O absurdo
por Larissa Prado
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Sem Remetente
 
 
Para cada coisa acontecida outras deixaram de acontecer. Ou, talvez, todas tenham acontecido ao mesmo tempo.

 
A primeira carta chegou no início do mês de novembro, era curta e dizia:

“Desde que sofri aquele acidente me vejo preso nessa cadeira de rodas. A moça que cuida de mim tenta me animar sobre as possibilidades do dia que voltarei a andar, mas sabemos que esse dia talvez nunca chegue. Você já sentiu medo de ser punido por algo que nem lembra se fez?”

Não tinha remetente apenas destinatário, era para mim. A pessoa sabia meus dois primeiros nomes, o que me fez descartar o engano. A letra era digitada sendo impossível levantar suposições sobre a caligrafia.

A princípio ignorei a primeira carta, mas por algum motivo a guardei e não mostrei para ninguém. Quando a segunda carta chegou comecei a me intrigar mas ainda conseguia ignorar. Ela dizia:

“Semana passada eu tive uma visão. Dessa vez foi tão real... Eu estava sentado diante a janela que dava para o jardim da casa de Miho e vi ele se levantar quebrando o solo e elevando o terreno em uma fossa que fez seus tentáculos subirem ao céu! Quando era criança costumava sonhar com essa criatura saindo debaixo da minha cama, seus tentáculos subiam e me prendiam. Eu não conseguia respirar, falar ou me mexer. Isso durava alguns minutos que pareciam horas.
Agora ele voltou, mas não surge em meus terrores noturnos de criança. Ele aparece em plena luz do dia quando estou desperto de olhos bem abertos. Você já sentiu medo de não saber mais o que é real?”


Fiquei com a segunda carta na mão por algum tempo, olhei para a gaveta na qual a primeira estava guardada. Sem dúvida era o mesmo remetente a questão era quem era?

Guardei a carta e esqueci dela até que na semana seguinte meu irmão entrou pela porta do meu quarto e jogou ao meu lado no sofá um envelope branco medindo 15cmx20cm contendo apenas meus dois primeiros nomes no destinatário. Não sei o que mais me inquietava se o anonimato de quem estava enviando as cartas ou o que estaria escrito nelas cada vez que abria os envelopes. O fato é que independente dos meus temores a certeza da continuidade das cartas era o que realmente me alarmava. Involuntariamente, passei a esperar elas toda semana, pois seguiam uma regularidade a cada cinco dias.

Interrompi o filme que assistia, era uma tarde de quinta-feira, cinco dias após a chegada da segunda carta. Naquele momento, elas deixaram de ser ignoráveis.

“Eu decoro as falas dos meus filmes favoritos. Quase consigo ouvir os próprios personagens falando quando reproduzo suas frases, poucos gostariam do que assisto. Por exemplo, não perderia meu tempo com filmes de heróis de quadrinhos. Eu sei, seu sei que você gosta, mas não deveria perder seu tempo. Nós dois sabemos que está prestes a perder o ano letivo, que não gosta do curso que escolheu, não gosta de quase nada que faz. Eu entendo, acredite. Você deve pensar que sou um lunático, algum desocupado, sim, eu consigo me enquadrar nessas definições que para outros seriam pejorativas, não vejo problema nelas. Já te contei que vivo numa cadeira de rodas? Por isso, não tenho o que fazer o dia inteiro além de observar e pensar sobre tudo o que vejo. Posso te assegurar que ao te ver não gosto do que observo e ao te observar não gosto do que consigo ver. Você já sentiu medo de estar se transformando naquilo que mais odeia?”

Era no mínimo inquietante receber algo assim. Desliguei a TV n qual estava congelada a cena de ação de um dos filmes de super-heróis que a carta citava. Por um tempo maior avaliei a carta e analisei cada palavra sem conseguir chegar em resposta alguma. Fui até o quarto do meu irmão e parei diante a porta. Ele estava sentado na escrivaninha mergulhado no trabalho, ele era técnico em informática, vivia cercado por computadores desmembrados.

- Julio...- eu ainda segurava a carta aberta – podemos conversar? –

Ele levantou os olhos para mim, percebi que tinha dado uma espiada na carta antes de focar a atenção no meu rosto.

- Entra. Você está encrencado? –

- Não. – aproximei da mesa de trabalho dele – É que tenho recebido essas cartas, essa é a terceira. – entreguei para ele e só naquele momento percebi que minha mão tremia de leve.

Julio pegou a carta e deu uma rápida lida.

- Ah, isso deve ser engano. Elas devem ser para outra pessoa que morava aqui antes... acontece direto. –

- Não. No destinatário sempre está meu nome e sobrenome. Elas são para mim, mas não sei quem pode ser. Não faço ideia. –

Meu irmão leu a carta de novo e me devolveu. Por alguns minutos permanecemos calados nos olhando, nenhum sabia o que dizer porque era algo incompreensível, foi Julio o primeiro a falar.

- Cara, deixa isso de lado, se continuar recebendo só descarte. Com certeza é algum engraçadinho tentando te pregar uma peça e pela sua cara ele tá conseguindo. Alguém da escola, algum desafeto. –

- Não tenho desafeto nenhum na escola, Julio. Não existe ninguém que eu conheça que possa fazer isso. –

- Isso é o que você pensa, Davi às vezes temos inimigos e nem sabemos. Só jogue fora se continuarem chegando. –

Julio sorriu e voltou ao trabalho. Desde que nossos pais morreram era ele quem tomava conta de mim, não que eu precisasse afinal já tinha dezoito, mas era bom ter meu irmão mais velho por perto, principalmente depois que ele tinha se acertado, largado as drogas e Francis, a garota que o tinha levado ao vício.

Voltei para meu quarto, incapaz de jogar fora as três cartas continuei guardando-as em minha gaveta. Nas semanas seguintes elas continuaram chegando. Algumas delas Julio pegava antes de mim e jogava fora, mas a maioria eu mesmo recolhia da caixa de correio porque esperar por elas tinha se tornado um hábito. A cada cinco dias eu corria para checar a caixa de correio.

Minha gaveta estava cheia de cartas, aquela talvez fosse a décima quarta ou décima sexta que eu recebi, foi a última. Corri para meu quarto, o coração acelerado me entregava à euforia contida ao rasgar o envelope. Sempre me perguntava o que estaria escrito daquela vez, em todas elas me sentia arrebatado de horror e êxtase.

“Ele entrou pela porta da frente da sua casa sem que você percebesse, tomou conta. É com um pesar no coração que preciso me despedir. De alguma forma acreditei que essas cartas iriam salvá-lo, fazê-lo perceber que a sensação de perigo é uma forma de alerta, mas ignoramos, continuaremos ignorando até que o pior aconteça. Ninguém acredita em monstros até que algum apareça em frente aos nossos olhos. Por que é tão difícil acreditarmos no mal? Acho que o otimismo acaba nos cegando. Você foi um garoto muito bom até agora, Davi, desde criança sempre procurou andar pelo caminho do bem, mas em determinado ponto da vida bem e mal costumam parecer a mesma coisa. A gente cai em contradição, é difícil. Você acabou se esquecendo dos seus sonhos tentaculosos, do ser que se elevava debaixo da sua cama te prendendo e asfixiando. Era um sinal, obscuro está certo, mas mesmo assim um sinal. Não tinha nada a ver com seus terrores noturnos, ansiedade, com a vida perturbado que levava em casa, era apenas um sinal que você ignorou.
Hoje vai acontecer algo do qual não poderá fugir, vai ter que encarar de frente e para seu azar e o meu também, as coisas vão acabar se repetindo culminando em uma cadeira de rodas e uma mente entorpecida ao vislumbrar monstruosidades pela janela de um asilo. Para cada coisa acontecida outras deixaram de acontecer. Ou, talvez, todas tenham acontecido ao mesmo tempo.
Você podia sair de casa ou ficar, mas eu sei que vai optar por ficar paralisado como sempre fez a vida inteira, mas enquanto opta por um caminho outros dois deixaram de ser seguidos, mas eles existem abertos a você em algum outro nível de existência. Você já se perguntou quantas versões de si mesmo coexistem em mundos de possibilidades distintas?”


Naquela tarde, escutei o carro de Julio entrar na garagem, aquela última carta me deixou tão perturbado que fui esperar ele na sala. Eu me lembro da forma que ele chegava em casa depois de consumir drogas, os olhos injetados, vidrados, as mãos fechavam e abriam nervosas. Não era ele mesmo, mas uma outra versão de Julio e eu a detestava. Foi assim que ele entrou pela porta, pior do que todas outras vezes, filetes de baba escorriam dos cantos da sua boca e ele tinha um olhar de possuído.

A única coisa que consegui fazer foi sussurrar seu nome, a carta estava no chão porque a surpresa de vê-lo daquele jeito me fez perder qualquer vontade em conversar ou recebe-lo. “Ele entrou pela porta da frente sem que você percebesse”, a frase veio à minha memória no momento que encarei os olhos possuídos do meu irmão que não mais pertenciam a ele. Aquilo era outra coisa, não Julio.

Houve um violento confronto, não era mais um garoto de sete ou oito anos do qual meu irmão implicava e dava alguns cascudos, éramos adultos, Julio bem mais forte que eu, mas não podia recuar. Eu precisava enfrenta-lo, pelo menos era o que as palavras de um desconhecido na carta diziam, e enfrentei com toda minha força, juro por Deus que usei toda minha força de vontade.

Exato um mês depois que Julio entrou pela porta de casa, despertei no leito de um hospital com o rosto de uma enfermeira trocando meu soro. Ela realizou seu trabalho e deixou o quarto sem me dizer nada do que um “Bom dia” mecânico.

Depois de cochilos cansados e longas horas entorpecido pelos remédios correndo pelo meu sangue, um médico entrou pela porta. Depois de checar uma prancheta ele jogou uma luz de uma pequena lanterna dentro dos meus olhos e depois de um suspiro forjando cansaço ou pena anunciou “Sinto muito, mas você perdeu os movimentos da pernas. Sofreu lesões muito graves na coluna.” Naquele momento, me lembrei de algo que mamãe sempre dizia “Corra e se esconda no seu quarto sempre que seu irmão chegar em casa, Davi, você deve entender que ele não é mais ele mesmo”.

Parte de mim ainda estava escondida em algum canto do meu antigo quarto, fugindo das agressões de Julio, fugindo de todo estardalhaço que ele causava ao entrar pela porta da frente de casa. Parte mim ainda podia correr, fugir, esconder e escrever cartas, mas era uma fração que nunca mais conseguiria reagrupar com o pouco que havia sobrado de mim mesmo sobre uma cadeira de rodas.
 
 
 
 
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 27/02/2018
Alterado em 27/02/2018
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