O absurdo
por Larissa Prado
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A face do ceifador
 
 
Baile de aniversário para o grande general Antunes. Todos da cidadezinha fizeram questão de comparecer, mesmo que não tivessem o nome na lista de convidados. O que garantiu pequenos desentendimentos na recepção do salão.

Antunes completava 72 anos, em plena forma bebericava seu uísque e recebia os convidados com o costumeiro humor esfuziante. Magnólia estava ao seu lado parecendo, como sempre, a filha mais nova. Todos sabiam o porquê daquele casamento. Antunes tinham posses e até mesmo um helicóptero para suas viagens.

A sua jovem esposa mantinha o olhar ansioso a percorrer o salão à procura de Fabiano, filho único do marido. Sem disfarçarem, filho e esposa, mantinham a relação ultrajante de forma explicita. “Aquela gente não respeitava nada” era o comentário corriqueiro entre os vizinhos e conhecidos da família.

No decorrer da comemoração, o general foi questionado por Magnólia.

- Bem, quem é aquele senhor de cartola ali? – indicou com um suave menear de cabeça.

Antunes riu-se e pigarreou despertando seu acesso de tosse carregada de muco. A fumaça densa do seu charuto subia e embotava seu golpe de vista do salão, mas ele parecia saber exatamente a quem ela se referia.

- Ah! Ele sempre está me perseguindo, onde vou... desde que era moço e ainda combatia. Não vá azucrinar o homem, querida.

- Por acaso, sou lá mulher de azucrinar alguém, benzinho? – resmungou projetando o lábio inferior numa carranca de fingida mágoa.

Fabiano que estava de pé ao lado da madrasta e amante observou o homem de cartola com atenção. A figura permanecia de costas entre as pessoas, próximo à mesa do buffet, sendo impossível ver seu rosto, apenas a silhueta da cartola e terno escuros. Uma vestimenta estranha, que se destacava entre todos presentes.

- Então, vocês são amigos de muito tempo, pai?-

Antunes não respondeu. Magnólia soltou seu drinque e o grito de Fabiano seguiu-se à cena.

O general estava azul, os olhos injetados de sangue e a bocarra entreaberta convidava o pouso de moscas que perambulavam pelo ar naquela noite quente úmida.

- O que aconteceu, Fabiano?! – ela berrava, atônita – O que deu nele?

Àquela altura o homem de cartola se aproximou sem que ninguém notasse. Ficou ali parado ao lado do corpo colapsado do general.

Os convidados se amontoavam em volta do anfitrião enquanto Fabiano, olhos marejados de lágrimas, gritava por uma ambulância ao segurar o pai nos braços.

- É tarde demais – a voz do homem de cartola se destacou em meio a algazarra em volta.

Fabiano levantou o rosto para a figura parada sob ele. A boca que proferiu tais palavras era descarnada deixando à mostra toda arcada dentária.

A mandíbula exposta sustentava o sorriso largo de um crânio-esqueleto. Tomado de súbito pânico diante tal imagem, Fabiano afastou-se, trôpego, do cadáver do pai gritando

- TIREM ESTE HOMEM DE PERTO DE MIM!

A única que pareceu entender a situação foi Magnólia. Ela caiu ajoelhada aos pés do homem de cartola e de mãos juntas implorava por sua vida enquanto a taça que continha o último drinque de Antunes descansava ao lado da dos pés da figura cadavérica, gotejando o líquido da morte.

Todos os outros presentes conservaram o silêncio embasbacado diante as reações esdrúxulas da esposa e do filho do general. Pois que a face do ceifador se mostra apenas aos culpados e condenados.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 13/03/2018
Alterado em 13/03/2018
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