muito dinheiro. Quanto mais, melhor. Isso me preenchia, me dava significado de estar viva. Enquanto eu pudesse gastar eu estava bem. Era só apertar a situação que minhas tripas davam nó. Eu odeio não poder comprar.

Segunda-feira chegou a máquina de lavar que eu comprei, a outra estava novinha, mas precisava de uma mais moderna. Agora, tem mais de 5 máquinas lá fora e fico pensando em lavar roupas em todas ao mesmo tempo para gastar água e a conta vir mais cara. É um êxtase quando preciso ir pagar contas. Eu me sinto tremer ao ver a moça do caixa contar as notas que serão gastas.

Alburqueque diz que sou cheia de luxos, mas que me ama mesmo assim.

Semana passada ele chegou tão cansado que notei a forma que os ossos saltavam das bochechas descarnadas. Achei que ele estivesse morto e nem tinhs percebido. Fiz uma sopa pra ele, mas recusou e passou a não comer mais nada. Eu continuei gastando como podia. Coisas supérfluas. Inúteis. Coisas desnecessárias acumulando dentro da casa e tomando espaço. Deixando tudo na penumbra do dispensável. Nada do que mantenho em casa tem uso. É tudo quinquilharia, assim mesmo que Inês fala. Ela é minha vizinha, às vezes nos visita só para ver como as coisas estão e sempre fica com aquela cara de chocada quando se despede. Eu sei que ela pensa que eu sou louca, me chama de acumuladora. Se ela olhasse para si mesma iria notar quem é a louca da história. Inês abriga mais de 50 cachorros. É uma barulheira a casa dele e nunca reclamei. Cada um tem o direito inalienável de colecionar o que bem entender. Isso dá sentido para nossa existência.

Alburqueque aos poucos deixou de vir almoçar em casa. Ele ficava no trabalho mesmo. Estava com dois empregos e muitos bicos que pegava para fazer no tempo livre. Ele não tinha mais tempo livre e eu passei a ver ele menos até o dia que nos deixamos de ver para sempre.

Era domingo, eu estava sentada numa das muitas cadeiras que se aglomeravam na cozinha quando escutei a voz dele baixinha e longe. Estava parado na frente da porta de casa e me perguntava como eu estava passando, se precisava de alguma coisa. Eu gritei de volta que estava tudo ótimo, que meu jogo de sofá chegaria na terça-feira. Não ouvi mais o que Alburqueque dizia. Aos poucos não conseguia sequer sair de casa, nos tornamos dois estrangeiros em países vizinhos: ele de fora da casa aborratada e eu cá de dentro vivendo feito um coro embrenhado em frutas podres.

Os únicos ruídos que ainda me ligam ao mundo lá de fora são os latidos e uivos da cachorrada da Inês. Pela arruaça que fazem todas manhãs, ela já deve ter acumulado uns 100. Essa vida é mesmo uma graça, a gente precisa acumular algo para que ela faça algum sentido. Quando nos damos conta, estamos cercados de tantas coisinhas insignificantes, mas que nos enchem de uma baita felicidade! 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 29/03/2018
Alterado em 31/03/2018
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