O absurdo
por Larissa Prado
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Ruído lunar
 
 
Por trás do terreno onde se espalham as lápides de um cemitério observo a névoa que paira durante a noite. Prostrado na janela da sala de estar, com Cerbero dormindo aninhado ao próprio rabo no sofá, as estátuas de mármore são quase pontos luminosos no breu do mundo. Há algo no ar quando paro e olho através da janela, minha visão é tragada por aquela morada de ossadas e pessoas esquecidas pela vida.

Cerbero se move em um ronronar manhoso. Um gato preto com duas manchas brancas nos olhos, como se usasse máscara. Ele sabe das coisas, antes do sol se pôr o bichano se enfia entre as almofadas para refugiar-se no mundo dos sonhos, também prefere se esquecer da vida e gozar da magnitude infinda dos sonhadores. Eu, por outro lado, me entrego à contemplação fúnebre do que há do outro lado da rua.

Não prestava atenção ao cemitério até que um dia, voltando para casa depois de uma longa e exaustiva rotina de trabalho, eu escutei primeiro um som de gorgolejo, como se alguém engasgasse. Ele vinha de detrás das paredes do cemitério, e eu ignorei mesmo sentindo os calafrios dominarem meu corpo. Andei apressado para o outro lado da rua, entrei em casa e passei a observar as paredes do outro lado. Cerbero sequer acordou nessa noite, permaneceu refugiado, sabiamente, no seu universo onírico particular.
Desde esse fim de tarde, evitei passar pela calçada do cemitério, assim que dobrava a esquina eu corria para o meu lado da rua, seguro de que afastar-me do ruído me manteria longe do perigo ao qual não sabia que origem deveria ter.

Era apenas um som áspero como se algo, ou alguém, estivesse engasgando com o alimento, mas não podia descobrir a fonte. Era inquietante não poder saber o que era. Algumas vezes cogitei a presença de algum animal preso do outro lado do muro, mas nas manhãs de folga quando olhava pela janela, com a movimentação diurna da rua, entra e sai de pessoas do lugar, não podia ouvir nada além dos sons habituais da vida cotidiana. O ruído só acontecia durante noites de imensa lua cheia.

Contemplei, então, a janela da sala por todas noites seguintes de lua cheia. Ouvindo atento o ruído. E naquela noite em questão, há um ano e meio, eu vi dois olhos muito grandes e escuros cintilando do galho de uma árvore. Olhos ovalados em uma cabeça arredondada. Cerbero despertou assustado, seus olhos tão grandes e atentos quanto o da ave do cemitério. Era uma coruja branca, o formato da sua cabeça me lembrava um rosto pequenino e humanoide, de rara esperteza. Olhei para Cerbero que se empertigou e correu a se afundar nas almofadas do sofá, assustado.

- Calma, rapaz – eu tentei acalmá-lo, mas ele continuou ronronando nervoso.
Desviei a atenção do meu gato, voltei a olhar pela janela, a ave rara não estava mais lá. O galho da tortuosa árvore estava vazio e quando ele remexeu ao sabor do vento noturno, eu pude sentir a brisa entrar pela porta entreaberta da sala que rugiu trazendo para dentro o ruído mais alto do canto da coruja branca. Por um momento, olhei o reflexo no vidro da janela, por trás das minhas costas se aproximava um ser em pernas longas de homem e a cabeça girava à procura de algo, a própria cabeça da ave em um pescoço longilíneo que pertencia à composição humana.

Estanquei, sem conseguir me virar, o reflexo parecia vir de outro tipo de realidade. Cerbero gritou e arrepiou arqueado para fora das almofadas. O ruído da ave se tornou tão alto que me obrigou a cobrir os ouvidos com força. Sem tirar os olhos do reflexo no vidro vi quando ele tomou Cerbero nas mãos de longas garras e saiu voando pela fresta da porta levando embora as pernas longas e esguias em uma junção de coruja-homem.

Olhei para o céu, a enorme lua branca se mesclou à imagem da criatura alada que parecia voltar às suas origens. Para fora da estratosfera, direto para a lua.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 23/03/2018
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