O absurdo
por Larissa Prado
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Obscuro
 

 
Marvin
 
O calor que sinto é opressivo. Sufocante. Nenhuma corrente de ar circula pelo interior da casa que está mergulhada em sombras o dia inteiro. Não posso abrir as janelas, afastar as cortinas, o sol não entra mesmo assim me sinto queimar. O dia transcorre lento, nada se move, permaneço amuado no meio da cama, coberto por pesadas mantas quentes. A minha pele parece cera derretida. As partículas de sujeira são as únicas coisas com vida dentro dessa casa.

Quando a noite cai a atmosfera no quarto está tão pesada que a escuridão parece ter presença como um ser vivo à espreita. Escuto o meu próprio ruído constipado da respiração. Pouco a pouco parece que a energia volta a percorrer meu corpo, o sangue corre pelas veias, mas não sinto o pulsar do coração. Talvez tenha o perdido em algum lugar, e não falo no sentido poético onde coração e sensibilidade estão relacionados. Eu não sinto que possuo o órgão vital para a circulação da vida pelo corpo. É estranho, é grotesco

Na cabeceira ao lado da cama o porta retratos emoldura um casal sorridente, o homem na foto parece comigo, percebo a vaga familiaridade. Estendo a mão e tateio em busca de algo, a escuridão é tão grande que minha mão desaparece se fundindo ao breu. Procuro algo, não consigo me lembrar com certeza o que era. A imagem de uma arma dentro da gaveta no móvel de cabeceira se forma na minha memória como se fosse apenas a lembrança de algo que vi na TV.

A ilusão das sombras pelo quarto me faz acreditar por um momento não existo mais. Tudo é tão negro e disforme que ao levantar da cama parece que meus pés pisam no vácuo de um buraco negro. Um som metálico ecoa a cada passo que dou, é o típico som de chaves chacoalhando em algum bolso da minha calça jeans. Caminho pela casa, atravesso o corredor em direção ao último quarto de um longo corredor, os meus olhos começam a se acostumar no escuro. Enxergo melhor do que quando tento mantê-los abertos durante o dia.

Então, vem a velha dor de cabeça de novo. Não posso controlar a dor, alguém precisa pagar por ela. E há outra coisa pior do que a enxaqueca, é uma sede insaciável.
 
 
Nadine
 
O assobio que ecoa pelo corredor vai crescendo à medida que se aproxima da porta. Por mais que me encolha no canto do armário sei que o esforço é inútil. Mal consigo respirar. Não sei qual parte do meu corpo mais incomoda. Minha coluna está tão dolorida que é como se mãos imaginárias penetrassem pela espinha dorsal e apertassem com força cada anel que a compõe. Estou tão exausta que toda resistência diante Marvin se tornou inútil, mas continuou tentando sobreviver. Entendê-lo deixou de me importar. Aquela situação ultrapassou todos os limites assim como minha capacidade de raciocínio.

Escuto a voz dele murmurar: “não consigo controlar essa dor, minha cabeça está espichando, espichando, crescendo...”. O som da chave girando na fechadura é um dos momentos mais horríveis dos meus últimos dias. Marvin e eu estamos casados há menos de um ano, mas nos conhecemos há pelo menos sete anos. Eu sei que esse homem não é ele. Nem mesmo sua voz parece a mesma. Ele segue murmurando frases desconexas. Pela proximidade da sua voz sei que está dentro do quarto. Apenas as portas dos armários nos separam. Cubro boca e o nariz com as mãos para evitar que minha respiração fadigada chame sua atenção.

Marvin sussurra lamúrias, seu tom não passa de suspiros. Eu tremo da cabeça aos pés, pela fresta das portas do closet vejo ele caminhar pelo quarto procurando por mim. Houve um momento que deixei de ouvir o som dos seus passos, dos seus sussurros e até mesmo da sua respiração. Espero por longas horas até me convencer de que ele deixou o quarto.

Não consigo lembrar do som da chave girando para trancar a porta quando ele saiu do quarto, mesmo assim arrisco um movimento e abro uma das portas. Cautelosamente, olho para fora, tudo permanece no completo breu e imobilidade. Saio do closet devagar, vejo a porta do quarto entreaberta. Ele esqueceu de trancá-la e sequer a fechou. Estava distraído e perturbado. Corro na direção da porta, mas não consigo atravessá-la. Simplesmente permaneço parada sem conseguir me mover. Enquanto a minha mente grita em desespero para sair dali o meu corpo não obedece, ele está paralisado por completo ali a trinta centímetros da porta.

A voz que ecoa por trás das minhas costas é gelada e baixa. Nada tem a ver com Marvin.

“Onde você pensa que vai, Nadine?”

A voz diz, meus pés saem do chão de forma abrupta. Sou lançada contra a parede e a porta arrebenta em uma batida violenta.

 
Judith
 
 
De onde observo não posso dizer ao certo o que ele está fazendo. Fica parado enquanto algo passa por ele e se choca contra a parede. Não tenho vergonha em dizer que passo boa parte das minhas noites debruçada na janela do quarto com um binóculo bisbilhotando os novos vizinhos, um casal jovem e cheio de vida.  É o que resta como diversão para uma velha senhora de 93 anos que sofre a senilidade. A janela do meu quarto fica de frente para um dos quartos da casa deles, tenho certeza que é de hóspedes. Nos últimos dias, coisas muito estranhas começaram a acontecer na casa dos meus vizinhos.

Os ruídos duram cerca de uma hora. O que vejo é inacreditável, a coisa que está chocando-se contra a parede parece ser Nadine, a jovem esposa com quem converso quase todas manhãs quando ela sai para andar com seu cachorro enquanto tomo meu sol matinal na frente de casa. Ele continua parado no mesmo lugar, eu posso vislumbrar sua silhueta de costas para a janela. Vale ressaltar que não há cortinas nesse quarto, mas a escuridão me impede de ver os detalhes da cena que se desenrola.

Marvin, o marido de Nadine, sempre me pareceu um homem introspectivo. Quase nunca estava em casa, sempre trabalhando por muitas horas por dia. Nadine disse que ele dava aulas em três escolas. Era professor de Biologia ou algo do tipo. Era um homem simpático apesar de quase nunca o ver sorrindo. Tinha um ar de seriedade e dignidade. Naquele instante, porém, o homem que começou a se mover pelo quarto não parecia nenhum pouco com Marvin. De alguma maneira ele estava maior, mais forte. Sua pele era a coisa mais nítida na escuridão do quarto porque estava muito pálida o que me causou estranheza, Marvin tinha uma pele amarronzada. O último movimento que pude perceber com o grau do meu binóculo aumentado ao máximo foi Marvin se abaixando próximo da cama do quarto, o corpo de Nadine parecia estar caído lá.

Não sei quanto tempo passou enquanto permaneci imóvel, atenta com o binóculo ajustado nos olhos até que vejo a silhueta de Marvin se erguer do chão. Ele se move com rapidez, quase impossível de acompanhar seus passos antes de deixar o quarto. Procuro por Nadine, mas não consigo encontrá-la no cenário. Nas últimas cinco noites não podia ver com clareza o que acontecia, apenas acompanhei as visitas de Marvin ao quarto de hóspedes em que a mulher estava. Julguei que tivessem brigado e, por isso, ela se refugiara lá. Marvin entrava, Nadine sempre permanecia deitada, encolhida na cama, ele sentava e a beijava, ou pelo menos eu interpretava que fosse esse o seu movimento. Não enxergava com tanta clareza como acontecia nessa noite. Ele fechou porta antes de sair e Nadine aos poucos surge na cena, cambaleante. Que alívio!

Por um momento, quase acreditei que algo muito ruim tinha acontecido a ela. A forma como se chocava contra as paredes era impossível que ainda conseguisse se levantar. De maneira surpreende, Nadine investe contra porta, batendo com todo seu corpo, mas não consegue abrir. Eu consigo escutar os ruídos abafados do seu choro. Dá para sentir sua desolação daqui, mas antes que possa tentar compreender o que tudo aquilo significava, Marvin chama a minha atenção para a outra janela, a que fica no andar inferior do sobrado. A ampla janela da sala de TV. Direciono o binóculo para lá e ajusto o seu alcance, consigo ver ele de pé no centro da sala me fitando.

Seus olhos são de um amarelo incandescente, a pele translúcida é azulada enquanto os lábios estão tingidos de vermelho. Sua cabeça dá uma volta completa de 360º, até que seus olhos recaem de novo diretamente sobre mim. Ele parece uma estátua de mármore com um rosto que não parece certo. Marvin parece ter um fuço onde antes havia um rosto humano sério e digno. Ele está cada vez mais perto.

Atravessa sua janela da sala com facilidade sem precisar abri-la e caminha na direção da minha casa sem tirar os olhos frios e animalescos de mim. Mesmo estando no andar superior posso sentir os arrepios percorrerem meu corpo. E se ele de repente aparecer flutuando aqui, frente a frente? Afasto o binóculo do meu rosto e os passos para longe da janela e espero. Arrependida por ter tirado a noite para observá-los melhor.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 15/03/2018
Alterado em 19/03/2018
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