O absurdo
por Larissa Prado
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Espelho d’água
 
 
Toda manhã o jovem F. encarava o espelho d’água que ficava em frente ao prédio da empresa na qual trabalhava. Por longos minutos ele observava a sua imagem na superfície do lago com um semblante impassível. Tal qual Narciso entregue aos delírios à beira de Estige.

As pessoas que transitavam por lá não prestavam atenção no jovem, distraídas em seus próprios caminhos. Na última sexta-feira, porém, uma mudança podia ser notada no rosto do jovem F. Seus olhos pareciam aguados, caídos e ausentes. As roupas dele se tornaram frouxas como se o corpo estivesse de alguma forma diminuindo. O terno caiu aos poucos sobre seus calçados lustrosos de boa qualidade.

Para quem observava de longe, F. se tornara uma miragem, algo indefinível, sob o sol forte do meio-dia. Se antes não prestavam atenção em sua presença, conforme encolhia dentro das próprias roupas as pessoas simplesmente o ignoravam como se não passasse de uma ilusão de ótica.

Sua abstração no que havia naquele espelho d´água era tamanha que por manhãs inteiras ele permanecia estático, apenas observando o que ali parecia ter descoberto, mas seu rosto não podia trair qualquer tipo de sentimento. Ao contrário, a cada minuto se tornava mais e mais inexpressivo.

Quando o senhor que cuidava do carrinho de cachorro-quente se aproximou de F. não encontrou mais nada além das calças, camiseta e paletó embolados sobre os sapatos lustrosos. Então, o senhor se debruçou sobre o espelho d’água do parque e permaneceu ali estático, seus olhos adquiriram uma opacidade sombria de um morto. Aqueles que passavam não prestavam atenção em sua contemplação mórbida, era como se ele não passasse de mera ilusão de ótica.
 
 
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 12/03/2018
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